NOTA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS E ENTIDADES DE DIREITOS HUMANOS SOBRE A INJUSTA E ABSURDA CONDENAÇÃO DO PADRE AMARO

NOTA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS E ENTIDADES DE DIREITOS HUMANOS SOBRE A INJUSTA E ABSURDA CONDENAÇÃO DO PADRE AMARO

O juiz Victor Barreto Rampal, da comarca de Anapu, publicou no dia 11/09/2026, sentença condenatória contra o Padre Amaro, ex-pároco da paróquia de Anapu. O juiz fixou uma pena absurda de 19 anos e 6 meses de prisão a Amaro, sob a alegação da prática dos crimes de Extorsão e Organização Criminosa. Padre Amaro segue em liberdade até julgamento dos recursos nos tribunais superiores. O processo contra Amaro teve início em 2017 a partir da articulação de um grupo de fazendeiros, coordenada pelo grileiro Silvério Albano Fernandes.

Entenda as razões da condenação de Amaro:

➔ Silvério Fernandes é irmão do fazendeiro Laudelino Délio Fernandes, que chegou a ser investigado por suposta participação no assassinato da Missionária Dorothy Stang em 2005. Délio Fernandes fazia parte junto com Regivaldo Pereira Galvão, o “Taradão”, e outros fazendeiros da região de Anapu, da conhecida MÁFIA DA SUDAM.

➔ Essa ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA foi denunciada pelo Ministério Público Federal por fraudar projetos agropecuários e se apropriar de milhões da extinta SUDAM. Para viabilizar os falsos projetos o grupo passou a se apropriar ilegalmente de terras públicas federais na região de Anapu. À época, Dorothy denunciou Délio por se apropriar ilegalmente dos lotes: 56,58 e 61 da Gleba Bacajá.

➔ Dorothy denunciou também Silvério Albano Fernandes de se apropriar ilegalmente do lote 75 da Gleba Bacajá. Em depoimento prestado no dia 28/11/2002, perante a Polícia Federal, Dorothy relatou uma ameaça sofrida por parte de Silvério: “Que em meados de setembro quando a declarante se encontrava a pé na estrada Transamazônica, um veículo parou para lhe oferecer carona, sendo que a declarante não conhecia o motorista; Que durante a carona o motorista se apresentou para a declarante como Silvério Fernandes, dizendo para a mesma que ninguém invadisse suas terras, ou “TERIA SANGUE ATÉ A CANELA”.

➔ No ano de 2002, Regivaldo Pereira Galvão, se associou a Silvério Fernandes, para adquirir o controle do lote 55, quem endossou o negócio foi Délio Fernandes. As negociatas sobre o Lote 55 entre Regivaldo, Délio e Silvério, prosseguiram até chegar em outro sócio da organização criminosa: Vitalmiro Bastos de Moura, o “BIDA”. Foi esse grupo criminoso que decidiu a morte de Dorothy. No dia do assassinato da Missionária Dorothy Stang, BIDA se refugiou na fazenda de Délio Fernandes e ali permaneceu até sua fuga.

➔ O ódio do grileiro Silvério Fernandes contra Amaro aumentou na medida em que com o apoio da CPT os trabalhadores rurais forçaram o INCRA a retomar o lote 74 da Gleba Bacajá, grilado por Silvério e incorporá-lo ao patrimônio público em 2018. Outro lote da mesma gleba, de número 44, também grilado por Silvério, foi ocupado pelos trabalhadores em 2016 e o processo de arrecadação ainda está em grau de recurso no TRF1. Ainda em razão de denúncias feitas por Padre Amaro, Silvério foi processado pelo Ministério Público em 05.07.2016 pela prática do crime de Ameaça.

➔ Outro grileiro que acusou Amaro foi Debs Antônio Rosa, mandante do assassinato, em 27.10.2015, de José Nunes Cruz Silva, o Zé da Lapada. Foi condenado, em 19.09.2018, pelo Tribunal do Júri da Comarca de Anapu, a uma pena de 10 anos, 1 mês e 14 dias de prisão em razão do crime. Debs, também é réu em duas ações penais propostas pelo Ministério Público Federal a partir de denúncias públicas feitas pela Comissão Pastoral da Terra e por Padre Amaro sobre grilagem de terras públicas e desmatamento ilegal em Anapu e região.

➔ Os 10 (dez) fazendeiros e grileiros, que se reuniram sob o comando de Silvério, para atacar e caluniar Padre Amaro, na verdade sempre estiveram envolvidos em crimes que a CPT denunciou na região. Padre Amaro sempre teve uma atuação incansável no combate à grilagem e na defesa da retomada das terras dos grileiros. Jamais pediu qualquer vantagem para deixar de denuncialos pois os mesmos já eram investigados e processados tanto na justiça estadual quanto na federal.

Quando Dorothy começou a apoiar a luta dos camponeses em Anapu e contrariar os interesses dos grileiros, a decisão do grupo foi mandar matar a missionária. O crime ganhou repercussão nacional e internacional, forçando o Estado a prender e condenar os responsáveis pelo crime. No caso do Padre Amaro, a estratégia foi outra, ao invés de assassiná-lo, encontraram uma forma de criminalizá-lo e, dessa forma, impedir que continuasse desenvolvendo seu trabalho em Anapu. Após o assassinato da Irmã Dorothy Stang, Padre Amaro permaneceu na condição de coordenador da Comissão Pastoral da Terra em Anapu, sempre denunciou publicamente o processo de grilagem de terras nas glebas Bacaja e Belo Monte, principalmente, localizadas em Anapu e que permaneciam sob o controle das organizações criminosas de latifundiários grileiros e madeireiros. Essa atuação foi a motivação dos fazendeiros grileiros para perseguir o Padre Amaro, as Irmãs de Notre Dame de Namur e a CPT. Apesar das evidências relatadas acima, tanto o Ministério Público quanto o juiz da comarca local entenderam que chefe de organização criminosa em Anapu era o padre Amaro, impondo-lhe uma pena absurda de 19 anos e 6 meses de prisão. Os grileiros, pistoleiros e mandantes de crimes na região seguem livres e aplaudindo a decisão da Justiça de Anapu.

As organizações que assinam essa nota, apoiam Padre Amaro e a causa por ele defendida e seguem reunindo todos os esforços para derrubar a injusta condenação nos tribunais superiores.

Anapu/Belém, 17 de setembro de 2026.

Comissão Pastoral da Terra – CPT Pará.

Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos – SDDH.

Instituto José Cláudio e Maria. Coletivo Veredas.

Irmãs de Notre Dame de Namur.

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST.

Centro de Estudos e Assessoria Sindical Popular – CEPASP.

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