Tributo ao Padre Ernesto

Tributo ao Padre Ernesto. Por Padre Nelito Dornelas

Padre Ernesto de Freitas Barcelos. Foto: Maria José de Souza (Maju).

Na porta do céu

Tira esse avental e entra logo Ernesto, camarada justo e fiel. A casa é tua, descansa e não me leves a mal: da voz rouca, da pouca saúde da perna, da viagem breve, do peso (leve), do preço (caro) da coerência e da licença pra partir (Padre Antônio Claret)

Nesse 28 de julho de 2019, na igreja de São Francisco, em Pitangui-MG, nos despedimos de nosso irmão Padre Ernesto de Freitas Barcelos, ao som da música traga a bandeira de luta, deixa a bandeira passar, essa é a nossa conduta, vamos unir pra mudar.

Conheci o Ernesto no ano de 1986, em Itanhomi-MG, quando ele era pároco em Ipatinga-MG, em plena campanha pela Assembleia Nacional Constituinte Livre e Soberana. Desde então nunca mais nos separamos. Nossos caminhos sempre se cruzaram. Fomos parceiros de caminhada e de enfretamentos nas CEBs, na Pastoral Carcerária, na CPT, no CIMI, na Comissão do Meio Ambiente, nas Romarias das Águas e da Terra, na PJ, na PJMP, no CEBI, no Ecumenismo, na Fraternidade Sacerdotal Jesus Cáritas, no CESEP, nos cursos de Verão e de Inverno e em tantas outras veredas da caminhada.

Ele sempre se demonstrou amigo leal e fiel, sensível às dores e aos sofrimentos do povo simples, consolador dos aflitos e acolhedor dos excluídos e discriminados, mas duro e até indelicado nas criticas aos inimigos dos pobres, não poupando nem mesmo seus amigos mais próximos.

Para conviver com Ernesto tínhamos que nos desinstalar sempre e nos desalojarmos de nossas confortáveis zonas de neutralidade, estabelecendo uma relação marcada pela gratuidade e o amor, como nos adverte o teólogo Gustavo Gutierrez: a gratuidade marca nossas vidas de tal modo que somos levados a amar e procurar sermos amados gratuitamente. Trata-se de uma questão-matriz. O verdadeiro amor sempre é um dom, algo que está além das motivações e dos méritos. Aspiração humana profunda, porque é o terreno da doação radical e da presença da beleza em nossas vidas. Doação e belezas sem as quais a própria luta pela justiça se encontraria mutilada.

Ele soube cultivar qualidades humanas abundantes. Forjou sua personalidade cristã na regra de ouro do Evangelho, as bem aventuranças. Na busca honesta da verdade e da autenticidade, soube superar seu próprio temperamento, aceitando e acolhendo plenamente as diferenças, fazendo-se um verdadeiro defensor da máxima evangélica: que todos sejam um para que o mundo creia (Jo 17,1).

Ao Ernesto aplicam-se as sábias palavras de Gustavo Gutierrez ao afirmar que viver e pensar a fé a partir do universo dos ‘condenados da terra’ nos fará tomar caminhos pouco frequentados pelos grandes deste mundo. Mas é nestes caminhos que encontraremos o Senhor. Da mesma forma que os discípulos de Emaús, então leremos seus gestos e palavras sob a luz pascal. Aí nossos olhos se abrirão e reconheceremos que Deus é esperança, Deus é alegria, Deus é ânimo.

A palavra esperança marcou tão forte personalidade de Ernesto que tantas vezes gritou às multidões: vivo cada dia para matar a morte. Morro cada dia para repartir a vida. E nesta morte da morte, morro mil vezes e ressuscito outras tantas com o amor que alimenta, do meu povo, a Esperança. E mais: tanto bem lhe queríamos que desejávamos dar-lhes, não somente o evangelho de Deus, mas até a nossa própria vida (Cf.1 Tes 2,8).

Faltam-nos as palavras para agradecer, para expressar a nossa gratidão ao Ernesto por tudo que ele significa para a Igreja dos pobres e a causa dos excluídos. Vamos ter que dizer sempre em nossa caminhada: Padre Ernesto Presente! Fique conosco irmão querido, nosso amigo de todas as horas, pastor dos pobres. Não nos abandone. Ajude-nos no caminho que você deixou aberto. O Bom Deus não quis mais seu ministério aqui na terra. Não quis mais o seu trabalho, sua voz entre nós, mas quis sua oblação. Viva agora plenamente o que o Pai lhe reservou! E nós continuaremos professando a mesma fé que lhe sustentou na caminhada: Quem nos separará? Sim, tenho a certeza que nem a morte, nem a vida. Nada poderá nos separar do amor de Deus, manifestado em Jesus Nosso Senhor (Cf.Rm 8,35-39) e revelado na vida de Padre Ernesto, nosso inesquecível irmão universal, que soube Gritar o Evangelho com a própria vida como o irmão Charles de Foucauld.

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