A Saúde do Planeta Terra e A missão das Comunidades Cristãs da Amazônia.

A Saúde do Planeta Terra e A missão das Comunidades Cristãs da Amazônia.

Iluminação Bíblica.

Frei Carlos Mesters, carmelita

(Obs.: Esse artigo é o 2º de uma série de 10 artigos de frei Carlos Mesters que disponibilizaremos na internet, em www.gilvander.org.br , em breve.)

 

 

As fotos e os desafios

A PROBLEMÁTICA ATUAL E SUAS CAUSAS

1. A visão integrada da Natureza que perdemos

2. A ruptura que houve

3. Um novo ídolo

4. Interpretação errada da Bíblia

5. Uma parábola para perceber o rumo desta reflexão

ILUMINAR A REALIDADE COM A LUZ DA BÍBLIA

A VISÃO INTEGRADA DA NATUREZA QUE A BÍBLIA NOS OFERECE

1. O ponto de partida: A tragédia da destruição do meio ambiente  –  A tragédia do cativeiro

A crise do cativeiro, a crise ecológica

A terrível imagem de Deus que falsificou a visão da vida e da natureza

2. O caminho que percorreram: A lição dos Profetas – a missão das Comunidades

1. A nova leitura da natureza

2. A redescoberta do Amor Eterno.

3. A nova imagem de Deus: Deus de família

4. O processo da releitura e de repensar todas as coisas

5. Os dois decálogos: da Aliança e da Criação: “Assim na terra como no céu!”

6. A nova síntese: os dois Livros de Deus: Natureza e Bíblia

7. A nova Missão do povo de Deus: servir

8. Uma nova pastoral: ternura, diálogo, reunião e consciência crítica

9. Uma nova maneira de celebrar a vida: a lição dos salmos

3. O ponto de chegada: Jesus confirma o caminho percorrido

*  A continuidade com a caminhada das Comunidade do AT

*  O olhar de Jesus sobre a Criação de Deus

*  a prática de Jesus confirma a tradição das Comunidades do AT

1. Jesus refaz o relacionamento humano na base, na “Casa”

2. Recupera a dimensão sagrada e festiva da Casa

3. Reconstrói a vida comunitária nos povoados da Galiléia

4. Cuida dos doentes e acolhe os excluídos

5. Recupera igualdade homem e mulher

6. Vai ao encontro das pessoas

7. Supera as barreiras de gênero, religião, raça e classe

*  os títulos de Jesus: um resumo do novo Caminho

Filho do homem

Servo de Deus

Redentor dos irmãos

APÊNDICE 1: Corrigir a interpretação errada da Bíblia que legitimou a agressão à natureza

Leitura de Gênesis 1,1-2,4: a história da Criação

Leitura de Gênesis 2,4-3,24: a história do Paraíso Terrestre

APÊNDICE 2: Uma conversa de Deus com Adão antes da expulsão do Paraíso

APÊNDICE 3: Uma conversa entre Adão e Eva depois da expulsão do Paraíso

APÊNDICE 4: A lição dos povos indígenas

As Fotos e os Desafios

 

As fotos visualizam os grandes desafios:

1.

O mundo ameaçado pelo lixo.

Como preservar o meio ambiente,

para que as gerações futuras possam ter uma vida garantida?

2.

A visão integrada da Natureza.

Como criar em nós uma nova visão do universo como criação de Deus

e da terra como casa para todos e todas a serviço da vida?

3.

O círculo Bíblico dos pobres e a missão do ser humano.

Como continuar acreditando

que Davi vencerá Golias,

que a mulher em dores de parto será mais forte que o dragão,

que os dois centavos da viúva continuam valendo mais que os milhões do ricos?

Como redescobrir nossa missão

como seres humanos neste universo,

não como donos, mas como servidores,

missão que deve encontrar uma expressão concreta

nas nossas atitudes pessoais,

no relacionamento familiar e comunitário,

na busca de Deus e na vivência da espiritualidade

e, sobretudo, deve marcar a missão das nossas Comunidades.

Como continuar a crer na força criadora e renovadora da Palavra de Deus?

 

A PROBLEMÁTICA ATUAL E SUAS CAUSAS

1. A visão integrada da Natureza que perdemos

A Bíblia não tem receita pronta para estes problemas do meio ambiente. O que nela existe é uma visão integrada da natureza que nós perdemos e que faz muita falta. Desde a época da Bíblia até o século XVI, dentro da visão que se tinha do mundo, o povo de Deus soube integrar, numa harmoniosa unidade, a visão da Natureza, a vivência da fé e a celebração litúrgica. Basta ver os relatos bíblicos e os Salmos, nos quais terra, sol, lua, estrelas, plantas e montanhas, seres humanos, história e criação, fé e Bíblia, tudo forma um conjunto vivo e harmonioso. A terra estava no centro, tendo o ser humano como o dono da casa que tomava conta de tudo em nome de Deus (cf Sl 8). Uma visão integrada semelhante marca também a cultura e a cosmo-visão dos povos indígenas até hoje. (Veja apêndice: A lição dos índios).

2. A ruptura que houve

Desde o século XVII, a ciência vem revelando uma visão nova do universo. A terra não é o centro. O sol é uma estrela de segunda categoria da Via Láctea com seus bilhões de estrelas. Como a Via Láctea há outras bilhões de galáxias com outras tantas estrelas. A terra não passa de um planeta entre milhares de outros planetas. Esta descoberta trouxe um descrédito com relação à visão do mundo que transparece na Bíblia. Rompeu-se aquela visão harmoniosa da natureza. O ser humano já não é o centro do cosmos, a terra deixou de ser um santuário divino. Ela já não nos fala de Deus, nossa origem. Em vez de ser nossa casa recebida de Deus, a terra virou mercadoria, sem espírito e sem projeto, apenas matéria bruta. Dizia o filósofo Francis Bacon: “Cabe ao ser humano torturar a natureza, como se faz na Inquisição, até que ela entregue todos os seus segredos”. Daí vem a agressão contra a natureza dita “selvagem” que deve ser dominada e “civilizada”. A crise atual não é só de escassez crescente de recursos. É também espiritual. Olhamos a natureza com um espírito errado e não nos damos conta. É urgente criar em nós uma atitude nova frente à natureza, atitude que nos ajude a superar a visão utilitarista e depredatória do cosmos divulgada pelo sistema neo-liberal. E neste ponto, a Bíblia é de grande ajuda. (L.Boff, Folha de São Paulo, junho de 2012)

3. Um novo ídolo

O sistema neoliberal criou um ídolo, diante do qual se sacrifica a vida e em defesa do qual se desintegra a natureza, destruindo rios, plantas, animais, florestas e mares. Este ídolo é o lucro, necessário para o sistema poder funcionar e sobreviver. Como todos os ídolos, tem os seus templos (Shoppingcenters), suas festas e celebrações, seus sacerdotes e funcionários. Na Bíblia, do começo ao fim, desde Gênesis até o Apocalipse, o que mais se combate é o ídolo, o falso deus, que impedia o acesso do povo ao Deus vivo e verdadeiro e que legitimava o domínio arbitrário do rei sobre a vida e as consciências das pessoas, desumani­zando a vida. A luta dos profetas em defesa da vida contra os ídolos e os desmandos da monarquia pode oferecer uma motivação mais profunda para o esforço de tantos movimentos que combatem o ídolo do sistema neoliberal, lutam pela preservação do equilíbrio ecológico e acreditam que outro mundo é possível.

4. Interpretação errada da Bíblia

Na raiz do atual desequilíbrio ecológico e da depredação da natureza está também uma interpretação errada da Bíblia. Nós cristãos, em nome da Bíblia, legitimamos a agressão à natureza. O livro de Gênesis traz a ordem de Deus: “Dominai a terra e submetei-a!” (Gn 1,28-29; 2,15; 9,1-3; Eclo 17,4; Sab 9,2; 10,2; Dan 3,37-38). Durante séculos, nós nos comportamos como se tivéssemos a liberdade, recebida de Deus, para fazer com a natureza o que bem entendêssemos. E o resultado é o atual desequilíbrio: a poluição ameaçando a vida no planeta que volta a ser um caos “sem forma e vazio” (Gn 1,2); o irmão matando o irmão, Caim matando Abel (Gn 4,1-16); a violência, pior que de Lameque (Gn 4,17-24); a manipulação da religião que dá origem ao Dilúvio (Gn 6,1-7); uma nação dominando a outra, criando a confusão da Torre de Babel (Gn 11,1-9).

Se no passado usamos a Bíblia para legitimar a exploração da Terra, temos de voltar à Bíblia para corrigir a visão errada e aprender com ela como respeitar melhor a natureza. É significativo o gesto do índio que devolveu a Bíblia ao Papa João Paulo II: “Leve de volta este livro, porque ele é a causa do nosso extermínio!” De fato, legitimada pelo livro de Josué, foi feita a invasão das Américas. E, legitimada pela Bíblia, foi realizada a política do Apartheid na África do Sul. Ambas provocaram um desequilíbrio populacional perverso e anti-evangélico. Hoje, em nome da Bíblia, continua depredação da natureza.

5. Uma parábola para perceber o rumo desta reflexão

João teve que ir à rodoviária para receber a irmã do seu avô. Visto que não conhecia a pessoa, deram-lhe uma foto. Quando chegou o ônibus, João foi conferindo as pessoas, fotografia na mão. Só um “pequeno” detalhe. A foto era de 45 anos atrás. No fim, por último, sai do ônibus uma senhora já de idade. João pergunta, mostrando a foto: “Por acaso, a senhora viu se esta pessoa estava no ônibus?” Ela olhou, sorriu e disse: “Sou eu!” João olhou a pessoa, conferiu com a foto e disse: “A senhora pode enganar os outros, mas não a mim!” Deixou a dona na rodoviária, voltou para casa e disse: “Pai, ela não chegou não. Acho que perdeu o ônibus!”. Foi a foto antiquada que impediu a João de reconhecer a tia na rodoviária. Nós temos muitas fotos antiquadas de Deus na cabeça que bloqueiam tudo e nos impedem de reconhecer a presença de Deus na rodoviária da vida. E às vezes, é esta visão antiquada que leva a pessoa a legitimar posições contrárias à preservação da natureza.

ILUMINAR A REALIDADE COM A LUZ DA BÍBLIA

A VISÃO INTEGRADA DA NATUREZA QUE A BÍBLIA NOS OFERECE

1

O ponto de partida

A tragédia da destruição do meio ambiente  –  A tragédia do cativeiro

A mensagem e o texto final do encontro dos bispos da Amazônia pelos 40 anos da Caminhada desde o encontro de Santarém em 1972 descreve os vários aspectos da tragédia da agressão ao meio-ambiente e as conseqüências para a vida dos povos da Amazônia. As perguntas são muitas e muito sérias: Humanamente falando uma comunidade ribeirinha, uma tribo indígena, os pequenos grupos de migrantes que vieram de longe: qual a força que eles tem para enfrentar o agronegócio? Como eles podem impedir a agressão que sofrem da invasão progressiva das suas terras e o desmatamento crescente? E nós que estamos aqui reunidos, como podemos impedir a caótica urbanização em torno das cidades? Vamos poder resistir à expansão do sistema capitalista? Qual o nosso futuro? Existe futuro? Os outros nos perguntam: “O que vocês querem e pretendem?”

Na época do cativeiro da Babilônia, o pessoal de Nabucodonosor dizia ao povo de Deus: “Qual é esse Deus de vocês? Onde está esse Deus? Existe?” Fica a pergunta muito antiga e muito atual: Davi vai conseguir enfrentar Golias? Os dois centavos da viúva continuam valendo mais que o milhão dos ricos? A mulher em dores de parto é capaz de enfrentar hoje o Dragão? Como enfrentar esta crise?

A crise do cativeiro, a crise ecológica

Uma crise de fé é como o cupim que vai entrando nas vigas do telhado. Bem devagar! O dono da casa não se dá conta, nem presta atenção. Vai vivendo despreocupado; a tudo desatento. De repente, um temporal cai sobre a casa e o telhado desaba. Desaba de repente, sim, mas é por causa da falta de cuidado do dono da casa que já vinha de longe. E o dono deu a culpa ao carpinteiro: “Mau serviço!”

Assim aconteceu com o povo de Deus. Desatento de tudo, permitiu que o cupim de uma falsa imagem de Deus fosse comendo por dentro a viga da sua fé. Ao longo dos 400 anos da monarquia (de 1000 a 600 aC), Javé, o Deus libertador, foi sendo reduzido à imagem de um Deus-Quebra-Galho, em tudo identificado com os interesses da monarquia, contrários aos interesses da vida do povo e do objetivo do Êxodo. Os profetas alertavam sobre o perigo, mas ninguém lhes dava atenção, pois havia muitos falsos profetas que diziam o contrário (Jr 28,1-11; Ez 34,1-10). Os Reis manipulavam a Aliança em favor dos seus próprios interesses comerciais. As conseqüências desta infidelidade progressiva foram aparecendo na desarrumação e desintegração da vida do povo. Apareceram o empobrecimento, a opressão e a desumanização.

Uma última tentativa para evitar o desastre iminente foi a reforma chamada Deuteronomista: ou mudamos ou morremos. Resolveram mudar e proclamaram a reforma, iniciada por Ezequias e assumida com força pelo rei Josias. Esta reforma visava levar o povo de volta à observância da Lei. O acento caía na observância, na responsabilidade do povo. A insistência na observância era tão forte que se chegou a dizer ao povo: Agora vai depender só de vocês. Diante de vocês está a opção de escolher entre a vida e a morte, entre a bênção e a maldição: “Vejam! Hoje eu estou colocando diante de vocês a bênção e a maldição. A bênção, se vocês obedecerem aos mandamentos de Javé seu Deus, que eu hoje lhes ordeno. A maldição, se não obedecerem aos mandamentos de Javé seu Deus” (Dt 11,26-27). O capítulo 28 de Deuteronômio enumera as bênçãos como fruto da observância fiel (Dt 28,1-14) e os males como fruto das transgressões e da infidelidade (Dt 28,15-68). Coisas terríveis e castigos inacreditáveis são enumerados para obrigar o povo a observar a lei e, assim, evitar o desastre da desintegração. Prevaleceu o medo do castigo sobre a vontade de servir por amor. Não mudaram a imagem de Deus que tinha falsificado tudo.

Algo semelhante está acontecendo conosco. Desde o Século XVII, o cupim da descrença foi comendo por dentro a visão que tínhamos de Deus e da natureza. A visão ingênua de fé foi desaparecendo como neve diante do sol e em muitos a religiosidade foi secando. A terra deixou de ser uma revelação de Deus, e virou mercadoria. A vida foi se secularizando. De repente, o telhado desabou: apareceu a poluição, os desastres ecológicos. Porém, apesar de todos os avisos e ameaças, não nos convertemos. Haja visto Rio +20! Faltou e falta o “espírito”, falta senso de humanidade, de serviço, de doação. O ídolo do lucro não o permite.

Também na Bíblia, apesar de todos os avisos e ameaças, eles não deram conta de observar a lei. Com a morte de Josias em 609 aC. morreu também a reforma. No mês de agosto de 587 aC, Nabucodonosor veio e tudo foi destruído (2Rs 25,8-12; Jr 52,12-16). Perderam tudo aquilo que, até àquele momento, havia sido a expressão visível da presença de Deus: O Templo foi incendiado (2Rs 25,9). A Monarquia já não existia (2Rs 25,7). A Terra passou a ser a propriedade dos inimigos, (2Rs 25,12; Jr 39,10; 52,16). Os sinais tradicionais da presença de Deus foram destruídos como copo de vidro que se quebra em mil pedaços (Jr 18,1-10). Deus parecia estar longe e já não lhes mostrava mais o seu rosto (Sl 10,1; Sl 12,2-4; 27,9; 30,8; 69,18; 80,4).

Diante desta terrível situação de destruição e abandono, o povo concluiu: colhemos o que plantamos. Não adianta chorar leite derramado. Abrimos as comportas e a água invadiu e destruiu tudo. Nós quebramos o contrato com Deus, e sobre nós caíram as maldições previstas no contrato (cf. Dt 28,15-68). Rompemos com Deus, e ele rompeu conosco conforme tinha avisado tantas vezes (cf. Dt 6,14-15; 9,11-14.19; 11,16-17). Foi uma total “secularização” da vida. O cupim foi avançando e, de repente, veio a tempestade do cativeiro e tudo desabou! Deram a culpa ao Criador: “Mau serviço!”

A terrível imagem de Deus que falsificou a visão da vida e da natureza

Esta situação de desespero e de desencanto está expressa, com todas as letras, na 3ª Lamentação. (Lam 3,1-18). A terrível imagem de Deus que transparece nas entrelinhas deste lamento é a de um deus vingativo que só quer castigar e não oferece futuro, nem desperta adoração:

“Eu sou o homem que conheceu a dor de perto, sob o chicote da sua ira. Ele (Deus) me conduziu e me fez andar nas trevas e não na luz. Ele volve e revolve contra mim a sua mão, o dia todo. Consumiu minha carne e minha pele, e quebrou os meus ossos. Ao meu redor, armou um cerco de veneno e amargura, me fez morar nas trevas como os defuntos, enterrados há muito tempo. Cercou-me qual muro sem saída, e acorrentado, me prendeu. Clamar ou gritar de nada vale, ele está surdo à minha súplica. Com pedra cercou a minha estrada, distorceu o meu caminho. Ele foi para mim como urso de tocaia, um leão de emboscada. Desviou-me do caminho, me despedaçou e deixou inerte. Disparou seu arco, fez de mim o alvo de suas flechas. Em meus rins ele cravou suas flechas, tiradas de sua aljava. Eu me tornei uma piada para todos os povos, a gozação de todo o dia. Encheu meu estômago de amargura, embriagou-me de fel. Fez-me dar com os dentes numa pedra, estendeu-me na poeira. Fugiu a paz do meu espírito, a felicidade acabou. Eu digo: “Acabaram minhas forças e minha esperança em Javé”. (Lam 3,1-18).

Quem tem esta imagem de Deus na cabeça e no coração, sente-se rejeitado para sempre. Se for esperar por Deus na rodoviária da vida com esta foto na mão, nunca irá encontrá-lo. Pois este Deus não existe! A falsa (antiquada) imagem do deus-quebra-galho impedia o povo de opinar corretamente sobre a tragédia do cativeiro. É trágica a afirmação de Isaías: “Sua mente enganada o iludiu, de modo que ele não consegue salvar a própria vida e nem é capaz de dizer: “Não será mentira isso que tenho nas mãos?” (Is 44,20). Eles eram incapazes de descobrir a mentira que os impedia de enxergar (cf. Jr 6,15).

Qual a falsa imagem de Deus que hoje está por detrás da agressão à natureza do sistema neo-liberal e da lenta e progressiva secularização da vida dos últimos duzentos anos? Qual a imagem de Deus que estava por de trás da leitura errada da Bíblia legitimando a depredação da natureza? Qual a imagem de Deus que está por de trás do progresso da ciência? Muitos cientistas se dizem ateus. Talvez tenham razão, pois o Deus que eles dizem não existir de fato não existe. Saramago que se dizia ateu disse esta frase: “Deus é o silêncio do Universo; o ser humano é o grito que tenta interpretar o silêncio”.

2

O caminho que percorreram

A lição dos Profetas – a missão das Comunidades

A lenta descoberta do novo horizonte sobre a Natureza

Como sair daquela escuridão? Qual o caminho? Como sair da atual escuridão? Numa situação dessas já não adiantam raciocínios e argumentos de cabeça. O que fez cair a ficha e abriu um novo horizonte foi o testemunho profético das Comunidades que souberam redescobrir e assumir a Boa Nova de Deus para a vida humana. Aqui está uma luz para ajudar na definição da missão das nossas Comunidades.

Naquele tempo, como hoje, muitos se acomodaram no cativeiro, abandonaram a fé em Javé e aderiram ao Deus de Nabucodonosor ou ao deus do sistema neoliberal. Outros não quiseram aceitar a realidade dura do cativeiro e se agarraram ao passado. Preferiram lutar pelo retorno ao tempo dos reis: restaurar tudo do jeito que era antes. As comunidades dos discípulos e discípulas de Isaías, porém, enfrentaram o desafio da dura realidade do cativeiro: O que será que Deus está querendo dizer a nós por meio desta escuridão terrível de total abandono de Deus em que nos encontramos aqui no cativeiro?

Eles procuraram e encontraram uma luz. Não a luz de sempre, aquela do fim do túnel! Encontraram uma luz diferente, que existia dentro do próprio túnel, mas que eles nunca tinham enxergado. Agora, os olhos se abriram e o que parecia ser a ausência de Deus era a sua presença. Aquilo que parecia escuridão era mais claro que o sol do meio dia (Sl 139,12). A escuridão era luminosa. A ausência de Deus era a sua presença! Tudo mudou. É o que vamos ver agora. Pois algo semelhante já está acontecendo hoje.

As comunidades dos discípulos e discípulas de Isaías não eram de muita gente nem chegaram a ter uma influência direta nos esferas do poder depois que Neemias e, em seguida, Esdras assumiram a liderança (445 e 392 aC). Mas elas continuaram bem vivas ao longo dos séculos como movimento popular, como resistência escondida, desde o cativeiro do século VI aC até a chegada do Novo Testamento. Mais ou menos como as nossas comunidades eclesiais de base, desde os anos 50 até hoje. Eram homens e mulheres, casados e solteiros, rapazes e moças, jovens e velhos. Seus escritos foram nos capítulos 40 a 66 do livro do profeta Isaías e formam um ponto alto na história do povo do Antigo Testamento. Sua luz, seu vigor e sua influência transparecem também nos escritos sapienciais (Jó, Cantares e Qohelet), nas novelas populares (Rute, Jonas, Judite, Ester, Tobias) e no movimento apocalíptico. Foi na meditação dos escritos de Isaías que Jesus encontrou as palavras para apresentar sua missão na comunidade de Nazaré (Lc 4,18-19 e Is 61,1-2).

É esperançoso ver como, sob o estímulo dos profetas, do mais fundo do fundo do poço daquele terrível cativeiro, renasceu a esperança, e apareceu um novo caminho. As Comunidades redescobriram a presença libertadora de Deus na natureza e na vida e reencontraram o sentido da sua missão como Povo de Deus. Vamos ver de perto os pontos principais que marcaram o caminho das Comunidades daquele tempo, pois elas são de grande alcance para a missão das nossas CEBs hoje. Pode haver alguma repetição no que vou dizer, pois se trata de aspectos diferentes de uma mesma experiência de Deus, da vida e da natureza:

1. A nova leitura da natureza

2. A redescoberta do Amor Eterno.

3. A nova imagem de Deus: Deus de família

4. O processo da releitura e de repensar todas as coisas

5. Os dois decálogos: da Aliança e da Criação: “Assim na terra como no céu!”

6. A nova síntese: os dois Livros de Deus: Natureza e Bíblia

7. A nova Missão do povo de Deus: servir

8. Uma nova pastoral: ternura, diálogo, reunião e consciência crítica

9. Uma nova maneira de celebrar a vida: a lição dos salmos

1. A nova leitura da natureza

Naquele desespero generalizado, o profeta Jeremias soube reencontrar motivos de esperança. É como se dissesse: “Vocês dizem que Deus já não cuida de nós; que deixamos de ser povo de Deus!” Eu afirmo que Ele não nos abandonou. E sabem por quê? É que o sol vai nascer amanhã. Nabucodonosor pode ser forte, mas ele não consegue impedir o nascimento do sol amanhã.

“Assim diz Javé, aquele que estabelece o sol para iluminar o dia e ordena à lua e às estrelas para iluminarem a noite, aquele cujo nome é Javé dos exércitos: quando essas leis falharem diante de mim  –  oráculo de Javé  –  então o povo de Israel também deixará de ser diante de mim uma nação para sempre!” (Jr 31,35-36).  “Se vocês puderem romper a minha aliança com o dia e com a noite, de modo que já não haverá mais dia nem noite no tempo certo, também será rompida a minha aliança com o meu servo Davi” (Jr33,20-21).

Jeremias ajudou o povo a ler a natureza com um novo olhar de fé. Era nos fenômenos da criação que ele via um sinal da presença de Deus e da sua fidelidade para com o povo: na seqüência inalterada dos dias e das noites; no sol que se levantava todos os dias sobre a cidade destruída; na lua minguante e crescente; na alternância das estações do ano: primavera, verão, outono e inverno; nas chuvas, nas plantas e sementes, etc. Tudo isto era para Jeremias um sinal da certeza de que Deus continuava fiel ao seu povo e de que Ele não havia rompido sua aliança, como alguns andavam dizendo (cf. Is 49,14). A natureza tornou-se sinal transparente da presença gratuita de Deus no meio do seu povo.

A certeza do nascer do sol não depende dos poderes deste mundo, nem da observância da lei, mas está impressa na lógica da criação. É pura gratuidade, expressão do bem-querer do Criador. É promessa que não falha. Nós podemos romper com Deus, mas Deus não rompe conosco. Cada manhã, através da seqüência dos dias e das noites, ele nos fala ao coração: “Como é certo que eu criei o dia e a noite e estabeleci as leis do céu e da terra, também é certo que não rejeitarei a descendência de Javé e de meu servo Davi.” (Jr 33,25-26). É deste olhar sobre a natureza que vai nascer o texto de Gênesis que descreve a criação do mundo.

PERGUNTAS:

E hoje, qual o novo olhar nosso sobre a natureza para fazer reverter o olhar de agressão que legitima e favorece a sua depredação? Como fazer com que a terra, em vez de ser uma mercadoria sem vida e sem projeto a serviço do ídolo do lucro, possa ser experimentada como companheira na preservação da vida para todos?

2. A redescoberta do Amor eterno.

Foi nesta mesma situação escura sem horizonte, que os profetas desenterraram a raiz do amor fiel de Deus. Jeremias traz esta frase: “Eu amei você com amor eterno; por isso conservei o meu amor por você” (Jr 31,3). E esta outra afirmação de Isaías: “Num ímpeto de ira, por um momento eu escondi de você o meu rosto; mas agora, com amor eterno, volto a me compadecer de você, diz Javé, seu redentor” (Is 54,8). Foram os profetas, sobretudo Jeremias, Oséias e Isaías, que souberam redescobrir esta dimensão do amor gratuito de Deus (cf. Is 41,8-14; 49,15;Jr 31,31-37; Os 2,16).

Nas entrelinhas destas frases, a gente adivinha a seguinte descoberta. É como se Deus, o namorado, dissesse ao povo, sua namorada: “Depois de tudo que você fez, você já não mereceria ser amada. Mas meu amor por você não depende do que você fez por mim ou contra mim. Quando comecei a amar você, eu o fiz com um amor eterno. Por isso, apesar de tudo que você me fez, apesar de todos os seus defeitos, eu gosto de você, eu amo você para sempre! “Eu amei você com amor eterno; por isso conservei o meu amor por você” (Jr 31,3). “Pode a mãe se esquecer do seu nenê, pode ela deixar de ter amor pelo filho de suas entranhas? Ainda que ela se esqueça, eu não me esquecerei de você” (Is 49,15).

E a gente se pergunta: “Então, o que houve para Deus falar assim? Qual foi a quebra que houve? E em que consiste esse amor eterno de Deus? Eles descobriram que a história não tinha começado com a imposição de leis que pediam observância. Muito antes da entrega da lei tiveram a revelação do amor de Deus na aliança com Noé, na promessa feita a Abraão e Sara e na libertação da escravidão do Faraó. Libertando o povo, Deus lhe revelou seu amor, conquistou um título de propriedade. É como se dissesse: “Agora você é meu!” (Is 43,1). “Agora, vocês são o meu povo e eu sou o Deus de vocês” (cf. Ex 19,4-6; 24,8).

A redescoberta da certeza do amor maior e eterno de Deus devolveu ao povo a auto-estima, ajudou-o a superar o sentimento de culpa e levou-o a dar uma resposta de amor na observância dos Dez Mandamentos ou, como eles diziam, das Dez Palavras (cf. Dt 4,13; 10,4). Fizeram a Aliança: “Faremos tudo o que Javé mandou e obedeceremos!” (Ex 24,73). Amor mútuo! A palavra amor em hebraico é hêsed. A tradução mais correta é “amor fiel”. Agora sabem que nada, nem mesmo o fracasso, pode separá-los do amor de Deus (Is 40,1-2ª; 41,9-10.13-14; 43,1-5; 44,2; 46,3-4; 49,13-16; 54,7-8; etc; cf. Rom 8,35-39).

PERGUNTAS:

Como acontece hoje esta redescoberta do amor de Deus? O último censo revelou que os crentes cresceram mais de 20% e que o números dos católicos diminuiu. Muitos crentes foram católicos e, como eles dizem, se converteram: “Descobri Jesus e me converti!’ Será que nós nos deixamos questionar, ou minimizamos esta redescoberta do amor como coisa subjetiva? Será que sabemos despertar este amor por Jesus e pelo pobre? Sem isto, nada feito! Peruca em careca.

3. A nova imagem de Deus: Deus de família

A desintegração dos valores da época da monarquia criou uma conjuntura nova, diferente. Lá no cativeiro, os valores que antes faziam parte da vida já não existiam: a posse da terra, o templo, as peregrinações, o culto, o sacrifício, o sacerdócio, a monarquia, o rei. Nada disse tinha sobrado. No cativeiro, o único espaço de uma relativa autonomia e liberdade que ainda sobrava para o povo era o espaço familiar: o pai, a mãe, o marido, a esposa, um irmão ou irmã, o mundo pequeno e frágil da família, da “casa”.

Ora, foi neste pequeno espaço da família, da “casa”, clã, da pequena comunidade, que renasceu nos discípulos de Isaías uma nova experiência de Deus. A nova imagem de Deus, transmitida por eles, reflete este ambiente familiar da Casa. Deus é Pai (Is 63,16; 64,7), é Mãe (Is 46,3; 49,15-16; 66,12-13), é Marido (Is 54,4-5; 62,5), é o parente próximo (goêl ou irmão mais velho) (Is 41,14; 43,1). Javé, o Deus que antes estava ligado ao Templo, ao culto oficial, ao sacerdócio, ao clero, à monarquia, agora está perto deles, “em casa”; casa pequena, quebrada e, humanamente falando, sem futuro, mas Casa, e não Templo. Não retomaram as imagens religiosas antigas, mas usaram imagens novas tiradas da vida familiar e comunitária.

Eles humanizaram a imagem de Deus e sacralizaram a vida, a família, a pequena comunidade, como o espaço do reencontro com Deus. Deus agora se esconde e se revela (cf. Is 45,15) onde antes ninguém o procurava: em casa, no relacionamento diário familiar, nas pequenas comunidades de base, no meio do povo exilado e excluído! É a renovação das igrejas na América Latina a partir das Comunidades Eclesiais de Base. Foi a partir deste mundo pequeno e limitado da “casa”, sem prestígio e sem poder, que tudo renasceu e continua renascendo, até hoje.

PERGUNTAS:

Qual a imagem renovada de Deus que hoje anima nossas CEBs? Também hoje, há muitas imagens de Deus dentro da mesma igreja: Comunidades Eclesiais de Base, Opus Dei, Neo-Catecumenos, Movimento Carismático, Focolarini, Congregação Mariana, Apostolado de Oração, Fé e Política, tantos! Qual a imagem que melhor nos aproxima de Deus e da nossa missão? Que mais nos ajude a sermos fiéis ao que Deus nos pede na atual situação em que nos encontramos?

4. O processo da releitura e de repensar todas as coisas

A nova maneira de olhar a natureza, a redescoberta do amor eterno e o reencontro com Deus em “casa“, na pequena comunidade, deram olhos novos para entender de maneira nova o sentido de tudo que tinham vivido no passado. Começaram a reler tudo: a natureza, a história, a política, a criação, o passado e o presente e, assim, começaram a reintegrar todos os aspectos da vida desintegrada do povo exilado. Foi um longo processo de séculos. A expressão final desta releitura, iniciada no cativeiro é a própria Bíblia.

Eles começaram a relembrar as histórias do seu passado, não para aumentar a saudade, mas para transformar a saudade em esperança: “Deus não nos abandonou. A caminhada continua! Estamos refazendo a história”. Lembram a aliança de Deus com Noé (Is 54,8-9) e o chamado de Abraão e Sara (Is 51,1-2; 41,8): “Nós somos hoje Abraão e Sara!”. Lembram sobretudo o Êxodo: o fim da escravidão (Is 40,2); o caminho pelo deserto (Is 40,3); o cântico novo à beira do Mar Vermelho (Is 42,10); a travessia pela água (Is 43,2); a água que brota do chão seco (Is 44,3); a efusão do Espírito (Núm 11,17.25; Is 44,3); etc. “Estamos envolvidos num novo Êxodo, muito maior que o primeiro (Is 43,16-19).

Eles começam a reler os valores da vida que no passado tinham orientado o povo. Mantêm as mesmas palavras, mas dão a elas um novo sentido e as colocam numa nova perspectiva. Eis alguns exemplos:

*  O povo de Deus já não é uma raça, pois agora também os estrangeiros fazem parte (Is 56,3.6-7).

*  O templo já não será só para os judeus, mas será casa de oração para todos os povos (Is 56,7).

*  O culto é universal, pois os estrangeiros dele participam (Is 56,6-7).

*  O sacerdócio não é só de Levi pois estrangeiros receberão o mesmo sacerdócio (Is 66,20-21).

*  O reino já não é a monarquia de Davi, mas sim o Reino Universal do próprio Deus (Is 52,7; 43,15).

*  O messias, (ungido) não é só o rei davídico, mas também Ciro, o Rei dos persas (Is 45,1; 44,28).

*  A eleição já não é um privilégio, mas sim um serviço a ser prestado a toda a humanidade (Is 42,1-4).

*  A missão não é o povo ser um grupo separado, mas ser “Luz das Nações” (Is 42,6; 49,6)

* A lei de Deus não é só de Israel, ela será de  todos os povos que nela encontram uma luz (Is 2,1-5).

* Jerusalém não é capital de Judá, mas sim o centro de peregrinação para todos os povos (Is 60,1-7).

A nova experiência de Deus, de um lado, ajudou-os a perceber os erros e enganos da ideologia do tempo dos reis; e de outro lado, foi fonte de criatividade para repensar, um por um, todos os valores do passado, libertá-los dos erros e das limitações, adaptá-los à nova situação. Atualizaram a fotografias antiquadas e foram capazes de reconhecer Deus na rodoviária da vida.

PERGUNTAS:

Como fazer hoje esta releitura tão importante, tão necessária e tão urgente? Os bispos fizeram uma bonita releitura dos últimos 40 anos de caminhada. Sem memória do passado, não há horizonte do futuro. Como ajudar o povo das CEBs a fazer esta releitura? Qual a tarefa da teologia nesta releitura? Há muitas tentativas, mas nem todas nascem da redescoberta do amor de Deus no mundo complexo de hoje. Nem todas nascem do diálogo sincero.

5. Os dois decálogos: Aliança e Criação: “Assim na terra como no céu!”

De todos os livros da Bíblia, os capítulos 40 a 66 do livro de Isaías são os que mais usam a palavra criar, mais de vinte vezes! É a nova compreensão da ação criadora de Deus. O verbo BARÁ (criar) indica a qualidade da ação com que Deus acompanha e cuida do seu povo. Deus cria o universo e a terra; cria também o povo e o Êxodo (Is 43,15). Tudo é fruto da ação criadora. “Javé que te criou, aquele que estendeu os céus e fundou a terra?”(Is 51,12). Ele liberta, salva e conduz o povo com um poder criador (Is 40,25-31). Por isso, nada, ninguém é capaz de impedir a sua realização: nem Nabucodonosor, nem a nossa infidelidade!

Ação salvadora e ação criadora se identificam. O Deus que chama Abraão é o Deus Criador. O Deus que cria o mundo é o Deus que chama Abraão. Iluminação mútua entre Criação e Salvação. É a mesma ação. Ao lado das Dez Palavras (Dez Mandamentos) que estão na origem da Aliança, eles começam a dar atenção às Palavras Divinas que estão na origem das Criaturas. Ao lado da Lei da Aliança, descobrem a Lei da Criação. A Lei de Deus entregue ao povo no Monte Sinai tinha no seu centro as Dez Palavras divinas da aliança (Ex 20,1-17; Dt 5,6-22). Da mesma maneira, a narrativa da Criação tem no seu centro Dez Palavras divinas. O autor que fez a redação da narrativa da Criação (Gn 1,1-2,4ª) teve a preocupação em descrever toda a ação criadora de Deus por meio de exatamente Dez Palavras. Ele repete dez vezes a expressão “e Deus disse”:

 

1. Gn 1,3     E Deus disse: haja luz

2. Gn 1,6     E Deus disse: haja firmamento

3. Gn 1,9     E Deus disse: as águas se juntem e apareça o continente

4. Gn 1,11   E Deus disse: a terra produz verde

5. Gn 1,14   E Deus disse: haja luzeiros

6. Gn 1,20   E Deus disse: as águas produzam seres vivos

7. Gn 1,24   E Deus disse: que a terra produz seres vivos

8. Gn 1,26   E Deus disse: façamos o ser humano

9. Gn 1,28   E Deus disse: sejam fecundos

10. Gn 1,29 E Deus disse: dou as ervas para vocês comer.

 

E Deus disse

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Como fez para o seu povo, assim Deus faz para as criaturas: fixou para elas “uma lei que jamais passará” (Sl 148,6). Dez vezes Deus falou e dez vezes as coisas começaram a existir. Falou: Luz!, e a luz começou a existir. Falou: Terra!, e a terra apareceu. Gritou os nomes das estrelas, e elas começaram o seu percurso no firmamento. “Ele diz e a coisa acontece, ele ordena e ela se afirma” (Sl 33,9). Pela força da sua Palavra o Criador enfrentou a desordem do caos e fez nascer a harmonia do cosmos.

Esta maneira de descrever a criação é bem mais que um mero jogo de palavras. As Dez Palavras da Criação são a expressão de uma leitura nova da natureza. A harmonia na natureza é fruto da obediência das criaturas às Dez Palavras da Criação com que Deus enfrentou e venceu o caos. O caos do cativeiro surgiu porque o povo não tinha observado as Dez Palavras da Lei da Aliança. As criaturas, ao contrário do povo, sempre observam a Lei da Criação. Por isso existe a harmonia do cosmos. No Pai-Nosso Jesus dirá: “Seja feita a vossa vontade na terra assim como é feita no céu”. Jesus pede que nós possamos observar a Lei da Aliança com a mesma perfeição com que o sol e as estrelas do céu observam a Lei da Criação. Na harmonia do universo as Comunidades descobrem como realizar sua missão. O Decálogo da Criação descreve a ação amorosa de Deus em nosso favor, o Decálogo da Aliança descreve como deve ser a resposta amorosa do ser humano a Deus.

A fé no Deus Criador abriu um horizonte, cujo alcance para a vida do povo só se compara com o horizonte que a ressurreição de Jesus abriu para os discípulos quando confrontados com a barreira intransponível da morte. A fé na gratuidade amorosa da presença universal de Deus nos fenômenos da Criação torna-se a infra-estrutura para a observância dos Dez Mandamentos e fonte de uma nova Pastoral, um novo jeito de conviver e de trabalhar com o povo.

PERGUNTAS:

Sem nos darmos conta, no pensamento de muitos salvação e criação estão separadas: sobrenatural e natural, graça e natureza. A vida é uma coisa e a fé é outra. Como fazer para chegar a esta visão integrada da natureza? Qual a pedagogia e a prática para chegar a isto?

6. A nova síntese: Os Dois Livros de Deus: Natureza e Bíblia

A comparação é de Santo Agostinho e exprime uma convicção profunda que vem da Bíblia e era um dos fundamentos da maneira como os antigos Padres da Igreja faziam teologia.

1º LIVRO: a natureza

O primeiro livro de Deus não é a Bíblia, mas sim a natureza, o universo, a vida, o mundo, os fatos, a história. É através do Livro da Natureza ou da Vida que Deus quer falar conosco. Deus criou as coisas falando. Tudo que existe é a expressão de uma palavra divina, como tão bem verbaliza o salmo: “O céu manifesta a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra de suas mãos. O dia passa a mensagem para outro dia, a noite a sussurra para a outra noite. Sem fala e sem palavras, sem que a sua voz seja ouvida, a toda a terra chega o seu eco, aos confins do mundo a sua linguagem” (Sl 19,2-5).

Cada ser humano é uma palavra ambulante de Deus (Gn 1,27). As crianças são palavra de Deus para os pais; os pais são palavra de Deus para as crianças. Mas nós já não nos damos conta de que estamos vivendo no meio do livro de Deus e que cada um de nós é uma página viva deste livro divino. Há algo que nos impede de reconhecer a presença da Palavra na vida, algo que “sufoca a verdade” (Rom 1,18). O que nos impede?

Santo Agostinho diz que foi o pecado, i.é., esta nossa mania de querer dominar tudo, de tratar a natureza como mercadoria e de achar que somos donos de tudo. Por isso, as letras do Primeiro Livro de Deus se atrapalharam e já não conseguimos descobrir a fala de Deus no Livro da Vida. Perdemos o olhar da contemplação, a capacidade de admirar. Para remediar isto nasceu a Bíblia, o Segundo Livro de Deus.

2º LIVRO: a Bíblia

A Bíblia foi escrita, não para substituir o Livro da Vida, mas para ajudar-nos a entendê-lo melhor e a descobrir nele os sinais da presença de Deus. Diz Santo Agostinho que a leitura orante da Bíblia (1) nos devolve o olhar da contemplação, (2) ajuda a decifrar o mundo e (3) faz com que o Universo se torne novamente uma revelação de Deus, volte a ser o que deve ser “O Primeiro Livro de Deus”.

O texto da Bíblia não caiu pronto do céu. Nasceu aos poucos, fruto da ação do Espírito de Deus e de um demorado processo de busca do ser humano. Impelido pelo desejo de encontrar Deus nas crises e depressões da vida, o povo foi descobrindo os sinais da sua presença e, dentro dos critérios da cultura da época, transmitia para os filhos as suas descobertas. Assim foi nascendo a Tradição Viva do Povo de Deus, transmitida oralmente de geração em geração, durante séculos, desde os tempos de Abraão e Sara.

Mas foi lá na comunidade do cativeiro, a partir da experiência do amor de Deus, que começou a ser articulada a redação final desta tradição oral do povo de Deus. No fim, escreveram tudo num livro. Este livro é a Bíblia. Assim, a chave geral para entender a Bíblia é este: Nós podemos romper com Deus. Somos fracos. Falhamos muito. Mas Deus, ele no seu amor, nunca rompe conosco. Seu amor é eterno, nos dá esperança e coragem para voltar.

É nesta perspectiva que devem ser lidas e relidas, meditadas e rezadas, contadas e cantadas as histórias da criação, do paraíso, da aliança com Noé, da chamada de Abraão e Sara, da libertação do Egito e da conclusão da Aliança com o compromisso da observância dos Dez mandamentos, tudo! A Bíblia traz o resultado da leitura que o povo hebreu conseguiu fazer da vida e da natureza para descobrir nelas a fala amorosa de Deus. Este Segundo Livro de Deus (a Bíblia), assim dizia Santo Agostinho, ajudou o povo a entender melhor o Primeiro Livro (a Vida, a Natureza).

PERGUNTAS:

O que fazer com a cosmo-visão ultrapassada da Bíblia? Como ela pode nos ajudar a interpretar este universo imenso que a ciência nos revelou? Como pode nos ajudar a enfrentar o desafio da preservação do meio-ambiente? Aqui vale a pena retomar uma palavra de Clemente de Alexandria, um sábio africano do século IV. Ele dizia: “Deus salvou os judeus judaicamente, os gregos, gregamente, os bárbaros, barba­ramente”. E podemos continuar: “Os brasileiros, brasileiramente; os latinos, latinamente, etc.” Os judeus, os gregos e os bárbaros, cada um no seu tempo e na sua cultura, no meio das crises, foram capazes de descobrir os sinais da presença de Deus em suas vidas. Assim também nós, brasileiros e latinos, estamos sendo desafiados a fazer hoje o mesmo que eles fizeram no seu tempo: descobrir a mesma presença divina dentro da nossa realidade; expressá-la nas formas da nova cosmo-visão; criar maneiras novas de celebrar que respondam ao desejo mais profundo do coração humano; irradiar esta fé para os outros como uma grande Boa Notícia para a vida humana. Em resumo: como eles, assim também nós devemos “escrever a nossa Bíblia”, isto é, devemos imitar o povo de Deus e, como eles, ler a nossa realidade para descobrir dentro dela os apelos de Deus e expressá-los dentro dos critérios da nossa cultura.

7. A nova Missão do Povo de Deus: servir

Foi neste ambiente do cativeiro, que o povo redescobriu sua missão como Povo de Deus: não para ser chefe e senhor, como se pretendia na época dos Reis, mas para ser servo e discípulo; não para ser um povo glorioso, colocado acima dos outros povos, mas para ser um povo servo, Servo Sofredor, cuja missão é revelar o amor de Deus, irradiar a bondade de Deus, difundir a justiça, não desanimar nunca e, assim, ser a “Luz das Nações” (Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-9; 52,13-53,12).

Os quatro cânticos do Servo de Javé falam desta missão (Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-9; 52,13-53,12). Na figura do Servo eles apresentam ao povo exilado um modelo de como devem entender e realizar a sua missão como Povo de Deus. O Servo de Javé não é um indivíduo determinado, mas sim o próprio povo. Mas que povo? É o povo do cativeiro, descrito no quarto cântico como um povo oprimido, sofredor, desfigurado, sem aparência de gente e sem um mínimo de condição humana, povo explorado, maltratado e silenciado, sem graça nem beleza, cheio de sofrimento, evitado pelos outros como um leproso, condenado como criminoso, sem julgamento nem defesa (Is 53,2-8). Retrato perfeito de uma terça parte da humanidade de hoje!

Os quatro cânticos são uma cartilha para ajudar o povo, tanto de ontem como de hoje, a descobrir e a assumir a sua missão. Descrevem os quatro passos que o Servo deve percorrer para realizar a sua missão: O primeiro cântico (Is 42,1-9) descreve como Deus escolhe e apresenta o povo oprimido para ser o seu Servo. O segundo (Is 49,1-6) mostra como este povo, ainda sem fé em si mesmo, vai descobrindo sua missão. O terceiro (Is 50,4-9) relata como o povo assume a sua missão e a executa apesar da perseguição. O quarto (Is 52,13 a 53,12) é uma profecia a respeito do futuro do Servo e da sua missão: ele vai ser morto, mas a sua morte será fonte de salvação para todos.

No fim, um breve resumo dos quatro cânticos define a missão do Servo (Is 61,1-2). Foi este resumo que Jesus escolheu para apresentar-se com a sua missão diante da comunidade de Nazaré (Lc 4,18). Jesus é o primeiro que percorreu os quatro passos até o fim. Por isso, ele se tornou a chave principal para entendermos todo o significado e alcance da missão do Servo, descrita no livro de Isaías.

Em Jesus, o modelo do Servo retomou forma e vigor. Ele disse: “Eu não vim para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de muitos” (Mt 20,28). Aprendeu de sua Mãe que disse: “Eis aqui a serva do Senhor!” (Lc 1,38). Ela o aprendeu da tradição dos Anawim (pobres), para os quais o povo de Deus está no mundo não para dominar, mas para servir. Eles esperavam o Messias Servidor. Foi assim que o entenderam os primeiros cristãos. Jesus era visto por eles como o Servo de Deus (cf. At 3,13.26; 4,27.30). Ser servo ou serva de Deus era também o título com que eles mesmos se identificavam (Rom 1,1): “servos da justiça” (Rom 6,18), “servos de Deus” (Rom 6,22).

PERGUNTAS:

Qual a tendência que hoje predomina na formação do clero: servir aos mais pobres ou insistir no específico do clero? Como nós, que fazemos parte das coordenações e da animação das comunidades, vemos a nossa missão? Como a vivemos? Este é o ponto em que Jesus mais insistiu. O que eu faço com o poder que tenho: serviço, controle ou autopromoção?

8. Uma nova Pastoral: ternura, diálogo, reunião, consciência crítica

A gratuidade da presença amorosa e universal de Deus torna-se a fonte de uma nova pastoral que, até hoje, transparece nas linhas e entrelinhas dos capítulos 40 a 66 do livro de Isaías. Eis  alguns aspectos:

*  Ternura

Para a pessoa vive machucada e triste, na solidão do cativeiro, não bastam imposições, advertências e preceitos, nem servem os argumentos da análise crítica da realidade, para que ela levante a cabeça, tenha esperança e comece a enxergar a situação com esperança renovada. É necessário, antes de tudo, cuidar das feridas do coração, acolhendo-a com muita ternura e bondade. De fato, as primeiras palavras: “Consolai! Consolai o meu povo!” (Is 40,1) ressoam pelas páginas do livro inteiro, do começo ao fim.

Os discípulos e as discípulas têm uma conversa atenciosa, cheia de ternura e consolo, de encoraja­mento e acolhimento. “Não gritam nem apagam a vela que ainda solta um pouco de fumaça” (Is 42,2-3). Ou seja, machucados, não machucam. Oprimidos pela situação em que se encontram, não oprimem, mas tratam e acolhem o povo com muito respeito. Tentam chamá-lo pelo próprio nome (Is 43,1). Usam uma linguagem simples, concreta e direta, numa atitude de ternura nunca vista antes, que funciona como bálsamo, e dispõe as pessoas para olhar a realidade com mais objetividade. Há muitas expressões e imagens de ternura espalhadas pelos capítulos 40 a 66 de Isaías: Is 40,1-2ª; 43,1-5; 44,2; 46,3-4; 49,13-16; etc. Eis um exemplo: “Tu és o meu servo! Eu te escolhi, não te rejeitei. Não temas, porque eu estou contigo. Não fique apavorado, pois eu sou o teu Deus. Eu te fortaleço, sim, eu te ajudo, eu te sustento com a minha direita justiceira!  …  Não temas! Sou eu que te ajudo! Não temas, vermezinho de Jacó, meu bichinho de Israel! Eu mesmo te ajudarei. Oráculo de Javé, teu redentor é o Santo de Israel!”(Is 41,9-10.13-14; cf Is 54,7-8).

*  Diálogo

Nos capítulos 40 a 66, do começo ao fim, transparece uma atitude de escuta e de diálogo. Eles conversam, fazem perguntas, questionam, criticam, levam o povo a refletir sobre os fatos (cf Is 40,12-14.21.25-27; etc). Ensinam dialogando em pé de igualdade com o povo. Este jeito de ensinar é próprio de quem se considera servo e discípulo e não dono da verdade: “O Senhor me deu uma língua de discípulo para que eu saiba trazer ao cansado uma palavra de conforto. De manhã em manhã ele me desperta, sim, desperta meu ouvido, para que eu ouça como os discípulos” (Is 50,4)

Um discípulo não absolutiza o seu próprio pensamento, nem impõe suas idéias autoritariamente, mas sabe ensinar escutando e aprendendo dos outros. Eis um exemplo de como faziam: “Por que dizes tu, Jacó, e por que afirmas tu, Israel: “O meu caminho está oculto a Javé; meu direito passa despercebido a Deus?” Então não sabes? Por acaso não ouviste isto? Javé é um Deus eterno, criador das regiões mais remotas da terra. Ele não se cansa nem se fatiga, sua inteligência é insondável” (Is 40,27-28)

Por este seu jeito de conviver e de tratar com o povo, os discípulos não só falam sobre Deus, mas também – e isto é importante – o revelam. Eles comunicam algo daquilo que eles mesmos vivem. Deus se faz presente nesta atitude de ternura e de diálogo. O povo se dá conta de que o Deus dos discípulos é diferente do deus da Babilônia, diferente também da imagem de Deus que eles ainda carregavam na memória, desde os tempos da monarquia, de antes da destruição do Templo. Assim, aos poucos, os olhos se abrem. O povo começa a perceber algo do novo que está acontecendo. “Não estão vendo?”(Is 43,19)

Até hoje, estes primeiros passos são o mais difíceis, os mais lentos e os mais importantes. Foi necessária muita paciência da parte dos discípulos, para que aquele povo exilado se reanimasse a crer novamente em si mesmo e em Deus, e se levantasse (Is 49,4.14).

*  Reunião

É neste mesmo período do cativeiro que se começou a insistir de novo na observância da lei já antiga do sábado (Is 56,2.4; 58,13-14; 66,23; cf Gen 2,2-3). Era para que o povo tivesse ao menos um dia por semana para se encontrar, partilhar sua fé, louvar a Deus e animar-se mutuamente. Faziam reunião de noite, fora de casa, e perguntavam: “Levantem os olhos para o céu e observem: Quem criou tudo isso? É Aquele que organiza e põe em marcha o exército das estrelas, chamando cada uma pelo nome. Tão grande é o seu poder e tão firme a sua força, que nenhuma delas deixa de se apresentar. Jacó, por que você anda falando, e você, Israel, por que anda dizendo: “Javé desconhece o meu caminho e o meu Deus ignora a minha causa?” (Is 40,26-27)

Nestas reuniões semanais eles refrescavam a memória (Is 43,26; 46,9), contavam as histórias de Noé, de Abraão e Sara, da Criação, lembravam o êxodo (Is 43,16-17), apontavam os fatos da política e perguntavam: “Quem é que faz tudo isto?” (Is 41,2). A resposta era sempre a mesma: “É Javé, o Deus do povo, o nosso Deus!”. Assim, aos poucos, a natureza deixava de ser o santuário dos falsos deuses; a história já não era mais decidida pelos opressores do povo; o mundo da política já não era mais o domínio de Nabucodonosor. Por trás de tudo começam a reaparecer os traços do rosto de Javé, o Deus do povo. A natureza, a história e a política deixam de ser estranhos e hostis ao povo e tornam-se aliados dos pobres na sua caminhada como Servo de Deus.

*  Consciência crítica

Foi necessária muita paciência para que o povo exilado se reanimasse a crer novamente em si mesmo e em Deus e se levantasse (Is 49,4.14). O desânimo era muito grande. Eles eram como o profeta Elias deitado debaixo da árvore querendo morrer (1Rs 19,4). Até para cantar eles tinham perdido o gosto (Sl 137,1-6). Este desânimo tinha duas causas, ligadas entre si como os dois braços de uma balança: uma externa que, de fora, pesava sobre eles, a saber: a destruição de Jerusalém, o exílio, a perda de todos os apoios e direitos; a outra interna que, por dentro esvaziava o coração: a falta de visão e de fé, o peso morto da antiga visão de Deus. Deus parecia ter perdido o controle da situação. Nabucodonosor parecia ser o dono de tudo. Desequilibrou-se a balança da vida!

Os discípulos e as discípulas  atacam as duas causas: desfazem o peso da opressão e enchem o vazio do coração. Para desfazer o peso da opressão eles usam o bom senso e fazem uma análise crítica da realidade. Desmascaram o poder que oprime e a ideologia dominante que engana. Tudo é analisado e criticado com ironia e precisão, e confrontado com a nova visão que a fé em Deus lhes comunica (cf. Is 40,15.17.22.23; 41, 6-7.21-29; 44, 18-20.25; 47,1-15). Para encher o vazio do coração os discípulos ajudam o povo a ler de maneira nova o mundo que os envolve e a perceber nele os sinais da presença amorosa de Javé (Is 54,7-8; 55,8-11; 41,1-5; 44,27-28; 45,1-7). Eles vão descobrindo que, mesmo presente no universo inteiro, a casa preferida de Deus é no meio do seu povo oprimido e exilado. Deus faz opção pelos pobres: “Eu estou contigo!” (Is 41,10). “Troco tudo por ti!” (Is 43,4) É lá que Ele deve ser procurado (Is 55,6), e é de lá que Ele quer irradiar sobre o mundo como “Luz dos Povos” (Is 42,6).

Deste modo, enchendo o vazio do coração (causa interna) e enfraquecendo o peso da opresso (causa externa), eles deslocam o peso da balança. O povo se equilibra de novo na vida. Agora, já não é a perseguição que enfraquece a fé, mas sim a fé renovada e esclarecida que enfraquece o poder dos poderosos. A face de Deus reaparece na vida. O povo, animado por esta Boa Notícia, desperta (Is 51,9.17; 52,1), se põe de pé (Is 60,1), começa a cantar (Is 42,10; 49,13; 54,1; 61,10; 63,7) e a resistir (Is 48,20).

PERGUNTAS:

Aqui as perguntas são simples e evidentes: usar os quatro pontos como critério para fazer uma avaliação da minha atitude junto ao povo e da nossa pastoral na comunidade.

9. Uma nova celebração da vida: a lição dos salmos

O livro dos Salmos é o maior dos livros da Bíblia. Tem 150 capítulos! Nasceu aos poucos ao longo dos séculos. Sua redação final é de depois do cativeiro, em torno dos séculos V ou IV aC ou mais tarde ainda. Só uma parte dos salmos está no Livro dos Salmos. A outra parte está espalhada pela Bíblia, em quase todos os seus livros, tanto do AT como do NT. Os Salmos são o lado orante da história do povo de Deus. Neles tem de tudo: Lei, História, Sabedoria, Profecia. Eles revelam o olhar orante do povo sobre a Criação de Deus. Ajudam a rezar os fenômenos da natureza.

As duas pontas do livro dos Salmos são o Salmo 1 e o Salmo 150. Salmo 1 fala da caminhada, da prática da justiça, da luta contra o ímpio. Salmo 150 fala da festa, da dança, da alegria. Luta e Festa, militância e celebração, política e fé, observância e gratuidade. Dois momentos importantes da vida. Dois pólos básicos da oração. Há pessoas que só gostam da festa, da reza exaltada. Querem ficar no Tabor e não gostam de descer para ir a Jerusalém. São festivos e na hora do aperto se perdem. Outros não gostam de interromper a caminhada para subir no Tabor. Acham perda de tempo. São mais imediatistas. O livro dos Salmos reflete os dois pólos, as duas dimensões: celebrativa e engajada, gratuidade e observância. A oração dos salmos é como a água do rio que percorre e fertiliza a história e a vida do povo de Deus, do começo ao fim, desde a nascente até o mar.

Temos que recuperar a criatividade e a capacidade de admirar. Nesse ponto, o povo da Bíblia dá lição em todos nós. Apesar de todas as suas limitações, eles souberam ler o Livro da vida. Souberam descobrir e cantar a beleza do Universo que revela o amor de Deus e a grandeza do Criador. Souberam verbalizar, partilhar e transmitir suas descobertas, enriquecendo as gerações seguintes. Os salmos são um dos exemplos mais bonitos.

Quando um artista tem uma inspiração, ele procura expressá-la numa obra de arte. A poesia ou a imagem que daí resulta carrega dentro de si essa mesma inspiração. Por isso, as obras de arte atraem e mexem tanto com as pessoas. O mesmo acontece quando lemos e meditamos a Bíblia. A inspiração que conduziu os autores ou autoras a compor os salmos, continua presente naquelas antigas orações. Através da nossa leitura atenta e orante esse Espírito entra em ação e começa a atuar para revelar em nós a mesma imagem de Deus expressa no texto. Eis alguns destes salmos:

Salmo 8: “A Tua presença irrompe por toda a terra!” Deus se revela na natureza

Salmo 19(18): “Os céus cantam a glória de Deus!”          Eles são expressão da Lei de Deus

Salmo 46(45): “Deus é nosso refúgio e nossa força!”       Ele está conosco! Não temos medo

Salmo 104(103):  “Envia teu Espírito e tudo será criado!”     A ordem da Criação vem de Deus

Salmo 136(135):  “Criou o céu e a terra! Eterno é seu amor!”   Tudo é revelação do amor

Salmo 139(138):  “Tu me conheces quando estou sentado!”     O Criador está presente em tudo

Salmo 148: “Aleluia! Louvai a Javé todas as criaturas!”   Convite ao louvor universal

Estes Salmos nos dão uma idéia do que significava para aquele povo oprimido do cativeiro a fé no poder criador de Deus. Não era para obter informações sobre como Deus tinha criado o mundo no passado, mas sim para saber quem era o Deus que estava com eles lá no cativeiro, no mais fundo do fundo do poço, naquela escuridão sem luz, naquele desânimo sem futuro, e qual o poder criador que ele usava para acompanhar o seu povo! A redescoberta surpreendente da presença criadora da palavra de Deus naquela vida oprimida do cativeiro desumano, sem rumo e sem sentido, foi como a ressurreição do povo que iluminou a vida e a própria natureza! Humanizou a Vida!

PERGUNTAS:

Tocamos aqui um dos pontos mais importantes para a formação das Comunidades, pois é através da celebração que se transmitem a maior parte dos valores que ela procura viver. Como rezamos? Coomo cantamos? Como celebramos? Quais os modelos que usamos? Quais os livros de canto que costumamos usar? É no canto que se revela e se expressa o nível de consciência da comunidade.

3

O ponto de chegada

Jesus confirma o caminho percorrido

A longa caminhada das Comunidades proféticas do Antigo Testamento com suas etapas e descobertas encontrou a sua continuação e confirmação em Jesus, na maneira de ele viver e anunciar a Boa Nova de Deus.

*  A continuidade com a caminhada das Comunidade do AT

Em tudo que Jesus vive, faz e ensina, transparece uma nova experiência de Deus. Como os profetas, ele não permite que as tradições religiosas desviem o povo da verdadeira experiência de Deus e da vida. Ele mantém as práticas antigas, mas lhes dá um novo sentido. Assim, ele mostra grande liberdade frente aos costumes religiosos: esmola (Mt 6,1-4), formas de rezar (Mt 6,5-15), jejum (Mt 6,16-18), práticas da pureza legal (Mc 7,1-23), observância do sábado (Mc 2,23-28), comunhão de mesa com pagãos e pecadores (Mc 2,15-17), Templo (Mc 11,15-17). Ele chegou a dizer que Deus pode ser adorado em qualquer lugar contanto que seja em espírito e verdade (Jo 4, 21-24). Jesus quer que as pessoas ultrapassem a letra e percebam o objetivo da lei que é amor a Deus e ao próximo (Mt 7,12; Mc 12,29-31). Aos que identificavam a vontade de Deus com a letra da Lei, ele dizia: “Antigamente foi dito, mas eu digo” (Mt 5,21-22.27-28.31-34.38-39.43-44). Para Jesus a torah quer o bem-viver do povo: “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10)

Como os discípulos e discípulas de Isaías, Jesus defende os direitos dos pobres e reconhece neles a sabedoria de Deus (Mt 11,25-26). Bondade, ternura e simplicidade são a característica do jeito com que Jesus acolhe as pessoas: o velho Zaqueu (Lc 19,1-10), as mães com crianças (Mt 19,13-14), o leproso que grita à beira da estrada (Mt 8,2; Mc 1,40-41), o paralítico de 38 anos (Jo 5,5-9), o cego de nascimento na praça do templo (Jo 9,1-13), a mulher curvada na sinagoga (Lc 13,10-13), a viúva de Naim (Lc 7,11-17), as crianças em todo canto (Mt 21,15-16), e tantas e tantas outras pessoas. É o contrário da atitude dos fariseus e escribas que chamavam o povo de ignorante e maldito e achavam que o povo não tinha nada para ensinar a eles (Jo 7,48-49; 9,34)

Como os sábios, Jesus tinha uma capacidade enorme para comparar as coisas de Deus com as coisas mais simples da vida do povo. As parábolas provocam e levam as pessoas a refletir sobre a sua própria experiência, e fazem com que esta experiência as leve a descobrir Deus presente na vida. A parábola muda o olhar.

Todas estas atitudes de Jesus revelavam a experiência de Deus que o animava por dentro. Ele irradiava uma nova imagem de Deus em aberto contraste com a concepção de Deus que se expressava nas atitudes e na estrutura religiosa oficial da época. Jesus é um leigo que não estudou na escola oficial. Mas o povo reconhecia que nele existe sabedoria (Mc 6,2) e ficava impressionado com o jeito que Jesus tinha de ensinar: “Um novo ensinamento! Dado com autoridade! Diferente dos escribas!” (Mc 1,22.27). Por isso foi perseguido pelas autoridades. Como Jó aos olhos dos três amigos, assim Jesus aos olhos dos escribas e fariseus, era um homem sem Deus (Jo 9,16), contrário ao Templo e à Lei de Deus (Mt 26,61).

*  O olhar de Jesus sobre a Criação de Deus

O olhar de Jesus sobre a criação confirma o olhar que veio do AT. Eis dois textos do evangelho de Mateus. Faça uma leitura lenta, atenta e orante destes dois textos e procure sentir neles (1) o jeito que Jesus tinha de se relacionar com a natureza, (2) o que Jesus, olhando a natureza, aprendeu sobre Deus e (3) qual a lição que ele tirava da observação das criaturas para a vida em comunidade.

Mateus 5,43-48:

“Vocês ouviram o que foi dito: Ame o seu próximo, e odeie o seu inimigo! Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês! Assim vocês se tornarão filhos do Pai que está no céu, porque ele faz o sol nascer sobre maus e bons, e a chuva cair sobre justos e injustos. Pois, se vocês amam somente aqueles que os amam, que recompensa vocês terão? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? E se vocês cumprimentam somente seus irmãos, o que é que vocês fazem de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu.”

Mateus 6,25-34:

“Por isso é que eu lhes digo: não fiquem preocupados com a vida, com o que comer; nem com o corpo, com o que vestir. Afinal, a vida não vale mais do que a comida? E o corpo não vale mais do que a roupa? Olhem os pássaros do céu: eles não semeiam, não colhem, nem ajuntam em armazéns. No entanto, o Pai que está no céu os alimenta. Será que vocês não valem mais do que os pássaros? Quem de vocês pode crescer um só centímetro, à custa de se preocupar com isso? E por que vocês ficam preocupados com a roupa? Olhem como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. Eu, porém, lhes digo: nem o rei Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles. Ora, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada no forno, muito mais ele fará por vocês, gente de pouca fé! Portanto, não fiquem preocupados, dizendo: O que vamos comer? O que vamos beber? O que vamos vestir? Os pagãos é que ficam procurando essas coisas. O Pai de vocês, que está no céu, sabe que vocês precisam de tudo isso. Pelo contrário, em primeiro lugar busquem o Reino de Deus e a sua justiça, e Deus dará a vocês, em acréscimo, todas essas coisas. Portanto, não se preocupem com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações. Basta a cada dia sua própria dificuldade”.

Como estes há vários outros textos nos evangelhos, nos quais transparece, não só o olhar de Jesus sobre a natureza e a vida, mas também e sobretudo o que Jesus aprendeu sobre Deus, seu Pai, olhando e observando de perto a natureza> as flores, as crianças, as árvores, as plantas, as sementes, o sol, os passarinhos, os ninhos, a chuva, o fermento, o sol, a lâmpada, a vela, o juiz, os empregados, os reis, o arado no campo, as festas de casamento, a exploração dos pobres, prepotência dos ricos, os pastores com suas ovelhas, o pai que acolhe seus filho fugitivo, as dores de parto, a fome das crianças que pedem pão, as pedras preciosas, tantas e tantas coisas que fazem parte da vida e que para Jesus são revelação de Deus seu Pai, Abba, Papai.

*  a prática de Jesus confirma a tradição das Comunidades do AT

1. Jesus refaz o relacionamento humano na base, na “Casa”

Numa época em que a religião oficial insistia no espaço sagrado do Templo e nas coisas ligadas ao culto, Jesus recupera a dimensão caseira da fé. O ambiente da Casa exerce um papel central na vida e na atividade de Jesus. Quando se fala em casa, não se trata só da casa de tijolos ou de pedra, nem só da família pequena, mas também e sobretudo do clã, da comunidade. Até à idade de trinta anos, Jesus viveu no ambiente comunitário e caseiro lá em Nazaré. Durante os três anos que andou pela Galiléia ele entrava e vivia nas casas do povo. Entrou na casa de Pedro (Mt 8,14), de Mateus (Mt 9,10), de Jairo (Mt 9,23), de Simão o fariseu (Lc 7,36), de Simão o leproso (Mc 14,3), de Zaqueu (Lc 19,5). O oficial reconhece: “Não sou digno de que entres em minha casa” (Mt 8,8). E o povo procurava Jesus na casa dele (Mt 9,28; Mc 1,33; 2,1; 3,20). Quando ia a Jerusalém, Jesus parava em Betânia na casa de Marta, Maria e Lázaro (Jo 11,3.5.45; 12,2). No envio dos discípulos e discípulas a missão deles é entrar nas casas do povo e levar a paz (Mt 10,12-14; Mc 6,10; Lc 10,1-9).

2. Recupera a dimensão sagrada e festiva da Casa

Jesus, sua mãe e todos os discípulos participam da festa de casamento em Caná (Jo 2,1-2). Jesus aceita convite para almoçar e jantar nas casas do povo: de Simão o leproso (Mc 14,3), de Simão o fariseu (Lc 7,36), de Marta e Maria (Jo 12,2), de um outro fariseu (Lc 11,37; 14,12). É na sala superior da casa de um amigo que Jesus celebrou a última páscoa com seus amigos (Mt 26,18-19). Envia os discípulos e discípulas para reconstruir o clã nas aldeias da Galiléia nas quatro bases da vida comunitária: hospitalidade, partilha, comunhão de mesa e acolhida aos excluídos (Lc 10,1-9). Depois da ressurreição, Jesus entrou em casa com os dois discípulos em Emaús e foi reconhecido por eles no gesto tão caseiro da fração do pão (Lc 24,29-30).

3. Reconstrói a vida comunitária nos povoados da Galiléia

No antigo Israel, o clã, isto é, a família ampliada, a comunidade, era a base da convivência social. Era a garantia de vida para uma pessoa: garantia a terra, a proteção, a defesa, os relacionamentos, as tradições que davam identidade a uma pessoa. Era a maneira concreta do povo daquela época encarnar o amor a Deus e ao próximo. Defender o clã era o mesmo que defender a Aliança entre Deus e o povo. Mas na época de Jesus, devida à política dos romanos e ao sistema da religião oficial, a vida comunitária estava sendo desintegrada. Mais da metade do orçamento familiar ia para os impostos, taxas, tributos, dízimos. Tais políticas excludentes geravam doentes, famintos, marginalizados, viúvas, órfãos, possessos, pobres. Esta situação levava as famílias a se fecharem sobre si mesmas, impossibilitadas de exercer seu dever de goêl, de ajuda desinteressada aos parentes do mesmo clã ou comunidade. A própria família de Jesus queria impedir que Jesus se preocupasse com os outros e queriam levá-lo de volta para Nazaré. Jesus reage e não quer saber: “Quem é minha mãe e meus irmãos? É todo aquele que faz a vontade do Pai que está nos céus” (Mc 3,34-35) Jesus alarga a família, reconstrói o clã, a comunidade. Ele quer evitar que as famílias se fechem sobre si mesmas e, assim, desintegrem a vida do clã, da comunidade. Por isso ele diz: “Se alguém vem a mim, e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, irmãos, irmãs, e até mesmo à sua própria vida, esse não pode ser meu discí­pulo” (Lc 14,26). Manda que as pequenas famílias se abram para a vida em comunidade.

4. Cuida dos doentes e acolhe os excluídos

O primeiro trabalho de Jesus foi cuidar de doentes (Mc 1,32). Os enfermos, por causa de sua doença considerada um castigo divino, eram afastados do convívio social, perambulando pelas ruas, aguardando uma esmola. Ao voltar-se para os doentes, Jesus assumiu um lado da sociedade de seu tempo. Tocando no leproso para curá-lo tanto da lepra como da exclusão, Jesus assumiu conscientemente uma marginalização social, a ponto de já não poder entrar nas cidades (Mc 1,45). Jesus anuncia o Reino para todos! Não exclui ninguém. Mas o anuncia a partir dos excluídos. Ele oferece um lugar aos que não tinham lugar na convivência humana. Com amor e carinho acolhe os que não eram acolhidos. Recebe como irmão e irmã aos que a religião e o governo despre­zavam e excluíam: os imorais: prostitutas e pecadores(Mt 21,31-32; Mc 2,15; Lc 7,37-50; Jo 8,2-11); os hereges: pagãos e samaritanos (Lc 7,2-10; 17,16; Mc 7,24-30; Jo 4,7-42); os impuros: leprosos e possessos (Mt 8,2-4; Lc 11,14-22; 17,12-14; Mc 1,25-26); os marginalizados: mulheres,crianças e doentes (Mc 1,32; Mt 8,17;19,13-15; Lc 8,2s); os colaboradores: publicanos e soldados (Lc 18,9-14;19,1-10); os pobres: o povo da terra e os pobres sem poder (Mt 5,3; Lc 6,­20.­24; Mt 11,25-26).

5. Recupera igualdade homem e mulher

Jesus acolheu e deu continuidade à resistência das mulheres contra a sua exclusão. A moça prostituída é acolhida e defendida por Jesus contra o fariseu (Lc 7,36-50). A mulher encurvada é acolhida por Jesus como filha de Abraão contra o dirigente da sinagoga (Lc 13,10-17). A mulher adúltera, acusada pelos fariseus, não foi condenada por Jesus (Jo 8,1-11). A mulher impura é acolhida sem censura e curada (Mc 5,25-34). A Samaritana, desprezada como herética, é a primeira pessoa a receber o segredo de que Jesus é o Messias (Jo 4,26). A mulher estrangeira de Tiro e Sidônia é atendida por ele (Mc 7, 24-30). As mães com filhos pequenos que enfrentam os discípulos são acolhidas e abençoadas por Jesus (Mt 19,13-15; Mc 10,13-16). As mulheres, que desafiaram o poder e ficaram perto da cruz de Jesus (Mt 27,55-56.61), foram as primeiras a experimentar a presença de Jesus ressuscitado (Mt 28,9-10). Maria Madalena, considerada possessa, mas curada por Jesus (Lc 8,2), recebeu a ordem de transmitir a Boa Nova da ressurreição aos apóstolos (Jo 20,16-18). Contrariando um grande número de rabinos, que não aceitavam mulheres em seus grupos de estudo, sabemos que muitas mulheres seguiam Jesus e faziam parte da comunidade de discípulos ao redor de Jesus (Lc 8,2-3; Mc 15,40-41). Aceitar as mulheres como discípulas em igualdade dentro do grupo não deve ter sido fácil para os discípulos (Lc 24,11).

6. Vai ao encontro das pessoas

No lugar de encerrar-se numa sinagoga ou numa escola e exercer o poder de um escriba, Jesus rompe este esquema, tornando-se um pregador ambulante. Onde encontra gente para escutá-lo, ele fala e transmite a Boa Nova de Deus. Em qualquer lugar. Nas sinagogas durante a celebração da Palavra nos sábados (Mc 1, 21; 3,1; 6,2). Em reuniões informais nas casas de amigos (Mc 2,1.15; 7,17; 9,28; 10,10). Andando pelo caminho com os discípulos (Mc 2,23). Ao longo do mar, à beira da praia, sentado num barco (Mc 4,1). No deserto para onde se refugiou e onde o povo o procura (Mc 6,32-34). Na montanha, de onde proclama as bem-aventuranças (Mt 5,1). Nas praças das aldeias e cidades, onde povo carrega seus doentes (Mc 6, 55-56). Mesmo no Templo de Jerusalém, nas romarias, diariamente, sem medo (Mc 14,49)! Ele vai ao encontro das pessoas, estabelecendo com elas uma relação direta através da prática do acolhimento. Antes de propor ou expor um conteúdo básico doutrinário, Jesus propõe um caminho de vida. A resposta é seguir Jesus neste caminho: “Venham para mim todos vocês que estão cansados de carregar o peso do seu fardo, e eu lhes darei descanso, …aprendam de mim…” (Mt 11,28-30).

7. Supera as barreiras de gênero, religião, raça e classe

Jesus supera as barreiras de gênero, de religião, de raça e de classe. Jesus não se fecha dentro da sua própria raça e religião, mas sabe reconhecer as coisas boas que existem nas pessoas de outra raça e religião. Ele acolhe lições da parte deles: da Cananéia (Mt 15,27-28), da Samaritana (Jo 4,31-38) e até dos Romanos (Mt 8,5-13). Ele acolhe e conversa com Nicodemos (Jo 3,1), que era um membro da alta classe judaica, com assento no Sinédrio. Acolhe e conversa com uma mulher samaritana (Jo 4,7). Com esta mulher, Jesus consegue estabelecer um diálogo construtivo, superando uma das mais difíceis barreiras, a religião. Para a samaritana Jesus era um judeu (Jo 4,9), ou seja, um inimigo religioso, opressor dos samaritanos. Pacientemente, Jesus teve que, desarmar a samaritana e dizer: “Mulher, eu sou judeu, mas não sou teu inimigo!”. Para estabelecer um diálogo com ela, Jesus começa a conversa revelando uma carência que só poder        ia ser saciada com o trabalho daquela mulher: “Dá-me de beber!” Revelar uma carência é uma boa maneira de estabelecer um diálogo! O longo diálogo entre Jesus e a samaritana mostra o quanto Jesus estava aberto para a presença das mulheres em seu grupo. O texto de João mostra que os próprios discípulos ficam surpresos com o diálogo de Jesus com a samaritana (cf. Jo 4,27).

*  os títulos de Jesus: um resumo do novo Caminho

Foi esta a Boa Nova que Jesus viveu e irradiou durante os três anos que andou pela Galiléia anunciando o Reino de Deus. Sua mensagem desagradou aos poderosos e eles o prenderam, condenaram e mataram na cruz. Mas Deus o ressuscitou, confirmando-o diante dos discípulos por meio de muitas aparições (1Cor 15,3-8). Animados pelo Espírito de Jesus no dia de Pentecostes (At 2,1-4; Jo 20,21-23), os discípulos deram continuidade ao anúncio da Boa Nova do Reino. A força que os sustentava no anúncio da Boa Nova está expressa neste testemunho do apóstolo Paulo: “Vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Jesus era tudo para eles!

Para aprofundar e expressar quem era Jesus para eles, conservavam e divulgavam títulos, nomes e atributos. Só no Novo Testamento mais de cem! Cada título era uma tentativa para revelar algum aspecto da riqueza que Jesus significava para a vida deles. Os três títulos mais antigos de Jesus estão nesta frase: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate para muitos“ (Mc 10,45). Os três vêm do Antigo Testamento: Filho do Homem, Servo de Deus e Redentor (resgate) dos irmãos. Cada título revela um determinado aspecto da riqueza que esclarece o caminho que conduz ao Bem-Viver do Reino.

Filho do homem

Filho do Homem é o título que Jesus mais gostava de usar. Aparece mais de 80 vezes só nos quatro evangelhos! A expressão Filho do Homem vem dos profetas Ezequiel e Daniel. Em Ezequiel, a expressão “filho do homem” ocorre 93 vezes e acentua a condição humana do profeta. No livro de Daniel a expressão Filho do Homem ocorre na visão dos grandes impérios do mundo (Dn 7,1-28). Os impérios são apresentados sob a figura de animais (Dn 7,4-8), pois são animalescos; desumanizam a vida, “animalizam” as pessoas. O Reino de Deus é apresentado, sob a figura de um ser humano, de um Filho do Homem (Dn 7,13). O Filho do Homem, o povo de Deus, não se deixa desumanizar nem enganar pela ideologia dominante dos reinos animalescos. A sua missão consiste em realizar o Reino de Deus como um reino humano, reino que não persegue a vida, mas sim a promove! Humaniza as pessoas.

Apresentando-se aos discípulos como Filho do Homem, Jesus assume como sua esta missão humanizadora. É como se dissesse: “Venham comigo! Esta missão é de todos nós! Vamos juntos realizar a missão que Deus nos entregou, e realizar o Reino humano e humanizador que ele sonhou!” E foi o que Jesus fez e viveu durante toda a sua vida, sobretudo, nos últimos três anos. Ele foi tão humano, mas tão humano, como só Deus pode ser humano. Quanto mais humano, tanto mais divino! Quanto mais “filho do Homem” e tanto mais “filho de Deus!” Tudo que desumaniza as pessoas, afasta de Deus. É humanizando que se constrói o Bem-Viver do Reino de Deus.

Servo de Deus

Este título vem de uma profecia de Isaías, na qual o futuro Messias é apresentado como Servo de Deus (Is 42,1-9). No tempo de Jesus, alguns esperavam um Messias Rei (Mc 15,9.32); outros, um Messias Santo ou Sumo Sacerdote (Mc 1,24); outros, um Messias Guerrilheiro (Lc 23,5; Mc 13,6-8), Messias Doutor (Jo 4,25), Messias Juiz (Lc 3,5-9), Messias Profeta (Mc 6,4; 14,65). Apesar das diferenças, todos eles esperavam um messias glorioso que fizesse o povo de Deus ser grandioso no meio dos povos. Só os pobres esperavam o Messias Servidor, anunciado pelo profeta Isaías (Is 42,1; 49,3; 52,13), e encaravam a missão do povo de Deus, não como um domínio, mas como um serviço à humanidade. Maria, a pobre de Javé, dizia ao anjo: “Eis aqui a serva do Senhor!” Foi dela e dos pobres que Jesus aprendeu o caminho do serviço.

Este povo-servo é descrito como aquele que “não grita, nem levanta a voz, não solta berros pelas ruas, não quebra a planta machucada, nem apaga o pavio de vela que ainda solta fumaça” (Is 42,2). Perseguido, não persegue; oprimido, não oprime. Nele o vírus da violência opressora dos impérios não consegue penetrar. A atitude resistente do Servo de Javé marcou a vida de Jesus. Isaías diz do Servo “Com fidelidade ele promove o direito, sem desanimar nem desfalecer, até estabelecer o direito sobre a terra”(Is 42,4).  Jesus percorreu o caminho do serviço até o fim, até as últimas conseqüências. Ele definiu sua missão: “Não vim para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45). Ele não veio para implantar uma nova religião, mas para trazer a dimensão de serviço para todas as religiões. É humanizando e servindo que se constrói o Bem-Viver do Reino de Deus.

Redentor dos irmãos

Jesus inicia a sua pregação proclamando um novo jubileu, um “Ano de Graça da parte do Senhor” (Lc 4,19). O objetivo do Ano Jubileu era restabelecer os direitos dos pobres, acolher os excluídos, reintegrá-los na convivência e, assim, voltar ao sentido profundo e original da Lei de Deus. Um dos meios para levar a bom termo o Ano Jubileu era a lei do “Resgate” (Goêl, Redentor) (Lv 25,23-55). Jesus é o Goêl, o redentor dos irmãos, que veio pagar o resgate, para que nós pudéssemos ser libertados da escravidão e recuperar a vida em comunidade. Muita gente era marginalizada em nome da Lei de Deus. Jesus, a partir da sua experiência de Deus, denuncia esta situação que esconde o rosto de Deus para os pequenos (Mt 23,13-36). Como redentor (goêl), irmão mais velho, ele oferece um lugar aos que não tinham lugar. Acolhe os que não eram acolhidos e recebe como irmão aqueles que a religião e o governo desprezavam e excluíam (Mc 3,34). Não tendo dinheiro para pagar o resgate, ele se entregou a si mesmo, seu corpo e seu sangue, para que todos pudessem viver em fraternidade (1Cor 11,23-26; Mc 14,22-24; Lc 22,20).

Jesus, o Redentor dos irmãos! Este talvez seja o título mais antigo para expressar o que Jesus significa para nós. O termo hebraico goêl é tão rico que não tem tradução unívoca na nossa língua: redentor, salvador, libertador, defensor, advogado, consolador, paráclito, parente próximo, irmão mais velho. São Paulo o definiu tão bem na carta aos Gálatas: “Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim. E esta vida que agora vivo, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). . É humanizando, servindo e acolhendo que se recupera a Missão das Comunidades e se constrói o Bem-Viver do Reino de Deus.

Assim se inicia a reversão da desintegração iniciada com Adão que culminou na Torre de Babel:

*  A confusão das línguas da Torre de Babel começou a ser superada no dia de Pentecostes

*  A desintegração do Dilúvio causada pela magia começou a ser superada pela força da fé renovada

*  A violência 70×7 de Lameque começou a ser superada pelo perdão 70×7 de Jesus

*  A morte da fraternidade causada por Caim começou a ser superada pelo amor ao próximo de Jesus

*  A alienação de Deus causada por Adão e Eva é superada por Jesus que morre e ressuscita em Deus

APÊNDICE 1

Corrigir a interpretação errada da Bíblia que legitimou a agressão à natureza

Leitura de Gênesis 1,1-2,4: a história da Criação

Gênesis 1,1-2:

“No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra estava deserta e vazia; as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso soprava sobre as águas” (Gn 1,1-2).

O autor usa três imagens de morte para descrever a situação do caos, anterior à ação criadora: Trevas, Águas, Deserto. Trevas sem luz impedem a vida. Águas que inundam tudo matam a vida. Deserto sem água é símbolo de morte. Estas mesmas três imagens eram usadas para descrever a situação do povo no cativeiro.

Trevas: “Deus me fez morar nas trevas como um defunto enterrado há muito tempo” (Lm 3,6).

Águas: As águas subiram por cima da minha cabeça e eu gritei: Estou perdido” (Lm 3,54).

Deserto: Isaías compara o povo no cativeiro a um toco seco enterrada num chão deserto (Is 11,1).

A situação do povo no cativeiro era uma situação de morte, sem futuro: trevas, águas e deserto. Qual a esperança de um povo que vive numa situação assim de morte? Humanamente falando, nenhuma! Mas eles descobriram uma saída! Qual?

Gênesis 1,3-13:

“Deus disse: “Luz!” E a luz começou a existir. Deus viu que a luz era boa. E Deus separou a luz das trevas: à luz Deus chamou “dia”, e às trevas chamou “noite”. Houve uma tarde e uma manhã: foi o primeiro dia” (Gn 1,3-5).

O povo no cativeiro tinha perdida tudo, menos uma coisa: a Palavra de Deus, que eles carregavam na memória e meditavam nas suas reuniões. Qual a força desta Palavra? É para responder a esta pergunta que eles contavam a história da criação do mundo. Deus cria através da sua Palavra. A força da Palavra é irresistível. Logo no primeiro dia da criação, gritando LUZ, a Palavra vence as Trevas (Gn 1,3-4). No segundo dia, cria o firmamento e vence as Águas (Gn 1,6-8). No terceiro dia vence o Deserto criando a terra e o verde (Gn 1,9-13). A palavra criadora vence a confusão do caos e cria a ordem do cosmos. Vence a morte e cria as condições para a vida poder aparecer.

Ora, a Palavra de Deus, aquela mesma que venceu as trevas e transformou o caos em cosmos, continuava presente na vida dos exilados, pois ela era meditada nas suas reuniões aos sábados. E até hoje, ainda é esta mesma palavra criadora de Deus que nós meditamos nos Círculos Bíblicos (cf. Is 55,10-11).

Gênesis 1,14-25:

“Deus disse: “Que existam luzeiros no firmamento do céu, para separar o dia da noite e para marcar festas, dias e anos; e sirvam de luzeiros no firmamento do céu para iluminar a terra”. E assim se fez. E Deus fez os dois grandes luzeiros: o luzeiro maior para regular o dia, o luzeiro menor para regular a noite, e as estrelas. Deus os colocou no firmamento do céu para iluminar a terra,  para regular o dia e a noite e para separar a luz das trevas. E Deus viu que era bom. Houve uma tarde e uma manhã: foi o quarto dia” (Gn 1,14-19).

No quarto dia, a Palavra de Deus cria as lâmpadas: o sol, a lua e as estrelas (Gn 1,14-19). No quinto dia, ela cria os pássaros do céu e os peixes do mar (Gn 1,20-23). No sexto dia, cria os animais que se movem sobre a terra (Gn 1,24-25). Assim, a casa ficou pronta para receber o ser humano, o dono da casa.

Sol e lua são criaturas e não divindades. Na Babilônia, terra do cativeiro, o Sol e a Lua eram adorados como deuses. Por isso, o texto deixa bem claro que os astros são criaturas. Não são divindades. São lâmpadas a serviço do ser humano, nada mais. Ajudam a marcar as festas, as estações do ano, os dias e as noites. Assim, o texto ajudava os exilados a adquirir uma consciência mais crítica frente à ideologia da religião do império.

Contra a divinização dos animais. O povo de Deus vivia num mundo em que muitos animais eram divinizados. Na entrada principal de Babilônia, havia esculturas imensas de Karibús (Querubins), que eram uma combinação de leão, touro, águia e ser humano. Eles mesmos, no tempo do deserto, tiveram a experiência desastrosa do bezerro de ouro fabricado por iniciativa de Aarão (Ex 32,4). A tendência de transformar os animais em divindades era freqüente no antigo Médio Oriente. Por isso, o texto insiste em dizer que, como o sol e a lua, também os bichos todos são criaturas, dependem de Deus em tudo e estão a serviço da vida.

Gênesis 1,26-31:

“Então Deus disse: Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança. Que ele domine os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra. E Deus criou o ser humano à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher”(Gn 1,26-27)

Com uma certa solenidade, o texto apresenta o próprio Deus falando: Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança! Sugere que estamos chegando ao ponto alto da criação. O texto acentua três aspectos:

(1) Afirma a dignidade do ser humano. Nele existe algo de divino. Ele é feito à imagem e semelhança de Deus. Não são os animais, nem o sol e a lua, nem o rei Nabucodonosor, nem os poderosos que são a imagem ou representantes de Deus, mas sim o ser humano, enquanto humano, é o representante de Deus na criação.

(2) Afirma a igualdade entre homem e mulher, ambos são imagem de Deus. Ou melhor, não é só o homem, nem só a mulher, mas ambos juntos, convivendo em harmonia, são imagem de Deus.

(3) Afirma a superioridade do ser humano frente às outras criaturas, pois ele pode dominar sobre todas elas. Porém, este domínio não significa que ele recebeu carta branca para fazer o que bem entende nem se trata de uma dominação que usa a terra como mercadoria ou como objeto mudo e sem vida. Mas significa que o ser humano deve imitar a maneira como Deus exerce o seu domínio. Deus domina o universo coordenando tudo numa harmonia admirável, preservando a ordem que favorece a vida e mantendo afastado o caos que ameaça tudo de morte: o caos do assassinato (Caim mata Abel: Gn 4,1-16), da vingança (Lameque vinga sete vezes: Gn 4,23-24), da corrupção (que causa o dilúvio: Gn 6,1-8) e da exploração (torre de Babel: Gn 11,1-9). O ser humano deve tomar conta em nome de Deus, isto é, deve manter a harmonia da criação, impedir o retorno do caos.

Gênesis 2,1-4:

“No sétimo dia, Deus terminou todo o seu trabalho; e no sétimo dia, ele descansou de todo o seu trabalho. Deus então abençoou e santificou o sétimo dia, porque foi nesse dia que Deus descansou de todo o seu trabalho como criador”Gn 2,2s.

A insistência no descanso sugere que o descanso faz parte da ação criadora. É no descanso que se alcança o objetivo do trabalho. A finalidade última da vida humana não é o trabalho, a produção, o lucro, mas sim o descanso com a consciência tranquila de que o trabalho foi bem realizado. Trabalhamos para viver, e não vivemos para trabalhar.

No cativeiro, o povo exilado era explorado pelo trabalho escravo. Não lhes davam descanso. Deviam trabalhar de sol a sol, sete dias em seguida, sem possibilidade de refletir e de se encontrar. Era importante ter ao menos um dia por semana para se reunir, partilhar a vida, louvar a Deus e animar-se mutuamente. Foi daí que renasceu a insistência na observância do sábado: trabalhar durante 6 dias, mas no 7º dia descansar para Deus e para a comunidade (Ex 20,8-11).

Concluindo a leitura da história da criação

A Bíblia não quer competir com a ciência, nem dar uma aula de cosmologia, mas sim comunicar esperança ao povo oprimido. Para você sentir toda a força deste texto da história da criação, coloque-se na pele do pessoal que estava lá no cativeiro, na Babilônia, capital do grande império. Eles se sentiam como hoje se sentiria um grupo de camponeses do interior de Minas, levados à força para viverem como varredores de rua no centro de Nova York: outro mundo, outra terra, outra língua, outra religião, outro jeito de viver, outros valores! A eles não interessa saber como o mundo foi criado, mas interessa sim redescobrir a força escondida do Deus presente que cria e recria suas vidas. Isto sim é que dará força aos mineiros que varrem as ruas na cidade de Nova York. A Bíblia não ensina como o mundo foi criado, mas sim como o mundo criado deve ser visto à luz da fé. A narração da criação reflete o poder e o carinho com que Deus protege e acompanha o seu povo exilado. É um manifesto de resistência para o povo encher-se de coragem na sua missão.

PERGUNTAS:

1. O que mais chamou sua atenção na maneira de a Bíblia descrever a Criação do mundo? Por que?

2. Como fazer para que nós possamos ter em nós, hoje, a mesma atitude frente à natureza?

Leitura de Gênesis 2,4-3,24: a história do Paraíso Terrestre

Uma chave geral para a sua leitura e compreensão

Na história da Criação do Mundo (Gn 1,1-2,4), o povo de Deus olhava o seu passado e encontrou nele uma fonte de resistência. Agora, na história do Paraíso Terrestre (Gn 2,4-3,23), eles enfrentam o futuro e oferecem uma resposta para o desafio maior que os provocava.

1. Linguagem simbólica

A linguagem da História do Paraíso Terrestre é simples, popular. É linguagem simbólica. Diante dela não devo perguntar: “Existiu ou não existiu?” Estas perguntas não são boas para captar a mensagem. Quem olha a si mesmo no espelho, não pergunta: “Aquilo que estou vendo existe ou não existe?” Olhando no espelho da história de Adão e Eva, devo perguntar: “Será que estou transgredindo a Lei de Deus como Adão e Eva? Será que estamos tomando conta do Jardim do jeito que Deus quer?”

2. Época e lugar de origem

É difícil saber em que época e lugar surgiu esta história. O contexto que nela transparece é o ambiente rural das famílias do interior da Palestina. Nela se fala da terra, do trabalho duro que rende pouco, da seca, da água, das plantas, dos bichos, da vida em família com suas dificuldades, do relacionamento entre marido e mulher, da dor de parto, do despertar para a nudez, do relacionamento com Deus.

3. Resposta para os problemas e perguntas do povo

A maior parte das informações dadas pela história do Paraíso vem da observação da vida de cada dia. Na sua origem estão as perguntas que o povo se fazia ou que as crianças colocavam para seus pais: “Pai, se Deus é bom e se nós procuramos ser bons, por que Deus nos maltrata com tanto sofrimento? Se Deus é o criador de tudo, por que permite tanta inimizade entre nós e os bichos? Por que o terreno da nossa roça é tão ruim? Só dá tiririca! Pai, você trabalha o ano todo e seu trabalho rende tão pouco! Por quê? Se Deus existe, por que ele não aparece?”  Para responder a estas perguntas a respeito dos mistérios da vida, havia as histórias e os mitos que se transmitiam nas celebrações nos centros de romaria. Uma delas é a história do Paraíso Terrestre.

4. A tentação da “serpente” e a desintegração da vida

Muitas vezes, o povo não levava a sério a observância da Aliança com Javé. A corrupção e as injustiças estavam contrariando a vontade de Deus. Os estragos provocados pelo esquecimento de Javé repercutiam na vida das pessoas e da nação. Havia mais deuses falsos do que ruas e casas em Jerusalém (Jr 11,13). Uma das causas desta desintegração era a manipulação da religião de Baal, religião muito antiga, cujo símbolo era a figura de uma serpente. Na opinião do povo, o deus Baal manifestava seu poder na produção dos alimentos e na reprodução da vida. Ele fertilizava a terra com a chuva e em nome dele se promovia o culto da prostituição sagrada nos “lugares altos” (cf. Jr 7,31; 19,5; 32,32). Os reis manipulavam esta religião, estimulando o povo a freqüentar os “lugares altos”. Davam presentes às moças que aí se prostituíam. Os reis perdoavam as dívidas aos pais que entregavam suas filhas para este serviço. As crianças que assim nasciam pertenciam ao rei e serviam a ele como soldados no exército, como trabalhadores nas terras do rei e como empregadas domésticas e concubinas nos palácios reais. Esta “Serpente” era uma perigosa tentação para desviar o povo da lei de Deus e do sentido da vida. Ela desintegrava as relações humanas no matrimônio, na família e na comunidade.

5. A luta dos profetas contra a religião de Baal.

O Profeta Elias criticou o culto de Baal enfrentando os profetas de Baal no Monte Carmelo (1Rs 18,16-40). O profeta Oséias é o que mais denunciou este abuso (Os 4,1-18). Mas não adiantou muito. Alguns reis de Judá tentaram acabar com os “lugares altos” onde se praticavam estes abusos, mas não o conseguiram. É quase um refrão que acompanha a avaliação dos reis de Judá: Joás, rei bom, mas não eliminou os lugares altos. (2Rs 12,4). Amasias, filho de Joás, rei bom, mas não eliminou os lugares altos, etc. (2Rs 14,4; 15,4.35). Acaz, rei ruim, que aumentou os lugares altos (2Rs 16,4). Ezequias, rei bom, o único que conseguiu acabar com os lugares altos (2Rs 18,4). Manasses, filho de Ezequias, rei ruim, que reconstruiu os lugares altos (2rs 21,3).

7. O Paraíso Terrestre: o sonho de Deus para a humanidade

A história do Paraíso Terrestre procura oferecer uma perspectiva para o povo ter força na luta contra a tentação da Serpente. Ela descreve o sonho de Deus para a humanidade e oferece uma orientação para o povo descobrir sua missão, assumir sua responsabilidade, engajar-se na reconstrução da vida de acordo com o Projeto de Deus e, assim, iniciar a caminhada de retorno ao Paraíso Terrestre. Eis a divisão do texto:

APÊNDICE 2

Uma conversa de Deus com Adão antes da expulsão do Paraíso

Deus:     Adão!

Adão:     Às suas ordens, Senhor.

Deus:     Tome conta do meu jardim!

Adão:     Obrigado, Senhor. Com muito prazer. É prá já!

……

Dez  anos depois

……

.Deus: Adão!

Adão: Senhor?

Deus: Falei para você tomar conta do meu jardim.

Adão:     É o que estou fazendo.

Deus: Está não, Adão! Você está agindo como se o jardim fosse seu.

Adão:     Então, não é meu? O Senhor não me deu?

Deus: Dei não, Adão. O jardim é meu. Eu o entreguei para você tomar conta.

Adão:     Tomar conta para que?

Deus: Para que todos possam vir aqui, apreciar a beleza deste Paraíso, descansar, se alimentar, conversar, experimentar que eu quero bem a eles, que amo a todos. Todos, viu, todos! Também os animais e as plantas!

Adão:     Mas o que estou fazendo de errado? Estou tomando conta. Está rendendo muito. Eva e eu até conseguimos duplicar a produção das frutas, sobretudo daquelas maçãs tão gostosas!

Deus:     Adão, não foi isso que eu queria, quando falei para você tomar conta. Você até está fazendo essa propaganda absurda da “Árvore do Bem e do Mal”, colocando uma nova lei para as pessoas que vêm aqui, ensinando a elas o bem e o mal, o que devem e o que não devem fazer. Que nova lei é essa que você inventou, Adão? E você mesmo com Eva, vocês dois estão tirando vantagem para melhorar sua própria vida. Onde se viu?

Adão:     Não entendo o Senhor. Um jardim tão bonito. Terra tão boa! Muita água! Em se plantando dá! Deixar tudo isso à toa? Francamente, não entendo o Senhor.

Deus: Adão, estou achando que você não é a pessoa mais indicada para tomar conta do meu jardim. Isso que vocês dois estão fazendo não é o que eu queria, quando disse para você tomar conta do meu Jardim. Desse jeito, você e Eva não vão poder ficar. Mas vou dar mais uma chance.

Adão:     Qual?

Deus: Vocês têm que sair do jardim e vão fazer uma experiência lá fora para aprender. Porém, não volto atrás. O jardim, este Paraíso, vai continuar aí à espera de vocês. O jardim é para vocês, para que um dia todos possam vir aqui e ter vida em abundância. Todos, viu, todos! O que peço é que neste tempo de experiência vocês aprendam a tomar conta e não a serem donos. E devem tomar conta em meu Nome e não no nome de vocês mesmos.

Adão:     E o que quer dizer tomar conta no Nome do Senhor?

Deus:     Tomar conta em meu Nome, Adão, não quer dizer dominar e explorar, como você e Eva estão fazendo, mas é vocês aprenderem a fazer como eu faço: manter a harmonia da criação, impedir o retorno do caos, fazer com que todos tenham o suficiente para viver, criar um ambiente de paz e de fraternidade, para que todos possam viver na alegria e na gratidão, sentir-se bem na minha presença e, assim, todo ser que respira louve o seu Criador, para sempre. Entendeu?

Adão:     Sim, senhor.

Deus: Tomara! Crie juízo, por favor

APÊNDICE 3

Uma conversa entre Adão e Eva depois da expulsão do Paraíso

Eva:       Adão!

Adão:     Sim?

Eva:       Fiquei pensando. Ele não é tão ruim não. Nem tem ódio da gente. Ele gosta de estar conosco.

Adão:     Quem?

Eva:       Deus, ora! Acho que nós abusamos da bondade dele. Veja como é que ficou nossa vida. Nossos filhos vivem brigando. Caim matou Abel. Se o tio Lameque chegar a ser o cacique, acabará nosso sossego. Nem segurança a gente vai ter mais? Ele é vingativo, não leva desaforo para casa.

Adão:     Você tem razão. E tem mais. O pior é aquela Torre que eles estão construindo lá na terra de Babel. Querem que a torre alcance o céu. Já imaginou! Uma confusão danada. Querem ser os donos do mundo para poder explorar os outros. Dizem que são os representantes de Deus.

Eva:       Representantes de Deus coisa nenhuma! Você já se deu conta de como essa gente se relaciona com Deus? Tudo na base de medo e de magia. Não foi assim que nós o conhecemos naquele jardim. Era tão bom, não era? Dá uma saudade no coração da gente.

Adão:     Eva, eu só sei dizer que nós erramos. Não tomamos conta do Jardim. Quisemos ser os donos, e deu no que deu! Deus nos deu uma chance. Tirou a gente do jardim para nós reaprendermos o que quer dizer tomar conta do jardim no nome dele. Até agora, não aprendemos nada.

Eva:       Adão, você acha que o caminho de volta ainda é possível? Parece que não tem mais jeito. Se continuar assim, em breve vai ter outro dilúvio para acabar com tudo.

Adão:     Acho que a gente não pode desanimar. Mas por onde começar? Hoje tudo é o contrário de como era no jardim: terra seca, briga, sofrimento, ameaça, vingança, magia, exploração, mentiras. Sei que o jardim continua existindo. Ele existe, sim. Mas onde? Como chegar até lá? Qual o caminho?

Eva:       Adão, quando eu olho a beleza do universo, o luar, as montanhas, as estrelas, eu sempre me lembro do Jardim e me dá um remorso muito grande. Se a terra está desse jeito, se nossos filhos brigam, se nada dá certo, é porque nós falhamos. Será que não tem jeito de a gente tentar de novo? Passar pela prova, para poder voltar ao jardim? O que você acha?

Adão:     Não sei. Pode ser.

Eva:       Escuta essa. Outro dia, na feira, ouvi a seguinte conversa. Havia lá um grupo de pessoas muito simpáticas que me acolheram na roda deles. Eles falavam de um casal. Diziam que seguiam os ensinamentos desse casal. Ele se chama Abraão, e a mulher dele se chama Sara. Eles diziam para mim: “Temos que sair desta terra e ir para a terra que Deus nos mostrar!” Aí eu perguntei: “De que terra vocês estão falando?” Aí um deles respondeu: “Da Terra Sem Males, onde reinam a justiça, a fraternidade, a paz e a partilha!” Aí eu perguntei: “Onde é que fica essa terra?” Ele respondeu: “Fica lá onde nós vivemos. Depende de nós!”

Adão:     Bonita resposta! Quer dizer que para eles o chão onde a gente pisa pode tornar-se de novo Jardim de Deus! Gostei. É isso mesmo!

Eva:       Pois é. Quando ele disse isto, eu também logo me lembrei do Jardim e senti uma nova esperança. O Jardim nasce aqui mesmo se a gente souber viver na justiça e na fraternidade! Quem sabe, este é o caminho para transformar nossa saudade em esperança. O que você acha?

Adão:     Você perguntou a esse casal como é que eles chegaram a essa maneira de ver as coisas da vida?

Eva:       Perguntei, sim, e eles responderam assim. Um dia quando se tinham colocado na presença de Deus para rezar, um senhor chamado Isaías disse assim para eles: “Vocês que buscam a justiça e procuram a Deus. Olhem para a rocha de onde foram talhados, olhem para a pedreira de ontem foram extraídos. Olhem para Abraão, seu pai, e para Sara, sua mãe. Quando os chamei eles eram um só, mas se multiplicaram por causa da minha bênção!” (Is 51,1-2)

Adão:     Gostei! Isaías indicou o caminho para a gente fazer da vida um Jardim de Deus: buscar a justiça e procurar a Deus. Foi isto que nós devíamos ter feito e não fizemos, quando Deus nos expulsou do Paraíso para aprender lá fora como tomar conta do Jardim em nome dele. O caminho é este: buscar a justiça e buscar a Deus e, assim, criaremos a Terra Sem Males, onde reinam a justiça, a fraternidade, a partilha e a paz. Agora vai dar certo. Temos esperança. Vamos lá! É para já!

APÊNDICE 4

A lição dos povos indígenas

Eis dois exemplos concretos da lição de índios que não perderam o contato com a natureza: o primeiro é de um índio do Xingu, Brasil, contado pelo indigenista Orlando Villas Bôas; o segundo, de um índio da América do Norte.

Orlando Villas Bôas conviveu com os índios durante anos e estudou os costumes deles. Ele conta o seguinte:

“De todas as histórias contadas pelos índios, a mais surpreendente foi nascida de uma conversa com Arru, um de meia-idade que, embora não fosse um grande pajé, era, sem dúvida, o mais versado nos conhecimentos que transcendem o saber comum, principalmente no campo do sobrenatural. Arru chegara do mato cansado da caminhada e, encontrando-nos na aldeia, sentou-se a meu lado. Não havia muita coisa a conversar. Seu mundo monótono, nesse aspecto, valia pelo que já havia acontecido. Foi por isso que ele, olhando para os lados, para o chão e depois para o céu, disse: -“Lá é o céu.  –“Eu já sabia”, respondi. –“Lá é a aldeia dos que morrem”. –“Eu já sabia”. Depois de um breve intervalo, e de olhar bastante elevado para o céu, falou: -“Lá no céu do céu… ela está lá”. Fui tomado de surpresa. Céu do céu… O que viria a ser isso? Ela está lá? Ela, quem? A figura de um índio velho? Daí perguntei: -“Quem? Um índio velho que sabe tudo? –“Não! (pronunciado com veemência), somente uma sabedoria!”  E com um gesto largo abrangendo o sol e o céu deu-me a idéia de que lá havia somente uma sabedoria, que, tal qual a concepção das seitas tibetanas, mantém a harmonia do universo.” (Orlando Villas Bôas, A Arte dos Pajés, Impressões sobre o universo espiritual do indio xinguaano,Editoria Globo,2000, p.89-90) .

Em 1852, o governo dos Estados Unidos propôs comprar as terras dos índios. O cacique Seattle estranhou a proposta e expôs a sua preocupação numa carta ao Presidente. Segue aqui um trecho da carta:

“O presidente em Washington informa que deseja comprar nossa terra. Mas como é possível comprar ou vender o céu ou a terra? A idéia nos é estranha. Se nós não possuímos o frescor do ar e a vivacidade da água, como vocês poderão comprá-los? Cada parte desta terra é sagrada para meu povo. … Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs. O urso e a águia são nossos irmãos. O topo das montanhas, o húmus das campinas, o calor do corpo do cavalo, o ser humano, pertencem todos à mesma família. A água brilhante que se move nos rios e riachos não é apenas água, mas é o sangue de nossos ancestrais. Se lhes vendermos nossa terra, lembrem-se de que o ar é precioso para nós, o ar partilha seu espírito com toda a vida que ampara. Uma coisa sabemos: nosso Deus é também o seu deus. A terra é preciosa para ele. Esta terra é preciosa para nós, também é preciosa para vocês. Uma coisa sabemos: existe apenas um Deus. Nenhum ser humano, vermelho ou branco, pode viver à parte. Afinal, somos irmãos!” (Joseph Campbell, O Poder do Mito, Editora Palas Athena, 14ª edição, São Paulo, 1996, pp.34 e 36)

São duas maneiras diferentes de relacionar-se com a terra. Para Seattle, o chefe indígena, a terra é dom de Deus e fonte de identidade. Para o Presidente dos Estados Unidos a terra é apenas uma mercadoria, um objeto de troca. Para Arru, o índio do Xingu, a terra, o chão, o passado, o céu, tudo faz parte de uma sabedoria universal que nos envolve e da qual nós somos apenas uma parte. Não somos os donos do mundo; tomamos conta, e temos que prestar conta. Dizia um descendente dos índios lá do Ceará: “Eu não sou pessoa. Sou pedaço de pessoa. A pessoa é a comunidade. Vivendo em comunidade me torno pessoa”. São duas mentalidades distintas: a dos índios e a nossa. Temos muito a aprender deles. Nos últimos três ou quatro séculos, uma ciência utilitarista que só busca seu próprio proveito, privou-nos desse contato com a natureza e, por conseguinte, da sabedoria que nasce do contato com a mãe terra, Pachamama.

Repetimos a reflexão de Leonardo Boff sobre as lições que podemos receber dos índios:

Os índios sentem e vêem a natureza como parte de sua sociedade e cultura, como prolongamento de seu corpo pessoal e social. Para eles a natureza é um sujeito vivo e carregado de intencionalidades. Não é como para nós modernos, um objeto mudo e sem espírito. A natureza fala e o indígena entende sua voz e mensagem. Por isso ele está sempre auscultando a natureza e se adequando a ela num jogo complexo de inter-relações. Há sábias lições que precisamos aprender deles face às atuais ameaças ambientais. Importa entender a Terra, não como algo inerte, com recursos ilimitados, disponíveis ao nosso bel prazer. Mas como algo vivo, a Mãe do índio a ser respeitada em sua integridade. Se uma árvore é derrubada, faz-se um rito de desculpa para resgatar a aliança de amizade. Precisamos de uma relação sinfônica com a comunidade de vida, pois como foi comprovado, Gaia (terra) já ultrapassou seu limite de suportabilidade. Se deixarmos as coisas correrem e não fizermos nada as ameaças se tornarão devastadora realidade. (Leonardo Boff, O desafio Amazônico, 19 de fevereiro 2007).

Pistas

 

1. INCENTIVAR NOVA VISÃO

*  Nasce da vida comunitária

*  Leitura Popular da Bíblia

 

2. VISÃO ECUMÊNICA

*  Interpretar em defesa da vida e não da instituição

*  Estimular as parcerias: Igreja a serviço do Reino que é mais amplo

 

3. NOVA EXPERIÊNCIA DE DEUS E DA VIDA

*  Concepção holística da vida: natureza e graça se unem

*  Saúde das CEBS: a fé e o meio ambiente

*  A lição dos índios: os livros da cultura do povo e livros sapienciais

 

 

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