“QUANDO O DIA DA PAZ RENASCER”: DIA MUNDIAL DOS POBRES (Lc 21,5-19) – Por  Marcelo Barros

“QUANDO O DIA DA PAZ RENASCER”: DIA MUNDIAL DOS POBRES (Lc 21,5-19) – Por  Marcelo Barros

Neste domingo, o evangelho que meditamos conta o discurso de Jesus sobre aquilo que as pessoas costumam chamar de fim do mundo ou fim da história. Nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, Jesus conclui o anúncio da vinda do reinado divino por um discurso no qual se misturam referências à destruição da cidade de Jerusalém e do seu templo pelo exército do império romano e, a partir daí, o anúncio do fim da história e dos tempos. Nos evangelhos de Mateus e Marcos, Jesus teria dito essas palavras no Monte das Oliveiras.

Conforme o Evangelho de Lucas, Jesus está no átrio do templo com os discípulos. Contempla as belas pedras da construção do templo e faz esse anúncio, no qual aparecem como três momentos ou etapas da história: 1º – a destruição de Jerusalém, 2º – o tempo da missão das comunidades e 3º – a vinda do Filho do Homem que manifestará a plenitude do reinado divino no mundo.

A primeira insistência da palavra de Jesus é que a destruição de Jerusalém pode parecer o fim de tudo, mas não é. Ao contrário, mesmo sem o templo, a aliança divina tomaria outra forma de ser vivida. Esse tempo da missão é o que estamos vivendo agora e é tempo de perseverança e de espera.

Se as primeiras comunidades cristãs interpretavam a Palavra de Deus como se o final da história fosse imediato, a geração que veio depois e da qual o Evangelho de Lucas é testemunha, compreendeu a verdade do que o evangelho de hoje diz: “é preciso que essas coisas aconteçam, mas isso não será ainda o fim”.

O evangelho alude a conflitos políticos e guerras e diz que os cristãos deverão estar metidos nessa realidade. Se os cristãos achassem que o reino de Deus já vem e por isso não devessem ligar para o que acontece no mundo, não haveria motivo para serem perseguidos. Se a fé cristã fosse para ser vivida como espiritualidade intimista e apenas voltada para as coisas do céu, não incomodaria ninguém. No entanto, Jesus deixa claro: “eles vos perseguirão, vos levarão às sinagogas e às prisões…”.

Se o tempo é de perseguição, é sinal de que a fé deve ser profecia e vai sempre incomodar a poderosos. A fé cristã e o testemunho de Jesus não podem ser vividos como se nós já estivéssemos todos e todas com um pé na terra e outro no céu e o que está acontecendo no mundo não nos dissesse respeito. Em nome da fé, não é correto os cristãos se descomprometerem com a política e a realidade do mundo. E Jesus conclui o seu discurso dizendo: é pela perseverança que vocês serão salvos/as.

O que significa essa perseverança hoje? Perseverança em que e como? Na caminhada do reino de Deus, no testemunho do mundo novo que, em nome da vida, queremos e na esperança na qual a fé nos confirma.

A música “Utopia”, composta por Zé Vicente e tão querida das comunidades, começa dizendo: “Quando o dia da Paz renascer”.

De fato, quanto mais o tempo atual é difícil e a realidade das comunidades é sofrida, mais se torna urgente e fundamental cantar e proclamar a esperança mais profunda que nos move: a utopia de um mundo novo possível. É claro que para quem está lucrando com a realidade atual e tem interesse de que essa situação não mude, qualquer promessa de mudança se torna ameaça. O fim da realidade atual parece o fim do mundo. Mas fim de qual mundo?

Isso ocorreu com as comunidades cristãs das últimas décadas do primeiro século da era cristã. Na Bíblia e nas sinagogas, se aprendia que Jerusalém e o seu templo eram sinais e garantias da proteção divina ao “povo eleito”, que não se trata de um povo exclusivo, uma etnia, mas são todas as pessoas injustiçadas de todas as culturas. Deus tinha selado um compromisso de aliança com Israel e nunca iria falhar. Como compreender, então, que, nos anos 70 do primeiro século, o exército romano invadiu Jerusalém e depois de um cerco cruel, destruiu a cidade e o templo?

Para não desanimar na fé e para tentar discernir o que Deus queria dizer com isso, as comunidades cristãs procuraram lembrar as palavras que, nos seus últimos dias antes da paixão, Jesus teria dito sobre o que iria acontecer e como os discípulos e discípulas deveriam ler a história.

Na Itália, Marco Campedelli, presbítero, poeta e escritor, afirma:

“Céus abalados, epidemias e guerras: a linguagem apocalíptica usada no evangelho parece em parte a descrição do tempo presente: pelo mundo se multiplicam guerras, a natureza é violentada pela prepotência humana. Lucas valoriza a história, a comunidade e a inserção no mundo.

Se você quer ter paz no céu, comece por desarmar as mãos nas trincheiras da terra, se quer um céu sem hierarquias, comece a abolir os degraus que distanciam as pessoas. (…) A revolução celeste nasce da revolução terrestre. (…) Pasolini escreveu que toda verdadeira revolução nasce de uma renovação interior”[1].

Nesse domingo, o papa Francisco instituiu “o Dia Mundial dos Pobres” e, anualmente, ele e celebrado em todo o mundo. Não é apenas para falar de pobreza e sim para testemunharmos a esperança do reinado divino no mundo através da solidariedade concreta às pessoas que, por sua pobreza e fragilidade, parecem invisíveis em nossa sociedade. Se a revolução celeste nasce da revolução terrestre, essa tem como ponto de partida e como eixo fundamental o cuidado com os mais frágeis da sociedade: o nosso amor e inserção junto aos pobres, pequeninos de Deus.

Utopia

Zé Vicente

Quando o dia da paz renascer
Quando o Sol da esperança brilhar
Eu vou cantar
Quando o povo nas ruas sorrir
E a roseira de novo florir
Eu vou cantar

Quando as cercas caírem no chão
Quando as mesas se encherem de pão
Eu vou sonhar
Quando os muros que cercam os jardins
Destruídos, então os jasmins
Vão perfumar

Vai ser tão bonito se ouvir a canção
Cantada de novo
No olhar da gente, a certeza do irmão
Reinado do povo

Quando as armas da destruição
Destruídas em cada nação
Eu vou sonhar
E o decreto que encerra a opressão
Assinado só no coração
Vai triunfar

Quando a voz da verdade se ouvir
E a mentira não mais existir
Será, enfim
Tempo novo, de eterna justiça
Sem mais ódio, sem sangue ou cobiça
Vai ser assim

Vai ser tão bonito


 

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