Poema “Velha Maria, vais morrer”, de Che Guevara (Argentina, 1928-1967)
Narração: Carmem Imaculada de Brito
Poema “Velha Maria, vais morrer”, de Che Guevara (Argentina, 1928-1967)
Poucos sabem que o grande lutador revolucionário Che Guevara escreveu poesias. Numa carta ao poeta León Felipe se diz mesmo um “poeta frustrado”. As exigências históricas o fizeram mais líder e lutador do que poeta mas, mesmo assim, Guevara nos legou alguns poemas que não deixam a desejar em sua qualidade poética. Che lia poesia desde sua adolescência. Era notória sua fama dentre os guerrilheiros de grande leitor. Todos temiam quando Che ia para a linha de frente, porque alguém teria que carregar sua mochila muito pesada, cheia de livros. À noite, ao redor da fogueira, enquanto outros dormiam, durante os poucos descansos, era comum encontrar Che perdido entre páginas, lendo incansavelmente. Chana, amiga campesina, dizia que Che, nesses momentos, “ficava caladinho, meio ido, com a cara muito sua vizinha e como se estivesse em outro mundo”. Em vários outros momentos, Che falava nas rodas aos soldados e campesinos de Victor Hugo, Rubén Dario, Tagore, Neruda. Um jovem de catorze anos, chamado Acevedo, se surpreendeu ao fuçar os livros na mochila de Che: “Não havia Mao, nem Stalin, e sim o que eu menos esperava, ‘Um ianque na corte do Rei Arthur’”, livro do escritor norte-americano Mark Twain. Che não leu só os escritores sociais ou mais politizados, mas também se apropriou dos clássicos. Quando foi capturado na Bolívia, acharam em sua mochila, além do diário da guerrilha, um caderno verde em que Che vinha transcrevendo suas poesias prediletas há 10 anos. Era uma antologia pessoal de poesias que contava com poemas de Nicolás Guillén, Neruda, César Vallejo e León Felipe. Essa energia despendida com a poesia em meio à guerrilha é mais um elemento para quebrar as caricaturas que nos apresentam de Che, construídas à direita ou à esquerda.
Velha Maria, vais morrer – de Che Guevara
Velha Maria, vais morrer:
Quero falar contigo seriamente.
Tua vida foi um rosário completo de agonias,
não houve homem amado, nem saúde, nem dinheiro,
apenas a fome para ser compartilhada;
quero falar de tua esperança,
das três distintas esperanças
que tua filha fabricou sem saber como.
Toma esta mão que parece de menino
nas tuas polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e teus nós puros dos dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.
Escuta, avó proletária:
crê no homem que chega,
crê no futuro que nunca verás.
Não rezes ao deus inclemente
que por toda uma vida desmentiu tua esperança;
não peças clemência à morte
para ver crescer tuas carícias pardas;
os céus são surdos e em ti manda o escuro,
sobretudo terás uma vermelha vingança,
juro pela exata dimensão de meus ideais.
Todos os teus netos viverão a aurora,
morre em paz, velha lutadora.
Vais morrer, velha Maria:
trinta projetos de mortalha
dirão adeus com o olhar
num destes dias em que te vás.
Vais morrer, velha Maria:
ficarão mudas as paredes da sala
quando a morte se conjugue com a asma
e copulem seu amor em tua garganta.
Essas três carícias construídas de bronze
(a única luz que alivia a tua noite),
esses três netos vestidos de fome,
chorarão os nós destes dedos velhos
onde sempre encontravam algum sorriso.
E isso será tudo, velha Maria.
Tua vida foi um rosário de magras agonias,
não houve homem amado, saúde, alegria
apenas a fome para ser compartilhada.
Tua vida foi triste, velha Maria.
Quando o anúncio do descanso eterno
suavize a dor de tuas pupilas,
quando tuas mãos de perpétua faxineira
absorvam a última ingênua carícia,
pensas neles… e chora,
pobre velha Maria!
Não, não o faças!
Não ores ao deus indolente
que toda uma vida desmentiu a tua esperança,
nem peças clemência à morte,
que tua vida foi horrivelmente vestida de fome,
acaba vestida de asma.
Mas quero anunciar-te,
na voz baixa e viril das esperanças,
a mais vermelha e viril das vinganças.
Quero jurá-lapela exata
dimensão de meus ideais.
Toma esta mão de homem que parece de menino
nas tuas polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e teus nós puros dos dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.
Descansa em paz, velha Maria,
descansa em paz, velha lutadora:
todos os teus netos viverão a aurora.
EU JURO!
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Fonte: https://edicoestrunca.wixsite.com/trunca/post/velha-maria-che-guevara-1
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