Poema “Sobre o ofício de construir estrelas e os riscos das verrugas”, de Mauro Iasi
Narração: Carmem Imaculada de Brito
MAURO IASI (Brasil, 1960). Durante sua juventude participou do grupo de teatro LUTA, que apresentava peças proibidas pela ditadura. Filia-se ao PCB em 1979, mas o deixa junto da saída de Prestes em 80. Envolve-se com as greves do ABC paulista e participa da fundação do PT, no qual segue militando até 2004, quando retorna ao PCB, onde, atualmente, é dirigente. Desenvolve importante pesquisa sobre ideologia e consciência de classe, sendo um dos fundadores no Núcleo de Educação Popular 13 de Maio, organização que há mais de 30 anos desenvolve um trabalho único de formação política da classe trabalhadora.
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Poema “Sobre o ofício de construir estrelas e os riscos das verrugas”, de Mauro Iasi
Sobre o Ofício de Construir
Estrelas e os Riscos das
Verrugas
Eis minhas mãos:
não tenho porque esconde-las,
ainda que, por teimosia,
tragam verrugas nos dedos
por apontar estrelas.
Este é o nosso ofício:
cavalgar verdades cadentes,
eternos/caducos presentes
que comem a si mesmos
mastigando seus próprios dentes.
Assim são estrelas:
tempo que tece a própria teia
que o atrela, cavalo que cavalga
a própria sela.
Distanciamento
Objeto
Estranhamento
Espera
como pintor ensandecido
que reprova a própria tela.
Este é o nosso ofício,
este é o nosso vício.
Cego enlouquecido,
visão por trevas tomada
insiste em apontar estrelas
mesmo em noites nubladas.
Ainda que seja por nada
insisto em aponta-las
mesmo sem vê-las
com a certeza que mesmo nas
trevas
escondem-se estrelas.
Enganam-se os que crêem
que as estrelas nascem prontas.
São antes explosão
brilho e ardência
imprecisas e virulentas
herdeiras do caos
furacão na alma
calma na aparência.
Enganadoras aparências…
Extintas, brilham ainda:
Mortas no universo
resistem na ilusão da retina.
Velhas super novas
pontuam o antes nada
na mentira da visão repentina.
Sim
são infiéis e passageiras.
Mas poupem-me os conselhos,
não excluo os amores
por medo de perdê-los.
Os que amam as estrelas puras
tão precisamente desenhadas
fazem para si mesmos
estrelas finamente acabadas.
Tão perfeitas e irreais
que não brilham por si mesmas
nem se sustentam fora das
bandeiras
e do branco firmamento dos
papéis.
Assim se constroem estrelas puras
sem os riscos de verrugas.
Cavalgarei estrelas
ainda que passageiras
pois não almejo tê-las
em frio metal
ou descartável plástico.
Simplesmente delas anseio
roubar a luz e o calor
sentir o vento fértil de seu rastro
tocar, indecente,
meu sextante no seu astro
na certeza do movimento
ainda que lento, que corta a noite
desde a aurora dos tempos.
Eis aqui minhas mãos:
não tenho receio de mostra-las,
antes com verrugas que
em bolsos guardadas.
Eis minhas verrugas,
orgulho-me em tê-las,
é parte do meu ofício
de construtor de estrelas.
Gastarei as verrugas
na lixa da prática,
queimarei as verrugas
com o ácido da crítica
e aprenderei com as marcas
que as estrelas se fazem ao fazê-las
por isso são estrelas.
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