TEM PESSOAS QUE NÃO MORREM! WILLIAM DIAS GOMES, mineiro de Nova Lima, MG, que “arrancava o coração do peito” para dar aos outros.

Todos nós sabemos de um jovem judeu palestino que foi assassinado aos 33 anos de idade, mais de dois mil anos atrás, e até hoje é lembrado como exemplo de vida pelos explorados e oprimidos. Mas também é usado pelos exploradores e opressores para explorar e oprimir o povo. Seu nome é Jesus Cristo.
Mas, existe outro homem que também morreu aos 33 anos de idade. Esse é brasileiro, de Nova Lima, Minas Gerais.
No dia 7 de novembro de 2024 completaram-se 76 anos que ele foi assassinado.
Quem é WILLIAM DIAS GOMES?
Órfão de pai aos seis anos de idade, aprendeu a trabalhar cedo para ajudar a mãe. Gostava de jogar bola. Acabou ingressando em times de futebol amadores. Casou-se, teve três filhos.
Aos 22 anos, começou a trabalhar na maior mina de ouro do mundo, da Anglo Gold, a Mina de Morro Velho, fundada em 1725 pela família Freitas. O ouro era extraído pelo trabalho dos negros escravizados. A Mina de Morro Velho foi vendida para a Inglaterra e, depois, para os capitalistas brancos da África do Sul. Em 250 anos, 2.400 trabalhadores morreram na mina.
William Dias Gomes não procurava ouro. Ele queria pão. Pão para ele e sua família. Ouro ele já tinha dentro dele. Quem conheceu William diz que ele “arrancava o coração do peito” para dar aos outros.
William, ao começar a trabalhar dentro das escavações (túnel da mina), conseguiu o pão que procurava. Porém, era molhado de suor e sangue. Apesar da Abolição oficial da Escravatura, o trabalho continuava semelhante à escravidão.
William, apesar de comer o “pão que o diabo amassou”, encontrou, no fundo da mina, o pão espiritual que alimentou sua vida.
Havia dentro da mina: lutas, organização e consciência de classe. Panfletos eram distribuídos com orientações aos operários da mina, para se mobilizar, se organizar e nunca confiar nos patrões. Mas, ninguém sabia de onde vinham essas orientações, quem escrevia esses panfletos.
Criaram-se Comissões de Lutas operárias em cada setor da mina. Fora da mina começa a organização sindical. A empresa cria outro Sindicato para os operários. Mas a maioria fica com o Sindicato de baixo. A minoria fica com o Sindicato de cima do Morro, que era o da empresa. No Sindicato, os operários continuaram com a Democracia Participativa que existia dento da mina.
Tudo era feito em Comissão, escolhida em Assembleias e, depois, na outra assembleia, era feita a prestação de contas das tarefas assumidas.
Após criar as Comissões dentro da mina e fundar o Sindicato fora dela, foi dado o terceiro passo: Organizar as famílias dos trabalhadores das minas, que moravam na periferia de Nova Lima, cidade que nasceu ao redor da mina do Morro Velho.
Criou-se Comissões para discutir a carestia e organizar as compras coletivas diretamente do fornecedor para reduzir os preços. Comissões de Luta por rua para melhorar o saneamento básico. Participação em atividades religiosas, católicas e espíritas. Clubes esportivos, recreativos. Comissão para organizar as noivas, comprar enxoval. Apoio às viúvas etc.
Com essa organização da Democracia Participativa, os trabalhadores do Morro Velho e o povo da periferia de Nova Lima, tiveram muitas conquistas econômicas e sociais. Essa experiência se deu entre 1932 a 1945, em plena Ditadura Vargas. Com a volta da Democracia Eleitoral (Representativa), William descobriu quem estava por trás de tudo aquilo, quem era a misteriosa direção que não aparecia. Era o Partido Comunista.
A direção nacional do Partido Comunista decidiu legalizar o partido para participar das eleições de 1945. A base de Nova Lima não concordou totalmente com as orientações da direção nacional: Comemorar o aniversário da União Soviética publicamente no município? Os militantes falarem no comício? Lançar candidatos a vereador em 1947? Mas, de acordo com o “Centralismo Democrático” do PCB, a base aceitou.
William se candidatou e foi eleito, mas continuou trabalhando na mina e liderando as lutas de sua classe. Porém, antes de terminar o mandato, ou seja, em 7 de novembro de 1948, o coração de ouro de William Dias Gomes parou. Foi assassinado em praça pública pelos homens da Mina de Morro Velho. O povo ganhou um herói e perdeu um dirigente.
• Você já tinha ouvido falar dessa história?
• Que lições tiramos da experiência dos trabalhadores e das suas famílias em Nova Lima, MG?
• O que a experiência política-eleitoral de Nova Lima nos ensina hoje?
07 de novembro de 2024.
76 anos do martírio de William Dias Gomes. William Dias Gomes, PRESENTE EM NÓS NA LUTA, SEMPRE!