Jesus conosco nas tempestades da vida (Mt 14,22-33). Por Marcelo Barros 

Jesus conosco nas tempestades da vida (Mt 14,22-33). Por Marcelo Barros 

Marcelo Barros, padre e monge beneditino da Teologia da Libertação

Neste XIX Domingo comum do ano, lemos o evangelho de Mateus 14,22-33. Conforme esse evangelho, depois de alimentar o povo no deserto, Jesus vai orar na montanha e manda os discípulos atravessar o lago para o outro lado. 

                 O pano de fundo desta página é o livro do Êxodo. Lá, depois de celebrar a ceia pascal, o povo hebreu teve de enfrentar o exército do faraó nas águas do mar Vermelho que se abriram para salvar os escravos fugidos e sepultar os opressores. Agora, no evangelho, Jesus realiza um novo Êxodo. Alimenta a multidão como refeição pascal e, depois, manda os discípulos atravessar o mar da Galileia. Na Bíblia, o mar é sempre símbolo das forças do mal. Enfrentar o mar é lutar pela vida. 

O evangelho diz que Jesus mandou (o texto grego chega a sugerir que forçou) os discípulos e discípulas a entrar no barco para atravessar um mar de noite e em tempo de tempestade. Ao ouvir isso, pensamos em tantos pastores, irmãos e irmãs nossos que, nos nossos dias, obedecem a essa ordem de Jesus. Aceitam viver a fé, inseridos nas lutas do mundo e no enfrentamento às tempestades sociais e políticas do país. Pensamos nos irmãos e irmãs que trabalham junto à população de rua, junto a migrantes e a comunidades em situação de riscos.

Infelizmente, ainda há muitos bispos, padres e pastores que não aceitam. Preferem ficar aproveitando o prestígio como se Jesus tivesse aceitado ser um messias milagreiro que multiplica pães e encanta o povo, distraindo-o da sua miséria e suas carências. Conforme o evangelho, Jesus não quis esse tipo de religião. Partilhou os pães com a multidão faminta, mas ao ver a reação das pessoas e mesmo dos discípulos que queriam fazer dele um rei, Jesus se separou de todos, despediu o povo e obrigou os discípulos a se meterem nas tempestades da vida e das noites do mundo.

             Até hoje, o lago da Galileia é famoso por suas tempestades fortes e perigosas.  Conforme o evangelho, em uma dessas noites de tempestade, os discípulos de Jesus correram grande risco. Nela, o evangelho viu um sinal forte da intervenção salvadora de Deus, através de Jesus. Jesus vindo de madrugada, andando sobre as águas para salvar os discípulos na barca é uma parábola sobre como Ele se manifesta em meio às tempestades das noites da nossa vida, sejam as tormentas interiores, sejam as tempestades sociais e políticas de um mundo no qual, como afirma o papa Francisco, a desigualdade é a raiz de todos os males sociais (Evangelii Gaudium, 202).

Antigamente, no deserto, Deus agiu em favor do povo hebreu, lhe dando o maná como alimento e propondo a partilha como forma de organizar a economia. Assim também, o evangelho mostra que Jesus também alimentou a multidão no deserto e propôs a partilha como modelo de organização social. Isso o fazia correr perigo e ele teve de sair de lá, por motivo de segurança. A travessia do mar representa o enfrentamento às forças sociais que se opõem à partilha.  

Em nossos dias, o papa Francisco propõe a Economia de Francisco e Clara, como caminho de economia solidária. No Brasil, as forças democráticas enfrentam uma elite que não aceita nenhuma medida econômica na direção da partilha e da justiça. E há muitos religiosos, católicos e evangélicos, que legitimam essa iniquidade em nome de Deus.

            A espiritualidade profética tem de assumir o enfrentamento com os poderes inimigos da partilha. O barco que enfrenta o mar é imagem da comunidade profética, que enfrenta os poderes da dominação e da morte. Mateus conta essa história falando três vezes em “medo”, “angústia” e “pavor”. Isso revela a realidade que a comunidade cristã em sua época estava vivendo. Quando os discípulos gritam de medo, Jesus diz: “Tenham coragem. Sou eu. Não tenham medo”. É a mesma palavra que, antigamente, no Êxodo, Deus disse ao povo, que estava diante do mar e via o exército do faraó chegando para prendê-los. É a palavra que temos de ouvir hoje. 

A reação de Pedro de pedir a Jesus para abandonar o barco e ir ao encontro dele por cima das águas é simbólica. Às vezes, em meio às tempestades da vida, há pessoas que têm essa mesma tentação. No lugar de ficar no barco, como todo mundo, enfrentando a tempestade, há pessoas mais piedosas do que as outras que querem um milagre para si. Dizem como Pedro: “Manda-me ir para junto de você por cima das águas”. Quando Pedro vai e afunda, Jesus lhe diz que a fé dele era fraca.

Será que Jesus estava se referindo ao fato de que Pedro teve medo de caminhar sobre as águas ou será que, com essas palavras, afirmava que a fé de Pedro era pequena por ter abandonado o barco e deixado os outros enfrentando o mar, enquanto ele procurava abrigo seguro junto a Jesus? 

              Certamente, o projeto de Jesus era os discípulos ficarem juntos para enfrentar a tempestade e não tanto socorrer um deles. A cena de Pedro que se sente afundar no caminho entre a barca e Jesus que o chamava é símbolo de que a insegurança e o afundamento no mar do mundo pode atingir até os ministros que representam a comunidade. Como Pedro, os pastores podem também se sentir afundando, no meio do caminho para o Cristo, quando a tempestade se torna mais ameaçadora.

Atualmente, muitos padres, bispos e pastores se sentem fragilizados e hostilizados dentro da própria comunidade de fé, ao propor espiritualidade profética contrária a uma religião ritualista e devocional alheia ao intento de construir um mundo novo de acordo com o projeto divino.

           Na maioria das vezes, fomos educados a pensar em Deus no silêncio, na paz e associar a presença de Deus à claridade e à beleza de uma natureza tranquila. Comumente, não pensamos Deus presente nas tempestades da vida e na escuridão de nossas noites do espírito. Essa palavra do evangelho revela que Jesus traz a presença divina para o coração de nossas angústias, de nossos medos e nossas noites escuras.  

Pedro chama Jesus de “Kyrios”, “Senhor”. Na época,  isso era  subversivo. Só o imperador de Roma se intitulava de Kyrios. Ao dar esse título a Jesus, os primeiros cristãos mostravam não aceitar o absolutismo de nenhum poder humano. Só Jesus é o Kyrios, senhor da nossa vida. 

Em nossos dias, esse título que, no mundo antigo, tinha conotação subversiva e transformadora tomou um aspecto problemático na linha do patriarcalismo. Deus acabou sendo visto como patriarca macho (senhor JWHW) e Jesus é senhor. Culturalmente, esse modo de ver Deus acaba colaborando com a marginalização da mulher. Por isso, é importante e urgente libertar Jesus de qualquer linguagem que legitime o patriarcalismo.

             Como fez aos discípulos, Jesus nos manda passar para o outro lado, isso é, enfrentar o desconhecido. Para a comunidade do evangelho, passar para o outro lado significava se abrir aos estrangeiros, os não crentes, que moravam na outra margem do lago. O que significa isso para nós hoje? Pode significar abrir nossas vidas e nossas formas de crer às religiões originárias que hoje sofrem preconceitos e até perseguições. Pode significar abrir nossa fé a novos horizontes e no diálogo com o mundo de fora.

Precisamos receber a coragem de Jesus para enfrentar a tempestade dos faraós de hoje em dia e testemunhar o projeto divino em meio a uma sociedade que vai na direção contrária. 

Que nossas eucaristias possam ser alimento que nos deem força nesta travessia. 

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