PARTILHA DE PÃES E CEIA DE JESUS: PROJETO ANTICAPITALISTA (Mt 14,13-21)

Por Frei Gilvander

PARTILHA DE PÃES E CEIA DE JESUS: PROJETO ANTICAPITALISTA (Mt 14,13-21) – Por Frei Gilvander Moreira[1]

Reprodução Redes Virtuais

Vamos refletir sobre e a partir do evangelho de Mateus 14,13-21, que fala da partilha dos pães, tem relação com a ceia de Jesus e nos convida a pensar sobre segurança e soberania alimentar.

Faz bem recordarmos que nos quatro Evangelhos da Bíblia, a narrativa da partilha dos pães aparece seis vezes. Está presente duas vezes no Evangelho de Marcos, duas vezes no Evangelho de Mateus, uma vez no Evangelho de Lucas e outra no Evangelho de João. Segundo os biblistas, quando um tema se repete tantas vezes, significa que ele é nevrálgico, central, uma verdadeira coluna mestra da vida cristã.

A narrativa sobre a partilha de pães em Mt 14,13-21 vem logo depois do chamado “banquete da morte”, quando o rei Herodes, um rei carrasco, tirânico, ditador e militarista, mandou degolar João Batista (Mt 14,1-2).

Ao ouvir essa notícia, Jesus vai para o deserto. É importante lembrar que o deserto, aqui, não faz referência apenas a um lugar geográfico. No sentido bíblico e teológico, o deserto é o lugar do reencontro com Deus e com as fontes mais autênticas da missão. O profeta João Batista iniciou sua missão no deserto, propondo um batismo de conversão que implicava também diminuir as desigualdades sociais, econômicas e políticas da sociedade.

Foi também no deserto que o povo, libertando-se das garras do imperialismo dos faraós, caminhava rumo à Terra Prometida. Diante da fome do povo, Deus enviou o maná, mas para ser repartido com duas regras muito importantes: a) Ninguém podia acumular. Cada pessoa deveria recolher apenas o necessário para aquele dia. Não podia guardar para o dia seguinte, muito menos para a semana seguinte; b) Aquilo que sobrasse deveria ser partilhado com os vizinhos. Portanto, ir para o deserto significa, portanto, reconectar-se com as fontes originais da vida cristã e continuar a profecia.

Quando o Evangelho de Mateus diz que Jesus vai para o deserto, está dizendo, em outras palavras: “Vou continuar a missão do profeta João Batista. Mataram João Batista, mas a profecia não morreu. Vamos continuar empunhando a bandeira da profecia e nos reconectando com essa experiência libertadora do passado.”

O Evangelho apresenta um processo belíssimo, ao qual precisamos prestar muita atenção. Tudo começa quando Jesus sai do barco e vê a multidão. Jesus não permanece acomodado, “sentado numa poltrona, com a boca aberta, esperando a morte chegar”, como cantava Raul Seixas. Jesus sai do barco e vê a multidão. Em seguida, Jesus se comove.

Devemos pedir sempre ao Deus, mistério de infinito amor, que nunca nos deixe perder a capacidade de nos comover com a dor do outro, de cultivar a empatia, principalmente com relação aos mais injustiçados/as.

O Evangelho diz que Jesus acolhe o povo, cura os doentes e cuida das primeiras necessidades. Mas, em meio à realidade, aparecem também as contradições. Então chegam alguns discípulos e propõem: “Jesus, despeça essa multidão para que vá aos povoados comprar comida, porque aqui não temos pão suficiente para alimentar todo esse povo.”

Jesus respondeu: Não! Vocês não podem dar uma de Pilatos, omitindo-se e lavando as mãos. Quem se omite diante do mal causado pela estrutura socioeconômica e política da nossa sociedade torna-se cúmplice. E Jesus diz: “Vocês mesmos devem alimentar o povo faminto.”

Mas como vamos fazer isso? No Evangelho de João aparece um diálogo muito interessante. O discípulo Filipe diz: “Nós não temos duzentos denários para comprar pão.” Jesus mostra que a solução não está no mercado, muito menos na idolatria do mercado.

Então surge outra proposta. O discípulo André, segundo o Evangelho de João, diz: “Há aqui uma criança que tem cinco pães e dois peixinhos.” A criança partilhou e se tornou o centro das atenções. Ou seja, Jesus propõe a pedagogia da partilha para enfrentar esse problema gravíssimo: a brutal injustiça social que leva o povo à fome.

Ao longo dos séculos houve e ainda atualmente existe leitura muito fundamentalista da Bíblia por parte de vários grupos religiosos. E, nessa leitura, costuma-se falar em “multiplicação dos pães”, como se tivesse acontecido uma mágica, um simples estalar de dedos, e os pães tivessem se multiplicado. Mas não é exatamente isso que a Bíblia nos apresenta.

A palavra “multiplicação” não aparece em nenhum dos quatro Evangelhos da Bíblia. O que encontramos é a partilha, é repartir. Quando o pão é partilhado, ele se multiplica, porque foi repartido, e não porque aconteceu uma mágica. O centro da narrativa está na repartição, na partilha. O segredo está em repartir.

O Frei Carlos Mesters, nosso grande biblista, costuma pedir que imaginemos a cena. Há uma criança com cinco pãezinhos e dois peixinhos. Quando Jesus propõe a partilha, essa criança tira da mochila aquilo que possui e coloca tudo em comum. Esse gesto certamente tocou profundamente as pessoas que estavam ao redor. Então, cada um começou a compartilhar o pouco que tinha. E, quando todos — ou pelo menos a maioria — repartem o pouco que possuem, o pouco que sabem e até o pouco que são, acontece aquilo que chamamos de milagre.

O milagre não é um ato mágico, como se Jesus tivesse um superpoder que anulasse as leis da natureza. O filósofo e teólogo medieval Tomás de Aquino dizia: “A graça supõe a natureza.” Ou seja, é nas relações humanas e sociais que o milagre acontece. O milagre acontece em uma teia, uma rede formada por muitos gestos de solidariedade que vão transfigurando a realidade.

No quarto Evangelho, quando se fala da partilha dos pães, o evangelista nem utiliza a palavra “milagre”, mas em sinal.

Quando há partilha, o problema da fome começa a ser superado. Outra beleza desse Evangelho é que Jesus toma os cinco pães e os dois peixes e os abençoa. Esse gesto estabelece uma profunda ligação entre a partilha dos pães e a Ceia Eucarística. A primeira Ceia Eucarística aconteceu durante uma refeição. Jesus tomou o pão e o vinho, abençoou-os e disse: “Tomai todos e comei.” “Tomai todos e bebei.” É um convite dirigido a todos, sem exclusão. Jesus não disse: “Adorai, adorai, adorai.” Ele disse: “Tomai, comei, bebei.” Ou seja, tomar, repartir e partilhar.

A gente vê uma relação intrínseca entre a Ceia Eucarística e a partilha, o repartir do pão, como caminho para superar a fome. Nesse sentido, podemos dizer que este Evangelho é eminentemente anticapitalista, porque a lógica da estrutura capitalista é a da acumulação, da concentração de riquezas, de bens e de poder. Aqui, Jesus propõe exatamente o contrário: repartir e partilhar.

E isso é profundamente revolucionário, porque significa “pão em todas as mesas”, como canta Zé Vicente. E, levando em conta que o cristianismo é uma religião histórica, situada no tempo e no espaço, precisamos refletir sobre esse Evangelho à luz da realidade da fome no mundo de hoje, que continua sendo uma injustiça gravíssima. Recentemente, a ONU publicou um relatório com dados alarmantes sobre a fome. Os impactos econômicos, sociais e climáticos desse problema são enormes.

Então, como podemos compreender, hoje, essa pedagogia da partilha que Jesus propôs e viveu? E como podemos colocá-la em prática para caminhar na direção da superação desse problema tão grave que é a fome no mundo?

Este evangelho da partilha de pães e da ceia eucarística interpela nossas consciências e nos ajuda a superar um grande divórcio que foi acontecendo entre a dimensão da fé e a dimensão social da vida; entre o espiritual e o material. Este Evangelho, que está profundamente ligado à Ceia de Jesus, mostra que o espiritual está inseparavelmente unido ao social. Está tudo relacionado. Infelizmente, hoje, na Igreja Católica e também, em grande medida, nas outras Igrejas cristãs, ocorreu uma separação. Por um lado, busca-se uma relação com Deus marcada por certo verticalismo e espiritualismo, muitas vezes sustentados por visões fundamentalistas e moralistas, como se fosse possível cultivar uma relação autêntica com Deus totalmente desvinculada das relações humanas e sociais.

Este evangelho da partilha de pães nos diz exatamente o contrário. Não podemos reduzir a Ceia Eucarística, a Missa, a um simples ato de devoção ou de oração diante da eucaristia. Não basta pensar: “Vou receber o pão e o vinho consagrados; isso vai me alimentar espiritualmente e pronto.” Não. O coração da Eucaristia é a partilha. É repartir o pão e repartir também a vida.

Nas primeiras comunidades cristãs, por exemplo, na Primeira Carta aos Coríntios, o apóstolo Paulo recorda as palavras de Jesus: “Fazei isto em memória de mim.” Fazer o quê? Não é simplesmente participar da Missa e receber a hóstia consagrada. É fazer aquilo que Jesus fez: doar a vida para que todos e todas tenham vida em abundância.

Jesus testemunhou um modo de viver que levava as pessoas a repartir o pão, a romper com a lógica da acumulação e da concentração e a viver a partilha, inclusive doando a própria vida em favor dos outros. Por isso, este Evangelho toca o cerne da vida cristã. Ele nos chama a uma prática profundamente transformadora. Infelizmente, o que vemos hoje é justamente o contrário.

Pesquisas mostram que uma parcela muito pequena da população mundial concentra a maior parte das riquezas, enquanto cresce o abismo entre ricos e pobres. Por isso, participar da Eucaristia é uma graça imensa, mas também uma imensa responsabilidade, pois pela doação da sua vida Jesus nos convida ao compromisso com a construção do reinado divino aqui e agora.

Ninguém deveria ser impedido de participar da mesa eucarística por critérios meramente moralistas. Mas quem participa da Eucaristia é também chamado a viver uma dinâmica permanente de partilha. Isso significa repartir no cotidiano, no “varejo”, ajudando quem passa necessidade, mas significa também comprometer-se com as pastorais sociais e com os movimentos sociais do campo e da cidade.

Significa lutar para que a terra seja partilhada e deixe de ser apenas mercadoria; para que os povos originários e as comunidades tradicionais tenham seus territórios garantidos; para que a agricultura priorize a produção de alimentos saudáveis para o povo, e não apenas de commodities destinadas ao lucro.

Este Evangelho é profundamente espiritual e, ao mesmo tempo, profundamente transformador. Ele nos pergunta:

“Em qual caminho estou colocando a minha vida? No caminho da acumulação, da concentração e do egocentrismo? Ou no caminho eucarístico da partilha, da solidariedade e da repartição, para que o bem comum gere vida digna para todos?”

Somos chamados também a viver a fé que Jesus viveu, o que significa construir caminhos de justiça social, para que todos tenham o que comer, todos possam participar da mesa e todos tenham acesso aos recursos necessários para viver com dignidade.

Mt 14,13-21: CEIA DE JESUS E SEGURANÇA ALIMENTAR. EVANGELHO PARA ALÉM DOS TEMPLOS, Nº 120


[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI e Ocupações Urbanas; autor de diversos livros e artigos. Email: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       Canal no You Tube: https://www.youtube.com/@freigilvander      –    No Instagram: @gilvanderluismoreira – Facebook: Gilvander Moreira III – No Tiktok: https://www.tiktok.com/@frei.gilvander.moreira

2 comments

  1. Muito bom o texto da palavra compartilhada!

    Muita luz e sabedoria sempre.
    Abraços Deus,cuidando de todos nós!

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