“PRA QUE TANTO LUXO?!” SINAL DO ABISMO DA DESIGUALDADE SOCIOECONÔMICA – Por frei Gilvander Moreira[1]

Volta e meia notícias nos sacodem e, como um raio que antecede um grande trovão, nos mostram as vísceras de uma sociedade capitalista que reproduz a desigualdade de mil formas. Uma destas notícias foi veiculada pelo MG1 da TV Globo, que noticiou que dia 16 de janeiro agora, de 2026, a prefeita de Pitangui, pequena cidade de Minas Gerais, e ex-esposa de um ex-governador de MG, foi roubada em área nobre da cidade de Nova Lima, na divisa com Belo Horizonte. Segundo a reportagem “entre os itens levados estão um relógio Rolex, além de duas alianças e um anel de ouro branco com brilhantes.” A Prefeita alegou para a polícia civil que teria sido roubada em um valor em torno de 5,9 milhões de reais em joias. Dia 19 de janeiro de 2026, a prefeita mudou a versão e disse que as joias roubadas valiam só 900 mil reais. Mesmo assim, muito dinheiro, o que caracteriza ainda as joias como luxo. Voltou atrás por quê ou para quê? O valor “real” das joias não sabemos.
Ciente de que quem se omite diante de injustiças se torna cúmplice e acreditando que se uma sociedade perde a ética a ponto de normalizar o que não pode ser normalizado e tolerar o que não pode ser tolerado, diante da notícia acima, temos que perguntar: Como esta pessoa política e empresária conseguiu tantas joias? Para que usar um relógio rolex de luxo? Por que e para que usar “duas alianças de luxo e um anel de ouro branco com brilhantes”? Pra que tanta ostentação e tanto luxo? É justo adquirir tanta riqueza e luxo? Poderíamos citar muitos outros exemplos de pessoas que vivem no luxo ostentando muita riqueza.
Uma das figuras literárias e místicas mais proeminentes na Espanha no século XVI, Teresa d’Ávila, dizia que “Deus está na cozinha entre as panelas”, no pão cotidiano. De fato, faz bem vermos os sinais do Deus da vida nas entranhas da realidade que nos envolve e muitas vezes nos desafia. Sempre antenado com os acontecimentos, Jesus Cristo buscava retirar lições dos sinais dos tempos e dos lugares.
Tanto luxo ofende e violenta milhares de pessoas que sobrevivem com o mínimo do mínimo. Não podemos considerar ético ter e ostentar tanto luxo, pois se for pesquisar a origem de tanto luxo é à custa de muito sangue da classe trabalhadora. Oxalá a polícia consiga resgatar as joias roubadas, mas, além disso, o povo merece explicação sobre as questões levantadas acima. Há indícios de “roubo/furto/apropriação indébita” antes do roubo noticiado pelo MG1.
Esta trágica noticia me fez recordar do saudoso escritor Jorge Amado, responsável como propositor por inscrever na Constituição brasileira o Estado Laico, que garante a liberdade religiosa no Brasil. Jorge Amado lia com criticidade ímpar a realidade brasileira. Ele escreveu: “São os tempos modernos, cunhado, mas não se apoquente: mudam os títulos – coronel é doutor, capataz é gerente, fazenda é empresa -, o resto não muda, riqueza é riqueza, pobreza é pobreza com fartum de desgraça.” E o luxo da elite sempre é à custa de muita miséria, suor e sangue do povo.
Me fez recordar também de Mahatma Gandhi, que dizia: “Olho por olho todos acabaremos cegos…. Você precisa ser a mudança que gostaria de ver no mundo… Todo aquele que possui coisas de que não precisa é um ladrão…Se queremos progredir, não devemos repetir a história, mas fazermos uma história nova… A grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo que seus animais são tratados… Os sete pecados capitais responsáveis pelas injustiças sociais são: riqueza sem trabalho; prazeres sem escrúpulos; conhecimento sem sabedoria; comércio sem moral; política sem idealismo; religião sem sacrifício e ciência sem humanismo… A verdade e a não violência são tão velhas como as montanhas” (Mahatma Gandhi, 28 de fevereiro 1948).
Lembrei também de Gilmar Mauro, histórico militante do MST[2], que disse: “No projeto neoliberal, os pobres do Brasil vivem numa situação semelhante à vida do pobre Lázaro, que come somente as migalhas que caem da mesa do Rico. Assim o bolo da riqueza está na mesa dos poderosos e se nós quisermos sobreviver temos que nos organizar e balançar o pé da mesa para comermos algumas migalhas. Mas quando balançarmos com força, então será a unificação da luta de classe vamos virar a mesa e vai ser um mundo novo com pessoas novas.”
Como de todo mal devemos tirar um bem, a esquisita notícia acima me recordou também de Dom Hélder Câmara, operário incansável da Paz, que repetia: “Independentemente se, analisando a sociedade, Marx tinha ou não razão, o problema que ele levanta continua atual: ‘Por que tantas riquezas geram tanta pobreza e miséria?’… “Gosto de pássaros que se enamoram das estrelas ao voarem em busca da luz…” … “Como podemos andar pelas ruas com o Pão, signo da tua presença, do teu desejo de um mundo novo…indiferentes a crianças e adultos por nós abandonados… Dá-nos, Senhor, a graça de adorar a tua presença no Pão Eucarístico de modo a reconhecer e adorar a tua presença em cada ser humano, sobretudo nos mais excluídos!… Feliz de quem passou pela vida tendo mil razões para viver.” … “Diante do colar me extasiei, mais ainda ao admirar o fio que na sua discrição unia todas as pérolas… Quando assistires ao edifício que está sendo inaugurado, pede pelos andaimes, pois é duro servir de escora e na hora da festa ser retirado como entulho.”
Segundo o novo relatório da Oxfam, divulgado dia 19 de janeiro de 2026, na abertura do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, os 12 bilionários mais ricos do Planeta concentram mais riqueza do que os 4 bilhões de pessoas mais pobres do mundo, o equivalente à metade da população global. O ano de 2025 foi um ano recorde para os super-ricos. Pela primeira vez, o número de bilionários ultrapassou a marca de 3 mil pessoas, enquanto a riqueza total desse grupo chegou a cerca de US$ 18,3 trilhões (aproximadamente R$ 91,5 trilhões), o maior patamar já registrado. Apenas em 2025, esse patrimônio cresceu US$ 2,5 trilhões (R$ 12,5 trilhões) – valor que, segundo a própria Oxfam, seria suficiente para erradicar em todo o mundo a pobreza extrema 26 vezes. Uma em cada quatro pessoas no Planeta Terra enfrenta insegurança alimentar, enquanto quase metade da humanidade vive abaixo da linha de pobreza. O Brasil concentra o maior número de bilionários da América Latina e do Caribe, com 66 pessoas que acumulam juntas cerca de US$ 253 bilhões (aproximadamente R$ 1,26 trilhão).
O Evangelho de Lucas é crítico ferrenho contra a riqueza (Mamon) e os ricos. Já no início do Evangelho, Lucas coloca no cântico de Maria palavras muito radicais: “Ele derruba os poderosos dos seus tronos e levanta os humilhados. Dá fartura aos que têm fome e manda os ricos embora, com as mãos vazias (Lc 1,52-53). Nas Bem-aventuranças, Lucas é o único que, além das esperanças para os pobres, ameaça os ricos: “Ai de vocês que agora são ricos, pois já tiveram a sua vida boa. Ai de vocês que agora têm tudo, pois vão passar fome. Ai de vocês que agora estão rindo, pois vão chorar e se lamentar” (Lc 6,24-25). Em Lc 16,1931, Lucas nos mostra Jesus se posicionou ao lado de Lázaro que mendigava diante do rico epulão.
E nós, combatemos a desigualdade socioeconômica ou estamos sendo cúmplices da elite que se empanturra de riqueza e luxo e vive à custa da dignidade de milhões? Para “nós”, que nos assumimos como cristãos, esta interrogação pesa ainda mais, porque é preciso reconhecer que seguir a prática de Jesus Cristo, Jesus de Nazaré, significa comprometer-se ativamente com a transformação da realidade, combatendo estruturas que geram exclusão e construindo relações sociais justas e fraternas.
[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI e Ocupações Urbanas; autor de livros e artigos. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br – Canal no You Tube: https://www.youtube.com/@freigilvander – No Instagram: @gilvanderluismoreira – Facebook: Gilvander Moreira III – No https://www.tiktok.com/@frei.gilvander.moreira
[2] Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – www.mst.org.br