Domingo de Ramos: Jesus e seu movimento entram clandestinamente em Jerusalém

Domingo de Ramos: Jesus e seu movimento entram clandestinamente em Jerusalém (A partir de Lc 19,29-40)

Frei Gilvander Moreira[1]

Divulgação: www.cebi.org.br

Nas missas e nas celebrações da palavra, no Domingo de Ramos, início da Semana Santa, ouvimos o evangelho sobre a entrada de Jesus com suas discípulas e discípulos, em Jerusalém, abanando ramos. Por que e para que celebrar com ramos? Para reviver a experiência da caminhada pelo deserto em busca da terra prometida e resgatar a mística da Aliança com Javé, Deus solidário e libertador, celebrar o Domingo de Ramos, com uma ‘procissão de ramos’, era para as primeiras comunidades cristãs um jeito de atualizar o sentido da Festa das Tendas – uma das onze festas judaicas[2] -, que acontecia anualmente no outono, depois da colheita (Dt 16,13; Lv 23,34) para recordar o tempo em que o povo da Bíblia marchava pelo deserto em busca da terra prometida (Lv 23,43), morando em tendas. Por isso, durante uma semana, eles recolhiam ramos e construíam tendas para morar provisoriamente (Ne 8,14-17).

Quase dois mil anos atrás, na Palestina, após uma longa marcha da Galileia a Jerusalém (Lc 9,51-19,27), da periferia para a capital, Jesus e seu movimento popular e religioso estão às portas de Jerusalém. Dois discípulos de Jesus recebem a tarefa de viabilizar a entrada na capital, de forma humilde, mas firme e corajosa. Deviam arrumar um jumentinho – meio de transporte dos pobres (os ricos transportavam mercadorias usando camelos), mas deviam fazer isso disfarçadamente, de forma clandestina, sendo “simples como as pombas e espertos como as serpentes” (Mt 10,16). O texto repete o alerta de Jesus: “Se alguém lhes perguntar: “Por que vocês estão desamarrando o jumentinho?”, digam somente: ‘Porque o Senhor precisa dele”. A repetição indica a necessidade de se fazer a preparação da entrada na capital de forma clandestina, sutil, sem alarde. Se dissessem a verdade, a entrada em Jerusalém seria proibida pelas forças de repressão do governador Pilatos.

Com os “próprios mantos” prepararam o jumentinho para Jesus montar (Lc 19,35). Foi com o pouco de cada um/a que a entrada de Jesus em Jerusalém foi realizada. A alegria era grande no coração dos discípulos e discípulas, na sua maioria, camponeses. “Bendito o que vem como rei…” (Lc 19,38). O Evangelho de Mateus nos informa que as discípulas e os discípulos de Jesus festejavam gritando: “Hosana ao filho de Davi! Hosana no mais alto do céu!” (Mt 21,9). A palavra hebraica ‘hosana’ nos soa como uma exclamação, como se fosse ‘Viva! Viva!’, mas conforme o salmo 118,25 a mesma palavra ‘hosana’ significa “Javé, salva-nos!”  Aqui há um trocadilho entre as palavras Javé, Josué e Jesus, que têm a mesma raiz etimológica ‘libertar/salvar’. Portanto, o sentido da aparente exclamação dos discípulos se dirigindo a Jesus significa “Salva-nos!”. Mais do que exclamação, é um pedido clamor dos discípulos e discípulas dirigido ao mestre Jesus. Nas entrelinhas, significa que não é possível auto-salvação e é uma denúncia contundente dos falsos ‘salvadores da pátria’: governadores, imperador, sumo-sacerdote ou saduceus.

O povo via em Jesus, pobre, desarmado e servo – anunciado pelo profeta Isaías (Is 42,1; 49,3; 52,13) – outro modelo de exercer o poder, não mais como dominação, mas como gerenciamento do bem comum. Quem aplaude Jesus entrando em Jerusalém é o povo, grupo organizado que segue Jesus desde a Galileia. O povão que cinco dias após, na sexta-feira da paixão, gritará “crucifica-o” não  é o mesmo povo do “Domingo de Ramos”. Trata-se da massa alienada que sobrevivia em torno do grande negócio que era o templo em Jerusalém. Agem insuflados por fariseus que os estimulavam a gritar dirigindo-se a Jesus “crucifica-o”. Logo, a partir desses dois relatos dos evangelhos – a entrada de Jesus em Jerusalém e a crucificação de Jesus – não se pode concluir que o povo é como folha seca ao vento, uma ‘Maria vai com as outras’.

Ao ouvir o anúncio dos discípulos – um novo jeito de exercício do poder –, certo tipo de fariseu se incomoda e tenta sufocar aquele evangelho: ótima notícia para os pobres, mas péssima notícia para os opressores. Hipocritamente chamam Jesus de mestre, mas querem domesticá-lo, domá-lo. “Manda que teus discípulos se calem.”, impunham os que se julgavam salvos – ‘cidadãos de bem’ – e os mais religiosos. “Manda…!” Dentro do paradigma “mandar-obedecer”, eles são os que mandam. Não sabem dialogar, mas só impor. “Que se calem!”, gritam. Quem anuncia a paz como fruto da justiça testemunha fraternidade e luta por justiça verdadeira, o que incomoda um status quo opressor. Mas Jesus, em alto e bom som, com a autoridade de quem vive o que ensina, profetisa: “Se meus discípulos (profetas) se calarem, as pedras gritarão” (Lc 19,40). Esse alerta do galileu virou refrão de música das Comunidades Eclesiais de Base  (CEBs), assim: “Se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão. Se fecharem uns poucos caminhos, mil trilhas nascerão… O poder tem raízes na areia, o tempo faz cair. União é a rocha que o povo usou pra construir…!”

Portanto, a mística bíblica da celebração de Domingo de Ramos é: não cale os profetas e as profetisas, porque, senão, as pedras gritarão! Surdos e obcecados pelo ídolo capital, poderosos do mundo não ouvem os cientistas que estão falando há muito tempo que a devastação da natureza está levando ao aquecimento global e com isso as mudanças climáticas serão cada vez mais dramáticas fazendo surgir doenças cada vez mais perigosas, entre elas a COVID-19. Feliz quem ouve os verdadeiros profetas e as verdadeiras profetisas.

[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       www.twitter.com/gilvanderluis        –     Facebook: Gilvander Moreira III

[2] Onze grandes festas judaicas do povo judeu, em Israel/Palestina: 1) Páscoa (pesach, em hebraico – Jo 2,13; 13,1) era celebrada para comemorar a saída do Egito e a libertação do povo hebreu escravizado no Egito. O ato festivo do Pesach tinha de ser celebrado na família ou em um grupo maior. Outrora, festejava-se no átrio do templo com os familiares. Mas devido às massas que afluíam ao templo, vindas de longe, este se tornara pequeno, razão pela qual as festividades foram transferidas às casas particulares da cidade. Continuava sendo feito no templo o abate dos cordeiros pascais, assados e comidos, porém, nas casas. Antes de ser celebrado o Pesach, as casas tinham de ser purificadas de todos os restos de massa e pães fermentados. A isto se faz referência o apóstolo Paulo em 1Cor 5,7. A família reunida para a Ceia Pascal (ou o Seder) seguia o seguinte ritual: o chefe da casa proferia uma palavra de bênção sobre o primeiro cálice de vinho, dado a todos os/as participantes. Eram comidas então algumas ervas amargas. Antes de iniciar a refeição propriamente dita, alguém, geralmente o filho mais jovem, perguntava ao pai pelo sentido e pela diferença desta refeição com relação às demais, pelo significado do cordeiro, das ervas. O chefe da família então respondia, chamando à memória os acontecimentos da libertação da escravidão do Egito. Chama-se a parte explicativa a “Hagadá” do pesach, enquanto a parte doxológica é o assim chamado “Halel“. Após isto, o cálice novamente faz a roda entre os presentes. Começa então realmente a refeição, aberta com uma oração. O encerramento consiste na oração final e na recitação da segunda parte do “Halel“. 2) Tabernáculos  ou Tendas (Sukot, em hebraico – Jo 7,2-8,20), era a festa da água e da luz; também de origem agrária. Recorda o tempo em que o povo vivia em Tendas no deserto. (Sem terras do Rio Grande do Sul vivem uma semana por ano em tendas para recordar o tempo dos acampamentos).  3) Festa da Dedicação (Jo 10,21); 4) Jo 5,1: festa sem nome.); 5) Festa dos pães ázimos (mazot, em hebraico). 6) Festa de Pentecostes (Shavuôt, em hebraico). Originalmente era uma festa agrária na qual os judeus apresentavam os primeiros frutos (as primícias) do campo ao Senhor. O povo da Bíblia se considerava as primícias de YHWH. Logo o primeiro Pentecostes aconteceu na Aliança no Monte Sinai, quando Deus celebrou sua aliança com o povo escravizado. Segundo os Essênios de Qunrã havia três Pentecostes: a) o do Trigo; b) o do Vinho; c) o do óleo. 7) Dia da Expiação (Yom Kippur, em hebraico). Não era festa de peregrinação, mas antes o grande dia de penitência. O sumo-sacerdote era obrigado a oficiar naquele dia. Sacrificava em primeiro lugar um bode para os seus próprios pecados. A seguir, em rito solene, transferia os pecados do povo para um outro bode, o bode expiatório, mandando-o para o deserto. 8) Festa do Ano Novo (Rosh hashanna, em hebraico); celebrado dez dias antes de Yom Kippur. Para anunciar o início do novo ano é tocado o Shofar, um instrumento de sopro feito de chifre de carneiro. Neste dia os judeus celebram o aniversário da Criação. 9) Chanuka, uma festa de inverno, festa da luz, para relembrar a vitória dos asmoneus sobre rei Antíoco IV. 10) Festa do Purim, festa da comemoração da salvação dos judeus da perseguição persa como é narrado no livro de Ester. 11) Festa da alegria pela Torá (Shimchat Torá, em hebraico); celebrada no final das festas do Sukot. Neste dia os judeus levam os rolos da Torá em solene procissão, seja dentro da sinagoga, seja ao ar livre.

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