O BOM SAMARITANO HOJE.

O BOM SAMARITANO HOJE.

Maria do Rosário de Oliveira Carneiro[1]

Os sete retratos do “Bom Samaritano de hoje”, abaixo descritos, foram escritos originalmente para o Livro O Bom Samaritano: ontem e hoje, de Carlos Mesters e Gilvander Moreira.[2]

 

 

1 – Sr. Joaquim e a sua mochila. Joaquim, morador de rua, vive nas ruas de uma capital do Brasil. Carregava uma mochila e dentro dela todos os bens que possuía. Numa noite, encostou-se debaixo de uma marquise para passar a noite. Ao despertar pela manhã, percebeu que alguém lhe havia roubado a mochila. Embora lhe faltasse tudo que tinha, expressou aliviado: “que favor você me fez, ladrão! Estava muito pesada! Eu não precisava de tudo aquilo. Vou lutar para reconquistar o mínimo de que preciso para viver: documentos, um cobertor e umas poucas roupas”.

2 – Sr. Levi dos livros. Levi é morador de rua. Na sua juventude, concluiu o ensino fundamental e tinha o sonho de fazer uma faculdade. Mas por um infortúnio, terminou jogado na rua, bebendo muito. Hoje, Levi está se reorganizando, lutando para se libertar do vício do álcool. Vive numa república de moradores de rua. Sofre por perceber que muitos de seus irmãos moradores de rua são analfabetos. Então, Levi, que adora ler e escrever e acredita na educação como meio de libertação, se propôs a alfabetizar seus irmãos, moradores de rua, lá na República onde mora.

3 – Sr. José, o surdo-mudo. José, morador de rua, é surdo-mudo. Entrou numa igreja para orar. Orava balbuciando sua prece. Os seguranças da Igreja pediram para ele se retirar porque o barulho da sua prece incomodava os fiéis. Era hora da adoração ao Santíssimo. José resistiu. Não queria sair. Acabou sendo retirado com violência e pancada. Fizeram um processo criminal contra ele. Na audiência, ao dar a palavra para que José contasse o que havia se passado, ele retirou do bolso um terço e com gestos (que foram traduzidos), explicou que havia entrado na Igreja para rezar. O barulho que “incomodava os fiéis” era sua conversa com Deus. Os guardas alegaram que a adoração ao santíssimo não podia ser atrapalhada.

4 – Che Guevara e os leprosos. Che Guevara, argentino, médico, quando girava pela América Latina, Che­gando a um leprosário na selva amazônica, foi advertido pela freira responsável para não entrar em contato com os leprosos, a não ser com luvas, para evitar contágio. Che achava que não podia obede­cer às ordens da irmã, pois não queria que a sua atitude de prevenção aumentasse neles o sentimento de exclusão. Por isso, de noite, sem luvas, ele ia e abraçava os leprosos e os acolhia como irmãos. Estes choravam de emoção, porque Che os respeitava como gente. Não houve nenhum contá­gio. Pelo contrário! Melhorou o ambiente, que se tornou mais fraterno e, por isso mesmo, mais cristão.

5 – Paulo, morador de rua. Numa noite de frio, Paulo foi roubado por policiais e fiscais de uma prefeitura. Tomaram dele o cobertor e todos os seus pertences pessoais, inclusive os documentos. Paulo denunciou o roubo e passou a estimular seus amigos, vítimas do mesmo crime, a também denunciarem. Não só estimulava como ia junto com eles fazer a denúncia. Perguntado se não teria medo de denunciar policiais e agentes públicos, ele respondeu: “Tenho duas saídas: denunciar, mesmo correndo risco de sofrer retaliação, ou permanecer apanhando nas ruas. Escolhi denunciar não só por mim, mas por todos os meus companheiros que também vivem nas ruas, porque viver na rua já é uma violência e não podemos apanhar mais, sobretudo de quem tem a missão de nos proteger”.

6 – Comunidade Dandara. Em Belo Horizonte havia uma área de terra de 315 mil metros quadrados, que há mais de 40 anos se encontrava abandonada, sem cumprir a função social. A construtora Modelo, que reivindicava a posse na justiça, estava devendo milhões em IPTU. Em Belo Horizonte há mais de 70 mil famílias sem moradias, sobrevivendo em áreas de risco, pagando o aluguel caro, morando de favor, em situações precárias. São pobres sendo assaltados no seu sagrado direito de viver com dignidade. As Brigadas Populares, o MST e uma Rede de Apoio se uniram e convidaram centenas de famílias sem-teto para se organizar e ocupar a área que estava abandonada. Hoje, esta área se chama Comunidade Dandara. As famílias que vivem lá (em torno de 1.000 famílias) construíram suas casas de alvenarias, plantam hortaliças nos quintais, participam das lutas e muitas pessoas se tornaram lideranças na luta pela moradia digna na Cidade. Afirmam, com muita convicção: esta terra foi Deus quem nos deu!

7 – Marcos, morador de rua e homossexual. Certa vez, foi impedido por seguranças de entrar em uma Câmara de Vereadores. Indignado com a forma como foi tratado, denunciou os seguranças. Em audiência, quando lhe foi perguntado se desejaria alguma quantia em dinheiro para reparar o dano, Marcos disse: “Eu gostaria que todos os seguranças que trabalham em órgãos públicos e nas empresas passassem por uma formação para poderem entender que eu sou igual a todo mundo, tenho os mesmos direitos. Que todos saibam que os moradores de rua têm direito e são cidadãos. Que fique assegurado que nunca mais, nem eu, nem qualquer outro morador de rua ou homossexual seja barrado de entrar e sair em qualquer lugar deste país”. Disse ainda que fez a denúncia não só por ele mesmo, mas para ajudar a quebrar o ciclo de violência e preconceito pelo qual ele e seus companheiros de rua têm sido vítimas constantemente.

Belo Horizonte, MG, Brasil, 18 de outubro de 2012.

 

 

 


[1] Advogada Popular, integrante da Rede de Apoio e Solidariedade às Ocupações urbanas em Belo Horizonte, MG; da Comissão Pastoral da Terra – CPT -; trabalha com pessoas em situação de rua e catadores de material reciclável; e-mail: mrosariodeoliveira@yahoo.com.br

[2] Cf. Livro O Bom Samaritano: ontem e hoje, de Carlos Mesters e Gilvander Moreira, São Leopoldo, CEBI, 2012, encontrável também em www.cebi.org.br

 

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