Recife, 21 de julho de 2025.
Queridas irmãs e queridos irmãos,
reunidos no Congresso que celebra os 50 anos da Pastoral da Terra no Brasil,
Ao me dirigir a vocês, me vêm logo ao coração as palavras que, no livro do Apocalipse, o Cristo Ressuscitado manda o profeta escrever a uma das Igrejas da Ásia. “Escreve à Igreja de Esmirna: Estas são as palavras daquele que é o Primeiro e o Último, aquele que morreu e tornou a viver. Conheço os teus sofrimentos e a tua pobreza. No entanto, tu és rica. (…) Sê fiel até a morte e eu te darei a coroa da vida. Quem tiver ouvidos, escute o que o Espírito diz, hoje, às Igrejas” (Apoc 2, 8- 11).
Vocês se reúnem para esse Congresso nos dias em que a Agenda Latino-americana nos recorda que nesta 2ª feira, 21 de julho, se completam 45 anos do martírio de Wilson de Souza Pinheiro, líder do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Brasileia, no Acre, assassinado neste dia, em 1980. Na 5ª feira, 24, celebramos os 40 anos do martírio do querido irmão e amigo, o Padre Ezequiel Ramin que trabalhava com os posseiros de Cacoal, Rondônia, quando foi assassinado, em 1985.
Esses mártires, assassinados na luta pela terra, nos fazem recordar a multidão de mártires mortos, mas também vivos que nos interpelam, hoje e exigem de nós garantir que a Pastoral da Terra retome cada vez com mais força a sua vocação profética e martirial, ou seja, de testemunho.
No VI Encontro intereclesial de CEBs, em Trindade (1986), dois meses depois do assassinato de Josimo Tavares, em Imperatriz, aí no Maranhão, as comunidades afirmaram na carta final do encontro: “Nós queremos os nossos mártires vivos e não mortos!”.
Vocês que estão aí reunidos nesse Congresso fazem parte da assembleia desses irmãos e irmãs, mártires vivos e vivas, que, como nos pediu Dom Helder Camara, pouco antes de falecer: não podem deixar cair a profecia.
Junto com vocês, vejo aí, simbolicamente, presentes os queridos irmãos e companheiros e companheiras que iniciaram a Pastoral da Terra no Brasil. Antes, o que tínhamos era a Pastoral Rural que fazia excelente acompanhamento de lavradores, bons trabalhos de formação de lideranças no campo, mas, muitas vezes, ainda pensava a pastoral de forma meio eclesiocêntrica e predominantemente religiosa. A Pastoral da Terra, inspirada no modelo eclesial proposto pela conferência dos bispos latino-americanos em Medellín (1968) queria ser fundamentalmente um serviço ao povo oprimido do campo e um serviço libertador.
É bom lembrarmos aqui figuras como Ivo Poletto, mártir vivo que animou o surgimento da Pastoral da Terra e hoje anima o Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental. Junto com Antônio Canuto, com Dom Pedro Casaldáliga e Dom Tomás Balduíno, foi Ivo Poletto quem coordenou a assembleia que fundou a CPT em Goiânia em junho de 1975. Ivo foi também, por vários anos, o seu primeiro secretário nacional e foi quem me chamou para a equipe nacional da CPT, na qual trabalhei de 1977 até 1990, quando passei a ser assessor voluntário até hoje, mesmo depois dos 80 anos.
Sei que, atualmente, na Igreja e no mundo em que vivemos, se torna mais difícil viver a profecia. O MST nos ensina que a luta pela terra que há 50 anos era, principalmente, a luta pela Reforma Agrária Popular, agora, além da ocupação de terras, inclui fundamentalmente, a luta pela Agroecologia, pelos direitos dos rios e da natureza, pela sacralidade da terra e das águas e pela defesa das culturas originárias e, como diz o Grito dos Excluídos e Excluídas: A vida em primeiro lugar.
Em 1975, a CPT já começou ecumênica. Pastores e comunidades luteranas e metodistas participaram desde o começo da CPT, inclusive em sua direção nacional. Se hoje, a ecumenicidade é menos presente, é sinal de certo retrocesso no caminho profético, por parte da Igreja Católica e também das outras Igrejas que antes, apesar de todos os obstáculos e problemas culturais que enfrentávamos, participavam juntas dessa luta.
Naquela época, precisávamos justificar a companheiros da Igreja Católica o P de pastoral da CPT que nos fazia eclesial, mesmo sem ser eclesiásticos ou clericais. Hoje, a CNBB nos considera uma das pastorais da ação social transformadora. É claro que toda pastoral deveria ser social e por sua natureza evangélica, transformadora. Seja como for, o importante é que, nas dioceses e na própria organização da Igreja Católica no Brasil, as pastorais sociais não sejam apenas como a cereja no bolo e sim apareçam como elementos essenciais da vida e da missão da Igreja.
Desculpem essa mensagem já por demais extensa. Contem comigo nessa caminhada profética que somos chamados sempre a retomar com coragem e na esperança profética de que, como nos dizem os fóruns sociais, um novo mundo é cada vez mais necessário e urgente. Juntos, o fazemos possível. Que, como diz o evangelho do próximo domingo, possamos pedir ao Pai o seu Espírito e possamos escutar hoje o que o Espírito diz às Igrejas e ao mundo.
Abraço carinhoso do irmão Marcelo Barros.

CANTORIA E MENSAGEM DO IRMÃO MARCELO BARROS AO V CONGRESSO DA CPT: ROMPER CERCAS E TECER TEIAS: “A TERRA A DEUS PERTENCE” (Lev 25). 21/07/25. Vídeo 5