A graça para além da lei (Jo 8,1-11) – Por Marcelo Barros

A graça para além da lei (Jo 8,1-11) Por Marcelo Barros

Nesse 5º domingo da Quaresma (ano C), lemos no evangelho o encontro de Jesus com uma mulher que, como diz o evangelho, foi surpreendida em flagrante de adultério. (João 8, 1 – 11). Embora essa cena não se encontre nos manuscritos mais antigos do evangelho, desde a antiguidade, a história da mulher adúltera continua o capítulo 7 de João, cuja cena se passa no contexto da festa das Tendas. O espaço é o templo de Jerusalém e acontece de manhã bem cedo, de madrugada. O fato de que a cena aconteça no templo é muito significativa. O templo de Deus que deveria ser o local da renovação da aliança do Amor Divino com o seu povo e sinal da presença divina para proteger os seus filhos e filhas se tornou local de julgamento e condenação das pessoas consideradas pecadoras.

Na época de Jesus, os escribas e fariseus eram considerados os sábios da comunidade de Israel e se colocavam como guardiões da lei. Conforme essa lei, o adultério era considerado pecado grave e castigado com pena de morte (Lv 20, 10 e Dt 22, 22). No entanto, conforme a lei os dois, homem e mulher, deveriam ser punidos,

Aqui nessa cena, os escribas e fariseus só trazem a mulher e dizem que a lei manda matar a mulher. E o homem adúltero? Eles absolveram? O pecado cometido por um homem e uma mulher, agora é julgado por um grupo de homens que insistem em condenar apenas a mulher. Injusto e hipocrisia. O texto ressalta que os religiosos do templo querem a todo custo condenar Jesus  e fazem isso não com armas. Ao contrário, servem-se do que há de mais sagrado: a própria lei considerada como revelada por Deus.

O texto deixa claro que os doutores da lei e os fariseus pouco se importavam com a mulher que apanharam praticando adultério e trouxeram a Jesus. Ela servia apenas como arma para que os religiosos pudessem pegar Jesus e o acusar perante o sinédrio. Se ele a defendesse, eles poderiam acusá-lo de ser contra a lei de Moisés. Os religiosos usam a lei de Deus para matar a mulher e, ao mesmo tempo, para acusar Jesus como desrespeitador da lei. Infelizmente, essa distorção terrível da fé e da religião acontece até hoje, nas nossas Igrejas, inclusive.

A lei de Deus se insere nas culturas humanas e por isso assume costumes humanos, que na época e hoje nem sempre são os mais abertos e respeitosos. A sentença de apedrejar uma mulher que cometesse adultério era para salvar a instituição do casamento. Mas, a mesma lei convivia com a cultura segundo a qual o homem podia ter várias mulheres. Além disso, pela lei do levirato, a mulher deveria ser dada ao parente do marido morto, como se fosse uma propriedade que o morto deixou para o parente mais próximo.

Como está escrito, o evangelho não discute a culpa da mulher. Já parte do princípio: ela é culpada. A acusação de adultério pode ser calúnia, injúria e difamação, pois são os inimigos da mulher que a acusa. Melhor título para este evangelho seria Mulher ameaçada de morte por doutores da lei e fariseus. Armaram uma cilada para Jesus. Ou Jesus concordava que, de acordo com a lei, apedrejassem a mulher, ou se colocava contra a lei de Deus.

Jesus não entra no jogo dos inimigos da mulher. Não responde imediatamente. Inclina-se e começa a escrever no chão. É uma atitude estranha. Nos quatro evangelhos, é a única vez que Jesus age assim. No livro do Êxodo está escrito que Deus entregou a Moisés a lei que escreveu com o próprio dedo (Ex 31, 18). Duas vezes, esse evangelho afirma que Jesus escreveu na terra (Jo 8,6.8). Será que assim, queria salientar que assim como Deus escreveu na pedra, agora Jesus tem também autoridade para reescrever a lei?

O fato é que Jesus se nega a se concentrar sobre o mal. Enquanto aqueles homens viam ali uma mulher adúltera, para Jesus, ela era apenas e sempre uma pessoa humana, portanto, filha amada de Deus. Na Idade Média, o Mestre Eckhart, um dos mais importantes teólogos ocidentais, ensinava: “O Senhor não olha o mal. Não se interessa por nossos pecados”. Jesus quer outro modo de relação entre nós e Deus. Por isso, ele reage dizendo: “Está bem. Então, quem de vocês não tiver pecado, atire a primeira pedra”.

O que Jesus fez foi revelar a hipocrisia profunda que havia na atitude dos escribas e fariseus que condenavam a mulher. Aqueles homens tudos como sábios e religiosos recobraram alguma sensatez. Saíram todos, um por um, como diz o evangelho: a começar pelos mais velhos. Hoje, em dia, há religiosos que, em nome da lei de Deus, condenam as pessoas que julgam pelas aparências. E nem sempre têm a honestidade de “sair”, isso é, de mudar de postura, quando fica claro que não teriam moral para condenar ninguém. Às vezes, padres e pastores muito severos e rígidos em condenar problemas morais e posturas sexuais que a lei tradicional condena não usam a mesma severidade quando se trata de suas próprias fragilidades e contradições.

Será que esse mundo de denúncias morais que desabam sobre o clero e a hierarquia tornarão a nossa Igreja (clero e leigos) mais humilde, mais misericordiosa com os que são considerados pecadores?

No final do caso contado nesse evangelho, Jesus se encontra sozinho, ele e a mulher. Ela confirma que ninguém a condenou. Jesus simplesmente lhe diz: Vai em paz e não peques mais. Jesus não a proibiu de continuar amando e sendo mulher.

Na época de Jesus, as mulheres eram vistas como fonte de impureza e ocasião de pecado e sedução. Os grupos judaicos quando construíam as sinagogas faziam uma grade e era por trás dessa grade que, nos sábados, as mulheres assistiam ao culto. Jesus é diferente. Vivia rodeado de mulheres. Maria Madalena, as irmãs Marta e Maria, de Betânia, várias discípulas que o acompanhavam desde a Galileia até Jerusalém (Lc 8,1-3), sem falar nas mulheres doentes e até prostitutas de aldeia que se aproximavam dele. Nos quatro evangelhos há nomes de mais mulheres que seguiam Jesus do que nomes de homens discípulos. Nenhum outro profeta daquele tempo era assim. Jesus olha as mulheres com olhos diferentes, de admiração e respeito. Ele as trata com ternura. Defende sua dignidade e as acolhe como discípulas no seu movimento popular religioso. Nas poucas vezes que o 4º evangelho fala de mulheres, elas são sempre sinais e profecias da ternura divina. As cenas mais afetuosas do evangelho são aquelas nas quais aparece uma mulher. 

Temos que sonhar com uma Igreja justa e igualitária em relação à mulher. Não basta apenas abrir os ministérios para as mulheres. É urgente voltarmos ao evangelho de Jesus e acabarmos com o sistema de duas classes na Igreja: as pessoas ordenadas e as não ordenadas. Só retomando a igualdade do discipulado de Jesus e a autonomia das comunidades para celebrar a ceia e os sinais do amor divino, superaremos a marginalização estrutural da mulher na Igreja. A Igreja precisa ser exemplo de novo modo de ser no mundo, para que consigamos vencer a violência doméstica, o feminicídio, o machismo, o patriarcalismo e tantas situações nas quais a mulher é vítima.

Maria, Maria

Canção de Milton Nascimento ‧ 1978

Maria, Maria, é um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece viver e amar
Como outra qualquer do planeta

Maria, Maria, é o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta

Mas é preciso ter força, é preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca, Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria

Mas é preciso ter manha, é preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca possui
A estranha mania de ter fé na vida

Mas é preciso ter força, é preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca, Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria

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