DEUS SE FEZ IRMÃO DE RUA NO NOSSO MEIO. Por Joana e frei Gilvander

DEUS SE FEZ IRMÃO DE RUA NO NOSSO MEIO. Por Joana Ribeiro Sucupira Louback e frei Gilvander Moreira[1] – 21/07/26

Fotografia do Padre João Bosco e camisa ensaguentada usada pelo padre João Bosco Penido Burnier no momento em que o policial da polícia militar deu um tiro na cabeça dele e o sangue escorreu. Foto: Gilvander Moreira

Celebrávamos na 8ª Romaria dos Mártires da Caminhada em Ribeirão Cascalheira, na Prelazia de São Félix do Araguaia, MT, os 50 anos da memória e do legado profético, ético e libertador do  Padre João Bosco Burnier, assassinado/martirizado pela polícia militar dia 11 de outubro de 1976, em  Ribeirão de Cascalheira, MT, ao lado do saudoso e profeta bispo de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga.

João Bosco e Pedro tinham ido à cadeia/delegacia interceder para que policiais militares parassem de torturar duas mulheres camponesas presas, Margarida e Santana. A resposta dos policiais foi uma coronhada e um tiro na cabeça do padre João Bosco Penido Burnier, que estava ao lado de dom Pedro Casaldáliga.

No 7º dia do martírio de padre João Bosco, o povo possuído por uma ira santa e profética demoliu a cadeia e fincou a cruz de Padre João Bosco com os dizeres: “Aqui padre João Bosco Burnier foi morto pela polícia militar dia 11/10/1976”.

Numa Sexta-Feira de tantas paixões que rondam a humanidade,  às 19 horas, debaixo de uma árvore quase duas mil pessoas cristãs vindas de todo o Brasil, reuniram-se ao lado do Santuário de Padre João Bosco Burnier, espaço da antiga cadeia/delegacia, lugar de violência e sangue, hoje, sinal de vida e de ressurreição.

No centro da celebração,  junto com todos os símbolos da liturgia, semideitado como se fizesse parte do figurino litúrgico, ficou o tempo todo um irmão, em situação de rua. Era negro, com aparência de uns 50 anos de idade. Para muitos e por quase todo o tempo da celebração, este irmão em situação de rua foi parte integrante da celebração, na qual testemunhas vivas do bárbaro assassinato – irmã Beatriz, irmã Madalena e Juarez – contavam os detalhes do assassinato e dos últimos momentos do martírio de Padre João Bosco Burnier.

Ali se mantinha presente um irmão em situação de rua, testemunha silenciosa, de ontem e de hoje. Rotulado por algumas pessoas como “um bêbado”, este irmão não usou a palavra, não foi agressivo com ninguém. Mudava de posição, deitado na mãe-terra, que o acolhia e sustentava.  Algumas vezes, levantava e tocava a cruz erguida pelo povo, “a cruz do padre João Bosco”, que, há 50 anos, mantém-se como símbolo litúrgico das Celebrações das Romarias dos Mártires da Caminhada, que, a cada cinco anos, acontecem ali, naquela cidade.

Finalizada a celebração,  fomos para a praça do Santuário dos Mártires da Caminhada, que fica a menos de um quilômetro e no centro da peça teatral do grupo Araguaia Pão e Circo, ali no centro do picadeiro, de novo, na mesma posição, estava o irmão, em situação de rua. Agora, ele interagia, como se fosse um dos figurinistas e com uma singular diferença: sem combinar roteiro, de todos os personagens, foi quem mais nos fez sorrir. Do início ao fim da peça, foi o ator principal. O pessoal do teatro o acolheu e respeitou a participação dele nas cenas.

Ah!  Para não esquecer: na celebração  anterior, ele foi parte integrante, com o seu corpo e o seu silêncio. Foi sinal de testemunha de ontem e de hoje. Aquele irmão anônimo, em situação de rua, era Deus. Era Jesus. Representou o padre João Bosco e dom Pedro, nos visitando espiritualmente. Feliz quem teve a empatia para perceber Deus se fazendo irmão de rua, ali no nosso meio!

No teatro, aquele servo sofredor agiu como ator  principal, sem ensaio, sem roteiro,  sem convite prévio, mas com uma atuação, que, em nada, perdeu para os atores e atrizes, que se propunham a nos entreter com o tema, ritmo, figurino e voz.

Ele era testemunha de ontem e de hoje, com poder de entrar e sair quando e como lhe conviesse, em qualquer ação dos cristãos de Ribeirão Cascalheira, como testemunha de ontem e de hoje, ajudando-nos a cantar, sem falar: “Viva a Esperança! Somos Testemunhas da Esperança!”

Aquele servo sofredor, Testemunha da Esperança, ajudou-nos rezar na celebração onde o sangue do Padre João Bosco foi derramado brutalmente.

Na celebração eucarística de envio, no Santuário dos Mártires, um domingo, dia 19 de julho de 2026, o mesmo irmão em situação de rua, silenciosamente, não por acaso, sujo, maltrapilho,  vestindo uma calça rasgada, tipo do exército, diante de oito bispos que compunham o altar e mais de 20 padres e uma multidão de pessoas cristãs, inebriados pela beleza e força do Espírito divino que soprava no céu azul e enchia de júbilo os nossos corações, aquele servo sofredor, testemunha fiel de ontem e de hoje, durante a homilia do bispo dom Lúcio Nicoletto, pela terceira vez inesperadamente, sobe, silencioso, sem avisar e nem pedir licença, os degraus da escada e passa a integrar o altar.

O que faria Dom Pedro Casaldáliga, o Profeta da Esperança, diante desta nobre e surpreendente presença? Certamente o acolheria com um abraço fraterno e o deixaria ficar ali onde ele preferiu estar. Talvez dissesse: “Eis um irmão nosso, nos mostrando que, no centro da nossa fé, devem estar os pobres. Na dúvida, fique do lado dos pobres.”

Para estranhamento de muitos, imbuída da autoridade de acólita naquela celebração, uma mulher da equipe de liturgia coloca as mãos nas costas do irmão de rua e o retira do palco/altar. Ele desce cabisbaixo e, silenciosamente, sai na frente da multidão, tomando o rumo da estrada para um destino sem destino. Enquanto este servo sofredor era retirado do altar, alguém objetou: “Deixa o irmão ficar onde ele quiser ficar. Por que retirá-lo do altar?”

E a celebração seguiu com seu alto nível espiritual e com a alegria da convicção de que somos testemunhas do Reino e da Esperança.

Quando o servo sofredor era empurrado para descer do palco/altar, Soares,  companheira de caminhada e luta, emocionada,  vira e diz: “Desde ontem, não me sai da cabeça que este irmão em situação de rua é o próprio Dom Pedro Casaldáliga, o padre João Bosco, Jesus Cristo nos visitando!”

Emocionados respondemos que sim e acompanhamos a sua retirada de cena de ator principal dos principais momentos da 8° Romaria dos Mártires Caminhada.

No abraço da paz, sentimos uma vontade imensa de abraçar Dom Pedro, padre João Bosco, ou melhor, o servo sofredor, que foi retirado do altar, para não interferir na liturgia muito bem preparada, mas que não foi capaz de acolher um irmão pobre que quis participar. Padre José Comblin, um dos melhores teólogos, profetizava: “Os pobres são o centro da fé cristã. Não pode ser só Jesus o centro.”

Não perceber Deus nos irmãos em situação de rua e em todas as pessoas golpeadas pelas brutais injustiças de uma sociedade recheada de idolatria é uma grande incoerência de quem admira o legado e a doação de vida dos mártires, mas não reconhece o divino no humano sendo martirizado, um pouco, a cada dia.

Bispos, padres e leigos, igreja instituição, que como diz o Papa Leão IV “temos que injetar uma forma contemporânea de pensar o ‘ser Igreja’ em nossa cultura” pós-humanista, com clara superação do clericalismo, que sufoca uma ampla e séria conversão pastoral.”

Como Soares, acreditamos profundamente que aquele irmão em situação de rua, testemunha de ontem e de hoje, era a presença espiritual de Dom Pedro Casaldáliga, do Padre João Bosco, da Irmã Dorothy e todos aqueles Mártires  lembrados no Santuário da Caminhada. Era Jesus de Nazaré, ou qualquer um dos profetas e das profetizas que vieram, como Testemunhas da Esperança, para nos fazer rezar, alegrar e questionar.

Toda e qualquer religião tem sua prova de fogo na Ética, enquanto atenção ao ser humano concreto. Mestre Eckhart, um dos mais importantes mestres da Mística na Idade Média, escreveu: “Se alguém estivesse em um êxtase como São Paulo e soubesse que um enfermo precisava que lhe levassem um prato de sopa, eu consideraria que melhor seria essa pessoa, por amor, abandonar o seu êxtase e ir servir ao necessitado[2].

Em nossos dias, o teólogo Jon Sobriño, que era assessor teológico de Santo Oscar Romero, afirmou: “Parecer com Jesus é reproduzir a estrutura fundamental da vida dele. É assumir para si a missão e o jeito de Jesus, vivendo como ele a misericórdia com os outros como um princípio permanente e estruturador da vida e aceitando carregar sobre si o pecado do mundo e receber do Pai, pela força do Espírito, a ressurreição”[3].

Enfim, ATÉ QUANDO não vamos reconhecer a presença de Deus amor, de Jesus Cristo e de todos/as os/as mártires em todas as pessoas que são violentadas na sua dignidade humana, por uma sociedade brutalmente violentadora? Até quando vamos tentar tranquilizar nossa consciência de forma hipócrita, rotulando-as como “bêbadas”, “mendigos”…?

Mantenhamos um olho nos mártires da Caminhada e outro olho e o coração nas pessoas que, a cada dia, seguem sendo martirizadas. Feliz quem puder compreender que o divino está em todo humano!


[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI e Ocupações Urbanas; autor de livros e artigos. Email: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       Canal no You Tube: https://www.youtube.com/@freigilvander      –    No Instagram: @gilvanderluismoreira – Facebook: Gilvander Moreira III – No https://www.tiktok.com/@frei.gilvander.moreira

[2] – Cf. ANSELMO BORGES, Diálogo Inter-religioso,  in Diário de Notícias, Lisboa, domingo, 02/04/2006, p. 11.

[3]  – JON SOBRIÑO, El Principio Misericordia, Salamanca, Ed. Sal Terrae, 1992,  Tradução: Vozes,  p. 31

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