Frei Carlos Mesters, Paulo Freire da Bíblia. Por Frei Gilvander Moreira[1]

Dia 20 de outubro último, agora de 2021, celebramos com muita alegria o aniversário de Frei Carlos Mesters: 90 anos de idade, 73 dos quais vivendo e sendo missionário carmelita no Brasil. Frei Carlos Mesters, carmelita do Centro de Estudos Bíblicos, um dos melhores biblistas do mundo dos últimos 50 anos. Que beleza e que responsabilidade integrar a Província Carmelitana de Santo Elias, da qual faz parte Frei Carlos Mesters e participar do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI), do qual frei Carlos é um dos fundadores! Que maravilha termos a companhia de Frei Carlos Mesters no nosso meio, já com 90 anos e a maior parte da sua vida dedicada ao Carmelo, à Leitura Popular da Bíblia e aos pobres nas lutas por libertação.
A primeira vez que vi Frei Carlos Mesters foi em maio de 1984, quando eu estava no noviciado, em Camocim de São Félix, no agreste do Pernambuco. Éramos vinte noviços e, naquele momento, estávamos arrancando feijão na roça. Frei Carlos Mesters chegou, cumprimentou todos os noviços, se abaixou e começou a arrancar feijão ao nosso lado no sítio dos frades carmelitas da Província Pernambucana. Colhemos 25 sacos de feijão naquela safra. Fiquei surpreso e pensava: “Um doutor em Bíblia arrancando feijão conosco?!” Ali eu já percebi em Frei Carlos a humildade, a mãe de todas as outras virtudes. No dia seguinte, Frei Carlos iniciou uma semana de estudo dos Salmos conosco. Depois vieram muitos pequenos encontros de formação bíblica, sete anos de INTERCAB (Encontro Intercarmelitano dos/as Carmelitas no Brasil), sete anos de CARMELO BÍBLIA, a celebração dos 60 anos de Frei Carlos dia 20 de outubro de 1991, em São Paulo, momento em que tive a alegria de gravar e depois transcrever os inúmeros depoimentos das pessoas que em uma grande fila queriam falar sobre a atuação de Frei Carlos desde a década de 1970. No meio da celebração dos 60 anos de Frei Carlos, Dom Pedro Casaldáliga, de surpresa, chegou carregando um grande pote e, retirando de dentro do pote uma Bíblia da edição Pastoral, disse: “Frei Carlos Mesters é presença do Deus da vida no nosso meio que retira do baú, do pote, coisas velhas que são coisas da vida e da caminhada do povo empobrecido. Carlos Mesters democratiza o acesso aos textos bíblicos ao nos ensinar a fazer leitura bíblica de forma popular, comunitária, ecumênica, transformadora, militante e (macro)ecumênica. Quem não leu ainda deve ler todos os livrinhos do frei Carlos Mesters. Seus textos, frei Carlos, nos ajudam na caminhada de enfrentamento ao latifúndio, na Opção pelos Pobres, na luta pela terra e pelos direitos dos povos camponeses e indígenas.” Publicamos os depoimentos em um número especial de uma Revista Carmelitana.
Na celebração dos seus 60 anos, após ouvir atentamente todas/os, Frei Carlos, com humildade que lhe é característica e sabedoria ímpar, agradeceu a todas/os e disse: “Esse “poeirão” – tudo que vocês dizem que tenho feito – que vocês estão vendo não sou eu que estou fazendo. Sou apenas uma formiguinha em cima do camelo, que belisca o camelo e o faz andar. Quem causa o “poeirão” que vocês estão vendo são as patas do camelo: Deus Javé e Jesus Cristo, nosso irmão, que sempre fazem opção pelos pobres, abraçam suas causas e caminham junto conosco e em nós”. Naquele dia, Frei Carlos recebeu um telefonema da África do Sul com mensagem de Frei Alberto Nolan que dizia: “Traduzimos vários livrinhos do Frei Carlos Mesters aqui na África do Sul e constatamos depois que a leitura dos textos de Frei Carlos Mesters foram imprescindíveis para a superação do apartheid racial e social, que era sustentado em uma leitura racista e fundamentalista da Bíblia.”
Após fazer mestrado e doutorado em Ciências Bíblicas, Frei Carlos Mesters foi conviver com o povo nordestino empobrecido no sertão do Ceará, na Diocese de Crateús. Dia 22 de janeiro de 1971, Frei Carlos escreveu: “Diante da vida do povo sofrido, a gente não fala; só sabe calar. Esquece as ideias do povo sabido, fica humilde e começa a pensar.” E pensando, Frei Carlos começou a escrever com o olho na Bíblia e outro na vida dos pobres, com o coração na realidade de injustiça que se abate sobre o povo. Nos últimos 50 anos, Frei Carlos escreveu mais de 100 livros, muitos em parceria com outros/as biblistas.
O 1º livro de Frei Carlos que eu li foi “Maria, mãe de Jesus”, depois li e reli “Missão do Povo que sofre”, “Seis dias nos porões da humanidade”, “Paraíso terrestre: saudade ou esperança?”, “Flor sem defesa”, “Por trás das Palavras”, “Profeta Jeremias, boca de Deus e boca do povo”, “Apocalipse de São João”, “Com Jesus na contramão”, “Deus onde estás?”, “Entrevista com o Apóstolo Paulo”, “Esperança de um povo que luta”, “Gente como nós”, “História de Deus com os homens”, “Mulheres fantásticas da Bíblia”, “O Avesso é o lado certo”, “A Bíblia na nova evangelização”, “As viúvas na Bíblia”, “Bíblia, livro da Aliança”, “Bíblia, livro feito em mutirão”, “Projeto de Deus”, “Só Deus é bom” e muitos outros livros. Não dá para citar aqui todos os títulos de livros publicados por Frei Carlos Mesters. Quem não leu, se possível, aconselho ler. Quem já leu, faz bem reler.
Na reflexão bíblica que Frei Carlos fez na Ocupação Dandara, em Belo Horizonte, MG, dia 15 de agosto de 2009, reforçando a luta para impedir despejo de 1.200 famílias que lutavam aguerridamente por moradia adequada, entre outras maravilhas, ele disse: “Prensado pelo exército do faraó do Egito, montanha de um lado e do outro e o mar Vermelho pela frente, o povo hebreu escravizado, deu as mãos e, com fé no Deus Javé, deu um passo à frente e o mar Vermelho se abriu. Assim também aqui na Dandara: unidos, deem sempre um passo à frente. Ninguém pode soltar a mão do outro.”
Celebrar mais um ano de vida de Frei Carlos Mesters: que beleza espiritual-humana! Tempo de kairós para recordarmos os inúmeros momentos inesquecíveis e marcantes vivenciados ao lado do Paulo Freire da Bíblia: Frei Carlos Mesters.
O padre e monge Marcelo Barros escreveu sobre Frei Carlos Mesters: “O nonagésimo ano de um menino profeta. Neste dia em que o nosso querido irmão e mestre Carlos Mesters entra no seu nonagésimo ano de vida, nós, seus amigos/as e discípulos/as celebramos a ação de graças ao Espírito que presenteou as Igrejas e o mundo dos pobres com a vida e a missão dele, flor frágil, mas muito resistente e que nunca deixou de transpirar e contaminar o universo com o perfume divino. Conheci Carlos em 1977, quando comecei a fazer parte do secretariado nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e fui encarregado de escrever um livro sobre “A Bíblia e a Luta pela Terra”. Procurei o frei Carlos Mesters para me situar no que estava sendo pensado, na linha de uma leitura bíblica a partir do povo. Ele me recebeu e me deu uma ajuda inestimável. Desde então, nos tornamos amigos e companheiros de caminho. Quando, em 1979, ele e outros companheiros e companheiras fundaram o CEBI (Centro de Estudos Bíblicos), embora não pude assinar a ata de fundação, fui dos primeiros que participei.”
Gratidão eterna, Frei Carlos Mesters. Abraço terno. Frei Gilvander
Assista, abaixo, dois pequenos vídeos sobre Frei Carlos Mesters na Ocupação Dandara, no link, abaixo.
1 – Frei Carlos Mesters visita a Ocupação Dandara (Parte 1de 2 )
2 – Frei Carlos Mesters visita a Ocupação Dandara (Parte2)