Dom Ionilton e a Eucaristia

Na Missa da Ceia do Senhor, Dom Ionilton, bispo da Prelazia do Marajó, foi covardemente atacado, sob a acusação de desrespeitar a sacralidade da Eucaristia. O texto que circula nas redes digitais é editado, retirado de seu contexto, com a única finalidade de desmoralizar esse insigne pastor que trabalha pela causa do Evangelho, defendendo os pobres.
Estamos vivendo, na Igreja, um tempo de muita espetacularização das coisas sagradas. É grande a perversidade desses mensageiros do caos ao querer atribuir a um pastor da Igreja a negação do valor que a Eucaristia tem nas comunidades. Com certeza, ao denunciante não interessa o trabalho que Dom Ionilton realiza em defesa dos mais injustiçados da sociedade.
Pela sua seriedade e compromisso com a causa de Jesus, Dom Ionilton procurou defender a sacralidade da Eucaristia diante de tanta manipulação e desrespeito ao sacramento que ocupa o primeiro lugar na hierarquia de valores da comunidade cristã. O bispo é o primeiro responsável por manter a dignidade desse sacramento na vida das comunidades. É sempre bom lembrar a advertência de São João Crisóstomo: se adoramos Cristo na Eucaristia, temos que reconhecê-lo na face desfigurada do pobre.
Dom Ionilton faz questão de acentuar as palavras de Jesus na Última Ceia: “Tomai e comei.” Esse imperativo está mais do que claro, e o bispo simplesmente o reafirmou na celebração da Santa Ceia. O que ele disse está dentro da tradição jesuânica. Jesus não pediu para ninguém ficar passando a mão no ostensório, como se esse gesto fosse eucarístico.
A maldade dos mensageiros do caos está em deturpar a fala do bispo para, assim, obter destaque nas redes sociais. A Eucaristia está no centro da vida litúrgica; por isso, Dom Ionilton, como pastor do povo de Deus no Marajó, deve preservar seu conteúdo fundamental.
Jesus afirmou que é o pão da vida. O pão é um dado cultural; logo, é produto da terra e do trabalho humano. No pão consagrado, em todas as celebrações, há terra, trabalho, injustiça, esperança e luta. Esse é o pão que pedimos ao Senhor que transforme no pão da vida. Esse pão é o símbolo que reúne as pessoas em torno de uma mesa.
Por isso, como tão bem enfatizou Dom Ionilton, para comungar desse pão não se pode — nem se deve — dizer: “quem está preparado, aproxime-se da mesa da comunhão.” Qual ser humano, seja ele clérigo ou leigo, está preparado? O pão é elo de união, de convivência e de afetividade. Se não nos reunirmos, não conviveremos.
Na Última Ceia, Jesus reuniu-se com os apóstolos, mas não perguntou qual deles estava preparado. Todos participaram, mesmo que, depois, um o traísse e outro o negasse. Na comunidade do Reino, o banquete oferecido é para todos, seja qual for sua origem ou situação pessoal.
A Eucaristia, sendo símbolo da comunhão de Deus com a humanidade, implica uma luta em favor da justiça. A comunhão requer uma relação especial com os empobrecidos e marginalizados. A mesma boca que disse: “Isto é o meu corpo” disse também: “Todas as vezes que fizestes isto a um dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes.”
A Eucaristia é dramaticamente ferida quando muitos passam fome e outros desperdiçam comida. A preocupação com a justiça é parte integrante da Eucaristia. Dom Ionilton, em sua vida pastoral, procura viver isso com espírito evangélico.
Muitos grupos da extrema direita católica reduzem a Eucaristia a um simples culto de adoração da presença misteriosa de Cristo sob as espécies de pão e vinho. Essa compreensão nega aspectos importantes da Eucaristia e, ao mesmo tempo, revela o estilo de vida cristã que se pratica.
A Eucaristia não pode ser reduzida a um culto deslocado da vida, nem pode ser entendida como pão dos anjos. Ela é pão da terra, com todas as implicações concretas da história. É esse pão — que contém suor, lágrimas e luta — que pedimos ao Senhor que transforme no pão da vida.
Hoje, devido a uma religiosidade difusa e confusa de muitos grupos católicos, o acento da celebração eucarística já não é mais colocado na entrega de Jesus por fidelidade ao Reino de Deus, mas no culto e na adoração da presença do Senhor. Celebrar a Eucaristia num mundo de injustiças e violação de direitos é um grande desafio para a comunidade cristã. Não se pode separar culto eucarístico e justiça social.
O que os profetas de ontem falaram serve de fonte inspiradora para os profetas de hoje, como é o caso de Dom Ionilton: “Odeio, desprezo vossas festas e não gosto de vossas reuniões; porque, se me ofereceis holocaustos, não me agradam vossas oferendas, e não olho para o sacrifício de vossos animais cevados; afasta de mim o ruído de teus cantos, não quero ouvir o som de tuas arpas” (Am 5,21-24). “Antes, corra o direito como a água, e a justiça como um rio caudaloso” (Am 5,24).
Jesus rejeita os piedosos fariseus não por causa de suas práticas — que são boas —, mas porque, a pretexto de longas orações, “devoram os bens das viúvas” (Mt 23,14). São exploradores que vestem a capa da devoção e da religião.
Dom Ionilton nunca foi contra a adoração eucarística, como dizem seus detratores. Ele é contra a profanação e a espetacularização da Eucaristia. O culto eucarístico é válido, mas é preciso equilíbrio para não cair em devaneios condenáveis.
A devoção eucarística tem seu espaço na Igreja, mas é necessário lembrar que a participação na celebração eucarística é central; a devoção é secundária em relação ao essencial. Como no passado, o culto eucarístico pode substituir a comunhão na celebração.
A adoração tem como finalidade fortalecer o seguimento de Cristo. “Vem e segue-me” é o que Jesus pede. Na Idade Média, a dimensão da ceia pascal — do comer e beber juntos — cedeu lugar à adoração. Para muitos, bastava ver a hóstia consagrada para adorá-la. Nessa época, a grande maioria das pessoas não comungava. Assim, o termo “comunhão espiritual” surgiu dessa compreensão reducionista do mistério eucarístico.
O grande problema que percebemos é que existe profundo amor e respeito ao corpo de Cristo presente na Eucaristia, mas não conseguimos vê-lo nos corpos ultrajados dos irmãos e irmãs. É preciso descobrir a presença de Jesus em todos os corpos desfigurados, famintos, violentados e desprezados. A adoração deve despertar o desejo de comungar o corpo de Cristo na celebração eucarística.
Dom Ionilton, como verdadeiro profeta, não quer invalidar o culto eucarístico, mas devolver-lhe a verdade. Quando o culto serve de pretexto para encobrir mecanismos que produzem sofrimento e morte precoce, transforma-se em idolatria e ofensa a Deus, que ama a justiça e abomina a iniquidade.
É uma blasfêmia dissociar o culto a Deus da prática ética. A missão de Dom Ionilton é eucaristizar a Prelazia do Marajó, e não paganizar a Eucaristia.
A Dom Ionilton, pastor do povo marajoara, nossa radical e incondicional solidariedade.
Pe. Waldemir Santana
Arquidiocese da Paraíba