DANIEL 2,1-49 NA LUTA ANTI-IMPERIALISTA: DIVINO E HUMANO SÃO “CARNE E UNHA” – Por frei Gilvander Moreira[1]

Para o mês da Bíblia, setembro, em 2026, somos convidados/as a refletir sobre e a partir do livro de Daniel, um profeta apocalíptico que gera esperança onda a esperança está por um fio. Detenhamo-nos no grande projeto bíblico da estátua gigante de pés de barro do livro de Daniel, narrada em Daniel 2,1-49, que simboliza todos os sucessivos impérios opressores e exploradores, com seus poderes econômico, político e ideológico, na esperança de que ele nos inspire a assumir posturas e compromissos na militância pela construção de uma sociedade anti-imperialista, justa e solidária, diante dos atuais, grandes e brutais projetos do capitalismo, em sua fase neoliberal, neocolonial.
Segundo o capítulo 2 de Daniel, o rei Nabucodonosor fica profundamente perturbado por um sonho enigmático. Assustado, exige que os sábios – magos, astrólogos, agoureiros e adivinhos – não apenas interpretem, mas adivinhem o sonho que tivera. “O rei nos exige algo sobre-humano”, reconhecem eles. Diante da incapacidade dos “sábios”, o rei ordena a pena de morte para todos. Condenado à morte, Daniel pede um prazo e, em uma visão, Deus lhe revela o mistério do sonho, deixando Daniel agradecido por uma “brecha” que o faça escapar da execução da sentença de pena de morte (Daniel 2,20-23). Levado diante do rei, Daniel desmascara o pretenso poder dos sábios: “Não são capazes de desvendar o segredo… Mas há no céu um Deus que revela os segredos” (Daniel 2,27-28). Ou seja, pretensos sábios usam, em vão, o nome de Deus e, diante disso, torna-se necessária uma teologia libertadora, que compreenda “os segredos de Deus” nas entranhas da história. “Mas há no céu…” Esse “mas” é uma conjunção adversativa que revela outra força e luz contrastantes. Trata-se da luta pela afirmação do Deus do povo exilado contra os ídolos de todos os impérios. Daniel, então, revela o sonho e sua interpretação, mostrando o que acontecerá “nos últimos dias”.
Eis o que o rei viu em seu sonho: uma grande estátua, alta e muito brilhante, de aparência impressionante, composta por metais de valor decrescente (ouro, prata, bronze, ferro, ferro e barro). A cabeça era de ouro maciço; o peito e os braços, de prata; a barriga e as coxas, de bronze; as pernas, de ferro; os pés, de uma mistura de ferro e barro (Cf. Daniel 2,31-33). Então, sem que ninguém a tocasse, uma pedra soltou-se de uma montanha, atingiu os pés da gigante estátua e os despedaçou. Imediatamente, toda a estátua desmoronou, transformando-se em pó. Isto recorda a profecia bíblica de Gênesis 3,19: “Tu és pó e ao pó retornarás.” Ninguém e nenhum poder construído será imortal, mas na história será reduzido a pó. A pedra, então, tornou-se uma grande montanha que encheu toda a terra.
A expressão hebraica dî lā’ ḇîḏayin significa, literalmente, “que não [foi] por mãos”. A Bíblia, frequentemente, apresenta uma tensão entre ação divina e ação humana na implementação do reinado divino. A salvação é obra de Deus (Ef 2,8), mas as pessoas cristãs são “cooperadoras de Deus” (1 Co 3,9). A pedrinha se desprende da montanha “sem ação humana”, isso para afirmar a origem divina, mas os discípulos e as discípulas de Jesus Cristo são chamados a ser “pedras vivas” (1 Pedro 2,5), na construção do reinado divino. Nos Evangelhos, Jesus alerta aos discípulos e discípulas que não podem dar uma de Pilatos e “lavar as mãos” diante das injustiças e enfatiza: “Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Mc 6,34-44). Portanto, não podemos aceitar a postura dualista que insiste em excluir da ação divina toda e qualquer ação humana. Se observarmos o processo mais complexo, mesmo que não tenha tido no imediato ação humana, no processo mais amplo e profundo, com certeza, teve-a e sempre a tem. Divino e humano são “carne e unha”. Acontece que o/s autor/es do livro de Daniel quer/em enfatizar o poder maior da ação divina.
“Os pés e os dedos, parte de ferro e parte de barro, significam um reino dividido” (Dn 2,41-42), podre, pois é contraditório, sustentado por mentiras, exploração e violências sem fim. Assim como numa corrente, o elo mais frágil é, paradoxalmente, o que determina sua força total – pois, se ele se rompe, toda a corrente se parte –; os pés da estátua, em especial os dedos (até o mindinho), são a base que sustenta todo o corpo. Sendo constituídos de materiais incompatíveis – “ferro e barro” não se misturam (Dn 2,43) –, representam o ponto mais frágil. Um golpe nessa base faz desmoronar toda a estrutura.
O capítulo 2 de Daniel termina dizendo que o rei se prostrou diante dele e reconheceu a sua profecia. Tentou cooptá-lo, propondo fazê-lo governador de todas as províncias da Babilônia, mas ele não aceitou. Sugeriu que o poder fosse exercido por outras lideranças da confiança de Daniel. Assim, a profecia seguiu o seu caminho.
Em contextos políticos de poderosos exercendo o poder, pretendendo ser onipotentes, é tremendamente revolucionário afirmar, como o fez o profeta Daniel, que o único poder imbatível é o de Deus e só ele está no “volante” da história. Assim, ele deslegitima os pretensos poderosos e afirma outro poder que não é o exercido por nenhum ser humano.
Entretanto, segundo a Teologia da Libertação, o único poder que Deus tem é o poder do amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8), ou seja, o amor é Deus. Logo, o poder do Deus da vida está em nós, especialmente nos empobrecidos, permeando e perpassando a trama das relações humanas e sociais. O divino está no humano. Sem a participação humana, tecendo novas relações e construindo instituições com o poder democratizado, não é possível fazer desmoronar os podres poderes. Reconhecer a beleza espiritual da profecia de Daniel, a estátua gigante sendo desmoronada por uma pedrinha, é dizer: a última palavra será da vida, da liberdade e não dos podres poderes. Isso suscita esperança e faz a luta continuar. Assim como o/a ciclista mantém o equilíbrio ao olhar para a frente, cultivar uma utopia revolucionária é vital e imprescindível.
No contexto da resistência dos povos bíblicos explorados, a pedrinha pode ser interpretada como a luta dos povos oprimidos, inspirada por Deus contra o domínio selêucida, que insistia em expandir o império grego sobre uma gama maior de povos.
BH, 25/08/26
[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI e Ocupações Urbanas; autor de livros e artigos. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br – Canal no You Tube: https://www.youtube.com/@freigilvander – No Instagram: @gilvanderluismoreira – Facebook: Gilvander Moreira III – No https://www.tiktok.com/@frei.gilvander.moreira