Tributo ao padre Antônio Luís Marchioni: padre Ticão. Por Frei Gilvander

Tributo ao padre Antônio Luís Marchioni: padre Ticão. Por FreiGilvander Moreira[1]


[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; agente da CPT, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH e de Teologia bíblica no SAB (Serviço de Animação Bíblica), em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       www.twitter.com/gilvanderluis        –    Facebook: Gilvander Moreira III

 “Bem-aventurado/a quem tem fome e sede de justiça, pois será saciado/a”. (Mt 5,6). Morreu e ressuscitou dia 1°/01/2021, o padre Antônio Luís Marchioni, conhecido como padre Ticão, responsável pela paróquia São Francisco de Assis do bairro Ermelino Matarazzo, na Zona Leste de São Paulo (SP). Segundo a página no Facebook da Diocese de São Miguel Paulista, o religioso foi internado no hospital Santa Marcelina, na quinta-feira (31/01/2020), com um diagnóstico de edema pulmonar e não resistiu após sofrer parada cardíaca. Ticão ainda teria realizado um teste para a Covid-19, conforme relatado por paroquianos, que apresentou resultado negativo.

Padre Ticão era conhecido como uma liderança de movimentos e pastorais sociais da Zona Leste. Também teve destaque na mídia por se posicionar em defesa do acesso ao tratamento com cannabis medicinal no país. 

Em Urupês, sua cidade natal, serviu como um verdadeiro discípulo do Cristo Pobre e Trabalhador. Apoiou as greves dos professores e boias-frias. Por esse motivo começou a ser hostilizado por grupos reacionários, sendo chamado de “agitador comunista”. Nos anos 1980 lutou pela ocupação de terrenos ociosos da Zona Leste de São Paulo, reivindicando a construção de moradias populares. Na luta por moradia chegou a ocupar a Secretaria de Habitação do Estado. Liderou a luta pela criação do Hospital Ermelino Matarazzo e foi fundamental no processo de instalação da USP Leste e do campus da UNIFESP na região. Lutou aguerridamente para evitar a construção de um grande presídio na região de Ermelino Matarazzo e no local lutou para construir uma escola. ‘Escola, sim; presídio, não!”, bradava sempre padre Ticão. Aos 68 anos de idade, o religioso atuava há 42 anos como sacerdote. Devotando sua vida em favor das minorias e dos mais pobres. Ameaçado de morte tantas vezes por radicais conservadores, nunca renunciou suas convicções.

O padre Ticão chegou à capital de São Paulo nos anos 1970, após apoiar greves de boias-frias e de professores na região de Araraquara (SP).

Na década de 1980, participou da invasão ao prédio da Secretaria de Estado da Habitação para pressionar o então governador Franco Montoro a construir conjuntos habitacionais.

Ticão foi um dos líderes do movimento pela criação do Parque Dom Paulo Evaristo Arns e do Hospital de Ermelino Matarazzo, ambos na zona leste de São Paulo.  Na região, fez parte da mobilização para a instalação da USP Leste e da Universidade Federal de São Paulo.

Mais recentemente, criou na paróquia um curso sobre o uso medicinal da maconha em parceria com a Universidade Federal de São Paulo.

“Não vou dizer que Deus é maconheiro, eu realmente não sei. Mas com certeza ele é canabista”, disse em entrevista a Carta Capital em 2019.

Sempre aberto ao diálogo ecumênico e inter-religioso, padre Ticão, combateu o bom combate sem desanimar.
Foi um grande sinal de Esperança e a manifestação do Amor. Servo e Discípulo do Cristo pobre de Nazaré, do Cristo dos Trabalhadores, dos Periféricos e das Multidões.

Padre Ticão fez sua páscoa e deixará muita saudade. Sua luta continua!

Frei Gilvander Moreira: “Enquanto eu cursava Teologia em São Paulo, SP, e atuava pastoralmente nas Ocupações do Parque Novo Mundo (Vila Massari, Vila Tietê, Vila Cidade Nova, Vila Curuçá e Vila São João), de sexta-feira, após o almoço até domingo à noite, durante os anos de 1990 a 1993, tive a alegria e a responsabilidade de participar de várias lutas por moradia na capital de São Paulo, com o Padre Ticão sempre aguerrido ao lado do povo que lutava para se libertar da cruz do aluguel e da humilhação que é sobreviver de favor. Adquiri a Opção pelos Sem Teto vendo o compromisso de Padre Ticão na luta pela moradia. Seu compromisso com a luta dos Sem Casa, padre Ticão, foi imprescindível para o nosso compromisso com a luta pela moradia em Belo Horizonte e Região Metropolitana. Se nos últimos 13 anos, em 119 Ocupações em Belo Horizonte, 30 mil famílias construíram 30 mil casas, tem aqui também frutos das sementes que você semeou em mim também aí em São Paulo. Gratidão, querido padre Ticão, um profeta destemido nas lutas dos empobrecidos. Você, padre Ticão, um dos meus mestres na Opção pelos Pobres, foi e será sempre reflexo da luz e da força divina libertadora no nosso meio. Continuaremos sua/nossa luta.” Padre Ticão, Presente!

Obs.: Conheça um pouco nos vídeos abaixo o que fez e ensinou Padre Ticão.

1 – Homenagem a Padre Ticão: uma entrevista antológica de agosto de 2019

2 – Homenagem ao Padre Ticão

3 – 15 Minutos SQN com Padre Ticão

4 – Fé e Direitos Humanos, com Padre Ticão

5 – Live da Jú com Padre Ticão

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