Poema “Conheço o meu lugar”, de Belchior
Narração: Carmem Imaculada de Brito
Poema “Conheço o meu lugar”, de Belchior
O que é que pode fazer o homem
comum
Neste presente instante senão
sangrar?
Tentar inaugurar
a vida comovida
inteiramente livre e triunfante?
O que é que eu posso fazer
com a minha juventude
quando a máxima saúde hoje
é pretender usar a voz?
O que é que eu posso fazer
um simples cantador das coisas do
porão?
Deus fez os cães da rua pra morder
vocês
que sob a luz da lua
os tratam como gente – é claro! – aos
pontapés
Era uma vez um homem e o seu
tempo
botas de sangue nas roupas de Lorca
Olho de frente a cara do presente e
sei
que vou ouvir a mesma história
porca
Não há motivo para festa: Ora esta!
Eu não sei rir à toa!
Fique você com a mente positiva
Que eu quero é a voz ativa (ela é que
é uma boa!)
Pois sou uma pessoa.
Esta é minha canoa: Eu nela
embarco.
Eu sou pessoa!
A palavra “pessoa” hoje não soa bem
Pouco me importa!
Não! Você não me impediu de ser
feliz!
Nunca jamais bateu a porta em meu
nariz!
Ninguém é gente!
Nordeste é uma ficção! Nordeste
nunca houve!
Não! Eu não sou do lugar dos
esquecidos!
Não sou da nação dos condenados!
Não sou do sertão dos ofendidos!
Você sabe bem: Conheço o meu
lugar!
= = = = = =
Belchior – Conheço o Meu Lugar

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