A Mãe Terra Clama pelo Bem Viver

A Mãe Terra Clama pelo Bem Viver. E O Bem Viver no Reino de Deus.

Assembléia do CIMI, 4 a 8 de Outubro de 2011, Luziânia, Goiás

Frei Carlos Mesters e Francisco Orofino

(Obs.: Esse artigo é o 6º de uma série de 10 artigos de frei Carlos Mesters que disponibilizaremos na internet, em www.gilvander.org.br , em breve.). Esse texto, Carlos Mesters escreveu em conjunto com Francisco Orofino, biblista do CEBI e das CEBs – Comunidades Eclesiais de Base.

 

 

INTRODUÇÃO: Três chutes iniciais

1. O Bem Viver nas notícias

2. Um pensamento de Leonardo Boff sobre o Bem-Viver

3. A Proposta do CIMI

1. O Paraíso Terrestre: A Vida em plenitude projetada no passado

2. A Sabedoria do Reino: a semente que gera a esperança do bem-viver

3. Sábios, Profetas e Levitas: Os servidores do bem viver, sem privilégios, sem prestígios

4. A ambivalência afeta os servidores do Bem-Viver

*  A ambivalência afeta a sabedoria

*  A ambivalência afeta a profecia

*  A ambivalência afeta os Levitas

5. O horizonte da solidariedade e do serviço em defesa do bem-viver

1. A reconstrução do relacionamento humano na convivência diária (Qohelet)

2. Resistir contra a marginalização e exclusão da mulher (Cântico, Rute)

3. Crítica radical à manipulação da imagem de Deus (Jó)

6. Jesus ensina como construir o bem-viver no Reino de Deus

Jesus retoma a tradição dos sábios, profetas e levitas

As dimensões do Bem-Viver no Reino de Deus

1. Jesus refaz o relacionamento humano na base

2. Recupera a dimensão sagrada e festiva da Casa

3. Reconstrói a vida comunitária nos povoados da Galiléia

4. Cuida dos doentes e acolhe os excluídos

5. Recupera igualdade homem e mulher

6. Vai ao encontro das pessoas

7. Supera as barreiras de gênero, religião, raça e classe

Os títulos de Jesus: um novo caminho para construir o Bem-Viver

Filho do homem

Servo de Deus

Redentor dos irmãos

7. A Fraternidade Universal sem servos

*   um novo Paraíso Terrestre e uma nova Criação: novo céu, nova terra

*   uma festa de casamento, união definitiva com Deus

*   um novo Êxodo, uma nova Fraternidade universal Deus, Ele mesmo, tudo em todos!

INTRODUÇÃO: Três chutes iniciais

1. O Bem Viver nas notícias

2. Um pensamento de Leonardo Boff sobre o Bem-Viver

3. A Proposta do CIMI

1. Bem-Viver nas notícias

Quando se fala muito de um determinado assunto é porque surgiram problemas em torno a ele. É o caso do Bem-Viver. Cresce a insatisfação com relação ao modelo do Bem-Viver na nossa sociedade: cresce o anonimato no meio da multidão; o individualismo na convivência humana; a insatisfação no meio da abundância de bens; a desumanização no meio de uma técnica avançada; a pobreza humana na opulência de bens; o moralismo numa sociedade sem ética; o empobrecimento no meio do aumento da riqueza; a busca de religião no mundo cada vez mais secularizado. O relacionamento humano cada vez mais fragilizado lá na base dificulta o amadurecimento das pessoas. Nunca a ciência fez tantos progressos em todos os níveis e nunca foi tão grande a ausência de rumos que possam apontar um futuro garantido de Bem-Viver.

2. Um pensamento de Leonardo Boff sobre o Bem-Viver

O “Bem Viver” está presente ao longo de todo o continente Abya Yala (nome indígena para o Continente sul-americano), do extremo norte até o extremo sul, sob muitos nomes dos quais dois são as mais conhecidos: suma qamaña (da cultura aymara) e suma kawsay (da cultura quéchua). Ambas significam: “o processo de vida em plenitude”. Esta resulta da vida pessoal e social em harmonia e equilíbrio material e espiritual. Primeiramente é um saber viver e em seguida um saber conviver: com os outros, com a comunidade, com a Divindade, com a Mãe Terra, com suas energias presentes nas montanhas, nas águas, nas florestas, no sol, na lua, no fogo e em cada ser. Procura-se uma economia não da acumulação de riqueza, mas da produção do suficiente e do decente para todos, respeitando os ciclos da Pacha Mama e as necessidades das gerações futuras.

3. A Proposta do CIMI

A perspectiva com que o CIMI aborda o tema “A mãe terra clama pelo bem viver”. Dizia a carta-convite:

“Como cristãos podemos compreender o bem viver como vida em plenitude e como sabedoria do Reino, sem privilégios, sem prestígios. O bem viver no horizonte da solidariedade não é para nós, é para os outros: “A outros salvou, a si mesmo não pode salvar!” (Mt 27, 42a). Lutamos como servos para que ninguém precise ser servo”.

Nesta proposta do CIMI aparecem seis pontos muito significativos: (1) Vida em plenitude; (2) Sabedoria do Reino; (3) Sem privilégios e sem prestígios; (4) O horizonte da Solidariedade; (5) Jesus como modelo; (6) Atitude de serviço para construir a fraternidade universal sem servos.

Estes pontos oferecem o esquema para abordar o tema do “Bem Viver no Reino de Deus” tal como aparece na Bíblia:

1. A Vida em Plenitude é projetada no passado no mito do Paraíso Terrestre

2. A Sabedoria do Reino é a semente que vai gerando o Bem-Viver.

3. Os servidores do bem viver servem de graça,  sem privilégios, sem prestígios

4. A ambivalência afeta a sabedoria, a profecia e o culto e ameaça o bem viver

5. O Horizonte da solidariedade e a luta constante em defesa do bem-viver

6. Jesus nosso modelo ensina como construir o Bem-Viver no Reino de Deus

7. A fraternidade universal do bem viver sem servos

1. O Paraíso Terrestre

A Vida em plenitude projetada no passado

A grande utopia do bem-viver está expressa no mito do Paraíso Terrestre que aparece no começo e no fim da Bíblia, Gênesis e Apocalipse. Na primeira parte do mito, o ser humano, feito de barro e sopro divino, toma conta de um jardim com abundância de água, onde jamais haverá seca e, portanto, onde sempre haverá comida (Gn 2,15). Ele pode comer de todas as árvores, inclusive da árvore da vida que está no meio do jardim. É vida sem morte (Gn 2,9). Homem e mulher vivem integrados entre si (Gn 2,20-23), com os animais (Gn 2,20), com a terra e com Deus, que passeia com eles no jardim na brisa da tarde (Gn 3,8). Neste mito o povo projeta no passado a esperança do bem viver que o anima na caminhada para o futuro e que é o oposto da situação cheio de males que ele vive no presente.

Na terceira e última parte do mito, após a expulsão do Paraíso, aparecem os males da vida presente. Rompeu-se a convivência harmoniosa, e o homem acaba sendo o opressor da mulher (Gn 3,16). Rompeu-se o equilíbrio dos seres humanos com os animais, e a serpente persegue a mulher e tenta dar o bote (Gn 3,15). Rompeu-se a harmonia da natureza, e a terra aparece maldita, produzindo só mato e carrapichos. (Gn 3,17). Rompeu-se o relacionamento harmonioso com Deus, e Adão e Eva sentem medo de Deus, têm vergonha da sua nudez e se escondem (Gn 3,10). O barro venceu o sopro divino, e a vida que nasce com dores de parto, (Gn 3,16) termina em morte (Gn 3,19).

Na parte central do mito, se informa como aconteceu a passagem da situação ideal para a situação real cheia de males. Adão e Eva transgrediram a ordem de Deus e comeram da árvore do conhecimento do bem e do mal. Por isso foram castigados, expulsos do Paraíso. Assim, a situação real em que hoje vivemos é apresentada como castigo de Deus. Na Bíblia, apresentar a situação real como castigo de Deus é o mesmo que afirmar, com outras palavras, que nós mesmos somos os responsáveis pela situação em que nos encontramos. É afirmar que a situação presente deve ser aceita não como uma fatalidade sem saída, mas sim como um apelo de Deus à conversão e à criatividade. O Paraíso não foi destruído. Ele continua no horizonte da existência humana como uma possibilidade real.

A descrição das conseqüências da transgressão de Adão e Eva funciona como análise crítica da realidade e aponta as etapas do caminho de saída e da recuperação do bem viver do Paraíso:

*  Desligado de Deus, o homem perde a noção da fraternidade e mata o irmão, Caim mata Abel (Gn 4,1-16).

*  Isto produz a violência extrema de Lameque que vinga 70×7 por uma ferida recebida (Gn 4,17-24).

*  Sem proteção neste mundo, eles manipulam a religião, o que produz a desintegração do Dilúvio (Gn 6,1-7).

*  Uma nação tenta dominar as outras nações, criando assim a confusão da Torre de Babel (Gn 11,1-9).

Esta é a situação real, na qual todos se reconhecem. Qual a saída? Qual a esperança? Apesar das quedas progressivas, cada vez de novo, a misericórdia de Deus prevalece sobre o castigo e mantém aberta a porta da reconciliação e do retorno ao bem-viver do Paraíso:

*  A serpente ataca e quer matar a mulher, mas Deus promete a vitória à mulher (Gn 3,15)

*  Adão e Eva são expulsos do Paraíso, mas Deus os protege e faz roupa para eles (Gn 3,21).

*  Caim é castigado, mas recebe um sinal que o protege (Gn 4,15).

*  O dilúvio é um castigo cruel, mas em Noé a humanidade sobrevive (Gn 6,18; 8,15-17).

*  A Torre de Babel ameaça a todos, mas Deus abre uma porta chamando Abraão e Sara (Gn 12,1-3).

Esta maneira de descrever a situação do povo oferece uma esperança de saída e um roteiro para orientar o povo no retorno ao bem-viver do Paraíso Terrestre. Esta esperança aparece realizada na visão final do Apocalipse, que retoma a imagem do Paraíso Terrestre para simbolizar a realização do futuro que Deus sonhou para todos. Entre a utopia do Paraíso Terrestre do livro de Gênesis e a sua realização no Apocalipse, está a longa caminhada de Abraão e Sara que terminará na realização do bem-viver na Terra sem males do Paraíso.

Vamos ver de perto esta longa caminhada em direção ao Bem-Viver no Reino de Deus: qual o seu início, qual o percurso com seus altos e baixos, quais os atores que animam a caminhada, quais os perigos e ameaças que enfrentam, quais os meios e recursos de que dispõem, qual o modelo que os anima e provoca, qual o resultado final.

2. A Sabedoria do Reino: a semente que gera a esperança do bem-viver

A esperança do bem-viver que percorre a história do povo de Deus de Gênesis ao Apocalipse não caiu pronta do céu. Ela nasceu pequena como a semente de mostarda, a menor de todas as sementes, mas cresceu e se tornou uma árvore frondosa. Na Bíblia, esta semente é a Sabedoria Popular que foi crescendo ao longo dos séculos e, no fim, foi verbalizada nos provérbios e nos mitos, nas leis e nos costumes, na religião e nas celebrações. Foi desta experiência concreta da força e da fecundidade da Sabedoria Popular que nasceu a esperança que se expressa tanto o mito do Paraíso Terrestre como o Mito da Terra sem males. Creio que, dentro da diversidade das culturas e das religiões, em todos os povos acontece a mesma coisa.

A sabedoria popular nasce da preocupação básica do ser humano de preservar e garantir o bem-viver. Nasce da multiforme luta em defesa da vida: na produção de alimentos, na descoberta dos remédios, no confronto constante com a natureza, na educação dos filhos, na transmissão dos valores, na convivência social, na compra e venda dos produtos, na luta pela justiça contra a exploração injusta, no governo do povo, na prática da religião. A sabedoria popular é como um ato criador continuado, que defende a vida contra o caos ameaçador.

No povo da Bíblia, na origem da Sabedoria Popular estão os provérbios que refletem o ambiente da Casa, da Tribo. Inicialmente, sábio era aquele que conseguia captar e verbalizar a experiência humana num provérbio. Aos poucos, a sabedoria foi evoluindo, ultrapassando sua modesta origem caseira e tribal.

Ultrapassou o âmbito do provérbio e chegou a produzir tratados e longas reflexões, como o livro de Jó, Qohelet e Sabedoria.

Ultrapassou o âmbito da família e do clã e entrou no âmbito da nação e do Estado. Assim, o Rei Salomão aparece como o grande sábio, autor de milhares de provérbios (2Rs 3,12; 5,9-13).

Ultrapassou o âmbito da nação e da raça e se preocupa com os proble­mas da vida humana como tal, independentemente de nação, raça, geografia ou religião. Por exemplo, o livro de Jó.

Ultrapassou o presente e começou a investigar o passado e a criação do Universo como manifestação da Sabedoria (Eclo 44,1 a 50,29; Sb 10,1 a 19,22). E chegou a descobrir em Deus a origem e o destino da sabedoria. Tanto a criação e o cosmos, como a história e a vida, tudo tornou-se o palco da manifestação da Sabedoria Divina.

A Sabedoria chegou a produzir uma teoria sobre si mesma (Prov 8,12-21; 8,30-36; Eclo 24,1-8; Sb 7,21-8,1) como sendo a irradiação do próprio Criador, anterior à criação, conselheira de Deus na obra da criação (Prov 8,22-31; Eclo 24,9-17). Tornou-se sinônimo do Espírito Divino que enche o universo (Sb 1,6-7; 8,1). Ela esteve presente como mestra de obras na criação do universo (Prov 8,30) e na história da salvação (Eclo 44 a 50).

A lei de Deus é vista pelos sábios não como uma imposição arbitrária que amarra e oprime, mas como Torah, ponteiro que abre e orienta o povo no caminho em direção do Bem-viver. Ela é a manifestação suprema da sabedoria, simbolizada na “árvore da vida” (Prov 3,18; 11,30) e expressa de maneira admirável no longo salmo 119. . É através da observância fiel desta lei de Deus, expressa nos Dez Mandamentos, que o ser humano se apropria da Sabedoria e garante o retorno ao Paraíso Terrestre. Ela é o caminho por onde se constrói o bem-viver do Reino. É a árvore frondosa que nasceu daquela pequena semente do provérbio popular.

3. Sábios, Profetas e Levitas

Os servidores do bem viver, sem privilégios, sem prestígios

Em todo grupo humano, tribo, comunidade ou família, nascem espontaneamente os vários serviços para organizar, coordenar, retificar, orientar, aprofundar e celebrar a vida e mantê-la no rumo do bem-viver. Os índios têm seus caciques e pagés. Na bíblia, são os sábios que organizam a vida e o bem-viver; os profetas mantêm o rumo, denunciam os desvios; os levitas celebram as grandes datas do dom e da recuperação da vida.

Os Sábios.

Os sábios organizam a vida e a defendem contra o caos ameaçador. Os sábios são antes de tudo os pais em casa, que organizam e coordenam a vida familiar, educam os filhos, transmitem os valores, ensinam as leis e os costumes. É freqüente a insistência dos sábios na obediência aos pais.

Na medida em que a comunidade cresce em tamanho, cresce a influência dos sábios na coordenação e no governo do povo. A palavra &lm (rei) tem o duplo sentido de ser rei e de aconselhar, orientar. O Rei Salomão aparece como o grande sábio, capaz de dar nome a todos as coisas (2Rs 3,12; 5,9-13). A ele se atribuem livros sapienciais que foram escritos mais de 500 anos depois da morte dele. O relacionamento das pessoas com o rei é uma preocupação constante nos livros sapienciais (Prov 25-29; Sb 6,1-18).

Os Profetas.

Desde o início da monarquia (1000 aC), os profetas faziam parte da história de Israel. Eles zelavam pela observância da Aliança. “Caco de vidro no chão é sinal de copo quebrado”. Para os profetas, pobre no meio do povo era sinal de Aliança quebrada. Os profetas eram a consciência falante do povo de Deus. A palavra profeta vem do grego e significa “falar” (fhmi) em nome de, “pro” (pro). O profeta não fala em nome próprio, mas em nome de outro que o enviou. É porta-voz. Aarão era profeta (porta-voz) de Moisés (Ex 7,1). O profeta tem uma ligação íntima com aquele, em nome do qual fala e que o envia.

Depois do exílio (587 a 538), desaparecem os profetas. O povo dizia: “Não existem mais profetas” (Sl 74,9; cf. Dn 3,38; 1Mc 9,27; 1Mc 4,46 14,41). É que o império da Babilônia tinha acabado com as pequenas monarquias do Médio Oriente que agora ficaram reduzidas a comunidades étnicas sem independência política, sem exército, sem rei. Nesta situação, era impossível imaginar alguém das aldeias da Palestina atuar como profeta no estilo antigo de Amós ou Miquéias. Um camponês da Palestina não teria nenhuma possibilidade de cobrar a observância da Lei de Deus, seja do imperador da Babilônia, seja dos governantes helenistas. O império tinha outros deuses e outras leis!

Neste período sem profetas, a profecia encontrou novas formas de expressão para cuidar do bem-viver do povo e manifesta a sua presença nas novelas populares (Rute, Ester, Judite, Jonas), na literatura sapiencial (Jó, Eclesiastes e trechos de Provérbios, Eclesiástico e Sabedoria), nas celebrações e romarias (muitos Salmos), no movimento apocalíptico (Daniel), na arte popular (Cântico dos Cânticos).

Os Levitas.

Originalmente, os Levitas não formavam uma tribo. Na Bíblia existe até “um levita da tribo de Judá” (Jz 17,7). Levita era a pessoa que se sentia chamada para exercer uma missão mediadora entre Deus e o povo. A palavra levi ou levita vem da raiz lawa: significa aderir, apegar-se, associar-se, acompanhar. Os Levitas eram as pessoas que, nas várias tribos, se associavam ao redor desta missão mediadora. Aos poucos, foram identificadas como uma Tribo ao lado das outras. Muitas vezes, os levitas são identificados como sacerdotes, e vice-versa.

A tribo de Levi era vista como a propriedade particular de Javé, que a reservou para si. (Num 3,11-13; cf Ex 13,11-16). Eles não podiam receber terra como herança, pois a sua herança era o próprio Javé. (cf. Josué 13,33; 14,3-4; 18,7; Dt 18,1-2; Eclo 45,22). Através do ensino da Lei eles ajudavam o povo a superar a tentação de voltar para o Egito (Nm 14,3-4; Ex 13,17; 14,11-12; Dt 33,10; 31,11; Ne 8,7). “Para o Egito vocês não podem voltar nunca mais!” (Dt 17,16). Irradiavam no meio do povo a presença libertadora de Javé e a memória do Êxodo.

Como em todos os povos e culturas, o povo da Bíblia cultivava seus lugares e tempos sagrados. Na época dos Juízes, os levitas atuavam nos pequenos santuários, espalhados por todo o território, animando o povo: Siquém (Gn 12,6; 12,7-8), Betel (Gn 13,3; 28,19-22), Salém (Gn 14,17-20) (Jerusalém ?), Hebron (Gn 13,18; 23,1-20; 25,7-10), Bersheba (Gn 21,32-34; 22,19; 26,23-25), Guilgal (Jos 4,19-20; 5,2-12), Jericó (Josué 5,13-15), Silo (1Sm 1,3-20), Rama (1Sm 7,17; 8,4; 19,23), Carmelo (1Rs 18). Era nestes santuários de romaria, que eles contavam aos romeiros os grandes feitos da história dos Patriarcas e irradiavam a experiência do Deus libertador que os tirou do Egito. Deste modo, ajudavam o povo a continuar na caminhada iniciada com Abraão e Sara rumo ao Paraíso, à Terra sem Males. Eis uma lista de alguns destes santuários:

4. A ambivalência afeta os servidores do Bem-Viver

A caminhada do povo de Deus não é retilínea, mas cheia de curvas, perigos e percalços que já transparecem na descrição da vida no Paraíso Terrestre. O ser humano é mistura de barro e de sopro divino. Ele sofre a tentação de abandonar a lei de Deus, a árvore da vida, para criar sua própria lei, expressa na árvore do conhecimento do bem e do mal. O barro vence o sopro divino. Esta ambivalência afetava os servidores do Bem-Viver: a sabedoria, a profecia, os levitas.

*  A ambivalência afeta a sabedoria

Uma ambivalência quase estrutural afeta e ameaça a sabedoria desde o seu mais remoto início. De um lado, existe nela o desejo de conhecer as coisas por experiência, de organizá-las e de controlá-las em defesa da vida. De outro lado, existe nela o desejo de resistir a tudo que possa ameaçar a vida, desejo de autonomia e de liberdade de quem não se deixa dominar. Estes dois aspectos geram uma tensão permanente no interior da própria sabedoria.

De um lado, a sabedoria aparece ligada aos sábios e aos reis que aconselham e coordenam, atacam e defendem. Ela encontra sua expressão nas escolas dos sábios, que colecionam, organizam e sistematizam a sabedoria do povo (Prov 25,1; 1Rs 5,9-13; Sab 7,15-21). São eles que fizeram a redação final da Torá, da Lei de Deus. O Sábio se torna Doutor da lei que conserva (conservador) os valores do passado, precursor dos escribas e fariseus. Em alguns deles, ser sábio vira status e classe separada do povo, que chama o povo de ignorante (Jo 7,49).

Do outro lado, a sabedoria aparece como um impulso criativo que, sem parar, surge de dentro do povo para enfrentar os problemas da sobrevivência; cria sempre novas formas de luta em defesa da vida, criticando-se a si mesma e às suas formas de expressão já superadas pela própria vida; produz alargamento do horizonte e aprofunda os problemas humanos; atinge a raiz do sistema dominante e o critica radicalmente. O Sábio se torna Profeta . Jesus é um deles. Ele agradece a Deus por revelar a sabedoria do Reino aos pequenos e escondê-la aos “sábios e entendidos” (Mt 11,25-26).

Esta ambivalência estrutural, escondida na semente, foi aparecendo no fruto. O resultado final, registrado nos livros da Bíblia, mostra uma sabedoria que produz gente conservadora e gente aberta; gente do sistema e gente subversiva; gente rígida, legalista, doutor da lei, e gente espontânea, rebelde, criativa e criadora. Produz Jó e os amigos de Jó. São tendências que, por vezes, existem misturadas até nas próprias pessoas e nos grupos.

*  A ambivalência afeta a profecia

Uma ambivalência afeta também a profecia. Havia profetas que apoiavam a monarquia (2Sm 7,4-16; 2Cr 18,12; Jr 28,1-4) e outros que a criticavam (1Rs 18,16-18; 21,17-24). Havia profetas que apoiavam o culto e estimulavam a reconstrução do templo (Ag 1,2-11), e outros que criticavam o Templo, condenavam o culto e anunciavam a sua destruição (Jr 7,1-15; Am 5,21-25; Is 1,10-15). Havia profetas como Amós que não assumiam sua identidade como profeta e diziam: “Eu não sou profeta!” (Am 7,14; Zc 13,5). Havia outros como Jeremias que criticavam os profetas, culpando-os pelo desastre nacional da destruição de Jerusalém (Jr 23,33-40; Lam 2,14; Ez 13,1-13.16; Zc 13,2-6).

O que há de comum a todos, é que eles aparecem como pessoas ligadas à divindade. Por isso mesmo, havia tanta confusão, pois as divindades eram muitas. E muitas eram as imagens que os vários grupos e tendências tinham do próprio Javé, o Deus do povo. Por isso era grande a ambivalência que afetava a profecia. Quando hoje ouvimos a palavra “profeta”, vêm em mente as figuras de Elias, Isaías, Jeremias e outros. Mas foi só aos poucos, através de demorado discernimento, que se chegou a esta imagem clara e definida que nos permite distinguir os profetas verdadeiros dos falsos. Na época dos acontecimentos, as coisas não eram tão claras assim. O povo ficava confuso sem saber quem era e quem não era profeta de verdade (Jr 27,9-10; 29,8; 2Cr 18,1-22; cf. Dt 18,17-22).

*  A ambivalência afeta os Levitas

Os reis chegavam a manipular a religião para legitimar seu poder diante do povo. O desejo de fortalecer o poder em suas mãos levava os pretendentes ao trono a buscar o apoio de profetas e levitas. Isto aconteceu com Saul (1Sam 10,1-8.17-24), com Davi (1Sam 16,1-13), com Salomão (1Rs 1,32-40), com Jeroboão (1Rs 11,26-40; 12,15) e outros. O crescente envolvimento dos levitas com os homens do poder chegou a gerar uma rivalidade e ambivalên­cia entre os próprios levitas. Na luta pela sucessão de Davi, seus dois filhos Adonias e Salomão buscavam apoio nos levitas. Adonias era apoiado por Abiatar; Salomão, por Sadoc (1Rs 1,5-8). Salomão venceu e foi aclamado rei, (1Rs 1,38-40). Para consolidar o seu poder, ele matou os que tinham apoiado a Adonias. Matou o próprio Adonias, confirmou o levita Sadoc como o seu sacerdote e exilou Abiatar, o outro levita, para Anatot (1Rs 2,26-27).

Davi concebeu a idéia de construir um templo para Javé (2Sm 7,1-2) que acabou sendo construído pelo rei Salomão (2Sm 7,13; 1Rs 6,37). A arca da aliança, símbolo e coração da fé do povo, é transferida para o templo (2Sm 6,12-19). Assim, o santuário de Jerusalém começa a ter uma importância maior, e os levitas de Jerusalém começam a ter maior visibilidade que os levitas dos pequenos santuários do interior do país. Assim, aos poucos, no Templo de Jerusalém a função do levita deixou de ser um serviço ao povo para tornar-se uma função sagrada a serviço do rei. A tribo de Levi começou a clericalizar-se. A família de Sadoc, o preferido de Salomão (1Rs 2,35), conseguiu firmar sua posição de tal maneira, que se tornou uma espécie de super-sacerdote ou Sumo Sacerdote.

No tempo do rei Josias (Sec VII aC) consolidou-se o processo de clericalização dos levitas. Todo o culto foi concentrado no Templo de Jerusalém e os pequenos santuários do interior foram destruídos. Os levitas do interior foram levados para servir como ajudantes dos sacerdotes do Templo. Mas a reforma de Josias não deu certo e morreu com a morte de Josias em 609 aC. Foi o começo do fim (cf. 2Rs 23,8.9.19).

Em agosto de 587, Nabucodonosor, rei da Babilônia avançou sobre Jerusalém. Os três grandes sinais ou “sacramentos” da presença de Deus foram destruídos! O Templo, morada perpétua de Deus (1Rs 9,3), foi incendia­do (2Rs 25,9). A Monarquia, fundada para durar sempre (2Sam 7,16), já não existia (2Rs 25,7). A Terra, cuja posse é para sempre (Gen 13,15), passou a ser a propriedade dos inimigos, (2Rs 25,12; Jer 39,10; 52,16).

5. O horizonte da solidariedade e do serviço em defesa do bem-viver

Os mitos dos povos não são realidades fixas e imutáveis, mas acompanham a história e a evolução dos mesmos. Conservam sinais e cicatrizes que retratam a história percorrida com suas contradições e tendências, vitórias e derrotas. O mesmo aconteceu no povo da Bíblia. A desintegração das instituições (templo, monarquia e posse da terra) deixou marcas profundas e levou a uma busca sem precedentes para encontrar uma saída, reconstruir em novas bases sua identidade como povo de Deus e retomar o caminho em direção ao Bem-Viver iniciado com Abraão e Sara. Apareceram quatro tendências misturadas entre si que existem difusas em quase todos os escritos da Bíblia:

a) A maioria silenciosa adotou os deuses do império. O que mais transparece nos escritos daquela época é a denúncia do perigo dos ídolos (Is 44,9-20; Bar 6,1-72; Sl 115,4-8).

b) O grupo de Zorobabel e Josué queria restaurar o passado. Eles consideravam a época dos Reis como modelo a ser imitado. Foram eles que logo voltaram para a Palestina, quando Ciro permitiu o retorno (Esd 2,2; 3,2).

c) Os discípulos e as discípulas de Isaías não abandonaram a fé nem quiseram voltar ao passado, mas queriam saber: “Onde está Deus no meio desta tragédia?” Eles reliam o passado em busca de uma luz para redescobrir a presença de Deus naquela terrível ausência (cf. Is 40,6-11.27-31; 41,8-14; 43,1-5; etc).

d) O grupo de Neemias e Esdras aceitava o jugo do rei estrangeiro e colaborava com ele (Br 2,21.24; Jr 27,6-8.12.17; 42,10-11), mas mantinha a consciência de povo eleito de Deus, separado dos outros povos. Por isso, insistiam na observância da lei de Deus (Esd 7,26; Ne 8,1-6; 10,29-30) e na pureza da raça (Esd 9,1-2).

O grupo da maioria silenciosa desapareceu. O grupo da restauração não conseguiu realizar o seu intento e foi absorvido pelo modo de pensar do grupo de Neemias e Esdras que se tornou hegemônico no período pós-exílico. O grupo dos discípulos de Isaías sobreviveu como um movimento de base que animava o povo exilado na fé de que Javé, o Deus do povo, continuava presente no meio deles.

Na nova conjuntura nova do cativeiro, o único espaço de certa autonomia e liberdade que ainda sobrava era o espaço familiar, o mundo pequeno da família, a “casa”. Todo o resto que antes fazia parte da vida já não existia: a posse da terra, o templo, as peregrinações, o culto, o sacrifício, o sacerdócio, a monarquia, o rei. Nada disse tinha sobrado. O ambiente caseiro, a Casa, e a necessidade de resistir e de vencer na vida ocupavam, novamente, um lugar central, como na época dos Juízes, anterior à monarquia.

Foi neste espaço reduzido e enfraquecido da família, da comunidade, da “casa”, que renasce a semente da Sabedoria, tendo como raiz uma nova experiência de Deus e da vida. A imagem de Deus, transmitida pelos discípulos e discípulas de Isaías, reflete este ambiente familiar da Casa. Deus é apresentado como Pai (Is 63,16; 64,7), como Mãe (Is 46,3; 49,15-16; 66,12-13), como Marido (Is 54,4-5; 62,5), como parente próximo (goêl ou irmão mais velho) (Is 41,14; 43,1). Javé, o Deus que antes estava ligado ao Templo, ao culto oficial, ao sacerdócio, ao clero, à Monarquia, agora está perto deles, “em casa”; casa pequena, quebrada e, humanamente falando, sem futuro, mas Casa, e não Templo. Não insistiram nas imagens religiosas tradicionais, mas sim usaram imagens novas tiradas da vida familiar e comunitária. Eles humanizaram a imagem de Deus e sacralizaram a vida, a família, a pequena comunidade, como o espaço do reencontro com Deus.

Aqui está a raiz que vai animar a luta do povo pela reconquista do Bem-Viver. A força que mantém o horizonte aberto, é esta nova experiência de Deus e da vida. Três aspectos desta luta merecem nossa particular atenção, pois terão continuidade na vida e na atividade de Jesus em defesa do Bem Viver do Reino.

1. A reconstrução do relacionamento humano na convivência diária (Qohelet)

Qohelet oferece critérios para o povo poder adquirir uma consciência mais clara frente às várias tendências da época. Havia a proposta de Esdras e Neemias, que, de um lado, promovia a abertura para o império e, de outro lado, fechava o povo na observância estrita da lei e na pureza da raça, chegando ao ponto de expulsar as mulheres estrangeiras (Es 9,1-2; 10,3).

Com palavras diferentes, Qohelet repete, do começo ao fim: “Tudo é vaidade!”, miragem, ilusão! Parece um estribilho que sempre volta, vinte e nove vezes! (Qo 1,2.14.17; 2,1.11.15.17.19.21.23.26; 3,19; 4,4.8.16; 5,9.15.19; 6,2.9.12; 7,6.15; 8,10.14; 9,9; 11,8.10; 12,8). Ele critica tanto a sede de riqueza da elite, favorável à abertura para o império (Qo 2,1-16; 5,9-16) e a sua mania de correr atrás das novidades (Qo 1,10-11), quanto o fechamento dos escribas com a sua pretensa justiça e com seu sentimento de gente privilegiada por Deus (Qo 7,15-16).

Por meio de outro estribilho que, com palavras diferentes, é repetido sete vezes, Qohelet aponta uma saída que pode ser resumida da seguinte maneira: “Nada há de melhor para o ser humano do que alegrar-se, comer e beber, desfrutar o fruto do trabalho e gozar a vida com a esposa amada, pois tudo isto vem da mão de Deus” (cf. Qo 2,24-25; 3,12-15; 3,22; 5,17-19; 7,13-14; 8,15; 9,7-10). Qohelet convida o povo a reencontrar o fundamento do Bem-Viver na vida em comunidade, na família, no trabalho honesto e na fé em Deus. Todo o resto, que não contribui para a reconstrução das relações primárias neste núcleo básico e caseiro da convivência humana é vaidade, perda de tempo, corrida atrás do vento, miragem, ilusão.

2. Resistir contra a marginalização e exclusão da mulher (Cântico, Rute)

No relato sobre a manifestação da Sabedoria Divina na história do povo de Deus (Eclo 44-50), o autor do livro do Eclesiástico só conservou os nomes dos homens. Quando fala da mulher, manifesta um certo desprezo (Eclo 25,13); e quando diz coisas boas sobre ela, é a partir do ponto de vista do homem (Eclo 26,1-2.13; 36,21-27). Porém, quando fala da Sabedoria, ele a personifica sob a figura de uma mulher (Eclo 4,11-19; 14,20-15,10; 24,1-29). Estas duas tendências, marginalização e valorização da mulher, aparecem em todo o Antigo Testamento, mas sobretudo no período depois do cativeiro. Na mesma medida em que crescia a exclusão da mulher, cresciam a sua resistência e valorização. Vários livros registram esta resistência e valorização progressivas.

No Cântico dos Cânticos, a mulher aparece como pessoa independente. Para poder encontrar o seu amado, ela enfrenta os guardas da cidade (Ct 3,1-4; 5,2-8), o rival que a persegue (Ct 8,11-12), e os irmãos que querem prote­gê-la (Ct 8,8-10). No livro de Rute, duas mulheres pobres, ambas viúvas sem futuro, das quais uma estrangeira, estão na origem da reconstrução do povo. São elas que tomam as iniciativas para reconquistar os direitos perdidos e fazer observar a lei do resgate (Rt 2,20; 3,1-6). É de uma estrangeira que nasce o avô do messias (Rt 4,11.17). Judite, mulher de um povoado imaginário da Samaria, contesta a decisão tomada pelos anciãos e sacerdotes (Jdt 8,11-17). Sozinha, ela enfrenta o exército inimigo e consegue derrotar o general Holofernes, cortando-lhe a cabeça (Jdt 8,32-34; 13,6-10). Ester é a mulher que se engaja na luta pela sobrevivência do povo (Est4,8-17). O mesmo valor de resistência encontramos nas primeiras páginas da Bíblia, escritas depois do cativeiro, onde se afirma a igualdade do homem e da mulher como imagem de Deus  (Gn 1,27).

Nestes livros a mulher aparece não tanto como mãe e esposa, mas muito mais como mulher que sabe usar sua dignidade e beleza para lutar pelos direitos dos pobres e assim defender a Aliança do povo. E ela luta não a favor do Templo, nem a favor de leis abstratas, mas sim a favor da vida do povo.

3. Crítica radical à manipulação da imagem de Deus (Jó)

O livro de Jó ajuda a perceber como a imagem que as pessoas têm de Deus repercute na organização econômica, social, política e religiosa da sociedade. O ensino oficial dizia: “Sofrimento e pobreza são castigo de Deus” (cf. Jó 4,7; 8,1-4). Identificava o bem-viver com a riqueza. Esta maneira de representar o relacionamento entre Deus e o ser humano falsificava o bem-viver, beneficiava a elite e dava aos pobres um complexo de culpa e de inferioridade. O livro de Jó verbaliza a tensão que estava nascendo entre o ensino oficial da elite e a incipiente consciência rebelde dos sofredores.

O livro de Jó nos dá uma imagem concreta da ambivalência entre os sábios: uns raciocinando a partir da tradição, querendo manter a ordem conquistada, e outros raciocinando a partir da experiência dolorosa da vida, denunciando a dominação. Os três amigos representam a visão tradicionalista, que eles defendem com unhas e dentes. Jó representa os sofredores, cuja consciência estava começando a se rebelar. A cabeça de Jó, formada pelo catecismo da tradição dominante, dizia: “Você sofre e é pobre porque é pecador! Deus o está castigando!” Mas o coração, a consciência, lhe dizia: “Deus é injusto comigo! Não pequei! Quero brigar com ele para me defender”. Jó critica os três amigos, que identificavam a presença de Deus com o nível econômico das pessoas: “Vocês usam mentiras e injustiças para defender a Deus!” (Jó 13,7). “Vocês são capazes de sortear um órfão e vender seu próprio amigo!” (Jó 7,27).

A frase final do livro de Jó traz a luz que esclarece o problema em torno da imagem de Deus. Jó  se dirige a Deus e diz: “Eu te conhecia só de ouvir falar de Ti, mas agora meus olhas te viram. Por isso me retrato e me arrependo sobre pó e cinza” (Jó 42,4-6). Jó descobriu que a sua luta não era contra Deus, mas sim contra aquela imagem de Deus que falsificava a consciência das pessoas e destruía a convivência humana. É a rebeldia profética da tradição sapiencial que não quer ser enquadrada.

6. Jesus ensina como construir o bem-viver no Reino de Deus

Jesus retoma a tradição dos sábios, profetas e levitas

Sua atitude frente aos fariseus e escribas

Nas discussões de Jesus com os fariseus e escribas, aparece a ambivalência inerente à natureza da sabedoria. De um lado, os fariseus e os escribas que controlam e dominam; do outro lado, Jesus resiste e liberta.

Sua maneira de ensinar por meio de parábolas e de transmitir conhecimento

Como os sábios, Jesus tinha uma capacidade enorme para comparar as coisas de Deus com as coisas da vida do povo. As parábolas provocam e levam as pessoas a refletir sobre a sua própria experiência, e fazem com que esta experiência as leve a descobrir Deus presente na vida. A parábola muda o olhar.

Sua atitude frente à Lei de Deus

Como os levitas, Jesus quer que as pessoas ultrapassem a letra e percebam o objetivo da lei é (Mt 7,12; Mc 12,29-31), Aos que identificavam a vontade de Deus com a letra da Lei, ele dizia: “Antigamente foi dito, mas eu digo” (Mt 5,21-22.27-28.31-34.38-39.43-44). Para Jesus a torah quer o bem-viver do povo: “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10)

Sua atitude frente às práticas e tradições religiosas

Como os profetas, Jesus não permite que as tradições religiosas desviem o povo da verdadeira experiência de Deus e da vida. Ele mostra grande liberdade frente aos costumes religiosos: esmola (Mt 6,1-4), formas de rezar (Mt 6,5-15), jejum (Mt 6,16-18), práticas da pureza legal (Mc 7,1-23), observância do sábado (Mc 2,23-28), comunhão de mesa com pagãos e pecadores (Mc 2,15-17), Templo (Mc 11,15-17). Ele chegou a dizer que Deus pode ser adorado em qualquer lugar contanto que seja em espírito e verdade (Jo 4, 21-24).

Sua atitude frente às pessoas de outra raça e religião

Como os sábios, Jesus não se fecha dentro da sua própria raça e religião, mas sabe reconhecer as coisas boas que existem nas pessoas de outra raça e religião. Ele acolhe lições da parte deles: da Cananéia (Mt 15,27-28), da Samaritana (Jo 4,31-38) e até dos Romanos (Mt 8,5-13).

Sua atitude frente ao povo, sobretudo frente aos pobres

Como os profetas, Jesus defende os direitos dos pobres e reconhece neles a sabedoria de Deus (Mt 11,25-26). Bondade, ternura e simplicidade são a característica do jeito com que Jesus acolhe as pessoas: o velho Zaqueu (Lc 19,1-10), as mães com crianças (Mt 19,13-14), o leproso que grita à beira da estrada (Mt 8,2; Mc 1,40-41), o paralítico de 38 anos (Jo 5,5-9), o cego de nascimento na praça do templo (Jo 9,1-13), a mulher curvada na sinagoga (Lc 13,10-13), a viúva de Naim (Lc 7,11-17), as crianças em todo canto (Mt 21,15-16), e tantas e tantas outras pessoas. É o contrário da atitude dos fariseus e escribas chamavam o povo de ignorante e maldito e achavam que o povo não tinha nada para ensinar a eles (Jo 7,48-49; 9,34)

As dimensões do Bem-Viver no Reino de Deus

Este testemunho de Jesus era amostra e semente do Bem-Viver do Reino, trazida por ele da parte de Deus. Os doutores ensinavam que o Reino só viria como fruto da observância da lei. Jesus dizia: “O Reino já está presente no meio de vocês!” (Lc 17,21). Jesus realiza a esperança do povo através de uma prática que revela os vários aspectos ou dimensões do bem-viver no Reino de Deus.

1. Jesus refaz o relacionamento humano na base

Numa época em que a religião oficial insistia no espaço sagrado do Templo e nas coisas ligadas ao culto, Jesus recupera a dimensão caseira da fé. O ambiente da Casa exerce um papel central na vida e na atividade de Jesus. Quando se fala em casa, não se trata só da casa de tijolos ou de pedra, nem só da família pequena, mas também e sobretudo do clã, da comunidade. Até à idade de trinta anos, Jesus viveu no ambiente comunitário e caseiro lá em Nazaré. Durante os três anos que andou pela Galiléia ele entrava e vivia nas casas do povo. Entrou na casa de Pedro (Mt 8,14), de Mateus (Mt 9,10), de Jairo (Mt 9,23), de Simão o fariseu (Lc 7,36), de Simão o leproso (Mc 14,3), de Zaqueu (Lc 19,5). O oficial reconhece: “Não sou digno de que entres em minha casa” (Mt 8,8). E o povo procurava Jesus na casa dele (Mt 9,28; Mc 1,33; 2,1; 3,20). Quando ia a Jerusalém, Jesus parava em Betânia na casa de Marta, Maria e Lázaro (Jo 11,3.5.45; 12,2). No envio dos discípulos e discípulas a missão deles é entrar nas casas do povo e levar a paz (Mt 10,12-14; Mc 6,10; Lc 10,1-9).

2. Recupera a dimensão sagrada e festiva da Casa

Jesus, sua mãe e todos os discípulos participam da festa de casamento em Caná (Jo 2,1-2). Jesus aceita convite para almoçar e jantar nas casas do povo: de Simão o leproso (Mc 14,3), de Simão o fariseu (Lc 7,36), de Marta e Maria (Jo 12,2), de um outro fariseu (Lc 11,37; 14,12). É na sala superior da casa de um amigo que Jesus celebrou a última páscoa com seus amigos (Mt 26,18-19). Envia os discípulos e discípulas para reconstruir o clã nas aldeias da Galiléia nas quatro bases da vida comunitária: hospitalidade, partilha, comunhão de mesa e acolhida aos excluídos (Lc 10,1-9). Depois da ressurreição, Jesus entrou em casa com os dois discípulos em Emaús e foi reconhecido por eles no gesto tão caseiro da fração do pão (Lc 24,29-30).

3. Reconstrói a vida comunitária nos povoados da Galiléia

Como explicar as palavras duras em que Jesus diz literalmente: “Se alguém vem a mim, e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, irmãos, irmãs, e até mesmo à sua própria vida, esse não pode ser meu discí­pulo” (Lc 14,26). No antigo Israel, o clã, isto é, a família ampliada, a comunidade, era a base da convivência social. Era a garantia de vida para uma pessoa: garantia a terra, a proteção, a defesa, os relacionamentos, as tradições que davam identidade a uma pessoa. Era a maneira concreta do povo daquela época encarnar o amor a Deus e ao próximo. Defender o clã era o mesmo que defender a Aliança entre Deus e o povo. Mas na época de Jesus, devida à política dos romanos e ao sistema da religião oficial, a vida comunitária estava sendo desintegrada. Mais da metade do orçamento familiar ia para os impostos, taxas, tributos, dízimos. Tais políticas excludentes geravam doentes, famintos, marginalizados, viúvas, órfãos, possessos, pobres. Esta situação levava as famílias a se fecharem sobre si mesmas, impossibilitadas de exercer seu dever de goêl, de ajuda desinteressada aos parentes do mesmo clã ou comunidade. A própria família de Jesus queria impedir que Jesus se reocupasse com os outros e queriam levá-lo de volta para Nazaré. Jesus reage e não quer saber: “Quem é minha mãe e meus irmãos? É todo aquele que faz a vontade do Pai que está nos céus” (Mc 3,34-35) Jesus alarga a família, reconstrói o clã, a comunidade. Ele quer evitar que as famílias se fechem sobre si mesmas e, assim, desintegrem a vida do clã, da comunidade.

4. Cuida dos doentes e acolhe os excluídos

O primeiro trabalho de Jesus foi cuidar de doentes (Mc 1,32). Os enfermos, por causa de sua doença considerada um castigo divino, eram afastados do convívio social, perambulando pelas ruas, aguardando uma esmola. Ao voltar-se para os doentes, Jesus assumiu um lado da sociedade de seu tempo. Assumiu conscientemente uma marginalização social, a ponto de já não poder entrar nas cidades (Mc 1,45). Jesus anuncia o Reino para todos! Não exclui ninguém. Mas o anuncia a partir dos ex­cluídos. Ele oferece um lugar aos que não tinham lugar na convivência humana. Com amor e carinho acolhe os que não eram acolhidos. Recebe como irmão e irmã aos que a religião e o governo despre­zavam e excluíam: os imorais: prostitutas e pecadores(Mt 21,31-32; Mc 2,15; Lc 7,37-50; Jo 8,2-11); os hereges: pagãos e samaritanos (Lc 7,2-10; 17,16; Mc 7,24-30; Jo 4,7-42); os impuros: leprosos e possessos (Mt 8,2-4; Lc 11,14-22; 17,12-14; Mc 1,25-26); os marginalizados: mulheres,crianças e doentes (Mc 1,32; Mt 8,17;19,13-15; Lc 8,2s); os colaboradores: publicanos e soldados (Lc 18,9-14;19,1-10); os pobres: o povo da terra e os pobres sem poder (Mt 5,3; Lc 6,­20.­24; Mt 11,25-26).

5. Recupera igualdade homem e mulher

Jesus soube acolher e dar continuidade à resistência das mulheres contra a sua exclusão. A moça prostituída é acolhida e defendida por Jesus contra o fariseu (Lc 7,36-50). A mulher encurvada é acolhida por Jesus como filha de Abraão contra o dirigente da sinagoga (Lc 13,10-17). A mulher impura é acolhida sem censura e curada (Mc 5,25-34). A Samaritana, desprezada como herética, é a primeira pessoa a receber o segredo de que Jesus é o Messias (Jo 4,26). A mulher estrangeira de Tiro e Sidônia é atendida por ele (Mc 7, 24-30). As mães com filhos pequenos que enfrentam os discípulos são acolhidas e abençoadas por Jesus (Mt 19,13-15; Mc 10,13-16). As mulheres, que desafiaram o poder e ficaram perto da cruz de Jesus (Mt 27,55-56.61), foram as primeiras a experimentar a presença de Jesus ressuscitado (Mt 28,9-10). Maria Madalena, considerada possessa, mas curada por Jesus (Lc 8,2), recebeu a ordem de transmitir a Boa Nova da ressurreição aos apóstolos (Jo 20,16-18). As mulheres fazem parte da comunidade de discípulos que se forma ao redor de Jesus (Lc 8,1-3; Mc 15,40-41).

6. Vai ao encontro das pessoas

No lugar de encerrar-se numa sinagoga ou numa escola e exercer o poder de um escriba, Jesus rompe este esquema, tornando-se um pregador ambulante. Onde encontra gente para escutá-lo, ele fala e transmite a Boa Nova de Deus. Em qualquer lugar. Nas sinagogas durante a celebração da Palavra nos sábados (Mc 1, 21; 3,1; 6,2). Em reuniões informais nas casas de amigos (Mc 2,1.15; 7,17; 9,28; 10,10). Andando pelo caminho com os discípulos (Mc 2,23). Ao longo do mar, à beira da praia, sentado num barco (Mc 4,1). No deserto para onde se refugiou e onde o povo o procura (Mc 6,32-34). Na montanha, de onde proclama as bem-aventuranças (Mt 5,1). Nas praças das aldeias e cidades, onde povo carrega seus doentes(Mc 6, 55-56). Mesmo no Templo de Jerusalém, nas romarias, diariamente, sem medo (Mc 14,49)! Ele vai ao encontro das pessoas, estabelecendo com elas uma relação direta através da prática do acolhimento. Antes de propor ou expor um conteúdo básico doutrinário, Jesus propõe um caminho de vida. A resposta é seguir Jesus neste caminho: “Venham para mim todos vocês que estão cansados de carregar o peso do seu fardo, e eu lhes darei descanso, …aprendam de mim…” (Mt 11,28-30).

7. Supera as barreiras de gênero, religião, raça e classe

Jesus supera as barreiras de gênero, de religião, de raça e de classe. Ele acolhe e conversa com Nicodemos (Jo 3,1), que era um membro da alta classe judaica, com assento no Sinédrio. Acolhe e conversa com uma mulher samaritana (Jo 4,7). Com esta mulher, Jesus consegue estabelecer um diálogo construtivo, superando uma das mais difíceis barreiras, a religião. Para a samaritana Jesus era um judeu (Jo 4,9), ou seja, um inimigo religioso, opressor dos samaritanos. Pacientemente, Jesus teve que, desarmar a samaritana e dizer: “Mulher, eu sou judeu, mas não sou teu inimigo!”. Para estabelecer um diálogo com ela, Jesus começa a conversa revelando uma carência que só poderia ser saciada com o trabalho daquela mulher: “Dá-me de beber!” Revelar uma carência é uma boa maneira de estabelecer um diálogo! O longo diálogo entre Jesus e a samaritana mostra o quanto Jesus estava aberto para a presença das mulheres em seu grupo. Contrariando um grande número de rabinos, que não aceitavam mulheres em seus grupos de estudo, sabemos que muitas mulheres seguiam Jesus (Mc 15,41; Lc 8,2-3). O texto de João mostra que os próprios discípulos ficam surpresos com o diálogo de Jesus com a samaritana (cf. Jo 4,27). Aceitar as mulheres em igualdade dentro do grupo não deve ter sido fácil para os discípulos (Lc 24,11).

Todas estas atitudes de Jesus revelavam a experiência de Deus que o animava por dentro. Ele irradiava uma nova imagem de Deus em aberto contraste com a concepção de Deus que se expressava nas atitudes e na estrutura religiosa oficial da época. Jesus é um leigo que não estudou na escola oficial. Mas o povo reconhecia que nele existe sabedoria (Mc 6,2) e ficava impressionado com o jeito que Jesus tinha de ensinar: “Um novo ensinamento! Dado com autoridade! Diferente dos escribas!” (Mc 1,22.27). Por isso foi perseguido pelas autoridades. Como Jó aos olhos dos três amigos, assim Jesus aos olhos dos escribas e fariseus, era um homem sem Deus (Jo 9,16), contrário ao Templo e à Lei de Deus (Mt 26,61).

Os títulos de Jesus: um novo caminho para construir o Bem-Viver

Foi esta a Boa Nova que Jesus viveu e irradiou durante os três anos que andou pela Galiléia anunciando o Reino de Deus. Sua mensagem desagradou aos poderosos e eles o prenderam, condenaram e mataram na cruz. Mas Deus o ressuscitou, confirmando-o diante dos discípulos por meio de muitas aparições (1Cor 15,3-8).

Animados pelo Espírito de Jesus no dia de Pentecostes (At 2,1-4; Jo 20,21-23), os discípulos deram continuidade ao anúncio da Boa Nova do Reino. A força que os sustentava no anúncio da Boa Nova está expressa neste testemunho do apóstolo Paulo: “Vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Jesus era tudo para eles!

Para aprofundar e expressar quem era Jesus para eles, conservavam e divulgavam títulos, nomes e atributos. Só no Novo Testamento mais de cem! Cada título era uma tentativa para revelar algum aspecto da riqueza que Jesus significava para a vida deles. Os três títulos mais antigos de Jesus estão nesta frase: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate para muitos“ (Mc 10,45). Os três vêm do Antigo Testamento: Filho do Homem, Servo de Deus e Redentor (resgate) dos irmãos. Cada título revela um determinado aspecto da riqueza que esclarece o caminho que conduz ao Bem-Viver do Reino.

Filho do homem

Filho do Homem é o título que Jesus mais gostava de usar. Aparece mais de 80 vezes só nos quatro evangelhos! A expressão Filho do Homem vem dos profetas Ezequiel e Daniel. Em Ezequiel, a expressão “filho do homem” ocorre 93 vezes e acentua a condição humana do profeta. No livro de Daniel a expressão Filho do Homem ocorre na visão dos grandes impérios do mundo (Dn 7,1-28). Os impérios são apresentados sob a figura de animais (Dn 7,4-8), pois são animalescos; desumanizam a vida, “animalizam” as pessoas. O Reino de Deus é apresentado, sob a figura de um ser humano, de um Filho do Homem (Dn 7,13). O Filho do Homem, o povo de Deus, não se deixa desumanizar nem enganar pela ideologia dominante dos reinos animalescos. A sua missão consiste em realizar o Reino de Deus como um reino humano, reino que não persegue a vida, mas sim a promove! Humaniza as pessoas.

Apresentando-se aos discípulos como Filho do Homem, Jesus assume como sua esta missão humanizadora. É como se dissesse: “Venham comigo! Esta missão é de todos nós! Vamos juntos realizar a missão que Deus nos entregou, e realizar o Reino humano e humanizador que ele sonhou!” E foi o que Jesus fez e viveu durante toda a sua vida, sobretudo, nos últimos três anos. Ele foi tão humano, mas tão humano, como só Deus pode ser humano. Quanto mais humano, tanto mais divino! Quanto mais “filho do Homem” e tanto mais “filho de Deus!” Tudo que desumaniza as pessoas, afasta de Deus. É humanizando que se constrói o Bem-Viver do Reino de Deus.

Servo de Deus

Este título vem de uma profecia de Isaías, na qual o futuro Messias é apresentado como Servo de Deus (Is 42,1-9). No tempo de Jesus, alguns esperavam um Messias Rei (Mc 15,9.32); outros, um Messias Santo ou Sumo Sacerdote (Mc 1,24); outros, um Messias Guerrilheiro (Lc 23,5; Mc 13,6-8), Messias Doutor (Jo 4,25), Messias Juiz (Lc 3,5-9), Messias Profeta (Mc 6,4; 14,65). Apesar das diferenças, todos eles esperavam um messias glorioso que fizesse o povo de Deus ser grandioso no meio dos povos. Só os pobres esperavam o Messias Servidor, anunciado pelo profeta Isaías (Is 42,1; 49,3; 52,13), e encaravam a missão do povo de Deus, não como um domínio, mas como um serviço à humanidade. Maria, a pobre de Javé, dizia ao anjo: “Eis aqui a serva do Senhor!” Foi dela e dos pobres que Jesus aprendeu o caminho do serviço.

Este povo-servo é descrito como aquele que “não grita, nem levanta a voz, não solta berros pelas ruas, não quebra a planta machucada, nem apaga o pavio de vela que ainda solta fumaça” (Is 42,2). Perseguido, não persegue; oprimido, não oprime. Nele o vírus da violência opressora dos impérios não consegue penetrar. A atitude resistente do Servo de Javé marcou a vida de Jesus. Isaías diz do Servo “Com fidelidade ele promove o direito, sem desanimar nem desfalecer, até estabelecer o direito sobre a terra”(Is 42,4).  Jesus percorreu o caminho do serviço até o fim, até as últimas conseqüências. Ele definiu sua missão: “Não vim para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45). Ele não veio para implantar uma nova religião, mas para trazer a dimensão de serviço para todas as religiões. É humanizando e servindo que se constrói o Bem-Viver do Reino de Deus.

Redentor dos irmãos

Jesus inicia a sua pregação proclamando um novo jubileu, um “Ano de Graça da parte do Senhor” (Lc 4,19). O objetivo do Ano Jubileu era restabelecer os direitos dos pobres, acolher os excluídos, reintegrá-los na convivência e, assim, voltar ao sentido profundo e original da Lei de Deus. Um dos meios para levar a bom termo o Ano Jubileu era a lei do “Resgate” (Goêl, Redentor) (Lv 25,23-55). Jesus é o Goêl, o redentor dos irmãos, que veio pagar o resgate, para que nós pudéssemos ser libertados da escravidão e recuperar a vida em comunidade. Muita gente era marginalizada em nome da Lei de Deus. Jesus, a partir da sua experiência de Deus, denuncia esta situação que esconde o rosto de Deus para os pequenos (Mt 23,13-36). Como redentor (goêl), irmão mais velho, ele oferece um lugar aos que não tinham lugar. Acolhe os que não eram acolhidos e recebe como irmão aqueles que a religião e o governo desprezavam e excluíam (Mc 3,34). Não tendo dinheiro para pagar o resgate, ele se entregou a si mesmo, seu corpo e seu sangue, para que todos pudessem viver em fraternidade (1Cor 11,23-26; Mc 14,22-24; Lc 22,20).

Jesus, o Redentor dos irmãos! Este talvez seja o título mais antigo para expressar o que Jesus significa para nós. O termo hebraico goêl é tão rico que não tem tradução unívoca na nossa língua: redentor, salvador, libertador, defensor, advogado, consolador, paráclito, parente próximo, irmão mais velho. São Paulo o definiu tão bem na carta aos Gálatas: “Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim. E esta vida que agora vivo, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). . É humanizando, servindo e acolhendo que se constrói o Bem-Viver do Reino de Deus.

Resumindo.  Foi através da janela destes três títulos, que os primeiros cristãos transmitiam o significado de Jesus para as suas vidas. O Filho do Homem se caracteriza pela humanidade; o Servo de Deus, pelo serviço; o Redentor, pela acolhida aos excluídos. Humanizar, Servir, Acolher. São os três traços principais por onde Deus nos mostra o seu rosto em Jesus. Indicam também o caminho mais tradicional para construir o Bem-Viver.

Assim se inicia a reversão da desintegração iniciada com Adão que culminou na confusão da Torre de Babel:

*  A confusão das línguas da Torre de Babel começou a ser superada no dia de Pentecostes

*  A desintegração do Dilúvio causa pela magia começou a ser superada pela força da fé renovada

*  A violência 70×7 de Lameque começou a ser superada pelo perdão 70×7 de Jesus

*  A morte da fraternidade causa por Caim começou a ser superada pelo amor ao próximo de Jesus

*  A alienação de Deus causada por Adão e Eva é superada por Jesus que morre e ressuscita em Deus

7. A Fraternidade Universal sem servos

Dizia a carta do CIMI: “Lutamos como servos para que ninguém precise ser servo”. É o mesmo que lutar pela fraternidade universal: todos serem irmão e irmã uns dos outros, sem dominação, sem privilégios sem prestígios. Os dois últimos capítulos do Apocalipse retomam o mito do Paraíso e descrevem os vários aspectos desta fraternidade universal, expressão máxima do bem viver no Reino de Deus, que é apresentado como:

*   um novo Paraíso Terrestre e uma nova Criação: novo céu, nova terra

No primeiro paraíso, havia um rio que irrigava tudo e dava fertilidade à terra (Gn 2,10-14). No novo paraíso, a cabeceira do rio é o trono de Deus (Ap 22,1). Suas águas irrigam a terra e fazem crescer muitas árvores da vida, que dão fruto doze vezes por ano (Ap 22,2)! Até suas folhas curam as nações (Ap 22,2). Agora só existe vida em abundância, para todos! (cf. Jo 10,10) As maldições antigas (Gn 3,14-19) desapareceram (Ap 22,3). Não haverá mais morte, nem luto, nem grito, nem dor (Ap 21,4)! Ele dá de beber da fonte das águas da vida (Ap 21,6).

Um novo céu e uma nova terra (Ap 21,1). O mar, símbolo do mal, já não existe (Ap 21,1). Na primeira cria­ção, Deus iniciou seu trabalho criando a luz (Gn 1,3). Mas sobrou a escuridão (Gn 1,5). Na nova criação, a escuridão, já não existe (Ap 21,25; 22,5). Tudo é luz! O próprio Deus brilha sobre o seu povo (Ap 22,5). Jesus, o Cordeiro, é a lâmpada que ilumina tudo (Ap 21,23). Das coisas antigas nada sobrou (Ap 21,1.4). O mundo antigo deixou de existir. A utopia tornou-se realidade! E Deus proclama: “Faço novas todas as coisas!” (Ap 21,5)

O céu desceu sobre a terra (Ap 21,2), transformada para sempre na Morada de Deus (Ap 21,3). Deus é a fonte da vida (Ap 21,6; 22,1), o princípio e o fim de tudo (Ap 21,6). Javé, Deus conosco, Deus libertador. Deus na sua ternura infinita enxugará toda lágrima dos nossos olhos (Ap 21,4.7)! No futuro que Deus oferece, não haverá mais necessidade de sol, nem de lua, nem de lâmpada (Ap 21,23; 22,5). Como a luz do sol que ilumina tudo, assim será a presença amiga de Deus! A sua glória iluminará o seu povo (Ap 21,23) e brilhará sobre ele (Ap 22,5). E todos, para sempre, contemplarão a sua face (Ap 22,4). O lugar de Deus não é no céu, mas sim no coração da humanidade!

*   uma festa de casamento, união definitiva com Deus

A cidade de Deus é uma noiva, bonita, toda enfeitada para o seu marido (Ap 21,2). O seu esposo é o Cordeiro (Ap 21,9). Ela é a Filha de Sião, a Mulher, símbolo da humanidade, que lutou contra a morte e contra o Dragão (Ap 12,1-6). A noiva, o povo, a humanidade, se prepara para a união definitiva com Deus, para o casamento com o Cordeiro (Ap 19,7.9; 21,9), anunciado por Isaías: “O teu esposo será o teu Criador!” (Is 54,5). “Como a alegria do noivo pela sua noiva, tal será a alegria que o teu Deus sentirá em ti!” (Is 62,5)  É a festa final da caminhada!

Ela desce do céu, de junto de Deus (21,2.10), enfeitada com pedras preciosas de todos os tipos (Ap 21,19-21). Nela tudo é perfeito: o comprimento, a largura, a altura, as muralhas, as portas, os alicerces (Ap 21,14-19). A sua praça principal é de ouro puro, como vidro transparente (Ap 21,21). As suas portas estão sempre abertas (Ap 21,25). As riquezas das nações são trazidas para dentro (Ap 21,26). Não há perigo de roubo, pois nela não existe mais nada de impuro ou de mentiroso  (Ap 21,27). Jerusalém deixou de ser capital de um povo ou centro de uma religião para tornar-se o coração da humanidade renovada. Ela é uma cidade aberta, ecumênica (Ap 21,24-26).

*   um novo Êxodo, uma nova Fraternidade universal Deus, Ele mesmo, tudo em todos!

Como na saída do Egito, Deus vem morar com o seu povo, estende sobre ele a sua tenda (Ap 21,3) e pronuncia as palavras da Aliança: Eu serei o seu Deus, e vocês serão o meu povo! (Ap 21,3) E a cada um em particular ele diz: Eu serei o seu Deus e você será o meu filho (Ap 21,7). A Aliança é com o povo todo e com cada um em particular. É a perfeita harmonia! Ninguém se perde no anonimato da massa que aliena, nem no individualismo de uma fé que só pensa em si. O povo da Aliança já não será um povo separado dos outros povos, mas será a própria humanidade. Ela será a tenda de Deus com os homens. É o ecumenismo finalmente realizado!

A organização fraterna, iniciada no deserto com o recenseamento das doze tribos (Nm 1 a 4), aparece aqui em sua plenitude. O número doze está em todo canto. É a marca registrada da nova criação: doze portas, doze anjos, doze tribos, doze alicerces, doze apóstolos, doze mil estádios, doze vezes doze côvados, doze tipos de pedras preciosas, doze colheitas ao ano (Ap 21,12-21; 22,2). É a organização perfeita na qual já não há corrupção, nem assassinato, nem impureza, nem magia, nem culto aos falsos deuses, nem mentira (Ap 21,8.27). É a nova humanidade reconciliada consigo mesma, com a natureza, com o universo, com Deus. É o Bem-Viver completo.

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