Trecho do livro “Negras intenções”, de José Carlos Limeira

Trecho do livro “Negras intenções”, de José Carlos Limeira

Narração: Carmem Imaculada de Brito

Trecho do livro “Negras intenções”, de José Carlos Limeira

Meu sonho jamais faz silêncio

E a ninguém caberá calá-lo

Trago-o como herança que me mantém desperto

Como esta cor não traduzida em versos

Pois se fariam necessários muitos e tantos versos

Meu sonho vara madrugadas

Som alto

De timbales que se arrebentam em cânticos

E trago-o como Olorum na crença

Que não me pune em pecados

Mas

Enche-me o peito grávido de esperanças

Como malungos marcando ao sol de novembro

Subindo as serras

Defesa e guerra

Meu sonho jamais faz silêncio

É a lança brilhante de Zumbi

A espada de Ogum

É o ê, o rumpi, é o rum

É a fúria sem arreios

Terra farta dos anseios

Desacato, ato, sem freios

Vôo livre da águia que não cansa

Me faz erê, me faz criança

Meu sonho jamais faz silêncio

É um griot velho que me conta as lendas

De onde fisga tantas lembranças

E com ele invado chats, pages, sites

Na intimidade de corpos em dança

Perpetuando o gosto pelo correto

Meu sonho é pura herança

Rastro

Dos que plantaram, lutaram, construíram

O que não usufruo

Areia que moldada em vaso

Onde não nos cabe culpas

É lúcido ao sol dos trópicos, charqueada ao frio

É como um fio

Grita alto e bom som

Que o seio do amanhã nos pertence

Carregamos toda pressa

Meu sonho não faz silêncio

E não é apenas promessa

Planta em mim mesmo, na alma

Palmares, Palmares, Palmares

Pelo que de belo, pelo que de farto

Muitos Palmares

Carrega como o vento escritos

Versos de Jônatas, Oliveira, Colina, Semog e Cuti

Alimenta e nutre

Lembrando que esta cor me mantém desperto

E não tenho sustos

Sentinela que tange o eterno quissange

Entende a volúpia do calor que me abriga

Desfaz a mentira, destruindo a intriga

Meu sonho jamais faz silêncio

Como um Ilê Aiyê acordando a liberdade

Descobrindo amante ávido o sexo pulsante da existência

Desejo de navegar todos os mares

Comandando todas as fragatas, naves

E nos lança em um solo de Miles

Nos recria em um solo de Coltrane

Clássico como Marsalis, Jazz como Marsalis

E que nem tentem que faça silêncio

Pois voltaria gritando em um texto de Sohiynka

ás que completa a trinca

Torna-se um canto de Ella, Graça, Guiguio, Lecy

Gente negra, gente negra

Jamelão, mangueira

Brilho da mais brilhante estrela

Nunca se estanca, bravo se retraduz em sina

Só não lhe cabem

Crianças arrancadas da escola

Pela fome que rasga gargantas

E nos promete vê-las

Alimentadas todas, cultas

Meu sonho é uma negra criança

Que luta

Ergue Quilombos, aqui, ali

Em cada mente, em cada face

Impávidos como Palmares, impávidos Ilês

Em todos os lugares

Meu sonho não faz silêncio

Porque feito de lida

Teimoso como esta cor

Para sempre será desperto e certo

Mais que vivo, é a própria vida.

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