Uma homenagem ao fotógrafo João Zinclar

Uma homenagem ao fotógrafo João Zinclar

Gislene Margarida Pereira, a Gisa[1]

Frei Gilvander Moreira, no dia do meu aniversário, me deu este “para casa”: escrever sobre João Zinclar. Era a vivificação dele me parabenizando.

Não é uma tarefa fácil escrever sobre a vida de um ser tão grandioso como foi o João Zinclar. Gaúcho de Rio Grande, sempre teve a sua vida comprometida com ideias e causas libertárias.

 

Fotógrafo do povo, ex-hippie, comunista, operário, sócio–ambientalista, mais recentemente. As diversas faces do João foram se somando – numa vida breve e intensa até os seus 56 anos, que no dia 19 de janeiro de 2013, foi interrompida por um trágico acidente rodoviário. Como não poderia deixar de ser, estava a serviço, em Ipatinga, MG, onde cobria as eleições sindicais dos metalúrgicos.

Cada face ou fase deste gaúcho, que se fez cidadão do mundo, foi marcada por agregar amigos e amigas, sem contar, parceiros e parceiras de luta pela superação do capitalismo, pela construção do verdadeiro socialismo e pela vitória do povo pobre.

É preciso enfatizar que, além de excelente e comprometido profissional, o ser humano João Zinclar era uma pessoa impar, marcada pela simplicidade e humanidade, até invejáveis.

Fiel aos seus princípios marxistas, no seu dia a dia, tinha como missão, e até como lema, fotografar as cenas da vida real, formando fotos denúncias.

O que serviu de testemunho de toda sua trajetória de coerência, até o momento final faz de João Zinclar aqueles raros “imprescindíveis”, dos quais falava Brecht, que lutam toda a vida! Ah, se mais fôssemos assim!

A luta em defesa do “São Francisco – Rio e Povo” deve muito a João. Desde 2005, não há um só momento em que ele não estivesse presente, com seu olhar único, que valorizava a luta popular, mostrava a beleza da natureza, do cotidiano do povo, em marcha nas ruas ou na rotina sofrida, mas ainda com muita esperança.

Nos acontecimentos importantes desta luta lá estava João Zinclar, e foi assim, que registrou os momentos e manifestações contra a transposição de águas, pela revitalização da bacia hidrográfica sanfranciscana, da resistência nos territórios quilombolas e indígenas, nos encontros da Articulação Popular São Francisco Vivo, nos mutirões de formação e mobilização, nas visitas às comunidades, e é claro, nas greves de fome do bispo dom frei Luiz Flávio Cappio.

Às vezes, realizava o trabalho com pouca ajuda nossa (APSFV) ou custeava por conta própria as viagens, até chegar aos eventos. E mesmo assim, não perdia a sua alma de militante, questionava, dava sugestões e conselhos, sempre com muito respeito e com uma humildade, que impressionava.

João Zinclar na nossa caminhada será insubstituível e vai fazer muita falta.

Ele se foi e conseguiu deixar um grande legado, seu monumental livro fotográfico “O Rio São Francisco e as Águas no Sertão”. A obra revela um pouco desta operosa e prazerosa convivência/militância humana, política e artística. O Rio por um povo em luta, nenhum dos muitos fotógrafos do São Francisco, havia feito. E ele não sossegou, enquanto não viabilizou a entrega gratuita do livro, diretamente às comunidades e entidades que participaram da publicação.

Recordamos e valorizamos os momentos de convivência e companheirismo deste importante homem, que nos deixou ensinamentos e marcas registradas, como a vontade de comer pão e ouvir rock, o medo de adoecer e de morrer, que não espantava as ousadias, a facilidade de dormir e comer em qualquer lugar – sem reclamar -, a necessidade de parar o carro para registrar um momento e fazer uma boa foto, o incentivo aos iniciantes da fotografia, dentre tantos outros.

A última convivência juntos foi em 12 de outubro de 2012, em São Roque de Minas, Serra da Canastra, em Minas Gerais, onde foi comemorado o início dos “20 anos de peregrinação” de Frei Luiz Flávio Cappio, Adriano Martins e Irmã Conceição. João, mais uma vez, foi o fotógrafo que nos ajudou a registrar todos os momentos importantes.

De João Zinclar temos histórias inesquecíveis, de uma pessoa de fácil e gostosa convivência, um verdadeiro amigo fraterno. Onde tinha povo lá estava ele registrando tudo.

Não podemos deixar de falar de um grande trabalho em Belo Monte, no Pará. João deixou todas as suas atividades em Campinas, onde morava, e viajou de ônibus e trem ate chegar a Altamira, no Pará.

Retratou com tanta verdade o barramento do Rio Xingu para início das obras de Belo Monte, que como educadora não me dei o direito de deixar de aproveitar aquelas fotos- denúncias para fazer um vídeo que está postado no youtube.[2] É mais um legado do João em “Belo Monte e a morte do Rio Xingu: um crime”.

Defensor de causas nobres e populares, com herança ferroviária do pai, também defendia a retomada da ferrovia brasileira como opção de transporte coletivo de qualidade.

Por razão do destino, as suas últimas fotos foram feitas na viagem de Belo Horizonte para Ipatinga, MG. Depois de ficar feliz com a vitória da Intersindical no Sindicato dos Metalúrgicos de Ipatinga, pegou o trem e foi até Vitoria, ES. Quando voltava de ônibus para o Rio de Janeiro foi vítima fatal de um trágico acidente.

Ele se foi, mas sabemos que está eternamente vivo no coração de cada um/a de nós, que luta em defesa do rio São Francisco, de seu povo e sua biodiversidade. Ele estará sempre conosco com seus clicks nas reuniões da Articulação Popular São Francisco Vivo (APSFV) e em defesa da vida do Velho Chico.

Viajando pelas Minas e pelos Gerais, de trem, até a vitória final, vida em plenitude. Viajar fotografando apoiando as lutas populares foi o que João Zinclar mais fez. Em viagem, morrer, melhor dizendo, viajou para a vida eterna e terna. Conosco e em nós, João Zinclar está sempre viajando em lutas por justiça social e ambiental. Muitos outros fotógrafos revolucionários nasceram do seu exemplo e testemunho. Obrigado, João Zinclar! Você será sempre presente e vivo também em nós, na luta!

 


[1] Educadora ambiental e militante da Articulação Popular São Francisco Vivo – APSF.
Este texto foi compilado do “Adeus a João Zinclar” de Rubens Siqueira. E-mail: gisaguida@ig.com.br

 

[2] http://www.youtube.com/watch?v=YSttCy9s3Io

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