BÍBLIA E O MÉS DA BÍBLIA. Por Padre Waldemir Santana

BÍBLIA E O MÉS DA BÍBLIA. Por Padre Waldemir Santana, da Arquidiocese da Paraíba

A Bíblia é uma fonte de inspiração para todos os cristãos. É uma fonte perene para quem está com sede de encontrar uma razão para viver e continuar lutando por um outro mundo possível. Por isso, a Igreja católica dedica todo o mês de setembro a Palavra de Deus. Desde de 1971, acontece o mês da Bíblia. A razão para que seja este mês é simbólica, pois, no dia 30 de setembro celebramos a memória de São Jerônimo que é o padroeiro de todos aqueles que se dedicam ao estudo da Palavra de Deus.

A finalidade do mês da Bíblia é fazer com que as comunidades cristãs tenham um maior aprofundamento da palavra revelada em seu cotidiano e na sua vivência diária comunitária. A Bíblia é o livro da Igreja, por isso, ela testemunha a presença do Deus vivo na caminhada do povo rumo a terra onde jorra leite e mel, justiça e vida em abundância para todos. A caminhada de um povo pelas estradas da vida não é nada fácil, há obstáculos, desafios, percalços. Por isso, bebendo dessa fonte salvadora, o povo de Deus irá haurir dessa fonte determinação e intrepidez para lutar pela implementação dos valores do Reino. Ela é a água viva que sacia a nossa sede de justiça e paz, por isso, como diz um canto das comunidades de base, “ela é a semente do povo que ensina a viver no mundo novo.” Como fonte de inspiração, ela nos leva ao encontro de Jesus Cristo na caminhada da comunidade.

A Bíblia é a Palavra de Deus, mas não esgota toda palavra de Deus. Há uma única palavra de Deus, dentro da qual encontramos a palavra de Deus escrita, profundamente ligada a palavra de Deus transmitida, anunciada e proclamada no interior da humanidade e da comunidade dos fiéis. A palavra de Deus não pode ser reduzida ao texto escrito, como se fosse uma espécie uma história da literatura ou um fóssil a ser estudado por especialistas. Ela não é um baú que guarda coisas antigas, se assim fosse seria algo inerte, morto. Como disse o escritor Georges Bernanos, “a bíblia não é uma múmia do Egito a ser conservada em óleo.” Ela é uma realidade viva, uma semente fecunda que vai além da própria semente. Comentando, o livro do profeta Ezequiel, o grande São Gregório Magno asseverou: “Scriptura cum legend crescit” (A Escritura cresce com quem a Lê). O leitor da palavra de Deus, além de se enriquecer com o testemunho dos nossos antepassados, torna-se ele mesmo parte dessa tradição. Ler para vivenciar, isto é, colocar em prática. É atribuída a São Francisco uma exortação que ele fez a um dos seus confrades: “lembre-se que você será o único evangelho que muita gente vai ler.” O testemunho é a prova que a palavra de Deus está viva em nossas vidas.

A bíblia é uma carta de Deus a humanidade, mediante as páginas da Escritura Deus nos fala, nos exorta, nos encoraja diante dos enfrentamentos da história, mas também nos consola quando as forças do mal nos tendem a nos destruir. Cada homem e mulher tem uma abertura ao infinito de Deus, tem sede e fome de verdade, de felicidade. Na caminhada das comunidades Deus se apresenta como a base segura onde podemos construir nosso edifício existencial. A Palavra de Deus, é o porto seguro onde podemos ancorar o barco da nossa existência diante das ondas revoltas da história. Por isso, precisamos lê-la, relê-la e conformar nossas vidas aos seus ensinamentos.

A Bíblia marca a vida das nossas comunidades e continuará a marcar até o fim dos tempos. Ela contém a mensagem de Deus para todos os momentos das nossas vidas. Essa palavra não traz consigo somente o poder de Deus, ela não é somente palavras e sons, mas ela realiza aquilo que expressa, como diz uma famosa passagem do livro do profeta Isaías:” Como a chuva e a neve não descem do céu, e para lá, não voltam, sem terem regado a terra, tornando-a fecunda e fazendo-a germinar, dando semente ao semeador e pão ao que com, tal ocorre com a palavra que sai da minha boca: ela não voltará a mim sem efeito; sem ter cumprido o que eu quis e realizado o objetivo de sua missão (Is 55, 10-11).

O mês de setembro que é dedicado a bíblia é uma fonte de reflexão e de inspiração singular para todos os cristãos comprometidos com a causa da libertação dos oprimidos por um capitalismo sórdido. A espiritualidade bíblica que é de caráter auditivo (Fidei ex auditu) nos oferece um quadro profundamente humanizador para todas as pessoas de boa vontade. Quando ela é lida com o espelho da fé, e não como manual dogmático, nem código de comportamento, ela nos interpela fundamentalmente a maneira como nós vivemos nesse mundo. Ela está arraigada na experiência humana no seu desdobramento, e não simplesmente reduzida a um manual histórico de mero conhecimento teórico.

A Bíblia podemos dizer que é uma semente. Toda semente é carregada de informações e não apenas o que ela indica. É que atrás da palavra, existe a experiência. É isso o mais importante. As palavras carregam experiências profundas. Experiências que nossos antepassados na fé viveram e depois traduziram para uma palavra, que vai carregando essa experiência. Assim é a Biblia, um longo tapete que vai se desenrolando um pouco por vez, a começar pelo gênesis até o Apocalipse. A bíblia contém a revelação de Deus, e a revelação é um processo pedagógico que mostra que Deus vai se revelando aos poucos.

Neste ano a Igreja propõe a carta de São Paulo aos Romanos, para reflexão dos cristãos neste mês de setembro. Esta carte é considerada pela maioria dos estudiosos de autoria de São Paulo. Não é possível perceber nitidamente seu objetivo específico por isso, há várias hipóteses.  A primeira era que Paulo deseja ir a Jerusalém levar a coleta para os pobres (Rm 15,30-31), o que não só era um gesto de solidariedade, mas também de comunhão entre as comunidades gentílicas e a Igreja-mãe Jerusalém. Trata-se de uma carta serena, como se fosse um grande testamento espiritual e exegético, no qual o apóstolo relê as Escrituras dentro do quadro cultural envolvente. Ela é uma reflexão mais amadurecida e com uma fundamentação mais aprofundada.

Está à disposição de todas as comunidades subsídios que ajudarão na reflexão sobre a beleza e a importância dessa carta, para corrigirmos falsas interpretações que vigoram neste tempo de extremismo religioso.

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