UMA CHAVE PARA O ESTUDO ORANTE DOS SALMOS

UMA CHAVE PARA O ESTUDO ORANTE  DOS  SALMOS

“Meditar dia e noite na lei do Senhor e vigiar em orações”

Belo Horizonte, 2 e 3 de julho de 2011

Frei Carlos Mesters, carmelita

(Obs.: Esse artigo é o 4º de uma série de 10 artigos de frei Carlos Mesters que disponibilizaremos na internet, em www.gilvander.org.br , em breve.)

 

 

Apresentação

Há uma diferença entre as palavras “rezar” e “orar”. Posso rezar os Salmos e posso orá-los. Qual é para você a diferença? “Rezar” vem de “recitar”: recito ou rezo orações que outros fizeram. “Orar” significa que a oração vem de dentro de mim mesmo. Milton de Nascimento tem uma música, cuja letra expressa o que quero dizer. Ele diz: “Certas canções caem tão bem dentro de mim que perguntar carece: “Por que não fui eu que fiz?” Ou seja, posso chegar a rezar os salmos de tal maneira que eles expressem exatamente aquilo que eu estou sentindo no momento. Ou como dizia Cassiano (Séc IV): “Instruídos por aquilo que nós mesmos sentimos, já não percebemos o salmo como algo que só ouvimos, mas sim como algo que experimentamos e tocamos com nossas mãos; não como uma história estranha e inaudita, mas como algo que damos à luz desde o mais profundo do nosso coração, como se fossem sentimentos que formam parte do nosso próprio ser”. Este é o ideal a ser alcançado.

Posso rezar os salmos, posso orar os salmos. A reza ou recitação dos salmos, quando feita mecanicamente, pode favorecer a rotina, e a rotina torna superficial nossa vida de oração. No tempo de Jesus, o ideal era este: cada pessoa devia aprender a rezar os salmos de tal maneira que eles despertassem nela a criatividade e a levassem a produzir o seu próprio salmo. Assim, a reza, em vez de levar à rotina, levava a orar, ao aprofundamento da oração e a um encontro maior e mais íntimo com Deus. Foi o que aconteceu na vida de Jesus. Ele fez o seu próprio salmo que é o Pai Nosso (Mt 6,9-13; Lc 11,2-4). O Salmo de Maria é o Magnificat. (Lc 1,46-55)

Os Salmos são nosso prato de cada dia. Vale a pena a gente gastar algum tempo para estudá-los e situá-los no contexto do tempo em que sugiram e no contexto da nossa vida hoje, tanto pessoal, como comunitária. Por isso, seguem aqui algumas sugestões de como estudar os salmos tanto pessoalmente como em comunidade:

* Tarefa pessoal:      1) cada um fazer para si mesmo um levantamento das dificuldades e luzes que encontra na reza dos Salmos

2) cada um fazer o seu próprio salmo pessoal.

* Tarefa comunitária: 1) colocar em comum e sistematizar as dificuldades e os clarões que encon­traram na reza dos salmos.

2) todos juntos fazer o salmo da comunidade

Uma Ajuda para o Estudo dos Salmos

1. Breve Introdução ao Livro dos Salmos

O livro dos Salmos é o maior dos livros da Bíblia: 150 capítulos!  Mesmo assim só uma parte dos salmos está no Livro dos Salmos. A outra parte, bem maior,  está espalhada pela Bíblia, em quase todos os seus livros, tanto do AT como do NT. Há mais Salmos fora do livro dos Salmos do que no próprio livro dos salmos. A oração dos salmos é como a água do rio: percorre e fertiliza a história e a vida do povo de Deus, do começo ao fim (cf Sl 46,5). Vamos acompanhar o seu curso, desde a nascente até o mar.

1. A Nascente

A nascente é o lugar onde a água está dentro do chão, nas cabeceiras do rio. A nascente do rio dos salmos é a experiência de Deus nas contradições da vida; é a convicção de que Javé, Deus vivo e libertador, está presente na vida. Ele nos ouve quando o invocamos. A raiz dos salmos é a certeza de que Deus escuta o nosso clamor. Este aspecto merece ser aprofundado. Veja uma sugestão no fim destas páginas.

2. As Fontes

As fontes são os lugares onde a água sai do chão e começa a correr sobre a terra. As fontes do rio dos salmos são os motivos que levam o po­vo a rezar. Cada salmo tem o seu motivo. Alguns motivos aparecem com maior freqüência. Até hoje, os mesmos motivos estão na origem das nos­sas orações e revelam, assim, a afinidade dos sal­mos com a nossa vida. Eis alguns destes motivos:

1. A história. O passado é lembrado para cantar as maravilhas de Deus (Sl 105); animar as pessoas (Sl 107); levá-las à conversão (Sl 106); para agradecer: “Eterno é seu amor!” (Sl 136).

2. O conflito entre fé e realidade. Provoca a crise de fé. O presente é tão diferente do passado! Será que Deus mudou? (Sl 77,11). O mal venceu? (Sl 14 e 53): “Vou seguir o exemplo deles!” (Sl 73,15).

3. O sofrimento. O sofrimento gerou o maior número de salmos: perseguição (Sl 3), solidão (Sl 142), doença (Sl 41), escuridão (Sl 88), etc. O sofrimento provoca desejos de vingança (Sl 109).

4. A lei de Deus. “Felizes os íntegros que andam na Lei do Senhor” (Sl 119,1). Alguns salmos revelam a mística profunda a que o povo chegou observando a Lei de Deus (Sl 19 e 119).

5. As festas do povo. Muitas festas! Da semeadura à colheita! As três grandes fes­tas do ano (Ex 23,14) com suas romarias ao Templo marcavam o ritmo da vida orante do povo (Sl 120 a 134).

6. A busca da presença de Deus. “Senhor, há muito que te procuro!” (Sl 63,1): no Templo (Sl 23,6; 27,4; 84,1-5; 122,1); em todos os momentos da vida (Sl 139); na presença dele, para sempre (Sl 16,11; 49,16)

8. A penitência. A história ensina que o perdão de Deus é maior que o pecado (Sl 106) e que sem Deus não há saída (Sl 30,7-8). Por isso pede perdão (Sl 51). A confissão liberta (Sl 32,5-8).

9. A natureza. “A Tua presença irrompe por toda a terra!” (Sl 8,2). Na harmonia do Universo, descobrem a força da Palavra de Deus que os conduz (Sl 33,4-12; 19,2-7; 104; 29,3-9). (Veja sugestão no fim)

10. A esperança. É a última que morre! Eles esperam pela libertação e pedem para que Deus realize suas promessas (Sl 2; 72). “Espero ver a bondade do Senhor na terra dos vivos!” (Sl 27,13).

3. Os Córregos

Os córregos são os pequenos leitos que a água vai formando ao sair do chão. Os córregos que alimentam o rio dos salmos são os assim chamados gêneros literários. Eles indicam a maneira como o povo costumava expressar-se na oração. Eles canalizam a água das fontes. Para perceber o alcance dos gêneros literários, convém refletir sobre os nossos gêneros literários: benditos, lamentos, trovas, excelências, desafios, congada, etc; e as nossas modas musicais: valsa, marcha, samba, bolero, moda de viola, etc. Cada um destes “gêneros literários” e “modas musicais” revela algo sobre o nosso jeito de ser e sobre a nossa maneira de rezar, de cantar e de fazer festa. Cada gênero e cada moda tem suas características e seus limites. Por exemplo, quem quer fazer música para enterro, não vai pegar o ritmo rock. Noite Feliz não serve para Sexta Feira Santa. Por que? A resposta a esta pergunta é evidente. Ela ajuda a entender o sentido e o alcance dos gêneros literários para a oração dos Salmos.

4. O Rio

O rio é a correnteza que se forma com a água dos córregos e que, em seguida, percorre e irriga o país. O rio dos salmos é a oração que percorre e irriga a história. Os salmos são o lado orante da história do povo de Deus. Alguns momentos ou situações do passado são lembrados com maior freqüência: a Criação (Sl 104); o tempo do Êxodo (Sl 105; 114); o tempo dos Reis com suas festas: casamento (Sl 45), coroação (Sl 21), projetos (Sl 101), guerras (Sl 20); a destruição do Templo (Sl 74; 79; 80); a dispersão depois do cativeiro (Sl 44,10-13).

5. O Barco

O Barco acolhe, carrega e protege as pessoas e as leva rio abaixo até o porto do destino. No rio dos salmos, o barco é tudo aquilo que dá identidade às pessoas e as protege: é a comunidade, que carrega os indivíduos como num barco; é a situação em que o povo se encontra e que leva a rezar; são as gerações que se sucedem no decorrer da história, transmitindo sua fé, sua esperança, seu amor, sua busca de Deus, sua vontade de caminhar e de lutar por uma convivência humana mais justa. Nos salmos transparece a situação da comunidade e do povo: situação econômica, social, política e ideológica; transparecem suas crises, lutas e sofrimentos; transparece sua fé, sua esperança, seu amor, suas tradições. O estudo desta situação do povo ajuda a ligar os salmos com o nosso hoje. Pois na situação conflituosa do povo daquele tempo reconhecemos algo de nós mesmos, algo dos nossos problemas e conflitos.

6. Os Romeiros

Nos salmos transparece não só a caminhada do povo, como também o itinerário pessoal de cada romeiro em direção a Deus. Não é só o povo que reza os salmos. Cada membro do povo reza a Deus. Grande parte dos salmos são orações na primeira pessoa do singular (Sl 3; 4; 5; 6..etc). É o indivíduo que reza e derrama diante de Deus sua situação pessoal e do povo. No tempo de Jesus, todos sabiam os salmos de memória. Sobretudo os lamentos individuais mostram como a luta pessoal de cada um e a luta do povo formam uma unidade. Ambas as lutas são importantes e se entrelaçam numa unidade indivisível. “O povo de Deus no deserto andava… Também sou teu povo, Senhor…!”

7. Os Remos

Os remos são a força que mantém os barcos em movimento. A força que mantém o povo no rio dos salmos e o leva a não desistir da viagem é a Aliança, a vontade de viver o compromisso com Deus e com seu povo. A Aliança é uma iniciativa gratuita do amor de Deus que, sempre de novo, surpreen­de seu povo e o convoca a recomeçar, apesar das falhas e infidelidades. A Aliança é também o desejo do povo de ser fiel a Deus, a sua vontade de observar a Lei e de viver como Povo de Deus. A Aliança é o coração do Povo de Deus. Os salmos são o eletrocardiograma que registra as pulsações deste cora­ção ao longo da história. Por exemplo, os salmos levam a “meditar a Lei do Senhor” (Sl 1,2) que é o instrumento da Aliança, e lembram suas exigências (Sl 15,2-5). A certeza do salmista em Javé (Sl 4,8-9), presente em Sião (Sl 46), vem da certeza da Aliança; de lá nasce a coragem de gritar e a certeza de ser atendido (Sl 77,2). A transgressão da Aliança leva ao julgamento e à condenação (Sl 50).

8. O Piloto

O piloto orienta o barco e o conduz são e salvo para o cais do porto. O piloto que orienta o barco no rio dos salmos é Jesus. Foi a partir da vida e do ensinamento de Jesus que o barco retomou o rumo do porto. A sua paixão, morte e ressurreição são a nova chave de leitura que nos revela o sentido profundo dos salmos e nos ajudam a rezá-los como sendo nossa oração. Jesus usou os salmos para transmitir sua doutrina (cf Mt 5,4 e Sl 37,11; Mt 5,8 e Sl 24,3-4; Mt 5,5 e Sl 126,5; etc) e criticar seus adversõrios (cf Mt 21,42 e Sl 118,22-23; etc). Rezou os salmos na última Ceia (cf Mt 26,30), no Horto (cf Mt 26,38 e Sl 42,6), na cruz (cf Mt 15,34 e Sl 22,2) e na hora de morrer (cf Lc 23,46 e Sl 31,6).

9. O Porto

O porto é onde o viajante alcança o objetivo da viagem. O porto do rio dos salmos, onde o povo e os romeiros querem atracar, é a realização da Aliança; é a observância perfeita da Lei de Deus. Este ideal está presente nos salmos. Neles transparecem os projetos do povo, meditados diante de Deus na oração. Projeto de abundância (Sl 72,16), de libertação dos opressores (Sl 72,12-13), de justiça (Sl 58,2-12), de fraternidade (Sl 133), de paz (Sl 120,7).

10. O Mar

O Mar é onde o rio desemboca, despejando nele suas águas, sem parar, séculos a fio, sem que o mar transborde. O mar onde desemboca o rio dos salmos é Deus. Ele mesmo! O rio corre para o mar e nele se perde, desaparece. Nos salmos transparecem os traços do rosto de Deus. Eles deixam entrever a experiência que o povo teve de Deus, e o que Deus significava para o povo. Revelam o amor do povo para com Deus. Imagens e comparações são o melhor meio para comunicar uma experiência. Elas são o recurso do salmista para comunicar sua experiência de Deus e da vida. São muitas! Inúmeras: “Força, Salvador, Rocha, Fortaleza, Abrigo, Rochedo, Escudo, Torre, Refúgio!”. Tudo isto em apenas dois versículos! (Sl 18,2-3).

Estas são como que dez janelas que abrimos sobre o livro dos Salmos. São dez pistas para penetrar até à sua raiz e recriá-los na nossa vida. Para orientar este estudo dos salmos convém lembrar aqui o conselho muito atual de Cassiano do começo do século V: “Instruídos por aquilo que nós mesmos sentimos, já não percebemos o salmo como algo que só ouvimos, mas sim como algo que experimentamos e tocamos com nossas mãos; não como uma história estranha e inaudita, mas como algo que damos à luz desde o mais profundo do nosso coração, como se fossem sentimentos que formam parte do nosso próprio ser. Repitamo-lo: não é a leitura que nos faz penetrar no sentido das palavras, mas sim a própria experiência nossa adquirida anteriormente na vida de cada dia”

2. Sugestão de como estudar um salmo

1. Primeiramente, procure descobrir a divisão do salmo: a articulação do pensamento

2. Em seguida, tente sentir e descobrir a situação que transparece no salmo e que levou o salmista a rezar

3. Em terceiro lugar, tente verbalizar u formular o que o salmista pretende alcançar através da oração

4. Enumere as Imagens, símbolos e comparações usadas pelo salmista para expressar o pensamento

5. Tente explicitar as características da fé do salmista que até hoje transparecem no salmo

6. Sentir e identificar a imagem de Deus que transparece e se comunica através do Salmo

7. Verbalizar o bem ou a resistência que este salmo suscitou em mim durante o estudo do mesmo

3. Seleção de alguns salmos para o estudo pessoal

1. Salmo 16(15):      Oração do e da Levita: Deus é a sua herança

2. Salmo 19(18):      Ação múltipla da Palavra de Deus: na natureza, na história, na vida pessoal

3. Salmo 22(21):      Oração de Jesus na Cruz: “Por que me abandonaste?”

4. Salmo 23(22):      O Senhor é meu Pastor: “Nada me falta!”

5. Salmo 27(26):      Os dois lados da fé em Deus: o lado luminoso e o lado escuro

6. Salmo 34(33):      Conselho de uma mãe de família: a transmissão da fé para os filhos

7. Salmo 42(41):      Prisioneiro da sede do Deus vivo: brasa em baixo das cinzas

8. Salmo 51(50):      Salmo da penitência e do renascimento

9. Salmo 63(62):      “Eu me agarro a Ti, Senhor!” (v. 9).  Imagem do menino carregado pelo pai

10. Salmo 73(72):    Enfrentar e vencer a tentação contra a fé: a fé da comunidade sustenta

11. Salmo 77(76):    Será que Deus mudou? Mudou não! Quem mudou?

12. Salmo 82(81):    Indignação profética

13. Salmo 88(87):    Prece no desespero da vida de um leproso: Onde transparece a esperança neste salmo?

14. Salmo 95(94):    O convite diário para rezar: o invitatório de todos os dias

15. Salmo 103(102):            Agradecer e louvar: a imensa bondade de Deus

16. Salmo 104(103):            Contemplar Deus na natureza

17. Salmo 109(108):            Vingança ou perdão?

18. Salmo 119(118),            vv 17-32: Meditar dia e noite na lei do Senhor. Apaixonado por Deus, o autor da Lei

19. Salmo 121(120):            Lado a lado com Deus

20. Salmo 146(145):            As oito bem-aventuranças do Antigo Testamento (vv 7-9)

4. Algumas luzes e provocações sobre o LIVRO dos Salmos

1. Uma sequência de salmos: um salmo ilumina o outro salmo

Verificar  se você descobre a ligação entre o conjunto destes seis salmos

Salmo 103: na vida pessoal

Salmo 104: na natureza

Salmo 105: na história do povo

Salmo 106: história do povo amostra da infidelidade do pvo

Salmo 107: história do povo amostra da fidelidade de Deus

2. A ligação dos salmos entre si

Verificar se você descobre a ligação entre estes salmos

Salmos 105, 106 e 107 (três maneiras diferentes e de meditar a história)

Salmos 22 e 23 (ou nada ou tudo)

Salmos 120 a 134 (livrinho de cânticos para romarias)

Salmos 01 e 150 (o primeiro e o último)

3. O Pentateuco Orante:

Verificar o versículo final dos salmos 41, 72, 89, 106 e todo o salmo 150 e tirar sua conclusão

Salmo 1 a 41 (veja e compare Sl 41,14)

Salmo 42 a 72 (veja e compare Sl 72,19)

Salmos 73 a 89 (veja e compare Sl 89,53)

Salmos 90 a 106 (veja e compare Sl 106,48)

Salmos 107 a 150 (veja e compare Sl 150 todinho)

4. A situação e o itinerário da pessoa orante que transparece no salmo:

Veja se você consegue identificar quem é a pessoa que fez o salmo

Salmo 88(97)

Salmo 34(33)

5. A imagem de Deus que transparece no Salmo:

Verifique qual  a imagem de Deus que transparece nestes salmos. Você se reconhece nesta imagem?

Salmo 118 e 119

Salmo 27(26)

Lamentação 3

5. Exemplos de estudo de três Salmos:  16, 19 e 107

Salmo 16: O Salmo dos Levitas

O movimento deste salmo é como uma lenta subida que alcança seu ponto alto nos versículos 5 e 6, onde o autor ou a autora descreve sua experiência como levita. Nos versículos seguintes de 7 a 11, descreve como esta experiência repercute em sua vida. Eis o movimento do salmo:

vv.1 e 2

Guarda-me, Deus, pois eu me abrigo em ti.

Eu digo a Javé: “Tu és o meu bem!”

Estes dois versos introduzem a oração e trazem o resumo de tudo que o autor ou a autora vai querer expressar e viver. Javé é o centro da sua vida: “Tu és o meu bem!” Javé, presença acolhedora e libertadora na vida do povo, sobretudo, na vida do levita!

vv.3-4

Os deuses e senhores da terra não me satisfazem.

Eles multiplicam as estátuas de deuses estranhos.

Nunca derramarei suas libações de sangue,

nem porei seus nomes em meus lábios.

Aqui se descreve a situação em que se encontrava o levita no meio do povo daquela época. Nestes versos transparece como a imagem de Deus era manipulada pelos poderosos, “os senhores da terra”. O levita vive num mundo onde religião e poder político se misturavam. Em Israel houve períodos em que os próprios reis multiplicavam “as estátuas de deuses estranhos”. Por exemplo, o rei Acab e a rainha Jezabel na época do profeta Elias (1Rs 16,29-34; 18,20-40), e o rei Manasses na época de Oséias e Jeremias (2Rs 21,1-16), e tantos outros. “Os deuses e os senhores da terra” com suas estátuas e monumentos impressionavam e inibiam o povo. O levita se posiciona. Ele pronuncia um não categórico e expressa o compromisso firme de nunca fazer aliança com os que adoram falsos deuses, falsos valores, falsos ideais. Recusa participar das “libações de sangue”, isto é, nunca vai participar publicamente. Nem vai pôr os nomes deles nos lábios, isto é, nem privadamente, em segredo, vai deixar envolver-se.

vv.5-6

Javé, minha parte na herança e minha taça,

meu destino está em tuas mãos.

O cordel mediu para mim um lugar delicioso;

sim, minha herança é a mais bela.

O motivo desta atitude rebelde de recusa frente à tentação do poder dos grandes vem do fato de ele ter uma herança bem maior. A herança dele é Javé, o próprio Deus. Deus é o seu patrimônio, seu critério, sua taça, que, de tão grande que é, não se compara com nada, pois é superior a tudo. Por isso, o levita tem a coragem de dizer: “Meu destino está em tuas mãos!” É a entrega total nas mãos de Deus que lhe dá esta liberdade. Olhando para trás na história do seu povo, ele evoca o tempo dos Juizes quando, por meio do cordel, a terra foi medida e dividida entre as várias tribos e cada tribo recebeu a sua parte. Naquela ocasião, a tribo de Levi não recebeu terra, mas recebeu o próprio Javé como herança (Jos 13,33). Referindo-se a este episódio do tempo dos Juizes, ele diz: “O cordel mediu para mim um lugar delicioso. sim, minha herança é a mais bela”. A que lugar ele se refere? Os levitas viviam nos pequenos santuários de romaria espalhados pelo país, de onde irradiavam a fé em Javé no meio do povo. Este era para o levita o “lugar delicioso”. Ele está satisfeito e expressa seu ideal como levita: sua herança não é um pedaço de terra, mas sim o próprio Deus. Sente-se feliz com este destino e não quer saber de outra coisa. Por isso ele diz: “Javé, minha parte na herança e minha taça, meu destino está em tuas mãos!”. O que segue no salmo é a resposta a este dom gratuito de Deus.

vv. 7-8

Bendigo a Javé que me aconselha,

e, mesmo de noite, interiormente me instrui.

Tenho Javé à minha frente sem cessar.

Com ele à minha direita, jamais vacilarei.

A reação imediata é a gratidão. O levita quer bendizer e agradecer, pois dentro dele, no seu interior mais profundo, abriu-se uma fonte desconhecida de um novo conhecimento, fonte que jorra e, “mesmo de noite, interiormente me instrui”. Quando na escuridão da noite medita sobre esta experiência de Deus, ele tem intuições profundas. É Deus mesmo que o instrui interiormente, dando conselhos o tempo todo. Um novo horizonte se abriu para ele. Ele se sente confortado e vive na presença de Deus: “Tenho Javé à minha frente sem cessar!” Com Javé à sua direita ele jamais vacilará.

vv.9-11

Por isso meu coração se alegra, minhas entranhas exultam,

e minha carne repousa em segurança;

porque não me abandonarás no túmulo,

nem deixarás o teu fiel ver a sepultura.

Tu me ensinarás o caminho da vida,

cheio de alegria em tua presença,

e de delícias à tua direita, para sempre.

O resultado desta herança na vida do levita é alegria e exultação, segurança e repouso, vitória sobre a morte e vida para sempre, alegria perpétua junto de Deus. Nele se realiza o desejo de outro grande levita, Moisés, que pediu a Deus: “ensina-me o teu caminho” (Ex 33,13). Como outrora Moisés, o levita pede que Deus lhe mostre o caminho da vida. Ele tem certeza de que Deus atenderá ao seu pedido: “Tu me ensi­narás o caminho da vida!” Unido a Deus, ele experimenta a vida com tanta força, que a morte já não o assus­ta mais. Ele está convencido de que vai poder viver para sempre, sem nunca ver a sepultura. Ele já ressu­scitou! A ressurreição de Jesus, confirmou a esperança do levita anônimo que expressou sua fé neste salmo.

Salmo 19: A Palavra de Deus na Natureza, na história e na vida pessoal

O salmo 19 descreve a multiforme ação da Palavra de Deus no Universo (Sl 19,2-7), na história do povo (Sl 19,8-11) e na vida das pessoas (Sl 19,12-14). É sempre a mesma Palavra de Deus.

Sl 19,2-7:

Saindo do silêncio, sem usar palavras, ela manifesta a Glória de Deus no firmamento do céu, na passagem dos dias e das noites. O sol é o maior sinal desta presença. Todos a percebem. Nada, ninguém escapa do seu calor.

Sl 19,8-11:

Em seguida, esta mesma Palavra divina se encarna em decretos e normas e se apresenta como orientação ou Lei para a vida do povo. A ação da palavra vai humanizando a vida, pois traz “conforto para a alma, instrução para os simples, alegria para o coração, luz para os olhos”. A palavra se ramifica em mandamentos e preceitos, “mais desejáveis que o ouro, mais doces que o mel”

Sl 19,12-14:

No fim, o próprio salmista acolhe esta palavra em sua vida e com ela se esclarece. Observá-la lhe traz grande proveito, pois provoca nele um processo de discernimento e de conversão, ajudando-o a tomar consciência de possíveis erros e faltas: “Quem pode discernir os próprios erros. Purifica-me das faltas escondidas. Preserve do orgulho teu servo, para que ele nunca me domine. Deste modo serei íntegro, inocente de uma grande transgressão”

A palavra criadora envolve o universo inteiro no seu grande mistério, ramifica-se em normas e leis para a existência humana, e interpenetra a vida das pessoas. Provoca a beleza da natureza, aponta os rumos para a caminhada do povo e conduz os seres humanos. Provoca contemplação e adoração, orienta e humaniza a vida, e leva à conversão dos indivíduos.

Salmo 107: Tirando lição da história

A Divisão do  Salmo

1-3:      Introdução: Convite ao agradecimento por tantos atos de libertação

4-9:      1º Caso: no deserto, sem caminho e sem comida: Deus guiou: Jesus disse: “Eu su o caminho!”

10-16:  2º Caso: na escuridão, na prisão sem ajuda: Deus libertou: Jesus disse: “Eu sou a Luz!”

17-22:  3º Caso: no erro, injustos, morrendo: Deus curou. Jesus é a Palavra. Ele os curou

23-32:  4º Caso: no mar tempestade, sem saída: Deus acalmou o mar. Jesus trouxe a calma

33-41: Critérios para ler a vida:

42-43: Conclusão final: Aprender a ler os fatos e saber discernir o amor de Javé

6. Duas sugestões para o aprofundamento ulterior dos Salmos

1. Aprofundar a Raiz dos Salmos

A raiz dos salmos é a certeza que o salmista tem de que Deus escuta o nosso clamor. Se você quiser aprofundar esta dimensão dos salmos, seguem aqui agumas referências: Salmo 3,5; 4,2.4; 5,2-3.4; 6,9-10; 9,13; 10,17; 12,6; 13,4; 17,1.6; 18,7;  20,2.10; 21,3.5; 22,2-3.6.25; 25,2-3; 27,7; 28,1-2.6; 30,3.9; 31,23; 34,5.7.16.18; 39,14; 40,2; 54,4; 55,22.18.20; 56,10; 57,3-4; 61,2; 64,2; 65,3; 66,17-18; 69,4.14.17.34; 71,2; 72,12; 77,2; 79,11; 80,2; 81,8; 84,9; 86,1.6.7; 88,2-3.14; 99,6.8; 102,2-3.21; 106,44; 107,6.13.19.28; 116,1-2.4; 118,5.21; 119,145-149.169-170; 120,1; 130,1-2; 138,3; 140,7; 141,1; 142,2-3.6-7; 143,1-2.6-7; 145,18-19. Pesquisando você completa a lista.

2. Aprofundar a contemplação da Natureza

Na harmonia do Universo, eles descobrem a força da Palavra de Deus que os conduz. Se você quiser aprofundar esta dimensão dos salmos, seguem aqui algumas referências: Sl 1,3-4;  8,2.4.10;  18,8-16;  19,2-7;  24,1-2;  29,3-10; 33,4-12;36,6-8;  42,2;  46,2-4;  48,8;  50,3;  65,6-14;  68,9-10;  72,5-8;  74,12-17;  77,17-21;  78,69;  89,10-13.37-38;  90,5-6;  93,1-4;  95,4-5; 96,9-13;  97,1-6;  98,4-9;104,1-35;  114,1-8;  119,89-91;  125,1-2;  135,6-7;  136,5-9; 144,5-7;  147.7-9.14-18; 148,1-10; 150,1.2.6. Pesquisando você completa a lista.

7. Uma sugestão para atualizar os Salmos para hoje

1. Escolha o salmo de que você mais gosta e que mais expressa seu sentimento, sua fé e seu compromisso.

2. Procure entrar na pele do salmista e procure responder a esta pergunta: “Como o salmista teria escrito este mesmo salmo se ele vivesse hoje no Brasil?”

3. Agora, você mesmo tente reescrever este salmo como se fosse hoje

Sugestão para você fazer o Salmo da sua vida

1. Dar uma resposta à esta pergunta: Quais os elementos que não podem faltar no Salmo da minha vida? Os elementos que você assim vai juntando serão como os tijolos para a construção do seu Salmo. Vai juntando os tijolos. Não tenha pressa!

2. Depois de ter juntado um número suficiente de tijolos, comece a construir a casa do seu Salmo, organizando os tijolos de tal maneira que expressem o que você é e vive.

3. Tente encontrar um refrão a ser repetido após cada parte do salmo e invente uma melodia bonita que fale ao coração.

Sugestão para a nossa comunidade fazer o seu Salmo

1. Conversar entre si numa reunião comunitária para descobrir quais os elementos que não podem faltar no Salmo da nossa comuni­dade; e dizer o motivo por que não podem faltar.

3. Em seguida, juntos, organizar os vários elementos para ir construindo o Salmo da Comunidade.

4. Fazer um refrão bonito que acompanha a reza deste Salmo 151.

 

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