PRECISAMOS CRIAR PONTES – Por Leonardo Boff

Por razões políticas e ideológicas e com o enfrentamento entre os que pretendiam desestabilizar a democracia vigente e os que se opunham surgiram muitas desavenças. Famílias se dividiram, amigos foram perdidos. Destruíram-se pontes que mantinham as comunicações. Urge refazer as pontes. Este conto pode nos ajudar.
Dois irmãos viviam harmoniosamente em duas fazendas vizinhas. Tinham boa produção de grãos, algumas cabeças de gado e suínos bem tratados.
Certo dia, eles tiveram uma pequena discussão. Uma vaquinha do irmão mais novo escapou e comeu um pedaço do milho do outro irmão mais velho. Discutiram alto e com certa irritação. A coisa parecia que tinha morrido ai mesmo. Mas não foi bem assim. De repente, não se falavam mais. Evitam de se encontrar no bar ou pelo caminho. Faziam-se de desconhecidos.
Mas eis que num belo dia, um carpinteiro apareceu na fazenda do irmão mais velho pedindo trabalho. O fazendeiro o olhou de cima abaixo e, meio com pena, lhe disse: “está vendo aquele riacho ali em baixo? É a divisa entre a minha fazenda e a de meu irmão. Pegue toda aquela madeira que está no paiol, e construa uma cerca bem alta, para que eu não seja obrigado a ver o meu irmão, nem a fazenda dele. Assim ficarei em paz”.
O carpinteiro aceitou o serviço, pegou as ferramentas, e foi trabalhar. Nesse entretempo, o irmão que lhe dera o trabalho, foi à cidade para resolver alguns negócios. Quando voltou à fazenda, já no final do dia, ficou estarrecido com o que viu. O carpinteiro não havia feito cerca nenhuma, mas uma ponte que atravessava o riacho e ligava as duas fazendas.
Eis senão quando, no meio da ponte, vinha o seu irmão mais novo dizendo: “Mano, depois de tudo que aconteceu entre nós, eu mal posso acreditar que você fez essa ponte só para se encontrar comigo. Você tem razão, está na hora de acabar com a nossa desavença. Me dê aqui um abraço, mano. “E se abraçaram efusivamente e se reconciliaram. Irmão reencontrou o outro irmão.
E aí viram que o carpinteiro estava indo embora. Eles gritaram dizendo: “Ei, carpinteiro, não vá embora, fique uns dias com a gente… Você nos trouxe tanta alegria”. Mas ele respondeu:
“Não posso, há outras pontes a construir pelo mundo afora. Há muitos que precisam ainda se reconciliar”. E foi caminhando, serenamente, até desaparecer na curva da estrada.
Talvez este seja um dos imperativos éticos e humanitários mais urgentes no atual momento histórico: construir pontes para que as pessoas separadas possam passar por elas e se encontrar num lado ou no outro e refazer os laços de amizade e de convivência pacífica.