Planeta Terra vai ao médico. Por Padre Alfredo Gonçalves

Planeta Terra vai ao médico. Por Pe. Alfredo. J. Gonçalves, cs

Padre Alfredo Gonçalves

– Doutor, não estou bem. Sinto-me cansado, abatido, sem vontade de fazer nada. Tenho até medo de perder a rota de minha órbita. Não possuo mais o vigor dos últimos séculos.

– Deixa ver como andam a febre e a pressão!… Sim, vê-se logo, vários sintomas mostram irregularidade. A pressão oscila demais e a febre se mantém cronicamente alta. Os territórios, mares, oceanos e geleiras que formam a pele que cobre tua superfície sofrem de um aquecimento geral e progressivo.

– Febre, claro, isso eu sinto nos calafrios que me sacodem! Extremos de calor e frio se alternam por todo meu corpo. O ar que respiro parece raro e ralo, como se me custasse encontrar oxigênio. Vivo agitado.

– Entendo, é isso mesmo, uma agitação febril mexe com todos teus poros, percorre toda tua pele. Pequenos organismos, aos milhares e milhões, se deslocam em todas as direções sobre tua superfície inteira. Como se estivessem incertos e inquietos, inseguros e impacientes. O que andam buscando?

– São os terráqueos, doutor, seres vivos chamados humanos. Mudam-se às multidões de um lado para outro, cada vez mais agitados. Tem lugares em meu corpo onde a escassez é tanta e tamanha que assusta. Em outras regiões o que impera é a fartura de um certo dinheiro, ouro, riqueza – ou do capital, como eles dizem.

– E o que tem a ver isso com o vaivém sem fim de tantos seres vivos?

– Simples, doutor, os tais terráqueos seguem as oportunidades de melhorar a própria vida. Dizem que esse tal de capital costuma abrir portas. Por isso, eles correm da escassez para a fartura. Buscam as migalhas que esta última deixa cair por onde passa. Mas poucos encontram sucesso.

– Mas vejo que não é só isso! Também os demais seres vivos sobre tua superfície, da fauna e da flora, andam irrequietos. O ambiente em que nascem, crescem, vivem e se multiplicam se deteriora dia a dia, ano a ano, século a século. Não são poucas as espécies que se perderam, e outras que desapareceram para sempre. O comando absoluto dos terráqueos parece não levar em conta esse sumiço de tanta vida. Vou precisar de uns exames mais apurados, de água e ar, radiografia, tomografia!… Necessito de um diagnóstico completo.

– Era o que eu esperava. Quero saber o que se passa com meu organismo. Ele se encontra muito perrengue. Mesmo sem exames, doutor, dá para ver a olho nu que esses terráqueos são desunidos, divididos por cercas que chamam de fronteiras. Até para se comunicar usam línguas diferentes. Um punhado deles vai juntando dinheiro e riqueza, enquanto a maioria só junta carência e doença, pobreza e fome. Eles não são capazes de se entender para a distribuição dos bens da natureza, e menos ainda para a distribuição daquilo que fabricam com suas próprias mãos. O que mais me sacode o corpo são suas brigas: tensões, atritos, conflitos, guerras, violência!… A ganância de uns coexiste com a miséria de outros. Luxo e lixo lado a lado.

– Tens razão, os exames convergem sobre essas desavenças. As assimetrias são muitas e múltiplas. A busca pelo aumento desse tal de capital explora e devasta o equilíbrio do ambiente. Ademais, nessa corrida frenética, concentram em poucas mãos e poucas regiões a renda e a riqueza de séculos de trabalho. Vê-se que a enfermidade é grave, sem dúvida, mas o remédio está à mão, basta abrir os olhos.

– O remédio está à mão! E então, doutor, o que devo fazer?

– Em primeiro lugar, tem que parar de agredir a natureza somente para satisfazer a cobiça desse punhado de milionários ou bilionários. Tem jeito de conviver com outros seres vivos e com o ritmo da biodiversidade. Basta de emitir gases de efeito estufa que só agravam a febre. Urge mudar o modo de utilizar sabiamente os bens que se encontram à disposição da vida em todas as suas formas. O “viver bem” ostensivo da minoria deve dar lugar ao “bem viver” sóbrio e sábio de todos. Depois, vem a convalescença: um tempo de atenção e cuidado extremo com essa “casa comum” que é o planeta Terra. É preciso recompor o equilíbrio, diminuir a velocidade do binômio produção e consumo. Por fim, vem a tarefa que talvez seja a mais difícil: redistribuir de maneira equânime seja o que fornece a natureza, seja o que produzem o conjunto dos terráqueos. Então, sim, estes poderão continuar a se deslocar. As viagens fazem parte da cultura da humanidade. Mas não mais de forma forçada pela pobreza e pela necessidade, e sim por vontade própria.

Pe. Alfredo. J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – São Paulo, 07/06/2023

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