CREIO NA RESSUREIÇÃO! Por Eliseu Lopes

CREIO NA RESSUREIÇÃO! Por Eliseu Lopes[1]

A imagem que me ocorre é a do foguete. A de suas três etapas: o artefato, o incêndio e o percurso pelos ares e a explosão luminescente. Assim nossa vida. A etapa da vida uterina em que somos preparados. A etapa de nossa trajetória no tempo. A explosão na eternidade. É a ressurreição.

          O foguete é fabricado para explodir. Nós somos concebidos e gestados para ressuscitar. A morte apenas demarca as etapas. Não é definitiva. Definitiva é a ressurreição.

          Ao morrermos para o útero materno, ressuscitamos para o útero do mundo. Ao morrermos para o útero do mundo ressuscitaremos para o útero de Deus. Se é desproporcionada a vastidão do mundo para a estreiteza do útero materno, a segunda e definitiva ressurreição nos lançará na imensidão do infinito e eterno. A desproporção será maior ainda.

          Reza a Teologia que a Ressurreição é o despertar para a “Visão Beatífica”. Veremos  a Deus com toda a densidade do verbo ver. Não deixa de ser um modo de privilegiar a Razão, enfatizando o total saciamento da inteligência. Evidentemente transbordará para a vontade, para o coração totalmente plenificado.

          Ressurreição e imortalidade são conceitos distintos. A filosofia grega admitia tranqüilamente a imortalidade. O ser humano, composto de corpo e espírito, por ser espírito é imortal. Repugnava-lhe porém a idéia da ressurreição. Quando, no Areópago, Paulo falou de ressurreição, seus ouvintes ou zombavam ou pediam que deixasse esse assunto para outra hora.

          A Ressurreição do Senhor foi o grande impacto que deflagrou toda a reviravolta na vida de Paulo. De repente e contra todas as expectativas, o perseguidor feroz do Evangelho se metamorfoseia no seu mais fervoroso arauto. A ressurreição do Senhor foi, para ele, uma experiência pessoal profunda e definitiva. E Paulo se tornou a testemunha indômita da Ressurreição, que é o alicerce de toda a sua monumental arquitetura doutrinária. A Ressurreição do Senhor é o penhor da nossa própria ressurreição.

          É o mistério seminal do qual se irradia a luz que dá sentido à Vida e do qual procede a energia que move tudo no Universo. É a plenitude, é o coroamento, é o ponto de convergência cósmica, é o fecho de todas as relações. Porque o Senhor ressuscitou, a Vida venceu a morte e nele ressuscitamos. A Ressurreição é transfundida em nossas veias e pulsa em nosso sangue. Já vivemos na condição de ressuscitados. A morte será uma simples transição do tempo para a eternidade, será o parto, a partida definitiva.

          Nosso estado além do tempo não deixa de ser estimulante para a imaginação. Como será?

          Uma coisa é certa: todas as pessoas conservarão a própria identidade. Todas terão um nome, por ele responderão e por ele serão reconhecidas. O emaranhado de relações cerzidas na existência temporânea, laços de sangue e de amizade e tantos outros laços serão preservados, estreitados, aperfeiçoados. Incompreensões, impasses, recalques serão desfeitos a captados para a composição da harmonia perfeita. Não posso imaginar nem admitir a felicidade completa sem a companhia seleta de pessoas que contribuem para que eu me sinta feliz. Espero que se eternizem os laços de parentesco, que meu pai e minha mãe continuem meu pai e minha mãe, que continuem meus irmãos e minhas irmãs, muito especialmente minha mulher e meus filhos e toda a constelação de amigas e amigos. Ressuscitados, afirmar-nos-emos nitidamente. O céu não pode ser concebido como uma luminosa geléia impessoal, mas como uma vibrante comunhão infinitamente diferenciada.

          Sem a espessura da corporeidade, os inter-relacionamentos hão de ser totalmente livres e imediatos, proporcionando-nos a possibilidade de contato direto com as personalidades de todos os tempos que, de uma maneira ou de outra, estiveram presentes na nossa história, como os Santos canonizados na Igreja Católica Romana. Não deve, porém, vigorar no Céu nem o regime cantorial nem o tráfico de influência que o exacerbado Culto dos Santos sugere e a propaganda devocional explora, valendo-se da boa fé e da crendice popular.

Através  de suas devoções e do diálogo entabulado com seus santos escolhidos, as pessoas criam laços de parentesco espiritual, constituindo verdadeiras famílias que imagino, terão marcas distintivas e explícitas na grande Comunhão. Na abordagem de São Francisco de Assis, levo um trunfo na mão porque ele é o meu padrinho de Batismo. São Vicente de Paulo foi meu pai como Lazarista e São Domingos de Gusmão foi meu pai como Dominicano. Como casado, meu padroeiro é São José. E Maria, a mãe de Jesus e nossa Mãe, ornada de tantos títulos? Será o mais fulgurante espelho do clarão da Trindade.

          Geralmente se associa à idéia da morte a idéia de descanso. Descanse em paz! Descanso sugere inércia e passividade. Nada mais oposto à Ressurreição. Dois elementos estão na composição dos seus corpóreos: o Ato e a Potência. Deus é Ato Puro. Os Anjos hipoteticamente são Atos subsistentes, pois não tem corpo. Ressuscitados, isto é, após a Ressurreição, somos equiparados aos Anjos. Nossa Carne, totalmente potenciada, adquire atributos espirituais que a libertam das leis do corpo. Portanto nem gravidade, nem necessidades fisiológicas, nem inércia, nem passividade. Todas as potencialidades serão ativadas.

          O cérebro humano é mais potente do que o computador mais possante. O que acontece é que apenas uma mínima parte de nossas potencialidades, quer  corporais, quer espirituais, é ativada. A Ressurreição liberará todas as  nossas energias e será o pleno desabrochamento de todas as nossas potencialidades. Mais do que um equívoco, é uma contradição comparar ao descanso nossa condição depois da morte. Compreende-se por causa do sofrimento que normalmente antecede o momento fatal. Mas libertos de toda inércia potencial, entraremos de cheio no circuito borbulhante do Ato. Seremos conectados com o Ato Puro e a Unidade vital de que comungam o Pai e o Filho e o Espírito Santo.

          Nem descanso, nem agitação, mas plenitude. Segundo Paulo Freire, o ser humano, definido como “animal racional” pode ser definido também como “inconcluso”.  Diferentemente dos irracionais que geralmente nascem equipados para sobreviver e dotados de instintos, a pessoa humana nasce inerme e carente de tudo. Esta era a objeção alegada por Santo Tomás de Aquino quando discutia superioridade da espécie humana sobre as outras espécies animais. Refutando, ele explica que se Deus equipou os irracionais dos meios de defesa e dos instintos para sobreviverem, dotou o ser humano da razão e da mão. Da razão para captar as leis da natureza. Da mão para aplicá-las na tecnologia. Na Ressurreição, conquistaremos nossa conclusão cabal. Será uma conclusão vitoriosa e apoteótica.

          Não podemos esquecer que, inconclusos, vivemos a tensão entre o já e o ainda não. Já ressuscitamos com Cristo, mas ainda não chegamos à completude. A convicção de que já vivemos na dinâmica da ressurreição traz conseqüências inexoráveis e urgentes. Em uma sociedade dominada pela cultura da morte, a Fé na Ressurreição  exige que nos comprometamos com a defesa da Vida ameaçada. O desenvolvimento dessa idéia nos levaria muito longe…

          No processo evolutivo, a ressurreição representa o ponto culminante. É o ponto-X. O ponto Krístico! “Ele é a imagem do Deus invisível, primogênito de toda criatura, pois nele tudo foi criado, nos céus e na terra, tanto os seres visíveis quanto os invisíveis”(Cl 1,15-16).

          Em relação à Ressurreição, tenho minhas curiosidades. A primeira, a tomar conhecimento da página de minha vida. Tudo o que me aconteceu, inclusive nos nove meses de vida uterina, deve ter sido registrado no livro da Vida. Terei então acesso a todas as informações de minha biografia. Não será como em um filme em que as cenas se sucederão porque a sucessão pertence à dinâmica do tempo. Será uma visão sinótica, total e simultânea e aparecerão um sem número de lances e de rostos que, ao longo de minha existência, escaparam de minha atenção e a memória não gravou. Meu retrato autêntico, sem retoques, completo, captado pela objetiva do Pai que está no céu, entre os inumeráveis retratos da incontável multidão de pessoas na luminosidade de uma esplêndida revelação. Saberei então em profundidade quem sou. Quem Eu-Sou. Eu-Sou é o nome próprio do nosso Deus. Descobrirei então que a Humanidade inteira está mergulhada na Divindade. “Nela vivemos, nos movemos e somos” (At 17,28).

          Se Deus revelou a Moisés que o seu nome é Eu-Sou, ousemos tirar as conseqüências dessa revelação. Em tudo que é, que existe, há mais do que um simples reflexo de Deus, graças à sua imanência. Condicionados, neste mundo, pelo tempo e o espaço, somos muito sensíveis à transcendência e pouco atentos à imanência. Sentir a presença de Deus em nós e a  vibração da divindade no mais íntimo de nós mesmos nada tem de panteísmo mas é a pura expressão do mistério da imanência que será desvendado na Ressurreição. No fulgurante clarão da pausa, descobriremos as incomensuráveis dimensões do Corpo místico de Cristo e o  verdadeiro significado de ser Povo de Deus. O mistério da Unidade brilhará em todo o seu esplendor.

          Essa tomada de consciência resultará necessariamente em uma antecipação com conseqüências determinantes em um empenho efetivo na luta contra as desigualdades sociais e no combate aos crimes contra a natureza.

          Nas imaginárias projeções paradisíacas ligadas à Ressurreição, é realçado o aspecto do prazer. Como geralmente se associa o prazer ao corpo, nós católicos, formados em uma visão platonicamente dualista, o rejeitamos como algo pecaminoso. É uma lamentável mutilação!

          Prazer conota apetite. Somos dotados do apetite concupiscível que se compraz no que é bom e do apetite irascível que evita o que é mau. De certo modo, o apetite nos reveste como nossa pele e se irradia de nossos poros. São infinitas nossas potencialidades prazerosas e todas serão preenchidas na Ressurreição.

          O apetite concupiscível ordena-se à conservação do indivíduo e é fonte do prazer da alimentação ou se ordena à conservação da espécie e é fonte do prazer sexual. Quanto ao prazer alimentar, a distorcida moral católica se permite certa liberalidade.

          Quanto ao prazer sexual é totalmente restritiva graças ao falso culto de um celibato clerical mais ou menos duvidoso. E é o sexo que oferece a experiência do prazer mais intenso. Já ouvi alguém dizer que o Céu dos seus sonhos é um orgasmo sem fim.

          Há algo de orgástico nas experiências extáticas dos místicos. Não será irreverência nem sacrilégio nem blasfêmia pensar que a circunsessão entre as pessoas da Trindade Divina conjuga no Ato Puro eterno a experiência do orgasmo e do parto. Sei que isso é chocante para quem tem uma formação moral ascética e asséptica que evita a contaminação da realidade corpórea. Mas se a Ressurreição será o saciamento de todos os nossos desejos, por que não falar claramente de nossos apetites?

          Quanto ao apetite irascível, sua incidência maior é na área da injustiça que provoca ira e desejo de vingança. Mas a justiça divina que há de vigorar no reino da Ressurreição é a compaixão que se expressa no perdão. Ressuscitados, não só seremos perdoados, mas perdoaremos também. Viveremos na Paz, na Alegria e na Felicidade eternamente!

          Olhando-se a confusa, profusa e exuberante paisagem da geografia humana, a tentação predestinacionista é muito forte. A Humanidade estaria dividida entre o batalhão dos eleitos e o batalhão dos condenados. Argumentos bíblicos não faltariam para justificar tal visão. Basta lembrar a cena do grande julgamento do Evangelho de Mateus.

          Nos caminhos da vida, topamos com pessoas que parecem ter nascido para o Bem e com pessoas que parecem ter nascido para o mal. Os noticiários nos bombardeiam com uma explosão de crimes e de violências. E a Ressurreição nesse cenário?

          Jesus entregou seu Corpo e derramou seu Sangue por todos. A salvação objetivamente universal é o fundamento de nossa Esperança, de nossa certeza, pois ninguém está excluído. Mas então como fica? É certo que todos ressuscitarão. E ressuscitarão para a Vida. Ressuscitar para a Morte é uma “contradictio in terminis.” Seria inadmissível.

          Diante da Ressurreição, avulta o desafio do mal e da maldade. Em última instância, todos somos intimados a julgar-nos diante do tribunal de nossa própria consciência. A Igreja Católica Romana toma a liberdade de canonizar os Santos e garantir seu triunfo no Céu. Mas se abstém de definir se alguém foi condenado, embora essa atitude sábia e discreta não seja respeitada nos sermões sobre o inferno, abuso acintoso de uma imaginação doentia. O resultado é que ninguém mais admite o inferno, pelo menos o ridículo inferno das pregações.

          Apesar da obsessão definitória e infalibilite do atual Papa,  também está em baixa a crença no Demônio ou nos demônios cuja existência ele afirmou categoricamente. Parece que a punição eterna dos anjos rebeldes e das pessoas celeradas e perversas é uma exigência da justiça divina. Mas o que será a justiça divina? Na Bíblia Deus se revela como Pai compassivo e misericordioso, fonte inesgotável do perdão. Como diz o povo, Deus é justo, mas não é vingativo. Será que por trás da nossa reivindicação do inferno não se esconde a sede de vingança?

          Uma coisa está fora de dúvidas: Creio na Ressurreição da Carne, na Remissão dos pecados, na Comunhão dos Santos, na Vida Eterna. Amém!

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Refletindo sobre Ressurreição

Por Gilvander Moreira[2]

Ressurreição é assunto quer requer humildade para tratá-lo, pois está para além do tempo e do espaço. Dizia o filósofo pré-socrático Empédocles que se os bois tivessem um deus, o deus deles teria chifre. Conclusão: Há sempre o risco de projetar o nosso antropocentrismo no afã de definir quem é Deus, como é o céu, como seremos na ressurreição. Para vacina contra projeção temos o filósofo Feurback.

Deus é sempre O OUTRO, é inaferrável, não se enquadra em nenhum conceito, em nenhuma teologia. Podemos apenas ensaiar aproximações. O teólogo Bonhoffer, vítima de um dos campos de concentração nazista, dizia que “a humanidade precisava aprender a viver sem Deus”, esta seria a melhor forma de agradar a Deus. No fundo, o ateu, aquele que assume a responsabilidade pela própria vida, intui as  possibilidades e capta os limites reais, este deixa Deus ser Deus, pois não fica tentando apreender o mistério maior de amor e de infinitabilidade.

Metáfora da paineira e do milho de pipoca. No nosso nascimento celebramos nossa primeira ressurreição.

At 17: Paulo prega a ressurreição que para os gregos é loucura. Os gregos acreditavam na imortalidade.

Processo histórico evolutivo da nossa de ressurreição: Início no século III a.C., em período apocalíptico.

Os fariseus acreditavam na ressurreição; os saduceus, não.

“Argumentos” bíblicos.

Argumentos da natureza. Parodiando Lavoisier, podemos dizer que “na natureza nada se cria, nada se perde, nada morre, tudo ressuscita”.

Argumentos das Ciências (Cf. Física Quântica e Nova Física, visão holística).

Acreditamos na ressurreição da Carne (= toda nossa concretude histórica, material e espiritual), não se trata apenas de ressurreição da alma.

Somos compostos por diversas dimensões: Física, social, emocional, afetiva e espiritual etc.

A cultura persa introduziu a noção de anjos que povoam os céus. A cultura grega introduziu as religiões mistéricas. Logo, anjos e cultos mistéricos não são originalmente cristãos e se encaixam bem nas visões dualistas, que são caricaturais e mais mistificam a realidade do que a compreende.


[1] Texto escrito por Eliseu Lopes uma semana antes de partir para a vida em plenitude para o abraço com o Deus Amor. Eliseu Lopes foi padre lazarista, frei e padre da Ordem dos Dominicanos, perseguido pela Ditadura militar-civil-empresarial de 1964, casou-se com Vera, um talentoso biblista do CEBI (Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – www.cebi.org.br ) durante várias décadas. Eliseu Lopes nos deixou um imenso legado espiritual, profético e revolucionário, com muitos textos publicados e muitos outros ainda não publicados.

[2] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; agente da CPT, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH e de Teologia bíblica no SAB (Serviço de Animação Bíblica), em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       www.twitter.com/gilvanderluis        –    Facebook: Gilvander Moreira III

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