Livro MEMÓRIAS VIVAS DE 1968: a prisão dos padres franceses e do diácono brasileiro em Belo Horizonte, de Michel Marie Le Ven e Rosely Carlos Augusto, Ed. PUC Minas, 2017.

Livro MEMÓRIAS VIVAS DE 1968: a prisão dos padres franceses e do diácono brasileiro em Belo Horizonte, de Michel Marie Le Ven e Rosely Carlos Augusto, Ed. PUC Minas, 2017.

Por Gilvander Moreira[1]

Ontem, dia 09/12/2017, tive a alegria de participar do lançamento do livro MEMÓRIAS VIVAS DE 1968: a prisão dos padres franceses e do diácono brasileiro em Belo Horizonte, de Michel Marie Le Vem e Rosely Carlos Augusto, Ed. PUC Minas, 2017. Livro de leitura imprescindível em tempos de nova ditadura política, jurídica, midiática e do sistema do capital, principalmente o financeiro. Foi emocionante o reencontro de muitos/as lutadoras/res dos “anos de chumbo” e também a significativa presença de jovens lutadores.

O livro resgata a luta dos padres franceses, chamados de “padres do Horto”, de Belo Horizonte, MG: padre François-Xavier Berthou, padre Michel Marie Le Ven e padre Hervé Croguennec – e o então diácono José Geraldo da Cruz, que se tornou bispo comprometido com a opção pelos pobres. Membros da Congregação dos Assuncionistas, os três padres e o diácono José Geraldo foram presos dia 28 de novembro de 1968 pela ditadura militar-civil-empresarial no quartel do Colégio Militar em Belo Horizonte. Motivo: compromisso solidário, através da JOC (Juventude Operária Católica), com a classe operária em greve. Jesus de Nazaré foi “preso no Horto das Oliveiras” (Lucas 22,43-49). Os padres franceses, no Horto de Belo Horizonte. Maria do Carmo, na época, militante da JOC, emocionada, em seu depoimento, escreveu: “Naquele novembro de 1968, eu chorei nas escadarias da Igreja do Horto das Oliveiras” (nota 4, p. 37), em Belo Horizonte.

O livro traz testemunhos de outras 22 pessoas perseguidas pela luta contra o arbítrio da ditadura militar-civil-empresarial iniciada em 31/3/1964. O padre Elias, pároco da Paróquia Senhor Bom Jesus do Horto, de 2006 a 2010, na capital mineira, ao perceber o silêncio imposto sobre a prisão dos padres franceses, procurou Michel Le Ven e, após receber dele uma extraordinária aula de história a partir dos perseguidos, nasceu o projeto da edição do livro Memórias vivas de 1968.

O prefácio foi escrito por frei Oswaldo Resende, frade dominicano companheiro de frei Tito Alencar, frei Betto, frei Fernando Brito e frei Ivo Lebauspan – frades presos no calabouço da ditadura militar-civil-empresarial simplesmente porque estavam sendo fiéis ao evangelho de Jesus Cristo. Ainda bem que Jesus de Nazaré atestou segundo o Evangelho de Mateus: “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça” (Mt 5,10).  No prefácio, com uma beleza literária que nos comove e nos deixa indignado, frei Oswaldo afirma: “Houve greves, e entre elas destacou-se a dos metalúrgicos mineiros, em abril de 1968, que surpreendeu os donos do poder pela sua força, ao ponto de conseguir arrancar do coronel Jarbas Passarinho, então ministro do Trabalho, 10% de aumento salarial. Mas a vitória não evitou a repressão, que foi terrível. Em outubro do mesmo ano, outra greve. […] Os padres do Horto não se calaram, criaram um Comitê de Apoio à Greve e proclamando enérgico repúdio às arbitrariedades ditatoriais que infringiam descaradamente as convenções internacionais que o Brasil assinou inclusive a Carta das Nações Unidas. […] Foi nesse quadro que no dia 28 de novembro de 1968 homens do Exército Brasileiro, sim, ele, não a polícia, invadiram a casa dos padres assuncionistas, reviraram tudo, levaram tudo o que puderam, e os conduziram presos” (p. 16-17). Frei Oswaldo encerra o prefácio alertando: “é preferível a pior das democracias à melhor das ditaduras” (p. 18).

Autora de muitos textos e dos livros Pôncia Vicencio (2003), Becos da Memória (2006), Poemas da recordação (2008), Insubmissas lágrimas de mulheres (2011), Olhos d’água (2014), Histórias de leves enganos e parecenças (2016), na Apresentação de Memórias vivas de 1968, Conceição Evaristo assevera: “Quem luta pela justiça crê na força coletiva, reconhece que um soldado sozinho não faz a guerra e confiantemente canta: “Você me agarra, alguém vem e me solta” e se “você me prende vivo, eu escapo morto” (p. 21). E, Conceição Evaristo conclui a Apresentação de Memórias vivas de 1968 com sabedoria fina e revolucionária: “Para resistir é preciso reatualizar, cultivar memórias, pois o presente não nasce do nada e o futuro não se constrói no vazio e sim enquanto estamos preenchendo o presente. Portanto, vamos às Memórias vivas de 1968, pois elas nos trazem outras!” (p. 23).

Eis um livro de leitura imprescindível, além de um ótimo presente em tempos natalinos e de virada de ano. Oxalá Memórias vivas de 1968 nos inspire para virarmos não apenas o ano, mas o sistema do capital que impõe sobre o povo uma atroz ditadura.

Com eterna gratidão aos padres franceses – François-Xavier Berthou, Michel Marie Le Ven e Hervé Croguennec – ao diácono José Geraldo, que por causa da prisão teve sua ordenação sacerdotal adiada, mas se tornou um dos bispos brasileiros que combateu o arbítrio e contribui ainda na construção de uma sociedade justa, solidária, ecumênica e sustentável ecologicamente.

Abraço terno. Frei Gilvander Moreira

Belo Horizonte, MG, 09/12/2017.

Obs.: Quem quiser adquirir o livro, entre em contato com Rosely Carlos Augusto: e-mail: rosely54@yahoo.com.br

             

[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. De “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG.

E-mail: gilvanderlm@gmail.comwww.freigilvander.blogspot.com.br      –       www.gilvander.org.br

www.twitter.com/gilvanderluis        –     Face book: Gilvander Moreira III

 

2 comments

  1. Obrigada, Frei Gilvander. Que o livro alimente a esperança e a coragem de lutar das atuais e futuras gerações de jovens! Nossos agradecimentos a você e todos/as os que estiverem presentes no encontro, memorável, do dia 08/12/17. Força na luta!!

  2. Ah! Que saudades do Pe Herve….do Zé Geraldo , do Michel e do Xavier…Quero adquirir e divulgar esta tão grande obra. QUERO ADQUIRI-LO . Como faço?

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