Dandara, Camilo Torres e Irmã Dorothy

Dandara, Camilo Torres e Irmã Dorothy

Frei Gilvander Luís Moreira[1] 

(Publicado no Jornal Brasil de Fato, edição n. 422, de 31/3 a 06/04/2011, p. 2.)

Em Belo Horizonte, 13ª cidade mais desigual do mundo (segundo a ONU), três comunidades sem teto estão ameaçadas de despejo: Comunidades Dandara, Camilo Torres e Irmã Dorothy.

 Acompanho de perto, desde o início, a luta das 1.200 famílias dessas três comunidades. Por isso, digo que são exemplos de luta por inclusão social e por dignidade humana. Na Camilo Torres moram 142 famílias; na Dandara 887 famílias e na Irmã Dorothy 135 famílias estão vivendo em comunidade. Quase todas as famílias, antes, estavam na cruz do aluguel, vivendo de favor, nas ruas ou em áreas de riscos. Muitas delas cansaram de esperar na ilusória fila da política habitacional de Belo Horizonte, que é insuficiente. Colocaram o pé na estrada e estão lutando por dignidade, moradia popular e por uma reforma urbana estrutural e efetiva.

Dandara está no Céu Azul, na região da Nova Pampulha. Ocupa um “latifúndio urbano” de 360 mil metros quadrados (36 hectares) que estava abandonado, com milhões em dívida de IPTU e sem cumprir sua função social há décadas. Mesmo assim, a Construtora Apesar luta judicialmente pela reintegração da posse. Não mantinha a posse antes. Para espanto nosso, o Judiciário Mineiro concedeu a liminar de reintegração de posse à construtora. 

As 887 famílias de Dandara estão sendo organizadas pelas Brigadas Populares e por uma ampla Rede de Apoio. Está organizada em 9 grandes grupos coordenados por moradores(as) eleitos(as) nas semanais “reuniões de grupo” Há Assembléia Geral semanal. Foi elaborado um projeto urbanístico por profissionais e estudantes de arquitetura da PUC-Minas em conjunto com a Comunidade, garantindo uma apropriação racional do terreno e o respeito à legislação urbanística e ambiental. Há áreas comunitárias reservadas para horta comunitária e para construção de equipamentos públicos (Creche, Posto de Saúde e Praças). Uma Igreja Ecumênica e um Centro Comunitário estão sendo erguidos em mutirão. Mais de 90% das moradias já são casas de alvenaria, construídas com muito suor, inclusive com empréstimo bancário feito por aposentados. Nas comunidades há Coletivos de Saúde e de Educação formados por moradores e apoiadores. Há Projeto MOVA de alfabetização do Instituto Paulo Freire. Os conflitos internos são dirimidos e mediados pelas lideranças locais, quase sempre sem intervenção da força policial. Tratam-se de Comunidades pacíficas em que a organização popular permitiu o estabelecimento de fortes vínculos de solidariedade, conscientização, disciplina e compromisso social. Dandara é a maior ocupação organizada de Minas Gerais.

Camilo Torres e Irmã Dorothy estão em terrenos que até 1992 pertenciam ao Governo de Minas. Foram repassados por baixo preço e de forma irregular para empresas que não cumpriram cláusulas contratuais, tal como a obrigação de construir empreendimento industrial na área dentro de 24 meses. Após 16 anos, os terrenos continuavam ociosos.

Pelas três comunidades já passaram dezenas de turmas de estudantes, professores, religiosos de diversas congregações, ativistas brasileiros e estrangeiros. Enfim, essas três comunidades têm sido um importante exemplo de resistência e organização popular. Receberam nomes eloquentes: Dandara, companheira de Zumbi; Camilo Torres, padre guerrilheiro da Colômbia; e Irmã Dorothy, freira estadunidense que doou sua vida na defesa da Amazônia, lutando por reforma agrária e contra o trabalho escravo. Despejá-las jamais será a solução. Vamos continuar plantando caqui, a planta que resistiu no território de Yroshima, após a bomba atômica. O caminho é dialogar. É o que esperamos. A Presidenta Dilma, em reunião comigo e com o bispo dom Joaquim Mol, nos assegurou que se o governo de Minas e o prefeito de Belo Horizonte desapropriarem os terrenos, o Governo Federal financiará a melhoria das casas de alvenaria já construídas e construirá o que falta. O Governo do Estado, em reunião com uma comissão de Alto Nível, afirmou que é preciso dialogar. A bola está com o prefeito da capital mineira, que continua intransigente.

 



[1] Mestre em Exegese Bíblica, professor de Teologia Bíblica e assessor da Comissão Pastoral da terra – CPT; gilvander@igrejadocarmo.com.brwww.gilvander.org.br

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