Poema “Epitáfio para Getúlio”, de Paulo Gabriel

Poema “Epitáfio para Getúlio”, de Paulo Gabriel

Narração: Carmem Imaculada de Brito

Poema “Epitáfio para Getúlio”, de Paulo Gabriel

Soube da tua morte ontem à tarde irmão!

Dizer-te que estou triste é dizer pouco

porque todo meu corpo grita

cospe e chora.

Getúlio

amigo

dentro estás!

Pronunciar teu nome é dizer pobre

abandonado

nasceste no mato e no meio da poeira

e nem data de nascimento tinha tua identidade.

Nasceste ou foste desterrado?

Passaste fome como todos os teus amigos

aprendeste a dignidade sem ter ido à escola

tiveste que suar para viver

e sabias desconfiar dos prepotentes.

Amaste teus companheiros de caminho e de desterro!

Agora Getúlio falaremos do vivido

vamos recordar agora que estás morto.

Lembras nosso primeiro encontro?

Foi uma tarde de abril lá na favela

no morro São João onde moravas.

A dor do povo nos aproximou

e os dois sonhamos mundos novos a partir da miséria.

Juntos construímos o que depois seria tua casa

lentamente conseguimos chegar a conhecer-nos

e tu te tornaste para mim lugar comum de encontro.

Depois fomos partilhando nossas vidas

a pobreza e a violência da favela

tantas mentiras disfarçadas

como as daquele fantoche deputado

que em tempo de eleições subia até a Vila.

Te lembras do senhor Antônio?

Homem de bem

pisoteado!

Eu sorvia tua dor e tua raiva

e tu sorrias porque alguém de longe chegava perto para ouvir-te.

Vieram depois os problemas internos

sem a Associação de Moradores

era a comunidade um barco à deriva.

Os dois vimos tiroteios com crianças pelo meio

conhecemos as meias palavras

os silêncios expressivos

tu falavas do tempo em que foras tesoureiro

e eu te perguntava:

“que pode guardar um tesoureiro de favela’?

Eu sei que construíste uma escada de cimento para subir o morro

e colocaste luz para ver mais clara a miséria

introduziste água para cinco mil pessoas em 1968

e levantaste uma escola.

Lembras aquele dia em que juntos partilhamos tua mesa?

Jorge

Ana e tantos outros vieram ao teu barraco aquela tarde.

E quando levamos Mauro ao hospital

imóvel

quase morto?

Voltou um ano depois curado

caminhando

humanizado.

Recordas quando íamos à 13ª Região Administrativa

para reivindicar os direitos básicos

e nos faziam esperar horas a fio

para falar com quem sistematicamente pretendia ignorar-nos?

Mas tu eras somente um homem

e começou a doer-te o peito

e o coração parava.

Tivemos que buscar um hospital

mas não havia no Rio de Janeiro hospitais para todos.

Da Santa Casa ao Getúlio Vargas

do Getúlio Vargas para casa

assim semanas inteiras.

A partir daí já sabíamos de cor o rito:

Getúlio está doente

Getúlio melhorou

Getúlio não consegue respirar

Getúlio já trabalha.

Aqui sinto a necessidade de parar e perguntar-te:

“E tu como me vias?”

Nunca ias à igreja

mas conhecias de cor o sofrimento

nunca me chamaste “padre”

éramos amigos.

Foste sábio como um ancião!

Soubeste quase tudo da vida.

Como renascia a esperança

cada vez que subia para ouvir tanto silêncio!

Eu sentava no chão

na cama ou na cadeira

e Ana me oferecia café de um jeito inesquecível.

Em dez metros quadrados vivíeis todos

E tudo ali acontecia.

E na parede continuarão escritas por dez gerações

frases que libertam:

“contra toda escravidão” você proclamou um dia

e assim ia nascendo o sonho da “justiça”

como palavra original

definitiva.

Mas tu morreste ontem à tarde irmão

sem avisar como morrem sempre os pobres

e o mundo sem sabê-lo ficou despido de esperança.

Faz agora um mês eu parti e na despedida me disseste:

“quando vieres ao Rio vem visitar-me”.

Posso Getúlio visitar-te quando voltar ao Rio?

Um dia puseste óculos e todo mundo riu na favela.

Parecias um doutor

e tu disseste:

“Com estes óculos se vê melhor a realidade’.

Ficarão no teu barraco como um símbolo

com estes óculos Getúlio viu o mundo.

Que se pensa amigo da vida depois de ter morrido?

Não é grande demais para você a eternidade?

Não sei por que eu imagino que para os pobres

o céu deve ser grande e incômodo

como terno novo para quem nunca o vestiu!

Falei contigo Getúlio daquilo que é nosso segredo

tu me revelaste com teu silêncio sereno de poeta

o mistério que é viver e a alma de teu povo.

E agora que já tudo passou

Getúlio

sabes por que morreste?

Morreste porque eras apenas um número

na programação organizada do Governo

a vida aqui tem preço irmão

e a tua valia menos que uma condecoração nalgum pescoço.

Assim prosseguiremos

até não haver mais Getúlios sobre a terra

então se realizará meu verso:

“Já não há pobres na Pátria idolatrada”

dirão as estatísticas

“todos morreram”!

Getúlio

se é verdade que sobre as tumbas se assumem compromissos

e nascem sonhos

faz que cresça minha indignação junto à tua

para viver com dignidade a vida que me resta!

Fonte: Publicada, originalmente, no livro Poemas de Periferia, em 1980. Reunida na obra do poeta: GABRIEL, Paulo. Poesia. Obra “quase” completa. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2016, pp. 20-24.

Getúlio, o protagonista da poesia “Epitafio para Getúlio, de Paulo Gabriel

= = = = =

Se gostar, compartilhe.

*Inscreva-se no You Tube, no Canal Frei Gilvander Luta pela Terra e por Direitos, no link: https://www.youtube.com/user/fgilvander, acione o sininho, receba as notificações de envio de vídeos e assista a diversos vídeos de luta por direitos sociais. Se assistir e gostar, compartilhe. Sugerimos.

#FreiGilvander #LutaPorDireitos #PalavrasDeFéComFreiGilvander #RomariaDasÁguasEdaTerra #PalavraÉticaComFreiGilvander

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *