Quem é Jesus para nós (Mt 16,13-20) – Por Marcelo Barros

Quem é Jesus para nós (Mt 16,13-20) – Por Marcelo Barros

Irmão Marcelo Barros. Reprodução Redes Virtuais

 Neste XXI Domingo Comum, dia 23/08/26, o evangelho faz-nos retomar, hoje, a mesma pergunta que Jesus fez aos discípulos: E vocês, quem dizem que eu sou? 

Ela não pede resposta apenas intelectual, a ser dada de acordo com o Credo recitado nas Igrejas. Essa pergunta só pode ser respondida profundamente com o testemunho de nossas vidas. É pelo nosso modo de ser e de viver que as pessoas poderão entender quem é Jesus para nós, ou seja, o papel e a importância que Jesus tem na nossa vida

 É normal que a mesma pessoa possa ser vista a partir de ângulos diversos, a depender de quem a vê e da experiência que tem com ela. Durante séculos, habituamo-nos a ver Jesus a partir de imagens europeias. Apresentaram sempre um Jesus branco e identificado com títulos e funções de poder na sociedade ocidental. Foram astutos em trocar a mística do reinado divino no mundo pela espiritualidade do Cristo Rei, cujo poder é exercido através da Igreja e de seus legítimos representantes. 

Foi em nome de Jesus que os conquistadores colonizaram nosso continente, escravizaram os seus habitantes originais e estabeleceram uma estrutura, que até hoje mantém as desigualdades e discriminações da colonização. Usaram a cruz e a espada. Não podemos esquecer que as fortalezas de guerra que os colonizadores construíram contra os povos originários chamavam-se e, até hoje, alguns chamam-se: Forte do Bom Jesus, Senhor do Bonfim e outros nomes semelhantes. Até hoje, vemos crucifixos em câmaras municipais e assembleias legislativas, responsáveis por referendar leis injustas e discriminatórias. Vemos eclesiásticos católicos, evangélicos e pentecostais, coniventes com essa estrutura iníqua e sempre em nome de Jesus.

Até hoje, hierarquias eclesiásticas e muitos grupos cristãos apresentam Jesus como o Cristo-rei, Senhor e Deus. Cada vez mais, aumenta número de pessoas que se perguntam sobre se essas imagens de Cristo apresentadas pelas Igrejas têm algo a ver com o Jesus de Nazaré que viveu na Palestina há 21 séculos. De fato, com exceção de duas ou três referências em obras de escritores do final do século I da era cristã, o pouco que sabemos sobre Jesus vem do testemunho dos evangelhos. E esses falam de Jesus, a partir do olhar de comunidades cristãs que, mesmo baseadas em testemunhos mais antigos,  escreveram seus relatos mais de 40 ou mais de 50 anos depois da sua condenação à morte e ressurreição. E fazer, não de forma assistencialista, mas com jeito libertador que não gera dependência e contribui para as pessoas e comunidades, em comunhão com os outros marginalizados e marginalizadas, se emancipem.

Estudos contemporâneos comparam relatos e fazem pesquisas arqueológicas sobre as sociedades do Oriente Médio no primeiro século. Em seus escritos, John Crossan mostra Jesus como “camponês judeu do Mediterrâneo”. Reza Aslan descreve o Jesus histórico como zelota, isso é, como militante que lutava para libertar a Palestina e o povo das garras do Império Romano. Ligando história e adesão da fé, José Antonio Pagola publicou vários livros para ajudar-nos a redescobrir a humanidade de Jesus, em seu mundo cultural, suas opções e sua proposta.

Apesar de todos os estudos e pesquisas, Jesus continua desconhecido, não somente para o mundo, mas sobretudo para as próprias Igrejas. Muitos preferem olhar Jesus como mito do que levar a sério sua humanidade e segui-lo como mestre de vida. 

O saudoso amigo José Maria Castillo, teólogo espanhol, formado na tradição jesuíta, publicou o livro: O Evangelho marginalizado (Ed. Vozes). Ali, o autor mostrava que o evangelho foi e é marginalizado, em primeiro lugar, pelas próprias Igrejas cristãs.

Quando, a partir do século IV, o Cristianismo foi absorvido pelo Império Romano, os cristãos começaram a falar de Jesus como “Cristo Pantocrator”, isso é como imperador no trono. Este “Senhor de tudo” tinha como vigários na terra os reis e imperadores. Pouco a pouco, ensinaram que esse vigário de Cristo seria o bispo de Roma, o papa.

No século XIII, São Francisco de Assis insistiu na contemplação do Cristo pobre e nu, na Cruz. Inventou como espiritualidade a adoração do presépio de Natal e a devoção ao Caminho da Cruz (a chamada Via Sacra).

Há mais de 50 anos, muitas comunidades latino-americanas, pentecostais, católicas e evangélicas, veem Jesus como o Cristo Libertador e recebem dele força e inspiração para a resistência em um mundo desigual e para testemunhar o projeto divino como justiça, paz, libertação para todos e comunhão com a Terra e toda a natureza.

Para as pessoas comprometidas com a transformação do mundo, o que mais atrai na pessoa de Jesus libertador é que Ele assume essa função a partir da inserção no mundo como pobre. Assim, testemunha o amor de Deus pelas pessoas vulneráveis. Identifica-se com elas, nos diversos tipos de cruz em que até hoje a sociedade dominante crucifica povos inteiros, sacrificados aos interesses dos impérios atuais. 

Nenhuma imagem esgota a realidade de Jesus.  Temos sempre de perseverar n busca e aprofundar cada vez mais o mistério da sua pessoa e da sua vida.

O desafio para as Igrejas e religiões estabelecidas é que Jesus sempre quis identificar-se com as vítimas da exploração social, política e econômica. Além disso, o que mais escandalizava os religiosos é que Jesus convivia e “comia com as prostitutas e com as pessoas consideradas de má vida”.

Ainda hoje, mesmo eclesiásticos abertos ao social têm dificuldade de alargar essa abertura às relações de gênero, à luta contra o colonialismo, não só econômico e social, mas também cultural e religioso. 

Religiosos estranharam que, há alguns anos, na festa de Natal, um grupo de humor apresentasse a figura de um Jesus gay. Ficaram escandalizados com o fato de  que, no Rio de Janeiro, no desfile de Carnaval de 2020, a Mangueira tomasse como enredo o Jesus da Gente. Isso é triste, quando sabemos que Jesus sempre colocou-se contra o poder religioso, quando esse pretendia  aprisionar Deus em sua gaiola sagrada. 

Estudos mais atentos à História lembram que até a abertura do Canal de Suez, em 1864, a região da atual Palestina era considerada como pertencente à África. Portanto, Jesus nasceu, viveu e morreu como africano. 

Jesus revela-se nas vítimas e excluídos do mundo. O testemunho que ele pede de nós é claro: “Tudo o que fizerem a um desses pequeninos, é a mim que fazem” (Mt 25, 31ss). 

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