Poema “A Morte Anunciada de Josimo Tavares”, de Pedro Tierra

Poema “A Morte Anunciada de Josimo Tavares”, de Pedro Tierra

Narração: Carmem Imaculada de Brito

Há um dizer antigo

entre os homens da raça dos rios:

a morte quando se anuncia,

devora a sombra do corpo

e inventa a luz da solidão.

Você se afastou sob o sol.

Era 14 de abril.

Busquei-lhe a sombra

sobre o chão da rua

e não havia sombra.

Ainda busquei tocá-lo.

Falamos da vida

e da morte

(a arma que me matará

já está na oficina …)

E você sorria manso

desde a defendida

solidão dos místicos.

Falamos da luta

e da necessidade de prosseguir

(os tecelões da morte

forçam os teares,

arrematam os fios

do tecido que te cobrirá …)

Incendiaram nossas casas.

Destruíram plantações.

Saquearam celeiros.

Derrubaram cocais.

Envenenaram as águas.

Invadiram povoados.

Torturaram nossos pais.

Arrancaram as orelhas dos mortos.

Atiraram nos rios corpos mutilados

Derrubaram a cruz que erguemos,

sinal aceso de nossa memória.

Cortaram a língua dos nossos irmãos.

Violaram nossas filhas.

Assassinaram inválidos.

Queimaram a sangue e fogo

a terra que trabalhamos.

Quem emprestará a voz

ao idioma do perdão

e protegerá com súplicas

o riso dos assassinos?!

Aniquilaram a raiz da esperança.

Esgotou-se o tempo de tolerar

e desatou-se a hora da vingança:

o primitivo nome da justiça.

Todos sabiam dessa morte.

A cerca do latifúndio sabia.

Os pistoleiros, os assalariados da morte,

a polícia fardada e paisana, o GETAT,

os garimpeiros, os bêbados, as prostitutas,

as professorinhas, as beatas,

as crianças brincando no areal da rua

sabiam

Os homens da terra, os posseiros, os saqueados,

as mulheres alfabetizadas pela dor

e pela espera

sabiam.

O prefeito, o juiz, o delegado, a UDR,

os fazendeiros, os crápulas

sabiam.

As mãos dos assassinos

poliam as armas.

A igreja sabia

e esperava.

A haste orgulhosa do babaçu

sabia.

E dobrava as palmas num lamento

e multiplicava a ciência dessa morte,

os passarinhos, o relógio dos templos

mastigando o comboio da horas

e não se deteve, a água dos rios

não se deteve, fluindo irremediável

a hora dessa morte.

A pedra dos caminhos

sabia

e permaneceu muda,

o vento sabia

e anunciava seu gemido todavia indecifrável

Tuas sandálias sabiam

e continuaram a caminhar.

Eu, que nasci votado à alegria

e vivo a contar o rosário interminável

dos mortos

não fiz o verso,

espada de fúria,

que cindisse em dois

o comboio das horas

e descarrilasse o tempo de tua morte.

Você sabia.

E sorria

apenas.

Como quem se lava

para chegar vestido

de algodão

e transparência

à hora da solidão.

Quem é esse menino negro

que desafia limites?

Apenas um homem.

Sandálias surradas.

Paciência e indignação.

Riso alvo.

Mel noturno.

Sonho irrecusável.

Lutou contra cercas.

Todas as cercas.

As cercas do medo.

As cercas do ódio.

As cercas da terra.

As cercas da fome.

As cercas do corpo.

As cercas do latifúndio.

Trago na palma da mão

um punhado de terra

que te cobriu.

Está fresca.

É morena, mas ainda não é livre

como querias.

Sei aqui dentro

que não queres apenas lágrimas.

Tua terra sobre a mesa

me diz com seu silêncio agudo

Meu sangue se

levantará

como um rio acorrentado

e romperá as cercas do mundo.

Um rio de sangues convocados

atravessará tua camisa

e ela será bandeira

sobre a cabeça dos rebelados.

Pedro Tierra – Goiânia, maio/1986

= = = = =

Padre Josimo Moraes Tavares

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