O poder tem paredes de vidro. Por padre Alfredo J. Gonçalves

Dois exemplos, ambos vindos da capital Brasília, procuram apresentar de maneira emblemática a real transparência no exercício da administração pública: um foi escrito pelas linhas mágicas da arquitetura; outro, costurado pela genial inspiração histórica que marcou a cerimônia de posse na data de primeiro de janeiro de 2023.
A arquitetura dos edifícios destinados aos três poderes – executivo, legislativo e jurídico – ergue-se fundamentalmente em concreto e vidro. Ou seja, os três exibem sua forma transparente para a praça do mesmo nome, dos Três Poderes: um espaço de encontro para os cidadãos. Em poucas palavras, o poder deve ser exercido com as janelas abertas, digamos assim, pelas três instâncias do governo de plantão. Não pode haver segredos (muito menos de cem anos), pois toda a estrutura está revestida de vidro transparente. A praça representa o povo consciente e organizado no exercício da cidadania.
Do ponto de vista histórico, a simbologia da tomada de posse do novo governo, em primeiro de janeiro de 2023, revelou exaustivamente essa conexão entre governo, de um lado, e cidadãos unidos e reunidos, do outro. No fundo, presenciamos o desenrolar de uma rica e verdadeira “liturgia” do poder, da política ou mais precisamente da democracia. Três símbolos em particular deram o tom dessa simbiose necessária entre povo-governo.
O primeiro foi a entrega da faixa presidencial. Em lugar do ex-presidente, que havia fugido para o colo de Trump nos USA, a faixa acabou sendo entregue ao novo presidente Luiz Inácio Lula da Silva por representantes da própria população, com destaque para os setores vulneráveis, nos quais a vida se encontra mais ameaçada. E não foi só isso! Essas mesmas pessoas subiram a rampa junto com o presidente Lula, o vice-presidente Alkimin e suas respectivas primeiras-damas.
Depois, com todos eles no alto da rampa, a banda passa a executar o hino nacional. Nunca, que me lembre, o hino exalou tamanho sabor patriótico e tamanha sonoridade musical. Fundiu toda a nação, unindo planalto central e planície num único e irrepetível abraço, permeado pelo anseio de justiça, paz e a esperança.
Por fim, subitamente, em meio à multidão compacta que lotava a praça, começa a erguer-se e a estender-se uma gigantesca bandeira do Brasil. Nos braços dos milhares de participantes, as cores verde-azul-amarelo deslocam-se até o início da rampa, numa perspectiva de que também à população estavam franqueados a via e o processo de participar das decisões de governo.
Em síntese, a arquitetura da capital, associada à recente “celebração histórica” da Praça dos Três Poderes gritam, em claro e bom som, que o mandato (em todas as suas instâncias), a bandeira, o hino e a faixa emanam do povo e a este pertencem. Essa, de resto, é a essência original da democracia!
Alfredo J. Gonçalves
Brasília-DF, 04/01/2023