Bíblia Hebraica, 39 livros da Bíblia Cristã. Por frei Gilvander

Bíblia Hebraica, 39 livros da Bíblia Cristã. Por frei Gilvander Moreira[1]

Bíblia Hebraica Stuttgartensia. Foto Reprodução

A Bíblia que o povo cristão lê não caiu pronta do céu, foi se formando ao longo de muitos séculos. Herdamos da Bíblia Hebraica 39 livros do Primeiro Testamento. A Bíblia Hebraicadeu origem a todas as Bíblias que conhecemos e estão em uso, sobretudo nas comunidades judaicas, cristãs e muçulmanas. Importante conhecermos as línguas que estão na sua base, os manuscritos que formaram a Bíblia, o cânon, sua divisão interna, a tradução da Bíblia hebraica para o aramaico, o grego, o latim e as línguas modernas.

          O nome ‘Bíblia Hebraica’ é dado aos trinta e nove livros que fazem parte do Primeiro Testamento bíblico, escritos na língua hebraica e pequenas partes, de alguns livros bíblicos na língua aramaica. As línguas hebraica e aramaica eram usadas no tempo de Jesus, inclusive. Quase todo o Primeiro Testamento foi escrito em hebraico e no aramaico são poucos textos[2]. Ambas as línguas são do mesmo tronco linguístico, o semita.

          O hebraico faz parte das línguas semitas, junto com o antigo cananeu, o ugarítico, o aramaico, o fenício e o moabítico. O primeiro documento encontrado nesta língua foi o calendário agrícola, na cidade Gezer, no século IX antes da Era Cristã (a.E.C.). A Stela de Mesha foi encontrada na mesma época e sua escrita é moabítica, muito parecida com o hebraico. No período do exílio da Babilônia por volta do séc. VI a.E.C., a língua hebraica falada decaiu muito, e começou-se a falar o aramaico, embora o hebraico continuasse a ser a língua oficial e erudita usada na liturgia.

Os escritos que nasceram depois deste período foram escritos em hebraico. Em ambas as línguas, hebraico e aramaico, o alfabeto é escrito na forma quadrada. Os exemplos mais antigos que temos da escrita aramaica são os papiros de Elefantina do séc. V a.E.C. e os manuscritos de Qumran. A língua aramaica, às vezes, é chamada também de caldaica ou aramaico antigo, para distingui-la da forma linguística mais recente.

          A história do texto hebraico do Primeiro Testamento pode ser apresentada em três períodos sucessivos: o primeiro período vai até o final da era veterotestamentária, que compreende a fase da flutuação do texto, sofrendo algumas mudanças ao confrontar o Texto Massorético (TM)[3] com a Tradução da LXX que vai até o séc. III-II a.E.C. Nota-se nesta fase, oscilação na transcrição dos textos, mudança na sequência dos capítulos do TM, por exemplo, no livro de Jeremias, a LXX coloca os cc. 46-51 após o c. 25,14, alterando o texto original.  

          No segundo período que vai do 1º séc. a.E.C. até o ano 500 da Era Cristã (E.C.), o texto bíblico hebraico e aramaico não sofreram mais a variação das consoantes, o que significa que uma tradição textual prevaleceu sobre as demais, este fato pode ter ocorrido talvez no período do sínodo judaico em Jâmnia, por volta da década de 80 E.C. Nesta época houve também a fixação do texto hebraico e aramaico, o que é comprovado pela tradução de Áquila, Símaco e Teodocião. Estas traduções já supõem um texto original, completamente uniforme e idêntico quanto às consoantes, e ao Texto Massorético.

          No terceiro e último período, que vai do ano 500 a 900, o texto bíblico hebraico e aramaico chegou a uma estabilidade definitiva também quanto ao vocabulário, sem divergências com o Texto Massorético. Os Massoretas fixaram o texto bíblico hebraico com muita seriedade, observando os mínimos detalhes deixando o texto original invariável, também se notassem um erro de transcrição, anotando no alto ou no rodapé as propostas de observações feitas ao texto e são conhecidas como ‘massora grande’. Na margem lateral do texto eram feitas as observações de como as palavras deveriam ser escritas e lidas, esta é conhecida como ‘massora pequena’.

          Faz parte do Cânon o conjunto de todos os escritos que compõem a Bíblia hebraica, na qual existem trinta e nove livros aceitos e reconhecidos como inspirados por Deus. Canon vem de uma palavra grega e significa: cana ou tubo que servia para medir, ou ainda pode significar regra ou norma. Aplicado à Bíblia, é a norma que estabelece o número de livros inspirados em cada denominação religiosa que faz uso da Bíblia. Canon é usado também para falar do Canon da Missa, são as normas estabelecidas de como o celebrante deve proceder para realizar a celebração da Eucaristia.

          O cânon da Bíblia hebraica foi fixado em Jâmnia no final do 1º século da E.C. ele é seguido até hoje pelos Judeus, pelos Evangélicos e (neo)pentecostais nas suas diversas denominações para o Primeiro Testamento. Mesmo que a aprovação solene e definitiva do cânon para a Igreja católica tenha sido no Concílio de Trento em 1546 da E.C., muito antes, ainda nos tempos apostólicos, os escritos eram aceitos e lidos nas comunidades, o Primeiro Testamento na Tradução da ‘Setenta’ e o Segundo Testamento os vinte e sete livros que o integram.

          A relação dos trinta e nove livros que formam a Bíblia hebraica[4]está relacionada em cada uma das três grandes partes que compõem a sua divisão interna: A Torá (A Lei), Neviim (Os Profetas) e Ketuvim (Os Escritos).

          A primeira parte da Bíblia hebraica é conhecida pelo nome Torá, normalmente traduzido por Lei, mas a tradução mais adequada corresponde a: “instrução e ensinamento”. A Lei é entendida como “A lei de Deus”, dada ao povo por meio do seu servo Moisés e outros: “Deus falou a Moisés e Arão e disse-lhes: Eis um Estatuto da Lei que Deus prescreve. Fala aos israelitas” (Nm 19,1-2). É frequente encontrar nestes livros as ordens de Deus, por isso elas são de valor máximo dentro da tradição judaica.

A Toráh – Lei de Deus!   Os livros que integram a Toráh são cinco e seguem a seguinte ordem dentro da Bíblia hebraica: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e o Deuteronômio. Na língua original eles são chamados pela primeira palavra que dá início ao livro. Por exemplo, a transliteração do primeiro livro da Bíblia hebraica é: “Bereschit” (= Num princípio) corresponde ao livro do Gênesis, de origem grega e prevaleceu nas traduções dos nomes das Bíblias e não a denominação hebraica.

Os Neviim – Profetas! A segunda parte da Bíblia hebraica são os “Neviim”, formada pelos livros proféticos, subdividida, por sua vez, em dois grupos, os profetas anteriores e os profetas posteriores. São chamados de profetas anteriores: Josué, Juízes, I e II Samuel e I e II Reis e profetas posteriores: Isaías, Jeremias, Ezequiel com os doze profetas menores: Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias. O livro de Daniel não é considerado profético, ele entrou no bloco dos ‘Escritos’. Este segundo bloco de livros, os proféticos, tem grande autoridade e são tidos como livros inspirados e canônicos pelo judaísmo.

Os Ketuvim – Escritos! O terceiro e o último bloco da Bíblia hebraica é formado pelos “Ketuvim”, os Escritos. Fazem parte do grupo dos Escritos os demais livros, tidos como inspirados, mas de menor autoridade na comunidade judaica. São eles: Salmos, Jó, Provérbios, Rute, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes, Lamentações, Ester, Daniel, Esdras, Neemias, I e II Crônicas. Muitos desses escritos são antigos, alguns Salmos atribuídos a Davi, coleção de Provérbios coletados por Ezequias, segundo a informação dos próprios textos.

          TaNak é a palavra que sintetiza as três partes da Bíblia hebraica, usada pelos judeus. São trinta e nove livros do Primeiro Testamento, exceto sete livros considerados deuterocanônicos e mais os vinte e sete livros do Segundo Testamento da Bíblia cristã. Os estudiosos tomaram as letras iniciais da ‘Torá’ normalmente traduzida por Lei, dos ‘Neviim’, profetas e profetisas e dos ‘Ketuvim’ que são os escritos sapienciais. Estas iniciais formam a palavra: TaNaK que corresponde ao conteúdo da Bíblia hebraica, enquanto a Bíblia usada pelos católicos contém setenta e três livros.

12/12/2023

Obs.: As videorreportagens nos links, abaixo, versam sobre o assunto tratado, acima.

1 – Bíblia: privatizada ou lida de forma crítica libertadora? Por frei Gilvander, no Palavra Ética

2 – Deram-nos a Bíblia. “Fechem os olhos!” Roubaram nossa terra. Xukuru-Kariri, Brumadinho/MG. Vídeo 5

3 – Agir ético na Carta aos Efésios: Mês da Bíblia de 2023. Por frei Gilvander (Cinco vídeos reunidos)

4 – Andar no amor na Casa Comum: Carta aos Efésios segundo a biblista Elsa Tamez e CEBI-MG – Set/2022

5 – Toda a Criação respira Deus: Carta aos Efésios segundo o biblista NÉSTOR MIGUEZ e CEBI-MG, set 2022

6 – Chaves de leitura da Carta aos Efésios, segundo o biblista PEDRO LIMA VASCONCELOS e CEBI/MG –Set./22

7 – Estudo: Carta aos Efésios. Professor Francisco Orofino

8 – Carta aos Efésios: Agir ético faz a diferença! – Por frei Gilvander – Mês da Bíblia/2023 -02/07/2023

9 – Bíblia, Ética e Cidadania, com Frei Gilvander para CEBI Sudeste

10 – Contexto para o estudo do Livro de Josué – Mês da Bíblia 2022 – Por frei Gilvander – 30/8/2022

11 – CEBI: 43 anos de história! Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos lendo Bíblia com Opção pelos Pobres


[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       www.twitter.com/gilvanderluis        –     Facebook: Gilvander Moreira III

[2] Escritos bíblicos na língua aramaica: Jr 10,11; Dn 2,4b-7,28; Esd 4,8-6,18; 7,12-26.

[3] Os Massoretas são os que fixaram o texto hebraico da Bíblia, limitando as possibilidades de interpretação e desvios. Eles reafirmaram as 22 consoantes enriquecidas com as vogais escritas abaixo e acima das consoantes, para fixar a pronúncia, a escrita e o significado das palavras.

[4] MARTINI Carlo M.; BONATTI D. Pietro. Il Messaggio della salvezza 1, Introduzione Generale. Torino: Elle Di C, 1990. P.125-129.

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