O ELEITOR QUE AINDA NÃO DECIDIU- Por Frei Betto

O ELEITOR QUE AINDA NÃO DECIDIU- Por Frei Betto

Frei Betto. Reprodução Redes Virtuais

          No primeiro turno, meu primo não sabia em quem votar. Não é daqueles que carregam o candidato no peito, discutem nas redes sociais ou transformam qualquer conversa de almoço em comício. Olhou para a urna como quem examina duas portas ao fugir de um incêndio. Nenhuma lhe pareceu completamente segura.

          Votara em Lula em eleições anteriores, mas não se considerava lulista. Tinha ressalvas ao governo, críticas à esquerda e achava que o país precisa enfrentar problemas que não cabem em suas propostas. Ao mesmo tempo, não se sente representado pelo bolsonarismo. Flávio Bolsonaro lhe desperta curiosidade, mas também muitas interrogações.

          No primeiro turno, portanto, hesitou. Preferiu se abster. Depois veio o resultado: Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno. A dúvida, que antes podia ser resolvida pela escolha de um terceiro nome, tornou-se incontornável. Restavam dois candidatos.

          Decidiu então fazer algo que nunca havia feito, desligar o celular e ler os programas de governo. Sabia que o Tribunal Superior Eleitoral disponibiliza oficialmente as propostas dos dois candidatos, inclusive organizadas por temas.

          Começou pela economia. Queria saber o que cada candidatura prometia para emprego, renda, inflação, impostos e equilíbrio das contas públicas. Descobriu que não bastava perguntar quem prometia gastar menos ou mais. Era preciso perguntar com quê, para quem e de onde viria o dinheiro.

          Passou à saúde. Pensou na fila do SUS, nos exames que demoram, nos medicamentos que faltam em determinados lugares, nos hospitais superlotados. Não queria uma frase bonita. Queria saber quais compromissos estavam efetivamente registrados e como seriam executados.

          Depois, a educação. Pensou nos professores, nas escolas públicas, nos jovens que precisam conciliar estudo e trabalho. Comparou as propostas e percebeu que uma eleição não se resume à personalidade dos candidatos. Há um país concreto por trás da propaganda.

          Na segurança pública, a dúvida voltou com força. Ele queria menos violência, mas também queria saber quais seriam os métodos para alcançá-la. Segurança, concluiu, não é apenas endurecer discursos. Envolve polícia, investigação, inteligência, sistema prisional, prevenção e políticas sociais.

          Chegou então às políticas sociais. Ali estava uma de suas maiores preocupações. Conhecia famílias para as quais o benefício social não significava luxo, mas comida na mesa. Ao mesmo tempo, não queria políticas que eternizassem a pobreza. Procurava propostas capazes de combinar proteção imediata com emprego, educação e autonomia.

          Leu também sobre democracia e instituições. Esse capítulo pesou em sua reflexão. Não porque desejasse um país sem conflitos — sabia que democracia é justamente a convivência entre conflitos e diferenças —, mas porque considerava indispensável que presidente, Congresso, Judiciário, imprensa e sociedade civil respeitassem os limites constitucionais.

          Foi então que percebeu algo sobre si mesmo. Sua decisão não seria tomada porque gostava de um candidato. Tampouco porque detestava o outro. Votaria porque percebeu que seu objetivo é levar em conta o país que imaginava possível e os compromissos que considerava mais importantes.

          Ainda assim, continuou indeciso. Conversou com amigos. Um dizia que Lula representava continuidade demais. Outro, que Flávio Bolsonaro significava uma mudança necessária. Um terceiro lembrava erros e controvérsias de um lado; outro apontava erros e controvérsias do outro lado.

          Ele desconfiou dos quatro amigos. Percebeu que também precisava desconfiar de si próprio. Descobriu como é fácil acreditar apenas naquilo que confirma nossas convicções. Passou a conferir notícias em fontes diferentes, consultar documentos oficiais e separar promessa de fato, opinião de informação, propaganda de programa. 

          Aos poucos, sua indecisão mudou de natureza. Já não perguntava: “De qual candidato gosto mais?” E sim: “Qual projeto de governo corresponde melhor ao que considero necessário para o país?”

          Não encontrou um candidato perfeito. Nem esperava encontrar. Democracia não é concurso de santos. É escolha entre alternativas concretas, com virtudes, limitações, promessas, riscos e contradições.

          Na véspera do segundo turno, senta-se diante da TV. Observa os dois candidatos. Ouve novamente as promessas. Algumas lhe parecem convincentes; outras, frágeis. Relê trechos dos programas oficiais.

          Finalmente decidiu por Lula. Não porque tivesse deixado de reconhecer os problemas do candidato escolhido. Não porque tivesse passado a concordar com tudo o que ele defende. E tampouco porque considera o adversário incapaz de representar parte do eleitorado.

          Decidiu por Lula porque depois de comparar propostas e trajetórias, entendeu que havia um conjunto de compromissos que, para ele, deveria pesar mais na escolha.

          Seu voto não nasceu da paixão. Nasceu da dúvida.

          Talvez essa seja uma das coisas mais importantes de uma eleição: o eleitor não precisar transformar seu voto em profissão de fé. Pode votar com esperança, mas também com memória; com convicção, mas também com espírito crítico.

          No dia 25 de outubro, ao apertar 13 nas teclas da urna, saberá que não escolherá um santo, um salvador ou um avatar. Opta por um presidente experiente e confiável.

          Justamente por isso, decidiu que seu voto deveria ser dado não ao candidato que lhe prometesse o paraíso, mas àquele cuja proposta de país, depois de examinada com o máximo de cuidado possível, lhe parecesse mais compatível com o futuro que desejava para o Brasil.

          Faça como meu primo, no dia 25 de outubro vote pela democracia. Vote Lula! Vote 13!

Frei Betto é escritor, autor do romance sobre a Amazônia “Tom vermelho do verde” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

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