OUTRA NOTA DE REPÚDIO À CENSURA DOS PATROCINADORES E DA COMISSÃO ORGANIZADORA DA XXII SEMANA DE ESTUDOS DA ESCOLA DE MINAS – UFOP. NOTA DA FLAMA

Ganhou repercussão nacional um fato em torno da 3ª Mesa Redonda: “Diversidade, Inclusão e Dignidade Humana: Avanços e Desafios para a Igualdade”, da XXII Semana de Estudos da Escola de Minas – UFOP, cujo tema é: “Construindo Pontes para Inclusão, Diversidade, desenvolvimento Sustentável e Inovação na Era da Tecnologia”, que inicia no dia de hoje, 03 de fevereiro, e se estenderá até o dia 07 de fevereiro de 2025.
O fato que gerou indignação aos atingidos pelos rompimentos criminosos de barragens de rejeitos da mineração, movimentos sociais que atuam diretamente junto às comunidades atingidas, egressos, docentes e discentes da UFOP e de outras universidade públicas brasileiras em função de um pedido dos Patrocinadores do Evento para “evitar de trazer e comentar assuntos pertinentes sobre os “acidentes dos rompimentos das barragens de mineradoras”, questões judiciais, aspectos sociais, sobre as vítimas, questões sobre o meio ambiente, e demais assuntos voltados a esse tema” (grifos deles).

Sabemos que a origem da UFOP enquanto universidade pública brasileira, criada no dia 21 de agosto de 1969, está profundamente imbricada com a mineração, uma vez que decorre da “junção das centenárias e tradicionais Escola de Farmácia e Escola de Minas”. (Disponível em: História da UFOP | Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP). Em seu cotidiano de atuação a comunidade acadêmica da UFOP enxerga e vivencia dilemas da cada vez mais intensa e escancarada articulação, quiçá, submissão da UFOP para com as Mineradoras. Podemos citar como exemplo, o fato de que a UFOP possui em seu Campi principal (Morro do Cruzeiro), na cidade de Ouro Preto-MG, o Instituto Tecnológico (ITV) da mineradora Vale S.A. localizado em área nobre, próximo ao portão principal de entrada a este espaço de ensino público. Também, por meio da Fundação Gorceix, inúmeros projetos de pesquisa e de produção de conhecimentos são financiados pelas mineradoras, criando dessa forma “um orçamento paralelo” na UFOP que financia projetos que, obviamente, se subordinam aos interesses dessas fontes orçamentárias, as mineradoras, em detrimento dos interesses das comunidades atingidas.
Isso faz com que a UFOP vivencie cotidianamente a expressão da luta de classes em seu meio, seja na relação dos docentes com seus pares, na relação dos discentes de determinadas áreas e cursos para com os demais, na relação entre aqueles que recebem vultuosas quantias financeiras em formato de bolsas para produzir conhecimentos que contribuem para a manutenção do antagonismo classista que estrutura nossa sociedade e entre aqueles que executam seus projetos “puxando dinheiro do próprio bolso” e lidando com o fato de seus bolsistas receberem pífios valores de bolsa, a exemplo das bolsas de extensão.
Essas tensões se explicitaram na recomendação dada aos convidados para esta 3ª Mesa Redonda do Evento, colocando-os em lugar no mínimo desconfortável, pois como se pode debater sobre questão étnico-racial sem considerar o racismo ambiental, o fato de que o rompimento/crime da barragem de Fundão atingiu e modificou os modos de vida de uma população em sua maioria negra, de territórios quilombolas, de povos e comunidades indígenas? Como se pode falar de inclusão da comunidade LGBTQI+ se a prática operacional-laboral das mineradoras, apesar das rasas tentativas de inclusão é de reafirmação de situações discriminatórias? Como pode se falar sobre as pessoas com deficiência, sabendo que em caso de rompimentos/crimes de barragens de rejeitos, as pessoas com alguma deficiência serão as mais afetadas, haja vista, que para se salvar a estimativa é sempre de alguns poucos minutos ou segundos! Como se pode falar em dignidade humana, se as atividades minerárias são promovidas por uma intensa exploração dos trabalhadores e trabalhadoras e expressiva destruição ambiental? Importa relembrar que o rompimento/crime da barragem B1, em Brumadinho-MG, assassinou trabalhadores que estavam em expediente laboral – almoçando no próprio refeitório da mineradora, e no caso do rompimento/crime da barragem de Fundão, em Mariana-MG, a sirene não tocou, melhor dizendo: sequer havia sirene para avisar a comunidade de Bento Rodrigues localizada logo abaixo da barragem.
Dessa forma, conclamamos aos representantes dos projetos convidados para 3ª Mesa Redonda do Evento, que em suas falas não sucumbam ao cerceamento das ideias e reflexões críticas, ao impedimento da liberdade de cátedra, e que como forma de demonstrarem que estão do lado certo da história, problematizem acerca das questões acima apontadas, pois suas importantes pautas e projetos, vinculados e oriundos da universidade pública, carecem deste tipo de atuação neste território e região que é cotidianamente destruída e dominada pelas mineradoras.
Como forma de retratação desta determinação esdrúxula, conservadora e violenta pelos patrocinadores do evento, consideramos que apenas tímidas notas de esclarecimento da Comissão de Inclusão, Diversidade e Integração ou da própria Reitoria da UFOP não bastam. Exigimos que a Comissão Organizadora da XXII Semana de Estudos da Escola de Minas – UFOP faça um convite formal aos atingidos pelos rompimentos/criminosos de barragens de rejeitos da mineração, aos movimentos sociais que atuam na causa, às Assessorias Técnicas Independentes (ATIs) para que
componham a programação do evento, para que possam se fazer presentes e ter voz e vez num debate que é sobre eles, mas sem eles.
Por fim, esperamos que este fato não mais se repita e que a comunidade acadêmica da UFOP se reconheça contrária a este tipo de cerceamento de suas atividades docentes, de pesquisa, de extensão, de estudo e de organização estudantil. Que possam se reconhecer e fortalecer a luta pela Universidade Popular, perspectiva esta, alinhada com os movimentos sociais que atuam na região contra as seculares violências que a mineração extrativista causa sobre todos, inclusive sobre a UFOP.
Assinam esta nota as entidades que compõem a FLAMA.
Veja no anexo, abaixo, a ÍNTEGRA DA NOTA COM AS DEZENAS DE ENTIDADES QUE A ASSINAM.