O capítulo 15 de Lucas trata de perdidos e achados (Lc 15,1-32) – Por Nancy Cardoso

Nada mais humano que isso: perder tempo, perder, dinheiro, perder a saúde, perder uma amizade, perder um grande amor, perder a paciência, perder um debate, perder uma oportunidade, perder a terra, perder direitos, perder dignidade.
As três parábolas dos perdidos & achados tratam deste conflito que pode ser no âmbito do trabalho (a ovelha perdida), no âmbito da casa (a moeda perdida) e no âmbito familiar (o filho perdido).
Mas o texto de Lucas revela outro conflito: o conflito de fronteira. Quem faz parte e quem não faz. O perdido merece ser encontrado? (o que acontece com intensidade nas histórias da ovelha e da moeda).
Em geral, o texto está localizado dentro do bloco que vai de Lucas 9,51 a 19,28 e é dito que este bloco trata das características do seguimento de Jesus, compartilhadas durante a viagem final de Jesus a Jerusalém.
Considerando que o Evangelho de Lucas foi escrito em Antioquia (hoje seria na fronteira entre Turquia e Síria) no final do 1º século (entre 80 e 100 d.C) apresentava um ambiente de muitas culturas, muitas raças, muitos estratos sociais, homens e mulheres e… de muitos cristianismos (judeo-cristão, greco-romano-cristão e outras pluralidades das culturas da Ásia Menor tomadas pelo Império romano).
Carlos Mesters e Mercedes Lopes no livro “O Avesso é o Lado Certo” – Círculos Bíblicos sobre o Evangelho de Lucas, CEBI, 1998) apontam que havia um conflito na comunidade de Antioquia entre o cristianismo de Jerusalém e o cristianismo greco-romano. Estas culturas e comunidades foram sendo impactadas pela Boa Nova de Jesus e fazendo parte dessa origem plural do(s) cristianismo(s) fora do controle imediato de Jerusalém. O grande desafio era visualizar as múltiplas fronteiras e não deixar ninguém de fora. Um cristianismo para além das barreiras, que ama as fronteiras e aprende a viver com elas e superá-las.
O capítulo 15 começa informando das desconfianças e julgamento dos “fariseus” (entendidos como quem defendia a prioridade dos judeus, sua cultura e rituais) contra os outros considerados pecadores/perdidos.
Neste contexto Jesus conta as três parábolas (que não devem ser entendidas como criação original de Jesus, mas histórias disponíveis na tradição popular que váo ser potencializadas pela comunidade de Lucas. Só o Evangelho de Lucas conhece estas 3 parábolas). Parábolas não têm significado fechado e único. “As parábolas geram conversas que dão capacidade aos ouvintes de interpretar sua realidade opressiva.” (Herzog, Parables as Subversive Speech: Jesus as Pedagogue of the Oppressed, 1994 – disponível em inglês np googlebooks)
O que está perdido/fora (ovelha) deve ser apaixonadamente buscado; quem já está não é a medida (as 99 ovelhas no aprisco) nem a prioridade. (ver o texto A inclusão da ovelha perdida – Exegese de Lucas 15. 4-7 de Samuel de Freitas Salgado na Revista Âncora).
Provavelmente poucos sabem que há um paralelo budista em um dos principais escritos do budismo Mahayana. Embora ambas as parábolas pareçam transmitir uma mensagem semelhante sobre a compaixão de Deus pelos humanos, um olhar mais atento revelará diferenças fundamentais em seus ensinamentos e, consequentemente, entre o cristianismo e o budismo (The Parable of the Prodigal Son in Christianity and Buddhism by Ernest Valea – https://www.comparativereligion.com/prodigal.html).
Mahatma Gandi (1868-1948) também interpretou a parábola do filho pródigo invertendo a motivação do perdão para a ação não-violenta a partir de seu contexto de resistência ao Império Britânico de sua época e os conflitos cotidianos e familiares. (Gandhi and the Parable of the Prodigal Son, Alex Damm)
A terceira parábola (o filho perdido/fora) apresenta algumas diferenças:
- – o pai não procura o filho: acolhe o pedido (da herança) e o deixa partir;
- – o filho vai para uma terra distante e gasta sua saúde, (“substância (coisa), essência (ser) οὐσία > ousía (oo-see’-ah) de modo despreocupado; a tradição da interpretação sempre entendeu ação do filho como lista de pecados (bebida, jogatina, prostitutas ( o irmão fala sobre isso: “teu filho, que desperdiçou os teus bens com as meretrizes” Lucas 15, 30);
- – o filho perde tudo e há uma grande fome naquela terra; o moço procura trabalho (porcos – animal impuro para os judeus)
- – o filho lembra das condições de trabalho na casa do pai e resolve voltar, reconhecer seu erro e pedir para ser tratado como empregado;
- – o pai vê o filho de longe e
- – o filho que estava longe é acolhido e recebe os símbolos da família (roupa, anel, sandália e festa);
- – o irmão mais velho vê o movimento e se enfurece afirmando sua posição (“sem nunca transgredir o teu mandamento” v.29, questionando o pai e julgando o irmão: “meretrizes”); o pai conclui:
Muito se fala sobre a figura do pai (silêncio total das mulheres no texto, tanto na família como no trabalho) e sua misericórdia. Não se sabe o que aconteceu depois. A parábola sugere, cria cenários, convida a relacionar com situações cotidianas conhecidas. Infelizmente a interpretação tradicional se impõe e não perguntamos por este filho que quer sair de casa, vai pra longe e não consegue se cuidar nem usar o que tem. A situação dele fica pior com a crise de fome na região que está.
O moço procura trabalho, aceita o que aparece que de muita precariedade; ele avalia então as condições de vida na casa do pai e decide voltar não mais como filho, mas como trabalhador. O filho mais novo tem uma trajetória difícil, de perdas e dificuldades, mas mostra capacidade de decisão e de buscar caminhos de se reencontrar. O filho que se perdeu… se acha! as relações de dignidade na casa do pai são a motivação da volta. O pai não que o
filho da terra distante e perdido num mundo de fome e injustiça: ele é aceito, acolhido e festejado como filho.
Talvez a comunidade de Lucas reconta está parábola tendo diante dos olhos o julgamento contra os pecadores e gentes de terras distantes, mas Jesus come com eles, entra na casa deles e festeja. O Evangelho para além dos templos, das nacionalidades, das supremacias e das barreiras. Vamos preparar a festa!
Perguntas para reflexão e compromisso:
- – quais motivos hoje levam os filhos e filhas para longe da casa? O que procuram? O que encontram?
- – e se o filho mais novo fosse gay? (André Musskopf)
- – quem julga? quem não os aceita (todes eles)? quem é o irmão mais velho?
- – por que não há mulheres no texto? este é um parábola sobre masculinidades? que tipos de homens aparecem no texto? que Deus aparece no texto?
- – a questão da propriedade, da herança e da autoridade estão muito relacionadas com o poder patriarcal. O que esta parábola propõe como alternativa?