GÁLATAS: “Não esqueçam os Pobres!” (Gl 2,10) e “Sejam livres!” (Gl 5,13). Por Frei Gilvander.

GÁLATAS: “Não esqueçam os Pobres!” (Gl 2,10) e “Sejam livres!” (Gl 5,13)[1] Por Frei Gilvander Luís Moreira[2]

CANTO DA CARTA AOS GÁLATAS

(Música: “Quando teu Pai revelou…:Waldeci Farias. Letra-Paródia:Marysa Saboya.)

4ª Estrofe: Como agir quando o enriquecer de poucos resulta no empobrecer de muitos?

Só a PARTILHA dos bens, livre, mas premiada,[3]

Daria Início ao Fim da INJUSTIÇA instalada.

Oh, se a Favela pudesse seu sonho maior gritar!

Tudo a Cidade fizesse pra colaborar!

          Um mutirão de Irmandade abrindo a estrada,        

            Povo trazendo os políticos para a jornada,

          Como se faz quando há pressa e a calamidade vem:

          Contra o Mal, só fazendo o Bem!

Refrão. Paulo só quer saber é do Cristo Jesus,

Morto em cruz, qual rebelde à Opressão, mas que o Pai ressurgiu,

Com seu Sopro de Amor! Para nós!

1. Rumo da prosa

Não esqueçam os pobres!” (Gl 2,10) e “sejam livres!” (Gl 5,13) – eis duas colunas mestras imprescindíveis na Carta do apóstolo Paulo aos cristãos e cristãs da região da Galácia: os Gálatas. A utopia é construir uma sociedade de pessoas livres e libertadas e a condição é cuidar bem dos pobres e defendê-los de toda e qualquer relação social que cause empobrecimento.

2. Com Paulo, a partir de Gálatas

Assim como Jesus não nasceu Cristo, mas tornou-se Cristo, o apóstolo Paulo não nasceu discípulo de Jesus Cristo e do seu Evangelho. Aliás, Paulo nasceu Saulo, judeu e depois, fariseu; tornou-se perseguidor de cristãos antes de ter a revelação do Evangelho de Jesus Cristo. Após estudar muito e se tornar um intelectual orgânico, na convivência com o povo escravizado, fora da Palestina, Paulo passou por grandes vicissitudes, que duraram muito tempo. Enfrentou ‘noites escuras’ e caminhou por desertos, “foi para a Arábia” (Gl 1,17). Suportou muita incompreensão, perseguição e, por fim, foi martirizado – segundo a Tradição da Igreja, identificando-se radicalmente com Jesus Cristo – “Não sou eu que vivo, mas Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). E assim, foi condenado à pena de morte pelos podres poderes da religião institucional, da política imperial e de um modelo econômico escravocrata. Ao longo da vida, Paulo se transfigura: de judeu perseguidor contumaz das comunidades cristãs, a um apaixonado missionário de Jesus Cristo e do seu Evangelho. Paulo se descobriu chamado por Deus, “nosso Pai”, desde o ventre materno (Cf. Gl 1,15), assim como o profeta Jeremias e outros profetas e profetisas, ele descobriu a vocação de ser ‘apóstolos dos gentios’, considerados pagãos e deserdados (Cf. Gl 1,16). Paulo aprendeu a amar radicalmente as pessoas das comunidades fundadas ou animadas por ele, como a mãe que, por amor, enfrenta as dores de parto, pois sabe que gerará um/a filho/a muito amado/a: “Meus filhos, sofro novamente como que dores de parto, até que Cristo esteja formado em vocês” (Gl 4,19).

Inserida no Segundo Testamento após as três primeiras Cartas: a escrita aos Romanos e as duas endereçadas aos Coríntios, a Carta aos Gálatas, com seis capítulos, não é menos importante e nem menos eloquente que nenhuma outra carta paulina. Dirigida não apenas a uma comunidade, mas a várias, da mesma região, essa Carta foi escrita por um Paulo profundamente indignado e irado diante das calúnias e ataques que “falsos irmãos” lhe desferiram pelas costas. Eles divulgaram no ambiente eclesial da região da Galácia, que ele não era Apóstolo. E acrescentaram que todos os fiéis, inclusive os não-judeus deveriam se circuncidar e cumprir a Lei judaica, como condição para participar das comunidades cristãs. Essas acusações e esses questionamentos ao Evangelho por ele anunciado, não atingiam apenas Paulo, mas, caso não fossem desmentidos, poderiam implodir as comunidades cristãs que se inspiravam no ensinamento e testemunho de Paulo. Em contexto de diversas tendências e posições na evangelização, que vinham desde o desentendimento entre Paulo e Pedro em Antioquia (Cf. Gl 2,14) e por causa do conflito com “falsos irmãos” (Cf. Gl 2,4), Gálatas é uma Carta de resistência e de luta contra os ataques sofridos por Paulo. Tudo isso afetava as bases da vida em comunidade, a luta pela superação de relações sociais escravizantes e a criação de condições objetivas que viabilizassem relações diferentes: de liberdade, de equidade e de respeito à dignidade da pessoa humana. A Carta aos Gálatas nos convida à superação de uma vida cristã fundamentalista, presa ao ritualismo, ao espiritualismo moralista, religião do consolo e da autoajuda – e conclama-nos ao compromisso radical com o Evangelho de Jesus. Esta é a Boa Nova que defende a causa de todos/as os/as escravizados/as da história e exige que abracemos, pelo nosso modo de vida, um estilo simples e austero, uma opção de classe. Exige ainda que batalhemos, ao lado dos empobrecidos, na luta pela conquista de seus direitos: à terra, ao teto, ao trabalho com salário justo, ao meio ambiental sustentável e à superação de todos os preconceitos e discriminações.

3. Que tipo de fé Paulo assimilou?

Paulo se sentia Apóstolo, não conforme a instituição religiosa hegemônica, (como seria a Comunidade de Jerusalém, os Doze Apóstolos e os familiares de Jesus), mas autorizado diretamente por Jesus Cristo e por Deus, que ele compreendia como “nosso Pai” (Cf. Gl 1,3) e como quem ressuscitou Jesus Cristo (Cf. Gl 1,1), o qual é o “Senhor” de nossas vidas. Afirmar Jesus Cristo como Senhor (Kyrios, em grego) é algo tremendamente subversivo e revolucionário, pois “Senhor”, no Império Romano, era o imperador divinizado. Sustentar que ‘Senhor de nossas vidas’ é Jesus Cristo, aquele fora da lei, transgressore subversivo condenado à morte pela pena mais execrável, a crucifixão, era ‘cutucar com vara curta’ o divinizado imperador romano e assumir o risco de sofrer a mesma condenação do galileu Jesus de Nazaré.

Paulo é elo vivo de um movimento comunitário de resistência: “eu e todos os irmãos que estão comigo” (Gl 1,2) e que são os autores da Carta aos Gálatas. Segundo Paulo, Jesus não quis nos tirar do mundo, mas “do mundo mau” (Gl 1,4), ou seja, de um mundo com relações sociais escravistas e alienadoras. Paulo abomina a ideia de “vários evangelhos” (Cf. Gl 1,6-7), como se fosse possível moldar o Evangelho de Jesus Cristo segundo interesses de classe e domesticá-lo para justificar posturas hipócritas e cúmplices das relações de opressão. As comunidades cristãs não podem se reduzir a um grande guarda-chuva que abriga “gregos e troianos”, opressores e oprimidos, cada um/a com o tipo de religiosidade que lhe agrada. Esse relativismo é fulminado por Paulo. De forma enfática, ele afirma: “Não existe outro Evangelho” (Gl 1,7), além do de Jesus Cristo, revelado a ele nas entranhas das relações humanas conflituosas (Cf. Gl 1,12). “Maldito quem anunciar a vocês um evangelho diferente do que anunciamos” (Gl 1,8-9). Paulo faz perguntas inquietantes: “Busco aprovação dos homens ou de Deus? Procuro agradar aos homens?” (Gl 1,10). É claro que aqui Paulo não se refere a todo e qualquer homem, toda e qualquer pessoa humana, mas certamente não busca a aprovação dos homens de poder, dos que sustentam e reproduzem relações sociais escravocratas. Paulo também não aceita adocicar o Evangelho de Jesus Cristo para “agradar aos homens”, seja os que estão no poder, seja o povão alienado e escravizado.

Paulo não abre mão da verdade, mesmo sabendo que a verdade liberta, mas dói. “Será que me tornei inimigo, só porque lhes disse a verdade?” (Gl 4,16). “Quem foi que colocou obstáculo para que vocês não obedeçam mais à verdade?” (Gl 5,7). Lamentavelmente, muitas pessoas, para manter as amizades aparentes, preferem não dizer a verdade que precisa ser dita, fazem ‘política da boa vizinhança’, se omitem e se tornam cúmplices ao não refutar mentiras/fake news, se precavendo para não melindrar relações de amizade hipócrita. Paulo não se pauta por esse caminho cômodo, mas estúpido e reprodutor de mentiras que corroem as relações sociais deixando imperar mentiras. Paulo é autêntico e exige autenticidade nas relações humanas como condição ‘sine qua non’ para se colocar em prática o Evangelho de Jesus Cristo.

Paulo se entende como “servo de Cristo” (Gl 1,10), que é servo de Deus. Mas como Jesus Cristo se tornou servo de Deus? Diz certo tipo de senso comum que Jesus Cristo é servo de Deus, porque ‘morreu por nossos pecados para nos salvar’. Há pessoas ingênuas que exclamam: “Que bom que Jesus morreu para nos salvar!” Como compreender esta afirmação? Temos que fazer alguns questionamentos interpelantes: Como é possível que Deus aceite uma vítima no lugar de outro transgressor? É justo um transgredir e outro ser punido? Como é possível que Deus possa aceitar os sacrifícios enquanto tais e justificar relações humanas que ferem a aliança com Deus? Admitir que, em um rito está o poder de substituir uma relação humana real por outra comercial, contribui para quê? Admitir isso não seria ‘dar um jeitinho’ para driblar a eventual ira de Deus? Não seria tentar barganhar com Deus para se salvar? O Deus no qual acreditamos: Deus solidário e libertador, Deus da Vida e da Liberdade de todos/as não é sádico e nem masoquista. Mas Jesus ter doado sua vida por nós não substitui a necessidade de doarmos nossa vida, como fez o mestre galileu. Pelo fato de ter morrido na cruz, Jesus não tira automaticamente nossos pecados. Jesus se faz solidário aos/às sofredores/as e injustiçados/as para nos indicar o caminho a ser trilhado rumo à humanização, vocação de todos/as. Quanto mais nos humanizarmos mais estaremos caminhando rumo à libertação/salvação.

Paulo percebe que a questão de impor a circuncisão aos não-judeus e o respeito à Lei judaica não se reduz apenas a questão de observância da tradição, mas que o atrelamento às questões da tradição judaica era meio de continuar garantindo a escravização do povo, roubando-lhe as condições que viabilizam a liberdade.

Em Gálatas, Paulo está em sintonia com a fina flor da experiência bíblica segundo a qual “Deus não faz acepção de pessoas” (Gl 2,6; At 10,34), não discrimina ninguém, ama a todos/as independente de classe, etnia, gênero ou orientação sexual. Todas as pessoas são imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27) e todas as criaturas – seres vivos – são “muito boas” (Gn 1,31), ou seja, são sagradas, a luz e a força divina permeiam e perpassam toda a realidade. O autor de Atos dos Apóstolos diz: “Deus não faz distinção entre as pessoas. Deus aceita quem pratica a justiça, independente do povo a que pertence” (At 10,34-35). Segundo Atos dos Apóstolos, Pedro, passando fome no meio dos impuros – Simão, em missão fora de Jerusalém, estava na casa de outro Simão, um curtidor de couro (At 10,43), profissão considerada a mais impura de todas – faz a experiência, por meio de uma visão, de que para Deus não há nada impuro. “Não chame de impuro o que Deus purificou” (At 10,15), isto é, tudo é sagrado. Em algum momento da sua vida, o apóstolo Pedro deve ter vivido esta experiência que o fez se libertar das amarras do judaísmo enrijecido, tanto é que terminou martirizado, segundo a tradição da igreja, como Jesus e Paulo. Entretanto, historicamente é mais provável que o apóstolo Paulo, na década de 50 do século I, tenha vivenciado esta experiência antes de Pedro.

4. Paulo e Pedro em Atos dos Apóstolos e nas Cartas Paulinas

Escrevendo uns 30 anos após a Carta aos Gálatas, o autor de Atos dos Apóstolos, sob o impacto dramático da expulsão de cristãos e cristãs das sinagogas, nos anos 80, busca promover e favorecer a unidade entre cristãos e judeus e, acima de tudo, busca provar que os cristãos não eram sectários e nem separatistas. Nesta intenção, em Atos dos Apóstolos, Pedro é paulinizado e Paulo é petrinizado, ou seja, o autor de Atos dos Apóstolos credita a Pedro fatos que, historicamente, devem ter acontecido primeiro com Paulo, como os Atos de Pedro narrados no capítulo 10 de Atos dos Apóstolos. Pedro defende as propostas de Paulo no Concílio de Jerusalém e advoga, em consonância com Paulo e Barnabé, a superação da circuncisão, a maior barreira e fardo pesadíssimo que os “falsos irmãos” insistiam em impor sobre as comunidades da Galácia, de Antioquia, em suma: do mundo helenista.  O autor de Atos dos Apóstolos mostra Pedro como um grande missionário “percorrendo todos os lugares” (At 9,32): Lida Jope, Cesareia e outros locais. Chega a caracterizar Pedro como “apóstolos das nações” (At 15,7). Porém, historicamente, bem antes de Pedro, Paulo é quem deve ter sido chamado o “apóstolo dos gentios”, dos de fora, dos considerados bárbaros. Para dirimirmos contradições aparentes existentes entre Atos dos Apóstolos e as Cartas Paulinas é sensato seguir o princípio segundo o qual as Cartas Paulinas têm mais consistência histórica do que Atos dos Apóstolos, pois foram escritas cerca de 30 anos antes de Atos e também por serem cartas. Atos dos Apóstolos são, acima de tudo, Teologia da História e jamais História das Primeiras Comunidades Cristãs. Podemos atribuir algum valor histórico a informações que estão em Atos dos Apóstolos apenas em casos sobre os quais não há qualquer informação em nenhuma carta paulina. Assim, por exemplo, as restrições apresentadas no final de Atos dos Apóstolos, após a abolição da circuncisão, não devem ter sido dos anos 49/50 quando parece ter acontecido uma reunião entre Paulo, Barnabé, Pedro, Tiago e João, em Jerusalém, segundo Gálatas 2,1-10, reunião que o autor de Atos dos Apóstolos, 30 anos depois, narra como tendo sido uma Assembleia ampliada. Segundo o autor de Atos, nesta Assembleia ampliada, a circuncisão foi abolida, com algumas condições: “abster-se de carnes sacrificadas aos ídolos, do sangue, das carnes sufocadas e das uniões ilegítimas” (At 15,29). Estas restrições devem ser dos anos 80 e impostas, seguindo a tradição de Tiago, o irmão de Jesus e que tinha sido líder da Igreja Mãe, em Jerusalém, nos inícios. Em Gálatas, Paulo, faz questão de enfatizar que Pedro, João e Tiago “pediram apenas que nos lembrássemos dos pobres, e isso eu tenho procurado fazer com muito cuidado” (Gl 2,10).

Não se sustenta a interpretação bíblica, com aspecto dualista, segundo a qual Lucas, em Atos dos Apóstolos, faz uma ‘Teologia da Glória’ e Paulo, em suas cartas, faz ‘Teologia da Cruz’, abrindo brecha para se concluir que Lucas esquecia o Cristo Crucificado e Paulo esquecia o Cristo Ressuscitado. Em um olhar mais atento, observamos que Lucas, em Atos dos Apóstolos, não esquece a cruz: “Depois da sua paixão” (At 1,3), enfatiza o sofrimento de Jesus e as aparições de modo convincente (Cf. Lc 24,38-43). Em Lucas, o Cristo Ressuscitado não aparece vindo da Glória, mas de baixo para cima: “Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na sua glória?” (Lc 24,26). Logo, dizer que em Atos dos Apóstolos está uma Teologia da Glória, em contraposição a uma Teologia da Cruz (das Cartas paulinas) não condiz muito com a Teologia Lucana. Atos dos Apóstolos afirma uma Teologia da Glória, do Jesus Cristo Ressuscitado, a partir de uma Teologia da Cruz, subjacente. Lucas não nega a cruz e enfatiza que a Ressurreição brota a partir do assumir radicalmente o projeto de Deus, o que implica passar pelo martírio sofrido por Jesus Cristo e por muitos outros discípulos de Deus e de Cristo. Por outro lado, não condiz com a Teologia Paulina dizer que Paulo faz uma Teologia da Cruz ignorando uma Teologia da Glória. Paulo enfatiza o Cristo Crucificado, mas em momento algum, diminui a importância da fé em Jesus Cristo Ressuscitado. A diferença é só da ênfase, requerida pelos contextos diferentes em que atuavam o apóstolo Paulo e, uns 30 anos depois, o autor de Atos dos Apóstolos.

5. Em Gálatas: Opção pelos Pobres e postura anti-escravidão

Paulo busca manter a unidade entre as comunidades em uma imensa diversidade, mas assevera que a Opção pelos Pobres é inegociável. “Não esqueçam os pobres!” (Gl 2,10), Paulo chega a colocar isso na boca dos chefes da Igreja de Jerusalém. Mais adiante, ao longo da sua argumentação buscando sempre afirmar a liberdade diante de tudo o que escraviza, Paulo afirma de forma lapidar: “Não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo” (Gl 3,28).

Na Carta aos Gálatas transparece de forma muito forte Paulo reprovando a realidade de escravidão, tanto das relações sociais escravocratas do império romano, quanto da escravidão em que tinha se tornado a Lei judaica sendo imposta inclusive sobre os não-judeus. Paulo repete várias vezes as palavras ‘escravo’, ‘escrava’ e ‘escravidão’ ao longo da Carta aos Gálatas, para enfatizar que:

a) está abolida a diferença entre escravo e livre (Gl 3,28);

b) quem está agarrado à Lei judaica continua escravizado;

c) “éramos escravos” (Gl 4,1. 3);

d) “você já não é escravo, mas filho” (Gl 4,7);

e) “vocês foram escravos de deuses” (Gl 4,8);

f) “vocês querem recair na escravidão?” (Gl 4,9);

g) na história houve “filhos da escrava Agar gerados para a escravidão” (Gl 4, 22-25);

h) “Cristo nos libertou para que sejamos verdadeiramente livres. Portanto, fiquem firmes e não se submetam de novo ao jugo da escravidão!” (Gl 5,1).

Paulo revela que o egoísmo e o individualismo estimulados pela ideologia dominante de uma sociedade escravocrata é um caminho suicida, pois leva “todos a se morderem e a se devorarem uns aos outros e até a destruição mútua” (Gl 5,15). Como intelectual de alto quilate, Paulo não fazia uma análise ingênua, nem idealista, nem romântica da realidade conflituosa na qual os cristãos e as cristãs das comunidades da Galácia viviam. Certamente, Paulo percebia também que não apenas com solidariedade e cuidado dos pobres se superariam as relações sociais escravocratas estimuladas aos quatro ventos pela ideologia dominante do império romano e também por expressões religiosas e culturais que pavimentavam o caminho para a reprodução das desigualdades sociais. Além de cuidar dos pobres, sendo solidário/a é preciso enfrentar os lobos vorazes e cruéis, muitas vezes, travestidos de bons samaritanos, seja no mundo da política, da economia ou da religião.

Em Gálatas, Paulo afirma à exaustão que todas as pessoas são livres e devem se comportar como pessoas libertadas e jamais recair nas garras de nenhum tipo de escravização. Paulo terminou sendo martirizado, porque quanto mais radicalizava sua missão mais revelava a incompatibilidade entre o projeto defendido por ele a partir da fé em Jesus Cristo e o projeto imperial ecoado pelos arautos da ideologia imperial. Ontem, o império romano e as religiões domesticadas que serviam aos interesses da classe dos de cima. Atualmente, o sistema capitalista que, de mil formas, empobrece, violenta e mata o povo, a mãe terra, as fontes de água e todos os ecossistemas. O apóstolo Paulo, nos dias de hoje, no nosso meio, certamente diria que enquanto perdurar a estrutura fundiária pautada no latifúndio e no agronegócio com política econômica capitalista neocolonial, com Estado subserviente aos interesses das grandes mineradoras e do grande empresariado do campo e da cidade, não teremos a superação da pobreza, da fome, da miséria e de tantas escravizações que se reproduzem cotidianamente e explodem em cenas dramáticas, por meio do feminicídio, do racismo estrutural, da homofobia, de expressões religiosas burguesas que desencarnam a fé cristã, espiritualizam a mordência histórica de Deus que, por amor infinito, assumiu a condição humana em Jesus Cristo. Portanto, acolher a mensagem do apóstolo Paulo na Carta aos Gálatas implica em se comprometer com todas as lutas libertárias justas e necessárias da atualidade.

Paulo não quer somente fraternidade “espiritual” ou de amizade, mas exige principalmente fraternidade econômica[4], política e cultural. Não agrada ao Espírito de Deus pessoas que se encontram para a Eucaristia aos domingos, mas que durante a semana são umas opressoras das outras. Paulo quer superar as oposições de classes. Se ricos e pobres, judeus e não-judeus, homens e mulheres, trabalhadores e patrões… comem em lugares diferentes, moram em casas de qualidades muito diferentes, o cristianismo terá um conteúdo diferente para cada grupo e não haverá realmente uma comunhão. É hipócrita e cínica uma comunidade e sociedade na qual uns poucos se banqueteiam enquanto a maioria passa fome, na qual uns têm casas próprias luxuosas e a maioria geme debaixo da pesadíssima cruz de aluguéis ou da humilhação que é sobreviver morando de favor na casa de parentes. Sociedade e comunidade na qual uns recebem remunerações milionárias enquanto milhões sobrevivem somente com o salário mínimo ou com migalhas do trabalho informal. É escravocrata uma sociedade na qual uns vivem luxuosamente enquanto milhares sobrevivem do/no lixo; na qual uns detêm o muito poder econômico, político, midiático e religioso e as massas são subjugadas. Igrejas que se apegam ao poder e com ele se casam, trocaram o Evangelho por uma aliança com a mentira, coisa diabólica.

Em Gálatas, Paulo defende uma comunhão eclesial que seja antes de tudo comunhão integral, fruto de condições materiais que garantam os corpos estarem lado a lado, com respeito à dignidade de todos/as, e comendo da mesma comida, partilhando alegrias e angústias. Paulo nos faz recordar o padre Alfredinho, da Fraternidade do Servo Sofredor, que gostava de dizer: “Os ricos se salvarão quando aprenderem a passar fome”.

Na comunidade de Jerusalém, quando a distribuição se tornou maior do que a entrada ou a produção de recursos, chegou uma hora em que os bens acabaram e a fome se generalizou. Sem produção suficiente, não se pode consumir e/ou distribuir. Em contexto de aumento da pobreza e de muita gente passando fome, sob a liderança do apóstolo Paulo e Barnabé, o espírito de comunidade nascido da fé em Jesus Cristo levou comunidades cristãs de outras regiões a fazerem doações para minorar a fome dos irmãos e irmãs. Isto era também uma expressão de unidade. O fato de pensar diferente não era motivo para ‘lavar as mãos’ como Pilatos diante do sofrimento de outras pessoas e comunidades.

6. Ontem, Gálatas; hoje, nós. “E agora, José?”

Paulo, em Gálatas, aponta que quem deseja seguir a Jesus deve armar-se de disponibilidade para a cruz, ou seja, tornar próprias as disposições daquele que o precede, identificando seu projeto com o do Mestre. Jesus não temeu ser considerado um fora-da-lei pela sociedade estabelecida. E seus seguidores: o que mais temem? Paulo nos convida a ver, na cruz injusta de cada um/a de nossos irmãos e irmãs, próximo ou distante, um crime hediondo contra a humanidade e contra Deus.

Enfim, terminamos este texto no qual buscamos pescar raios de luz e força para a caminhada cristã pessoal e comunitária, apontando se não o maior, um dos maiores perigos da atualidade: “Penso que o maior perigo para a Pedagogia de hoje está na arrogância dos que sabem, na soberba dos proprietários de certezas, na boa consciência dos moralistas de toda espécie, na tranquilidade dos que já sabem o que dizer aí ou o que se deve fazer e na segurança dos especialistas em respostas e soluções. Penso, também, que agora o urgente é recolocar as perguntas, reencontrar as dúvidas e mobilizar as inquietudes.” (LARROSA, Jorge. Pedagogia profana: danças, piruetas e mascaradas. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. p. 8.)


[1] Este artigo está publicado no livro Carta aos Gálatas: Evangelho segundo Paulo, para todos os tempos – Uma leitura da Carta aos Gálatas feita pelo CEBI-MG; VV.AA; MOREIRA, Gilvander Luís (Org.), CEBI-MG, Belo Horizonte, 2021, pp. 73-81.

[2] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; agente e assessor da CPT/MG, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; prof. de Teologia bíblica no SAB (Serviço de Animação Bíblica), em Belo Horizonte, MG; colunista dos sites www.domtotal.com , www.brasildefatomg.com.br , www.revistaconsciencia.com , www.racismoambiental.net.br e outros. E-mail: gilvanderlm@gmail.com  – www.gilvander.org.br  – www.freigilvander.blogspot.com.br       –       www.twitter.com/gilvanderluis         – Facebook: Gilvander Moreira III

[3]Premiada, antes de tudo por Deus e, em segundo lugar pelo reconhecimento da sociedade, de TODOS. Cabe a cada um de nós premiarmos, com o reconhecimento, os gestos de partilha feitos por quem quer que seja – em favor dos desfavorecidos da sociedade. O reconhecimento público estimulará mais pessoas a fazerem o mesmo.

[4]Dom Moacyr Grechi, ao investigar denúncias de torturas de trabalhadores rurais bóias-frias, disse: “Quero uma reunião somente com os trabalhadores, pois junto com os patrões eles não estarão livres para dizer a verdade.”

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