Venezuela, o Bolivarianismo e o Império – Por Marcelo Barros

Venezuela, o Bolivarianismo e o Império – Por Marcelo Barros

Irmão Marcelo Barros

Todos nós, ligados à unidade latino-americana, repudiamos a invasão da Venezuela pelo império, que estrebucha seus últimos rugidos, antes de perder, por completo, a hegemonia econômica e o poder imperial, no jogo de relações multilaterais entre as nações.

Já se divulgaram muitas análises do ocorrido e, o importante é termos muito cuidado em discernir o que é verdade e o que faz parte da guerra midiática movida pela grande imprensa contra qualquer governo e povo que contrariem os interesses do império. Seus agentes continuam a chamar Maduro de ditador, enquanto Trump invade outro país, prende o presidente e declara que vai governar (provisoriamente) a Venezuela.

Parece que Trump e a grande imprensa continuam acreditando que o inimigo a vencer é o presidente Maduro e que, eliminando-o, podem apoderar-se da Venezuela, do seu petróleo e de suas riquezas minerais.

Já estive na República Bolivariana da Venezuela umas dez vezes e tenho contato com amigos e amigas que vivem ali. Em janeiro de 2006, no Fórum Social Mundial, ocorrido em Caracas, os movimentos sociais se reuniram no ginásio esportivo Poliedro, onde juntaram 25 mil pessoas. Fui escolhido pela coordenação dos movimentos sociais para ser a pessoa que apresentasse o Presidente Hugo Chávez e introduzisse o seu discurso. Fiz isso como pude e, a partir desse dia, nos tornamos amigos. No mesmo ano, junto Dom Tomás Balduíno, Padre José Comblin, o Pastor Fred Morris e diversas outras pessoas do Brasil, atuei como observador internacional das eleições presidenciais. Assim como Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos, que chefiava a delegação estadunidense, assinamos o documento, atestando que estivemos em diversas zonas eleitorais, em todo o país, com toda liberdade de entrar e sair; acompanhamos o processo de contagem dos votos e não vimos nenhuma irregularidade nas eleições que elegeram Hugo Chávez.

Naquele contexto, Dom Tomás, Padre Comblin e eu fomos recebidos pelo presidente da Conferência dos Religiosos(as) da Venezuela (CRV). Na conversa, Dom Tomás perguntou qual era a posição da CRV sobre o governo bolivariano. O padre respondeu: “Estamos de acordo que nunca, nenhum outro governo cuidou tanto dos pobres, quanto esse. Estamos de acordo que o país avançou no que diz respeito à justiça social e à democracia de participação popular. Entretanto, nos posicionamos contra o governo bolivariano, por causa da sua proximidade com o governo cubano e porque há ameaça de nacionalizar a educação. Se isso acontecer, nossos colégios religiosos terão de fechar. Como nós, religiosos, viveremos sem nossos colégios que nos sustentam?

Dom Tomás e nós, pedimos licença e nos retiramos.

Naquela ocasião, visitamos bairros de periferia atendidos pela Operação Vivienda, estivemos em ambulatórios e clínicas da Misión Salud. Comemos junto com muita gente pobre nos comedores populares. Entramos em tiendas del Gobierno, que vendiam a três pesos o azeite de oliva, que no mercado da esquina custava 28.

No que diz respeito à Política Econômica internacional, o governo bolivariano construiu uma verdadeira teia de unidade latino-americana. A partir da liderança do Presidente Chávez, foi criada a UNASUL, (União de Nações Sul-Americanas), organização de integração regional, que reúne os 12 países da América do Sul, criada para promover a paz, democracia, desenvolvimento econômico, social e cultural, integrando blocos como o Mercosul e a Comunidade Andina, a ALBA, Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América — Tratado de Comércio dos Povos. 

Já nessa época, Marcelo Rezende, então diretor da FAO, organismo da ONU, cuja maioria de governos, se colocou do lado dos Estados Unidos, declarou que a Venezuela tinha saído do mapa da fome. Na época, a ONU reconheceu que a Venezuela era o país no qual a desigualdade social tinha diminuído mais nos últimos anos.

Assim sendo, considerei normal que a irmã que me hospedava no seu convento, quando soube que eu era favorável ao bolivarianismo, me dissesse que eu deveria procurar outro lugar para ficar. Era e é compreensível que pessoas que viviam do aluguel de casas para pobres fossem contra o governo. Os donos de postos de gasolina só podiam reclamar que, proporcionalmente, os combustíveis eram os mais baratos de todo o continente. Durante a sua vida, o Presidente Chávez enfrentou greves de postos de gasolina e a guerra vinda da maioria dos meios de comunicação. Nunca fez qualquer intervenção, nem proibiu. Apenas criou uma televisão do governo, a Telesur, que se espalhou por vários países do continente sulamericano.

Desde que, em março de 2013, Chávez morreu, o vice-presidente Maduro assumiu a chefia do governo. A partir daí, intensificou-se a guerra midiática contra o bolivarianismo e o bloqueio dos Estados Unidos.

Penso que nem Maduro nem ninguém teria conseguido resistir por doze anos e até melhorar alguns índices sociais, se não contasse com apoio firme e aprovação da maioria do povo.

O império estadunidense apoderou-se das reservas que o governo venezuelano tinha em bancos internacionais e tentou, de todas as formas, asfixiar o governo e o povo da Venezuela. Durante todos esses anos, a Venezuela sofreu campanha de descrédito internacional, operações encobertas de terrorismo, todo tipo de sanções econômicas e pilhagem, exclusão do sistema financeiro ocidental e agora, operações de cerco e Invasão Militar, assassinato de, ao menos 80 pessoas, entre civis e militares e sequestro do Presidente e da sua esposa, primeira combatente.

O bolivarianismo continua um sonho, só em parte realizável, nesse mundo que lhe é contrário. O próprio Bolívar, o libertador, que fez a proeza impressionante de, no início do século XIX, atravessar os Andes a pé, com um exército de gente pobre e libertar [R1] a Venezuela, a Colômbia, o Equador, o Peru e a Bolívia do domínio espanhol, não conseguiu realizar o seu sonho e libertar, verdadeiramente, esses povos. Eles passaram do domínio da Espanha para o da classe rica que, em cada país, manteve-se no poder para continuar a tratar o povo pobre como escravo, ou semiescravidão. Bolívar, que nasceu rico e em família nobre, faleceu aos 45 anos, pobre e tuberculoso. Jessé de Souza afirma que só pode se compreender o Brasil a partir da escravidão. Isso pode ser dito de toda a América Latina.

O governo dos Estados Unidos e os agentes da guerra midiática chamam o sistema político venezuelano de “chavismo”, como no Brasil, há quem fale do lulismo. Em todos esses anos, o que o governo dos Estados Unidos fez não foi contra o Presidente Maduro. Foi tentar de todos os modos destruir o projeto bolivariano de construção da independência do povo venezuelano. No entanto, estou convicto de que, na Venezuela, com Chávez ou sem Chávez, com Maduro ou sem Maduro, [R2] os círculos bolivarianos e muita gente de base continuarão a lutar por um processo de transformação social e político, caracterizado por dinâmicas que consistem em:

1º – libertar-se do imperialismo para construir um caminho próprio.

2º – superar as desigualdades sociais para conquistar justiça social e econômica.

3º – criar um tipo de novo socialismo, popular e democrático, inspirado no bem-viver indígena e que responda aos desafios do século XXI.

Nós, cristãos e cristãs, que nos consideramos discípulos/as de Jesus,  precisamos ver nesse sonho a sacramentalização ou mediação concreta do projeto divino no mundo. Nesses dias, a carta das religiosas inseridas da Venezuela, que denuncia a iniquidade do ato de invasão do Trump e se pronuncia pelo bolivarianismo, nos convida a ligarmos tudo isso com a espiritualidade libertadora.  

Em 2008, Dom Tomás Balduíno e eu fomos convidados pelo governo paraguaio para a posse do Presidente Fernando Lugo, que tínhamos conhecido como bispo ligado à Teologia da Libertação. Naquela ocasião, encontramo-nos novamente com o presidente Chávez e, na conversa conosco, ele afirmou: “A política só vale a pena se for um ato de amor social e revolucionário”. Esse tipo de política, nem Trump, nem ninguém conseguirá vencer. Como afirmava Pedro Casaldáliga, podemos nós também dizer: “Podemos perder batalhas, mas a nossa causa é invencível”.  


 [R1]com o objetivo de libertar

 [R2]retirei as vírgulas, veja se concorda

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