O QUE FAZER QUANDO A LIBERTAÇÃO TARDA (Mt 25,1-13) – Por Marcelo Barros

No evangelho desse domingo, nos anos 80 do primeiro século da era cristã, a comunidade de Mateus coloca na boca de Jesus uma palavra sobre como animar as comunidades, quando essas começam a desanimar, diante do fato de que a promessa divina da realização do seu projeto divino para o mundo parece não chegar nunca.
De fato, as primeiras gerações cristãs pensavam que o reinado divino viria imediatamente para mudar a história. No Pai Nosso, diariamente, as pessoas oram: “Venha a nós o teu reino”. Jesus tinha prometido: Essa geração não passará sem que venha o Filho do Homem (Mt 24, 34).
Quando o evangelho de Mateus foi escrito, já tinham passado duas gerações e nada do que Jesus prometeu a respeito do reinado divino no mundo nem começava a acontecer. Ao contrário, a cidade de Jerusalém e o seu templo, que era o centro fé judaica, tinham sido destruídos pelos romanos e o povo judeu obrigado a viver como migrante estrangeiro em outras terras e no meio das nações pagãs. Para as comunidades cristãs, nada da vinda do Filho do Homem. Era preciso buscar nas palavras de Jesus alguma resposta para isso.
A maioria das parábolas de Jesus eram tiradas da vida comum. Provavelmente, a parábola contada nesse evangelho reproduz um fato ocorrido naquele tempo. O eixo principal da história é uma festa de casamento, na qual o noivo atrasa. Nos atuais rituais de matrimônio, quem costuma atrasar é a moça. Naquele caso, foi o noivo. Jesus conta essa história para dizer que o reino de Deus é como o tal noivo que atrasou. O povo tem um ditado que diz: Deus tarda, mas não falha. Essa parábola ensina como lidar com o atraso da vinda de Deus no mundo. Hoje, há pessoas desencantadas com a Política e também muitas estão decepcionadas com a Igreja como instituição. Às vezes, parece que o próprio Deus e o modo de ser de Jesus provocam decepções.
Quando, hoje, vemos o Estado de Israel, fortemente armado e apoiado pelas grandes potências, massacrar o povo palestino indefeso e vemos na mídia que Israel mata uma criança palestina em cada dez minutos, podemos perguntar-nos: Onde está Deus?
Na Alemanha nazista, milhões de judeus, ciganos, soviéticos, homossexuais, pessoas com deficiência e outros foram mortos em campos de concentração. Muitos se questionaram sobre o fato de que, na Bíblia, Deus tinha prometido que sempre velaria sobre o povo de sua predileção. Quem vive a fé procura nas escrituras alguma resposta para essas perguntas.
O trecho do evangelho de hoje faz referência a um costume da sociedade patriarcal que, para nós, é estranho. Naquela época, o noivo ia buscar a noiva na casa dela, na qual um cortejo de amigas da moça o esperava. Esse cortejo acompanhava o casal até a nova casa onde iam morar e entravam até no quarto nupcial para deixar lá o casal e fechar a porta. Essas moças iluminavam a festa com tochas acesas, alimentadas com azeite de oliva.
O evangelho de hoje narra um caso no qual dez moças esperavam o esposo para ir com o casal para a sua nova casa. Dessas dez, cinco moças tinham garantido uma reserva de azeite nas suas vasilhas e outras cinco, não. Como o noivo atrasou, algumas ficaram sem azeite.
Na história, as moças que tinham reserva de azeite não podiam repartir seu azeite com as outras. Afirmar que as moças não podiam dar o azeite uma à outra é um modo simbólico de dizer que ninguém pode amar e ser ético no lugar de ninguém. A responsabilidade de preparar-se para a vinda do reinado divino é pessoal e intransferível.
Quando Jesus contou a história, ele não insistiu na vigilância (até porque, conforme a história, todas as dez moças dormem). O que ele pediu foi que estivessem prontas na hora em que o Esposo vem. O reino não vem logo, como, naquele tempo, as pessoas esperavam. No entanto, mesmo assim, é preciso vigiar e manter-se preparados e preparadas.
As dez moças representam a comunidade que espera a chegada do reinado divino, como, na época, era costume as moças esperarem o noivo que vinha para casar.
Jesus aproveita o contexto cultural da sociedade patriarcal para dizer que a comunidade tem de ficar atenta aos sinais da vinda do reino de Deus no mundo e não ficar concentrada na própria comunidade, ou seja, na própria Igreja.
Atualmente, na realidade que vivemos, de vez em quando temos a impressão de que novamente a libertação prometida está demorando demais. O Esposo atrasou e tarda a chegar. Através desse evangelho, a comunidade de Mateus responde: mantenham a lâmpada acesa e sempre com óleo para o momento que for preciso. Isso significa: vivam antecipando a utopia que vocês esperam.
Não basta essa religião centrada em missas, novenas, devoções, cultos. Nessa parábola, o esposo da parábola fechou a porta do aposento nupcial e disse às moças que ficaram de fora: Não vos conheço!
No comentário deste evangelho, Sandro Galazzi escreveu: “Quem souber repartir, quem souber distribuir a comida aos que moram na casa poderá tomar conta da casa e tomará posse dos bens de seu senhor. Vigiar é isso: cuidar da casa e dos seus moradores. Quando o noivo vier, mais ou menos tarde, ele vai fazê-lo (la) entrar para participar da festa. Bem-aventurado o servo ou serva que, quando vier, o seu senhor, encontrar agindo assim” (Mt 24,46).