Para regressarmos ao bem-viver do Amor (Lc 15,1-3.11–32) – Por Marcelo Barros

Para regressarmos ao bem-viver do Amor (Lc 15,1-3.11–32) – Por Marcelo Barros

Padre e monge Marcelo Barros. Reprodução Redes Virtuais

Neste 4º domingo da Quaresma (ano C), a parábola de Jesus sobre o Pai que nos ama com amor maternal (Lc 15, 1 – 3 e 11 – 32) nos convida ao caminho da solidariedade amorosa. Conforme este evangelho, tudo começa por uma acusação que os religiosos do templo (escribas e fariseus) fazem a Jesus. Ele é acusado de viver no meio de gente pecadora e de vida errada, com a qual, conforme os critérios religiosos, não se deveria conviver. Pior ainda: Jesus cultiva relação próxima e come com essas pessoas consideradas de má vida.

Nas culturas antigas, as refeições eram os momentos sociais mais importantes, através dos quais ficava claro quem era quem e de que lado as pessoas estavam. Comer juntos significava identificação profunda entre as pessoas que partilhavam a mesma mesa. Nesse contexto, comer publicamente com pecadores e publicamos era verdadeiro escândalo. Jesus fazia isso. Para os religiosos fundamentalistas e moralistas, essa conduta de Jesus era chocante e inaceitável. Significava trair os valores da tradição religiosa. Jesus justifica o seu comportamento, afirmando: o amor de Deus é assim! Eu faço isso porque é assim que Deus se coloca: junto com os pequenos e marginalizados.

Para explicar isso aos religiosos, escandalizados com o seu comportamento considerado imoral, Jesus conta três parábolas:

1º – a do pastor que deixa as 99 ovelhas no abrigo e sai em busca de uma única ovelha perdida (Lc 15, 4- 7);

2º – a da mulher que procura a moeda perdida até encontrá-la (Lc 15, 8- 10);

3º – Finalmente a do pai misericordioso que age como mãe carinhosa (Lc 15, 11- 32).

Nessa terceira parábola, Jesus explica o seu comportamento dizendo que age assim, porque Deus é assim e sempre atua desse modo. Jesus revela que Deus é como uma mulher pobre que sempre acolhe o filho ou filha e o/a protege, incondicionalmente, seja em que situação for.

Em seu livro: “A volta do filho pródigo”, o espiritual holandês Henri Nouwen conta que, no Marrocos, na Índia e na Turquia, alguém fez uma pesquisa, na qual perguntava se, naquelas culturas, seria admissível alguém fazer um pedido daqueles ao pai: “quero a parte da herança que me cabe”. Todas as pessoas respondiam que isso seria impossível.

As pessoas explicavam: Pedir a herança é como pedir a morte do pai. O filho está praticamente dizendo: Pai, eu não posso esperar que você morra para gozar da parte da herança que me cabe. Já que você não morre, ao menos morra para mim. Embora você não tenha morrido, passe logo a herança que só seria minha depois da sua morte.

O evangelho diz que o pai reparte tudo que tinha entre os dois filhos. Fica legalmente sem nada, como se já estivesse morto. Não tem mais nenhum papel social. Continua vivo, mas como se estivesse morto e, nesse caso, morto pelo próprio filho[1]. A teologia fala do esvaziamento de Jesus (kenosis, em grego) na encarnação e na cruz. Mas, essa parábola fala de que o próprio Pai aceita se esvaziar – não ter mais nada. O que lhe importa mesmo é que os seus filhos e filhas vivam e transformem o mundo em lugar de amor.

Conforme a parábola, o filho não é feliz na sua aventura. Acaba obrigado a voltar à casa do pai. Ele não volta porque se arrependeu do que fez, ou porque está com saudade do pai, ou ainda porque pense que o pai pode precisar dele. Ele continua egoísta e autocentrado. Não se converte. Decide voltar porque está com fome e sabe que na casa do pai terá cama e comida. Para o pai, pouco importa se o filho voltou por interesse próprio, ou por necessidade. O importante é que voltou. Jesus não justifica que se une às pessoas de má vida ou pecadoras, porque essas estão arrependidas, ou porque vão mudar de vida. Junta-se a elas, porque o Pai as ama e corre ao encontro delas, assim que as vê se aproximarem dele, mesmo que a motivação seja meramente interesseira. A única coisa que importa aí é o amor do Pai.

Ao voltar à casa, o filho pródigo tem consciência de que não tem mais nenhum direito,  porque, ao pedir a parte da herança, tinha realmente perdido direito a mais herança. “Não mereço ser chamado de filho. Trata-me como a dos teus empregados” (Lc 15,19). Isso é o que ele pedia e esperava. Mas, o pai nem o deixa falar. Restitui a ele a condição de filho. Gratuitamente.

Para acolher em casa o filho que havia partido e se tinha perdido, o Pai assume o conflito com o filho mais velho que aparenta ser bom, honesto e sempre ficou do lado do pai. Do mesmo modo, para se solidarizar com as pessoas desviadas e tidas como pecadoras, Jesus precisou se afastar dos círculos religiosos, romper com os conventos das pessoas que vivem falando de Deus 24 horas por dia. Jesus diz que os religiosos se comportam como o filho mais velho. Mantêm com Deus uma relação institucional e baseada na lei. Pensam agradar a Deus, o servindo no culto, na casa. Ocorre que Deus não quer ser servido em si mesmo e sim na vida e no bem das pessoas, especialmente das que se desviaram do caminho. Temos de nos colocar nesse cuidado com os outros/as para participar da festa de Deus no seu reino que começa aqui e agora. 

O projeto divino é esse: ser atraído pela misericórdia maternal de Deus e, por pura graça, voltar a outro tipo de relação – sem contabilidade do perde e ganha – sem se basear em direitos e sim na festa pascal do amor.

A conversão consiste em passar de uma relação com Deus, antes baseada no direito de herança do filho para uma volta ao convívio com um Deus esvaziado e anulado que se preocupa apenas que os seus filhos e filhas vivam dignamente. De fato, muitas vezes, as religiões e Igrejas ainda insistem demais na culpabilidade e na consciência do pecado das pessoas. A parábola de Jesus insiste muitíssimo mais na festa e na alegria divina: “É preciso nos alegrar porque ele estava morto e reviveu. Estava perdido e foi reencontrado” (Lc 15,24).

A Campanha da Fraternidade de 2025 nos mostra que na realidade do mundo atual mais uma vez somos nós, filhos e filhos da Mãe-Terra, que nos apoderamos da herança sem nos dar conta de que assim a matamos não apenas para nós e sim para todos os seres vivos. Do mesmo modo como o Pai dessa parábola que meditamos hoje, a Mãe-Terra nos acolhe de novo e nos recoloca na condição de filhos e filhas da grande família da Vida. Voltemos a esse convívio amoroso a partir da justiça socioambiental com a humanidade vítima do Capitalismo, com a Mãe-Terra, com toda a natureza e com o Pai de amor maternal que se apresenta a nós na comunhão do universo. É Páscoa. É tempo de conversão ecossocial.

Na MPB encontramos essa composição do Chico César que tem relação com o evangelho que meditamos hoje:

Deus me proteja de mim
E da maldade de gente boa
Da bondade da pessoa ruim
Deus me governe e guarde, ilumine e zele assim

Caminho se conhece andando
Então vez em quando é bom se perder
Perdido fica perguntando
Vai só procurando
E acha sem saber

Perigo é se encontrar perdido
Deixar sem ter sido
Não olhar, não ver
Bom mesmo é ter sexto sentido
Sair distraído, espalhar bem-querer

Deus me proteja de mim
E da maldade de gente boa
Da bondade da pessoa ruim
Deus me governe e guarde, ilumine e zele assim


[1] – KENETH BAILEY, Poet and peasant and through peassant eyes, (1983), citado por HENRI NOUWEN, A Volta do Filho Pródigo, São Paulo, Paulinas, 13ª ed. 2004, p. 40.

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