O CAMINHO DE VOLTA NÃO É PARA TRÁS (Lc 24,13-35) – Por Marcelo Barros

Neste 3º domingo da Páscoa, (ano A), repetimos o evangelho proposto para o próprio domingo da Ressurreição, à tarde ou à noite. O fato de repeti-lo mostra-nos mais ainda que, mesmo no meio das dores e das lutas que vivemos, esses oito domingos pascais até a festa de Pentecostes formam como um só e único dia de festa e alegria.
A narrativa dos dois discípulos que, no próprio domingo da ressurreição, viajam fugindo de Jerusalém à aldeia de Emaús resume as diversas etapas que ocorrem com todos os discípulos e discípulas, no itinerário da fé:
1º – colocar-se a caminho.
2º – caminhar juntos e juntas.
3º – esquentar o coração ao escutar a palavra de Deus.
4º – Inserir-se com os pobres, companheiros de estrada e, a partir daí, reconhecer a presença de Jesus Ressuscitado no companheiro e companheira e, particularmente, na partilha do alimento.
Há biblistas que defendem que os dois discípulos de Emaús sejam um casal. Afinal, conforme o relato do evangelho, eles parecem morar na mesma casa, já que levam Jesus para cear com eles em casa. Além disso, um dos dois chama-se Cleofas. Conforme o quarto evangelho, “ao pé da cruz de Jesus, estavam sua mãe, uma irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas e Maria Madalena” (Cf. Jo 19, 25).
Conforme a tradição, essa Maria, mulher de Cléofas teria sido do grupo mais íntimo das discípulas, que tinham-se arriscado para acompanhar de perto todo o processo da condenação e crucifixão de Jesus. É difícil imaginar que tenha havido outro Cléofas no grupo dos discípulos, em Jerusalém e arredores. Portanto, é possível que os dois discípulos de Emaús eram Cléofas e Maria, sua companheira, a mesma que estava com as outras companheiras ao pé da cruz de Jesus e que, no relato da paixão, aparece como “mulher de Cléofas. ”. Assim sendo, possivelmente, ao fugir com medo de ser assassinado como Jesus, Cléofas não iria deixar para trás sua companheira Maria [1].
Na primeira parte do texto, a volta do casal a Emaús parece significar a volta à vida de antes. É como se os dois não ousassem mais sonhar, esperar, viver a fé. Muitas vezes, nós também, eu e vocês, encontramo-nos assim, nessa situação. Quantas pessoas conhecemos que já foram da caminhada de CEBs, dos movimentos sociais ou mesmo de militância política e, de repente, deixam tudo. Cansam-se ou, simplesmente, pensam que já deram o que podiam dar. Tentam viver como se tivessem superado essa fase do engajamento.
No entanto, em um momento do seu diário no cárcere, Antonio Gramsci afirmava que quem atinge uma consciência nova nunca mais consegue voltar ao que era antes. No plano interior e social, o caminho de volta não é percorrido como recuo para trás. A história não volta. No entanto, há quem tente… Na narrativa do antigo êxodo dos hebreus para a terra prometida, a maior tentação no deserto era a saudade das cebolas do Egito. Entre nós, essa saudade assume outras formas. Pessoas que, em sua juventude, identificavam-se como de esquerda traíram sua história de vida por um cargo ou segurança econômica. Pessoas que, quando jovens, eram revolucionárias, ao envelhecer, tornam-se conservadoras e mesmo reacionárias. Homens e mulheres casadas descobrem que não estavam preparadas para compromisso sério e sentem falta das noitadas de solteiros.
A própria realidade da vida desmonta sonhos e esperanças. Parece que todos nós caminhamos para as muitas Emaús da desistência e da fragmentação. Emaús torna-se símbolo disso tudo. Só que, naquele domingo, a experiência dos discípulos e discípulas foi em dupla, ou como casal. No nosso caso, muitas vezes, o gosto amargo da desilusão cria isolamento e não queremos partilhar isso com ninguém.
A boa notícia do evangelho de hoje é que, seja como for, graças a Deus, quando passamos por esse momento de desistência dos projetos e da desilusão, não somos largados ou abandonados. Em meio às experiências de desilusão e tristeza pelas quais passamos, o próprio Cristo Ressuscitado aparece como companheiro de caminho, embora não seja reconhecido por nós. Nossos olhos estão incapacitados de vê-lo. Não compreendemos o que ele quer dizer. Nossos corações estão amarrados demais para crer.
Assim como com aquele casal de discípulos, no caminho, também conosco, Jesus parte sempre da realidade. Também a nós, ele pergunta: O que está acontecendo? O que vocês conversam pelo caminho?
É importante que sempre possamos dizer o que estamos vivendo, o que está acontecendo. É fundamental expressar nossas desesperanças, inseguranças e medos. E como, no domingo da ressurreição, ele fez aos discípulos que iam a Emaús, também a cada um e cada uma de nós, ele fala e explica as Escrituras, aplicando-as à sua Páscoa. Aí sim, ao escutar a sua Palavra, o nosso coração arde e, assim como eles, nós também começamos a compreender.
No caso dos dois que caminhavam para Emaús, eles sentem reaquecer dentro do peito a esperança e o amor. Dizem um ao outro:
“- O nosso coração não ardia dentro de nós, quando ele falava pelo caminho e nos explicava as escrituras?”.
Só por causa disso, insistiram:
– “Fica conosco, Senhor, porque já anoiteceu”.
Foi o fato de terem sentido o sabor da palavra dele, que fez com que não quisessem mais largá-lo, mesmo sem reconhecê-lo.
Sempre há esses dois tipos de pessoas: Há aquelas às quais a Palavra toca e queima. Há outras que podem até achar bonito, mas não deixam que a Palavra penetre no mais íntimo do seu ser.
De todo modo, para nós a expressão tornou-se refrão pascal que repetimos nesse tempo pascal: “Senhor, fica conosco, porque já anoiteceu”.
Na segunda parte do relato, o casal e o companheiro que tinham encontrado pelo caminho reúnem-se para a ceia, na qual repartem o pão. Embora não fale de vinho (só de pão), o texto evangélico de Emaús alude que o hóspede mal conhecido deles pronunciou a bênção sobre o pão. É estranho que um estranho chegue, pela primeira vez, em sua casa e tome a iniciativa de dizer a bênção sobre o pão. Era como se quisesse chamar atenção sobre si, isso é, quisesse ali, naquele momento, revelar quem, de fato, era.
Para revelar a sua identidade mais profunda, o Cristo ressuscitado deu três sinais aos discípulos de Emaús: o sinal da História, da Palavra e o do pão repartido. Até hoje, as comunidades mantêm esses três sinais como elementos fundamentais de nossos encontros de fé, sacramentos e instrumentos da presença dele no meio de nós. Manter viva a memória da história libertadora, discernir a Palavra de Deus nos fatos da vida e viver vida de partilha: eis o segredo na construção do reinado divino a partir do aqui e do agora.
A partir daí, os dois discípulos vivem uma reviravolta no coração e no rumo de suas vidas. Mesmo à noite, voltam correndo a Jerusalém. Será que nossas celebrações da ceia de Jesus conseguem, hoje, tocar, assim, em alguém? A volta deles é o contrário da vinda. Voltam ao grupo para retomar a missão e o testemunho da ressurreição. Geograficamente, voltam à Jerusalém de antes. No entanto, voltam diferentes do que eram, antes da Páscoa e do que eram no caminho a Emaús. Agora, voltam no sentido de conversão. Quando chegam lá, já encontram o testemunho dos onze que dizem: “O Senhor ressuscitou realmente” . Antes de chegarem a Emaús, no mundo externo, havia a luz do dia. No entanto, interiormente, eles estavam na escuridão, pois estavam com medo e desanimados. Depois, na volta de Emaús, o caminho era escuro, de noite. No entanto, dentro deles já irradiava a luz da coragem, da esperança e da alegria por experimentar Jesus Cristo vivo e ressuscitado com eles.
Então, os dois contam como o reconheceram na hora em que ele repartiu o pão.
É pena que, com o tempo, as Igrejas tornaram as celebrações da Eucaristia cultos clericais e estilizados. Que diferença imensa da ceia de Jesus, que foi, essencialmente, partilha e da ceia que reunia as comunidades dos primeiros tempos do Cristianismo. Como seria bom que pudéssemos refazer na simplicidade das nossas casas a ceia de Emaús, como sacramento de convívio em nossas Igrejas domésticas e comunidades.
Nas espiritualidades negras e indígenas, a partilha do alimento é também sacramento da intimidade com o Divino. Nos cultos afro, não há Candomblé sem comida. E não há comida sem partilha.
Como seria bem que pudéssemos ver em todas as nossas refeições, sacramentos de comunhão e da presença de Jesus. Hoje, na América Latina, as comunidades cristãs populares reencontraram a alegria de celebrar ágapes eucarísticos e assim restituem às celebrações da Ceia de Jesus o seu caráter de refeição fraterna e de sinal de que queremos viver uma economia de partilha e amor.
[1] – Cf. VIRGILI, Rosanna. Vangelo secondo Luca (Traduzione e commento). Milano: Ancora, 2018, p. 471.