O PROFETA ELIAS NA BÍBLIA E NA TRADIÇÃO CARMELITANA.

O PROFETA ELIAS NA BÍBLIA E NA TRADIÇÃO CARMELITANA.

Frei Carlos Mesters, frade carmelita e biblista do CEBI.

(Obs.: Esse artigo é o 3º de uma série de 10 artigos de frei Carlos Mesters que disponibilizaremos na internet, em www.gilvander.org.br , em breve.)

 

 

INTRODUÇÃO

O Profeta Elias encarna a profecia

As histórias do profeta Elias

A Família Carmelitana nasce ao redor da figura do Profeta Elias

O PONTO DE PARTIDA: A SITUAÇÃO QUE MOTIVOU A CAMINHADA DE ELIAS

1. No tempo de Elias

2. No tempo do cativeiro

2. No tempo de hoje

A CAMINHADA: CARIT, O LUGAR ONDE SE INICIA O NOVO EXODO

A sequencia das histórias de Elias e a evocação do Êxodo

 

CAPÍTULO 17:  A Preparação do Profeta

 

CAPÍTULO 18:  A Defesa da Aliança

CAPÍTULO 19:  A crise a e maneira de superá-la

 

CAPÍTULO 21:  A denúncia e a luta pela justiça

 

CAPÍTULO 1:  O Homem de Deus e do Fogo

 

CAPÍTULO 2:  Continuidade da missão

 

As histórias do profeta Elias e a caminhada do Êxodo

O PONTO DE CHEGADA: CAMINHAR COM DEUS NO PROVISÓRIO, ATÉ O FIM

O ponto de chegada continua em aberto

Viver no provisório, até o fim

NA VIDA DOS CARMELITAS: OLHANDO NO ESPELHO DAS HISTÓRIAS DE ELIAS

1. Elias, o homem do Caminho

2. Elias, o homem da Palavra.

3. Elias, o homem do deserto

4. Elias, “homem fraco como nós”

5. Elias, o homem da experiência de Deus na Noite Escura

6. Elias, o homem da oração

7. Elias, o homem do fogo do Espírito

8. Elias, o homem da luta e do conflito.

9. Elias, o homem da reconstrução da vida em comunidade.

10. A nova experiência de Deus que se irradia a partir de Elias.

CONCLUSÃO:

As várias dimensões da Tradição Eliana

Carit, primeiro passo de uma longa caminhada

O PROFETA ELIAS

NA BÍBLIA E NA TRADIÇÃO CARMELITANA

UMA CHAVE DE LEITURA PARA AS HISTÓRIAS DO PROFETA ELIAS

 

“Levanta-te e come, porque o caminho é longo”

(1Rs 19,7)

INTRODUÇÃO

O Profeta Elias encarna a profecia

No episódio da Transfiguração de Jesus (Lc 9,30), o Antigo Testamento está representado por Moisés e Elias. Moisés encarna a Lei; Elias, a profecia. Apesar de ele ser considerado o primeiro dos grandes profetas e de encarnar a profecia, não existe na Bíblia o Livro do Profeta Elias. Outros profetas, bem menos importantes, têm um livro: Jonas, Naum, Ageu, etc. Por quê?

As histórias de Elias estão no primeiro e segundo livro dos Reis, que nós chamamos de Livros Históricos. A Bíblia Hebraica chama estes livros de Profetas Anteriores. Este nome mostra que a eles não interessava conhecer só a história dos reis. Eles queriam conhecer a história enquanto interpretada com um olhar profético. Por isso chamam esses livros de Profetas ou Proféticos. Isto os ajudava a discernir melhor os apelos de Deus dentro dos fatos da sua própria vida.

Antes de Elias já houve muitos profetas, pois o movimento profético era um fenômeno comum que fazia parte da cultura da época. Todos os reis tanto de Israel e de Judá como dos outros povos, cada um no seu reino, tinham os seus profetas para legitimar o poder real diante do povo. Apoiado pelos profetas, cada rei governava seu povo em nome da sua divindade. Mas Elias era um profeta diferente.

Em Elias a profecia irrompe autônoma e cria liberdade frente ao sistema da monarquia. Ele é o primeiro que, a partir da sua experiência de Deus como Javé, (presença libertadora), teve a coragem de enfrentar o poder absoluto e pretensamente divino da monarquia e de denunciar as injustiças cometidas pelo rei Acab e pela rainha Jezabel. Através de Elias, o carisma começa a questionar o poder. Por isso, ele tornou-se o símbolo da ação profética em Israel! A partir dele se começa a ler a história dos reis com um olhar profético, nascido da fé em Javé.

As histórias do profeta Elias

Elias viveu no século IX antes de Cristo. Desde aquela época , as histórias da sua atuação como profeta eram transmitidas oralmente ao longo das gerações. A organização mais sistemática destas histórias, da maneira como elas agora se encontram no livro dos Reis, só teve início durante o cativeiro da Babilônia no século VI aC. Durante o cativeiro, o povo exilado começou a despertar sua memória e recordar as histórias do seu passado para nelas encontrar luz e força diante dos graves problemas que estava vivendo. Foi neste ambiente de revisão, que as histórias de Elias começaram a ser redigidas para ajudar o povo do cativeiro a descobrir a causa da crise e oferecer-lhe um projeto de reconstrução da sua identidade como Povo de Deus.

As histórias do profeta Elias são muito mais que só história. O povo do cativeiro olhava para elas como num espelho para descobrir aí a sua missão. Elas eram narradas para despertar nos ouvintes uma consciência mais crítica, tanto frente à monarquia de Israel, quanto frente à tentação sedutora dos ídolos do império da Babilônia na época do cativeiro. Transmitidas de geração em geração, estas histórias faziam parte da identidade do povo. Seu objetivo era provocar no povo a mesma ação em defesa da Aliança que tinha caracterizado o profeta Elias.

As histórias de Elias são histórias populares. Aqui vale o que acontece em todas as histórias populares: Quem conta um conto aumenta um ponto. De tão usadas e narradas ao longo dos séculos, as histórias de Elias se parecem com aquele livro que, por causa do uso freqüente, foi perdendo as capas da frente e de atrás. Na história de Elias faltam o começo e o fim. A Bíblia não conta o nascimento nem a morte do profeta. Só sobraram seis histórias que agora ocupam seis capítulos nos dois livros dos Reis. Parece um álbum com seis grandes fotografias. Cada foto, cada capítulo traz um assunto bem determinado. Eis a sequencia:

 

1Rs 17: Na torrente Carit e em Sarepta: a preparação do profeta.

Sua ida para Carit no outro lado do Jordão e para Sarepta na casa da viúva, da qual recebeu sua confirmação como Homem de Deus que comunica ao povo a Palavra de Deus.

1Rs 18: No Monte Carmelo, perto da fonte: a defesa da Aliança.

A atuação como profeta no Monte Carmelo. Para defender a Aliança Elias enfrenta o Rei e os falsos profetas. No fim, recebe a confirmação do povo, desfaz a seca e traz chuva de volta.

1Rs 19: No deserto e no Monte Horeb: a crise e a maneira de superá-la.

Elias foge de Jezabel e quer morrer, mas o anjo o alimenta e o ajuda a caminhar. Na Brisa Leve, ele se converte e se reencontra consigo, com Deus e com a missão.

1Rs 21: Na vinha de Nabot: a denúncia e a luta pela justiça.

A injustiça do sistema dos Reis se manifesta no roubo das terras, na manipulação da religião pelo rei e no assassinato de Nabot. Elias enfrenta o Rei e denuncia a injustiça cometida.

2Rs 01: No alto do Monte: o homem de Deus e do fogo.

Sentado no alto do Monte, na solidão, Elias faz descer um raio do céu contra os que não reconhecem a Javé como o Deus da vida. Mas acolhe o pedido de quem quer preservar a vida.

2Rs 02: Na travessia do Jordão e no Carro de fogo:        a continuidade da missão

Arrebatado em Espírito. Elias deixa uma dupla porção do seu espírito para Eliseu. Eliseu invoca Javé como “o Deus de Elias”. Elias continua sua missão nos filhos dos profetas.

São seis histórias bem populares onde o povo olhava como num espelho para descobrir sua missão. Elas eram transmitidas de geração em geração para despertar a consciência e provocar nos ouvintes a mesma ação em defesa da Aliança e da Vida. Por isso, Elias tornou-se o Santo mais popular do povo da Bíblia. Símbolo da ação profética! Ele entrou na imaginação popular como o santo dos impossíveis. Na Palestina ele é até hoje o santo mais venerado de Cristãos, Judeus e Muçulmanos. É um santo ecumênico!

É por isso que na Bíblia existem tantos textos espalhados sobre o profeta Elias. Eles mostram a variedade com que ele era venerado pelo povo:

1. O livro do Eclesiástico valoriza nele o Homem obediente à Palavra(Eclo 48,1-11).

2. Malaquias espera a volta de Elias como o Homem da Aliança(Mal 2,23-24).

3. Nos evangelhos Elias aparece como o homem que deve reorganizar o povo(Lc 1,17).

4. Na Transfiguração Elias aparece ao lado de Moisés como síntese da profecia do AT.

5. Para São Paulo Elias é o Homem que denuncia a infidelidade do povo(Rom 11,2-4).

6. A carta de Tiago resume a vida de Elias como Homem da Oração(Tiago 5,17-18)

7. No Apocalipse Elias aparece como o homem do testemunho até à morte(Apoc 11,3.5).

8. A tradição rabínica conserva de Elias a imagem do homem do deserto.

9. A devoção popular invoca Elias como o Santo dos impossíveis.

10. A tradição carmelitana acentua o homem do Caminho.

A Família Carmelitana nasce ao redor da figura do Profeta Elias

A Ordem do Carmo nasceu no Monte Carmelo em torno do ano de 1200. O Monte Carmelo atraía os peregrinos por causa da memória do profeta Elias que ali vigorava. Por isso, desde o começo, a figura do profeta Elias marca a espiritualidade carmelitana. Queremos aprofundar quem devemos ser como carmelitas e qual a nossa missão hoje no Brasil.

O eixo central que atravessa e unifica as histórias de Elias é a imagem do homem que caminha. Caminhar sempre! A intervenção constante da Palavra de Deus obriga Elias a sair do lugar onde se encontra para o lugar onde Deus o quer: “Vai-te daqui!” (1Rs 17,2; cf 1Rs 17,9; 18,1.12.46; 19,7.11.15; 21,18; 2Rs 1,3.15; 2,2.3.4.5.6.11). Elias deve caminhar. Ele já não se pertence. Sua vida tornou-se uma despedida contínua. E invariavelmente a resposta é esta: “E Elias partiu e fez como Javé tinha mandado!” (1Rs 17,5; cfr 1Rs 17,10;18,2.15; 19,8.13.19; 2R 1,4.15; 2,2.4.6). A caminhada de Elias começa com o chamado de Deus para ir esconder-se na torrente Carit. Carit é o início, a primeira etapa, de uma longa caminhada em busca de uma convivência humana mais justa e mais fraterna.

Este caminhar constante de Elias, motivado pela Palavra, era o espelho onde o povo do cativeiro encontrava luz e força para caminhar e não desanimar. Era o espelho onde os primeiros carmelitas encontravam refletido o itinerário místico que os orientava na sua busca de Deus. É o espelho, onde nós, hoje, encontramos algo de nós mesmos, dos nossos problemas e aspirações e da nossa esperança.

A importância da Tradição Eliana da Ordem, desde a sua origem, transparece no “Liber Institutionis Primorum Monachorum“. Em cada período da nossa história, os Carmelitas souberam reler a figura do profeta Elias, para que inspirasse o Carmelo na observância e na vivência da Regra de Santo Alberto. A tradição Eliana acompanhava a evolução e as exigências da Ordem em cada época.

O PONTO DE PARTIDA

A SITUAÇÃO QUE MOTIVOU A CAMINHADA DE ELIAS

1. No tempo de Elias

O profeta Elias entrou em ação na época de Acab, rei de Israel. Amri, o pai de Acab, subiu ao poder por um golpe militar contra o rei Zimri (886-885). O governo de Amri durou doze anos  (885-874). Com ele começou um período de progresso econômico, continuado pelo filho Acab, que governou vinte e dois anos (874-853 aC). Durante os trinta e quatro anos destes dois reis, toda a política, tanto interna quanto externa, era dirigida para uma estabilização do país e um aumento do poder econômico. Estes dados são confirmados pela arqueologia e pela leitura histórico-crítica do texto. Porém, a leitura profética destes mesmos fatos, conservada no livro dos Reis, é diferente. Ela tem outros critérios de análise.

Eis o texto que, na Bíblia, traz um resumo do governo de Acab e oferece aos leitores o quadro de referências para introduzir a ação profética de Elias:

“Acab, filho de Amri, subiu ao trono de Israel no ano trinta e oito do reinado de Asa, rei de Judá. Reinou sobre Israel em Samaria, vinte e dois anos. Acab filho de Amri, fez o que Javé reprova, mais do que todos que vieram antes dele. Além de imitar os pecados de Jeroboão, filho de Nabat, casou-se com Jezabel, filha de Etbaal, rei dos sidônios. E começou a servir e a adorar Baal. Chegou a construir em Samaria um templo e um altar para Baal. Acab levantou também um poste sagrado e cometeu outros pecados, irritando Javé, o Deus de Israel, mais do que todos os reis de Israel que viveram antes dele. No seu tempo, Hiel de Betel reconstruiu Jericó: os alicerces lhe custaram a vida do seu filho Abiram, e as portas custaram a vida de Segub, seu filho caçula, como Javé havia predito por meio de Josué, filho de Nun” (1Rs 16,29-34).

Nesta texto, a leitura profética dos fatos acentua não o progresso material realizado pelo governo de Amri e Acab, mas sim as consequências negativas da política dos reis. Os seis capítulos da história de Elias oferecem detalhes concretos com relação a estes aspectos negativos. Eis alguns:

1. As mudanças culturais: A terra já não era vista como fonte de identidade nem como herança intransferível de Javé, mas apenas como meio de troca e de lucro (1Rs 21,2). Isto trouxe consigo um conflito entre os interesses da monarquia e os costumes tribais (1Rs 21,3).

2. Manipulação do poder: A história da vinha de Nabot é uma prova deste abuso (1Rs 21,1-16). Na seca, quando a fome apertava a todos, o rei não se preocupou com o povo, mas sim com os cavalos e jumentos que lhe garantiam o comércio e o transporte da produção (1Rs 18,5).

3. Desmando, arbítrio e injustiça. O rei não tinha medo de usar a força do exército (2R 1,9.11.13), de manipular as instituições tribais (1Rs 18,19), de exigir juramentos, decretar leis (1Rs 18,10; 21,9) e praticar roubo e assassinato (1Rs 18,12; 21,10-14; 19,1-2) para defender seus interesses.

4. Manipulação dos costumes religiosos: o jejum (1Rs 21,9), o culto ao deus Baal (1Rs 16,31), profetas de Baal (1Rs 18,19), prostituição sagrada e o sacrifício de vidas humanas (1Rs 16,34). Os profetas de Javé tentaram reagir, mas foram perseguidos e mortos (1Rs 18,13). Elias era um dos poucos que sobraram (1Rs 19,10).

Esta era a situação, de onde parte o profeta Elias. Situação estruturalmente contrária à Aliança. Assim, terminada a breve descrição do governo de Acab com seus desvios e pecados (1Rs 16,29-34), o livro dos Reis introduz o profeta Elias interpretando a seca como castigo de Deus pelos desmandos do Rei (1Rs 17,1).

“Elias, o tesbita de Tesbi de Galaad, disse ao rei Acab: Pela vida de Javé, o Deus de Israel, a quem sirvo: nestes anos não haverá orvalho nem chuva, a não ser quando eu o mandar” (1Rs 17,1)

2. No tempo do cativeiro

Nabucodonosor, rei da Babilônia, invadiu a Palestina e avançou até à cidade de Jerusalém. No mês de agosto de 587 antes de Cristo, após um longo cerco, Jerusalém foi tomada e destruída, o Templo foi profanado, as casas do povo foram incendiadas, as famílias desintegradas, e milhares de pessoas foram levadas para o exílio na Babilônia. Perderam tudo. Diziam que Deus os havia abandonado (Is 40,27; 49,14; Jer 33,23-24).

Tudo que tinha sido o fundamento da sua fé e o sinal visível da presença de Deus, foi destruído: O Templo, morada de Deus para sempre (1Rs 9,3), foi incendiado (2Rs 25,9). O Culto, instituído como sinal perpétuo, estava interrompido (Lam 2,6-7). Os Sacerdotes foram massacrados (Jer 52,24-27) ou levados para o cativeiro (Sl 79,1-3; Lam 4,16). A Monarquia, da qual Deus tinha dito que sempre haveria um descendente de Davi no trono (2Sam 7,16), já não existia mais (2Rs 25,7). Jerusalém, que Deus desejou para ser sua residência para sempre (Sl 132,13-14), estava destruída (Lam 1,6; 2,1-10). A Terra, cuja posse tinha sido garantida para sempre (Gen 13,15), passou a ser a propriedade dos inimigos, que a distribuíram aos pobres (2Rs 25,12; Jer 39,10; 52,16). O povo de Deus perdeu a posse e foi para o exílio na Babilônia, o antigo Ur dos Caldeus (Jer 52,28-30). Estava de volta no mesmo país, de onde, em 1800 antes de Cristo, Abraão tinha saído para seguir o chamado de Deus (Gen 11,31).

A história foi terminar, tragicamente, no mesmo lugar onde havia começado, mil e trezentos anos atrás. A grande pergunta era esta: “Como entender esta tragédia? Por que tudo isto nos aconteceu? Por que Deus nos castigou tanto? O que fizemos de errado? O que fazer agora? Qual a saída?” (Sl 44,18-25; Sl 77,6-10; 89,39-47). Três respostas eram dadas, misturadas entre si.

Alguns achavam que era melhor saltar fora do barco antes que afundasse inteiramente. Liam a realidade a partir do ponto de vista da ideologia do império. Eles se acomodaram no exílio e se adaptaram à nova situação. Como no tempo de Elias, abandonaram Javé e adotaram os ídolos e o jeito de viver dos opressores.

Outros achavam que deviam reagir e lutar. Insistiam em ler a realidade a partir do ponto de vista da monarquia, dos reis derrotados. Queriam voltar para a terra, vingar o mal que lhes tinha sido feito, reconstruir o templo e restaurar a monarquia tal como tinha sido no passado.

Outros ainda achavam que a solução não era voltar ao passado nem se acomodar no presente, mas sim aprender a ler com outros olhos a nova situação em que se encontravam. Procuravam ler a realidade a partir dos próprios pés. Eles se perguntavam: “O que será que Deus nos quer ensinar por meio destes fatos tão trágicos em que nos encontramos agora? Qual o apelo de Deus para nós?”

Foram estes últimos que começaram a investigar o passado em busca de uma pista de saída. É a partir deles que começa a releitura e a redação das histórias de Elias para encontrar nas ações do profeta uma resposta para as perguntas e problemas do povo exilado. A situação do povo na época de Elias tornou-se para eles um espelho crítico. A política de Acab e Jezabel evocava a sedução insidiosa da idolatria com que se defrontavam no cativeiro da Babilônia (cf Is 44,9-20; Bar 6,1-72).

2. No tempo de hoje

Hoje, a miséria crescente do povo, a injustiça impune, a corrupção galopante, o sofrimento dos que nunca cometeram nenhum mal, o abandono, o desemprego, a desigualdade social, a exclusão, a solidão, os desastres naturais, a ameaça ecológica, tsunami, furacões, ciclones, terremotos, aids, o desamor, a violência, o terrorismo que desintegra a convivência humana, …!  Tudo isso provoca em nós um forte questionamento: “O que fazer? Parece um túnel escuro, cativeiro pior do que aquele da Babilônia! Tem saída? Como salvar a vida humana? Como encontrar Deus no meio de tudo isso?”

Como no tempo do cativeiro, alguns dizem: “Paciência! Essas coisas acontecem. Quem somos nós para mudar o rumo da história? O que podemos fazer? Nada! Nós, pobres indivíduos, não temos poder”. Eles se acomodam no sistema neoliberal. Vão à Missa, rezam, assistem à história humana pela TV, sabem tudo que se passa no mundo, mas não sabem como reagir. Sua fé perdeu a lucidez crítica e a força transformadora.

Outros dizem: “Há esperança! Existe luz no fim do túnel. Devemos continuar a lutar para mudar a situação!” Dizendo que existe luz no fim do túnel, eles acham que, dentro do túnel não existe luz. Lá dentro só existe escuridão. Eles só conhecem um único tipo de luz, aquela de antigamente que conheceram antes de entrar no túnel. Avaliam a situação atual com os critérios do passado, de antes e de fora do túnel, em que agora nos encontramos todos. Querem restaurar o passado.

Outros ainda dizem: “Existe luz dentro do túnel! Temos que descobri-la! Temos que descobrir o povo que há muito tempo vive dentro do túnel, e aprender dele como lutar e sobreviver. Pois este povo que vive no túnel sabe como resistir sem desintegrar-se!” Elias pode oferecer uma pista, pois ele soube encontrar uma luz naquela escuridão em que vivia.

A situação de onde Elias devia partir era, como hoje, uma situação de crise que estourou em todos os níveis da vida: econômico, social, político, ideológico, cultural, religioso. Uma crise semelhante estourou na vida do povo que foi levado para o cativeiro. É nesses momentos de crise profunda que a Palavra de Deus se faz presente chamando a todos para fazer uma ruptura e dar o primeiro passo em direção a Carit:

“Saia daqui, dirija-se para o oriente

e esconda-se junto ao córrego Carit,

que fica a leste do Jordão.

Você poderá beber água do córrego.

Eu ordenei aos corvos

que levem comida para você” (1 R 17,3-4).

A CAMINHADA

CARIT, O LUGAR ONDE SE INICIA O NOVO EXODO

A sequencia das histórias de Elias e a evocação do Êxodo

É difícil reconstruir a cronologia exata da caminhada de Elias. Também não é tão importante para o nosso objetivo. As histórias de Elias não eram usadas como relatórios de viagens, mas sim como símbolo ou espelho. Da maneira como agora estão redigidas nos livros dos Reis, elas são, ao mesmo tempo, história e alegoria. Nelas o passado é evocado não como lembrança saudosista, mas como tarefa e missão para o povo exilado, ao qual ofereciam um horizonte de esperança naquela situação de desespero. Mais do que nós hoje o povo daquele tempo tinha sensibilidade para perceber o valor simbólico das histórias do passado. Eles descobriam a si mesmos nas coisas que liam ou ouviam sobre as façanhas de Elias. Encontravam nele o modelo de como refazer a história para poder criar um novo futuro.

Assim, para eles, a ida de Elias para a torrente Carit representava um novo começo da história. Elias volta ao deserto para refazer o Êxodo e iniciar o processo da reconstrução da Aliança que vai culminar no reencontro com Deus no Monte Horeb e terminar na travessia do Jordão em direção à Terra Prometida. Os exilados e todos nós somos convocados a fazer o mesmo.

A história d Êxodo é evocado ao longo dos seis capítulos das histórias de Elias. A releitura do passado usando o esquema básico do Êxodo era muito comum naquele tempo, pois todos conheciam a história do Êxodo. Sabiam como ela tinha começado, quais tinham sido as etapas da caminhada pelo deserto, quais as crises e purificações e como tinha terminado levando o povo à posse da terra prometida. Esta maneira de reler a história fazia com que o povo se sentisse envolvido por um novo e definitivo êxodo.

As histórias de Elias usam o esquema do Êxodo não no sentido de seguir cronologicamente, ponto por ponto, todas as suas etapas, mas no sentido de evocar fatos e acontecimentos significativos do mesmo. Bastava alguém falar de travessia, caminhada pelo deserto, aliança, murmúrio do povo, reclamações contra Deus e contra Moisés, pragas, Montanha de Deus, terremoto, maná, etc, e todos já sabiam que se tratava do Êxodo. Para o bom entender meia palavra basta. Vejamos de perto, capítulo por capítulo, as história de Elias:

 

CAPÍTULO 17:  A Preparação do Profeta

A Entrada no Deserto de Carit (1Rs 17,2-3)

Depois de ter anunciado a seca, Elias recebe a ordem: “Saia daqui, dirija-se para o oriente e esconda-se junto ao córrego Carit, que fica a leste do Jordão. Você poderá beber água do córrego. Eu ordenei aos corvos que levem comida para você” (1 R 17,3-4). Obediente à Palavra de Deus, “Elias partiu e fez como Javé ordenara indo morar na torrente de Carit, a leste do Jordão” (1Rs 17,5). É o começo da caminhada.

No Êxodo, a travessia do rio Jordão para entrar na Terra Prometida marcou o fim da caminhada de quarenta anos pelo deserto (Jos 3,14-17). Na história de Elias, acontece o contrário. Ele atravessa o Jordão, mas é para sair da Terra Prometida e voltar para o tempo do deserto, pois a aliança estava quebrada, a ligação com Deus estava interrompida. Tudo devia ser refeito!

A bondade de Deus é maior que a infidelidade do povo. Ele sempre oferece uma nova oportunidade. Assim, desde os tempos do profeta Oséias cresce no povo o desejo de voltar ao deserto, ao tempo do noivado: “Quando Israel era criança, eu o amei!” (Os 11,1). “Vou seduzi-la de novo e conduzi-la ao deserto para falar-lhe ao coração” (Os 2,10). “Eu sou teu Deus desde o Egito e te farei habitar novamente em tendas” (Os 12,10). “Eu me lembro de seu afeto de jovem, de seu amor de noiva, quando você me acompanhava pelo deserto” (Jer 2,2). O povo deve voltar ao deserto, voltar sempre, para experimentar de novo o primeiro amor! (cf Apoc 2,4) Elias é convidado a iniciar este retorno. Carit é a primeira etapa.

Elias é alimentado no deserto (1Rs 17,4-6; 19,5-8)

Lá no Carit, Elias é alimentado por Deus. “Os corvos lhe traziam pão de manhã e carne à tarde, e ele bebia da torrente” (1Rs 17,4-6). Uma segunda vez, ele é alimentado quando estava desanimado, deitado meio morto debaixo do junípero. Um anjo o acordou para ele comer, “porque o caminho é longo” (1Rs 19,5-8). Quarenta dias e quarenta noites!

No êxodo, o povo se queixou da falta de água e de comida (Ex 15,22-25; 16,3). Moisés respondeu: “Javé vos dará carne para comer e pão com fartura” (Ex 16,8). E o próprio Deus dizia: “Ao anoitecer comereis carne e pela manhã vos fartareis de pão e sabereis que eu sou Javé!” (Ex 16,12). Na força desta comida andaram quarenta anos pelo deserto. O pão era o maná, também chamado “pão do céu” (Sab 16,20).

Partilhar e não acumular (1Rs 17,7-16)

O córrego secou e a fome apertava. Elias deve ir até Sarepta onde encontra a viúva. Ele põe a viúva à prova, pedindo com insistência para ela partilhar com ele o pouco da comida que lhe restava. A viúva obedece e partilha com Elias o pouco que tem. Como resultado da partilha não faltou mais comida até o fim da seca.

No livro do êxodo, a história do maná é apresentada como uma prova da parte de Deus para ver se o povo era capaz de seguir o mandamento de Deus: “Farei chover pão do céu para vocês: o povo sairá para recolher a porção de cada dia, para que eu o ponha à prova e veja se ele observa a minha lei, ou não” (Ex 16,4). A prova ou a lei consistia nisto: só podem recolher o necessário para cada dia e não podem acumular. Devem fazer o contrário do sistema do Egito, onde tudo era acumulado na mão do faraó. Devem confiar na providência divina que passa pela organização fraterna e se expressa na partilha. O povo obedeceu e não faltou mais comida até o fim da caminhada (Ex 16,35).

Confirmado como profeta (1Rs 17,17-24)

Dentro do conjunto dos seis capítulos, o capítulo 17 descreve a confirmação de Elias como profeta e porta-voz de Javé. Morreu o filho da viúva. Elias o ressuscita e a viúva reconhece que ele é homem de Deus: “Agora sei que você é um homem de Deus e que a Palavra de Deus habita em você!” (1Rs 17,24).

Esta afirmação final da viúva é a definição do profeta que vale até hoje. Não é o profeta que se autoapresenta ao povo, mas é o povo, a viúva, que o reconhece a partir das ações que ele realiza (cf Dt 18,21-22). Toda pessoa que quer ser profeta ou profetisa, porta-voz de Deus, deve, antes de tudo, entrar na intimidade deste Deus do qual quer ser o mensageiro. Como Elias, deve (1) esconder-se no Carit, (“na caridade”, comentavam os primeiros carmelitas), (2) praticar e divulgar a partilha e (3) defender a vida do povo, dos pobres, da viúva, do filho da viúva, para que possa merecer ser reconhecida e aceita pelo povo como mensageira de Deus.

 

CAPÍTULO 18:  A Defesa da Aliança

Situação de seca, fome e perseguição (1Rs 18,1-15)

O encontro de Elias com Abdias revela a situação de sofrimento em que o povo se encontrava. A seca tinha provocado grande fome. O rei só se preocupava com a sobrevivência dos cavalos e jumentos que lhe garantiam o transporte dos seus produtos comerciais. O povo ficou sem proteção e sem ajuda legal. Elias e os outros profetas que, como ele, procuravam ser fiéis a Javé eram perseguidos e massacrados. Só alguns poucos como Abdias tinham a coragem de resistir contra a ideologia do Rei e de defender os profetas. Parecia uma situação sem saída, pois o rei controlava tudo e matava quem ousasse desobedecer às suas ordens. De um lado, Elias e uns poucos corajosos; do outro lado, o rei e a maioria.

No deserto na época do Êxodo o povo passava fome e sede e, por causa disso, criticava Moisés, dando a ele a culpa pela situação e mostrando o desejo de voltar para o Egito onde havia comida em abundância (Ex 14,11-12; 16,2; 17,2-3; Num 11,1-6).

O desafio: Baal ou Javé? (1Rs 18,16-24).

No encontro de Elias com Acab, o rei acusa: “Você é a ruína de Israel!” Elias responde: “A ruína é você e sua família, porque vocês abandonaram Javé e seguiram os ídolos!”. Os dois se acusam mutuamente. A luta não é entre o rei e o profeta, mas sim entre Baal o deus do rei e Javé o Deus de Elias. Baal leva vantagem, pois tem mais de 400 profetas. Elias é o único profeta de Javé que sobrou (1Rs 19,10). Mesmo assim, ele não desanima e convoca o Rei, os profetas de Baal e todo o povo a ir com ele no Monte Carmelo para decidir publicamente quem é o Deus que liberta: Baal ou Javé.

No Êxodo, diante da demora de Moisés no Monte Sinai, Aarão mandou fazer um bezerro de ouro e disse ao povo: “Eis o Deus libertou vocês da escravidão do Egito!” (Ex 32,4). O bezerro levava vantagem sobre Javé, pois o povo fez festa em honra do bezerro de ouro. Moisés era o único que continuou fiel (Ex 32,1-10).

No exílio, a pergunta que os exilados se faziam era esta: “Por que tudo isto nos aconteceu? Quem é a causa da ruína?” (cf. Jr 13,22) Uns diziam: o culpado é o rei, a monarquia! Outros diziam: os culpados são os profetas que usavam os oráculos divinos para apoiar a política desastrada dos Reis (Jr 28,1-17). As histórias de Elias e de Moisés ajudavam o povo a discernir.

Elias enfrenta e desmoraliza os profetas de Baal (1Rs 18,25-29)

Os profetas de Baal preparam o sacrifício, mas não colocam fogo. Invocam a Baal, para que faça descer o fogo. Mas não acontece nada. Elias ridiculariza a atitude dos profetas frente ao deus Baal: “Gritem mais alto, porque Baal é deus! Pode ser que esteja ocupado. Quem sabe, ele teve que se ausentar. Ou então, está viajando. Talvez esteja dormindo e seja precisa acordá-lo!” Ele mostra assim que Baal é um deus-mentira que não pode ajudar: um deus que viaja, dorme, faz negócios, desatento ao clamor do povo!

Um deus assim está em contraste radical com Javé, o Deus de Elias, que, no Êxodo, se revelou como o Deus que escuta o clamor do povo oprimido e está atento aos seus gritos de dor (Ex 2,24-25; 3,7).

Restaura as doze tribos (1Rs 18,30-35)

Chegando a sua vez, Elias, com doze pedras representando as doze tribos de Israel, restaura o altar derrubado e restabelece as doze tribos de Israel. Refazendo o altar, ele quer reunir as tribos desintegradas em torno do seu verdadeiro eixo que é a sua aliança com Javé. A primeira aliança entre Deus e o povo havia nascido no Monte Sinai quando as doze tribos se uniram ao redor de Javé comprometendo-se a observar as cláusulas expressas nos dez mandamentos (Ex 24,1-8). Mas desde os tempos de Davi e de Salomão, a política da monarquia tinha desarticulado a organização das doze tribos, colocando tudo a serviço dos interesses dos reis. Esta política desintegradora da vida tribal continuava durante os governos de Amri e Acab. Com Elias começa a renovação da Aliança.

No Êxodo o que mais chama a atenção é a reorganização do povo no deserto (Ex 18,13-27). Em vez da organização piramidal do Egito, renasce a organização descentralizada das doze tribos. O recenseamento descrito no livro dos Números (Nm 1,1-19) concretiza esta reorganização.

“Restabelecer as doze tribos” ao redor de Javé ou “reconduzir o coração dos pais para os filhos e dos filhos para os pais” era o que o povo esperava do profeta Elias retorno no fim dos tempos. É com esta esperança que a Bíblia faz a passagem do Antigo para o NT (Mal 3,23-24;cf Eclo 48,10; Lc 1,17).

Testemunha de Javé (1Rs 18,36-41)

Sozinho Elias enfrenta o sistema da monarquia e desmascara a falsidade da propaganda oficial. Pela sua oração, fez descer o fogo do céu. Pelo seu testemunho, levou o povo a reconhecer Javé como o Deus verdadeiro. Como se fosse numa grande assembléia o povo fez a sua escolha e decidiu: “Javé, ele é Deus!”. Graças à ação de Elias, renasce o povo ao redor de Javé e ao redor do seu rei Acab. A Aliança se refaz e é celebrada numa festa cultual com sacrifício e banquete de comunhão, no qual o rei participou a convite de Elias. A denúncia de Baal tornou-se anúncio do Deus verdadeiro. O próprio nome de Elias é uma expressão da sua fé: Eli-Jahu, ou seja: Meu Deus (Eli)  é  Javé (Jahu).

O ato final do Êxodo é a renovação da aliança na grande assembléia de Siquem (Josué 24,1-28). Pelo seu testemunho Josué leva o povo a voltar para Javé (Josué 24,14-15).

Elias faz terminar a seca (1Rs 18,42-46)

O povo reconheceu Javé como Deus e desautorizou os profetas de Baal. Por isso, o castigo da seca podia terminar. Elias sobe ao topo do Monte Carmelo e começa a rezar. Sua atitude de oração é muito significativa. Ele coloca a cabeça entre os joelhos. É a atitude em que todos nós ficamos durante nove meses no seio da mãe. Indica uma atitude de total dependência frente a Deus. A oração de Elias foi perseverante e eficaz. Ele mandou o rapaz subir a montanha e olhar o horizonte até sete vezes! Sete vezes significa sempre, sem parar. Ele obteve o que pedia: a chuva cai abundante, gerando nova fertilidade e alimento.

No Êxodo, Moisés fez com que o povo tivesse água para beber (Ex 17,1-7). Moisés também foi Perse­verante na oração, mantendo os braços estendidos durante a batalha contra os amalecitas (Ex 17,8-12).

A imagem de Deus que transparece neste episódio do Monte Carmelo, descrito no capítulo 18, possui uma ambivalência. De um lado, a total confiança e dependência de Elias frente a Deus; de outro lado, o fogo que consome o sacrifício, e a ação violenta que mata os 450 profetas de Baal. Mais adiante o fogo já não revela Javé (1Rs 19,12) e no Novo Testamento a experiência que Jesus tem de Deus o levará a dizer: “Amai os vossos inimigos!” (Mt 5,44) Isto significa que, ao longo dos séculos, houve uma evolução na descoberta do rosto de Deus. Em toda experiência de Deus, também na nossa, há algo de absoluto que permanece, e algo de provisório e limitado que vai ter que crescer e ser superado.

 

CAPÍTULO 19:  A crise a e maneira de superá-la

A crise de Elias (1Rs 19,1-4)

Foi em Nome de Javé que Elias matou os profetas de Baal. Foi em nome do deus Baal que Jezabel matava os profetas de Javé e ameaçava matar Elias. Ambos matam em nome de seu Deus. Perseguido pela rainha Jezabel, Elias tem medo. Ele que parecia tão forte e invencível, aparece agora como é na realidade: fraco e sem defesa. Com medo de ser morto, foge do país, vai para o território de Judá, entra no deserto, deita debaixo de uma árvore e desabafa: “Quero morrer! Não sou melhor que meus pais!” (1Rs 19,3-4).

No Êxodo, Moisés teve um momento de desânimo. Criticado pelo povo, se queixa e quer desistir de tudo: “Eu sozinho não consigo carregar este povo, pois supera minhas forças. Se é assim que me pretendes tratar, prefiro a morte. Concede-me este favor, e eu não preciso passar por essa desgraça” (Num 11,14-15)

Longa caminhada (1Rs 19,5-8)

Elias dormiu debaixo da árvore, mas um anjo o tocou e lhe disse: “Levanta-te e come!” Comeu, bebeu e deitou outra vez. Elias é como muitos de nós: só quer comer, beber e dormir. Mas o anjo o tocou uma segunda vez e disse: “Levanta-te e come, porque o caminho é longo!” Alimentado por Deus, ele andou quarenta dias e quarenta noites pelo deserto até o Monte Horeb, a montanha de Deus, o lugar onde, no passado, havia sido concluída aliança entre Deus e o povo.

Elias busca reencontrar o seu Deus naquele mesmo lugar, onde, no Êxodo, havia nascido o povo no encontro com Deus (Ex 19,1-8). A caminhada do novo Êxodo, iniciada no Carit, atinge aqui o seu objetivo. Os quarenta dias e quarenta noites evocam os quarenta anos que o povo andou pelo deserto.

Encontro com Deus no Monte Horeb (1Rs 19,9-18)

Chegando no Monte Horeb, Elias chega no mesmo lugar onde, no primeiro Êxodo, Moisés teve uma profunda experiência de Deus (Ex 33,12 a 34,9). Deus disse a Moisés: “Eis aqui um lugar junto a mim: fique em cima da rocha. Quando a minha glória passar, eu colocarei você na fenda da rocha e o cobrirei com a palma da mão até que eu tenha passado” (Ex 33,21-22). Chegando na Montanha de Deus, Elias entrou na mesma fenda, “entrou na gruta da montanha, e passou aí a noite” (1Rs 19,9). Deus disse: “Elias, que fazes aqui?” Ele responde: “Eu me consumo de zelo pela causa do Senhor, pois os filhos de Israel abandonaram a aliança, derrubaram os altares e mataram os profetas. Fiquei só eu e até a mim eles querem matar!” Elias recebe ordem: “Saia e fique no alto da montanha, diante de Javé, pois Javé vai passar!” (1Rs 19,11). É aqui que a história de Elias atinge o coração da história do Êxodo e que o povo do cativeiro vai poder encontrar uma luz para iluminar a sua escuridão. As duas histórias se encontram, iluminando-se mutuamente.

Elias sai da gruta e se prepara para o encontro com Deus. Primeiro, um furacão! Depois, um terremoto! Depois, um fogo! No Êxodo, naquela mesma Montanha, ao concluir a Aliança com o seu povo, Deus manifestara a sua presença no furacão, no terremoto e no fogo (Ex 19,16). Estes fenômenos eram os sinais tradicionais da presença de Deus no meio do seu povo. Eram os critérios que orientavam Elias na sua busca. Mas agora acontece o inesperado, a surpresa total: Deus não estava no furacão, nem no terremoto, nem mesmo no fogo que, pouco antes, havia sido o grande sinal da presença divina a queimar o sacrifício na presença de todo o povo (1Rs 18,38). Parece até um refrão que chama a atenção do leitor, da leitora: “Javé não estava no furacão!” – “Javé não estava no terremoto!” – “Javé não estava no fogo!” (1Rs 19,11-12). Os critérios da busca estavam desatualizados. Os sinais tradicionais da presença de Deus eram lâmpadas apagadas. Bonitas para ver, mas sem luz! Deixavam a vida no escuro! Elias vivia no passado. Encerrou Deus dentro dos critérios! Deus já não era como ele, Elias, o imaginava e desejava.

É a desintegração do mundo de Elias: espelho da desintegração da vida do povo do cativeiro depois que o exército de Nabucodonosor tinha destruído todos os sinais visíveis da presença de Deus: templo, culto, rei, Jerusalém, posse da terra. Caiu tudo! Deus já não estava nestes sinais de sempre! Ausência total! É o silêncio de todas as vozes! É a crise mais dolorosa que se possa imaginar! Será que Deus mudou? (Sl 77,10-11) Como encontrá-lo de novo? “”Onde está teu Deus?” (Sl 42,4.11; 115,2; 79,10; Mi 7,10).

Na língua hebraica, este silêncio total de Deus, é expresso com as seguintes palavras: “voz de calmaria suave”, (qôl demamáh daqqáh). As traduções costumam dizer: “Murmúrio de uma brisa suave” A palavra hebraica, demamáh, usada para indicar a calmaria vem da raiz DMH, que significa parar, ficar imóvel, emudecer. A brisa suave indica algo, uma experiência, que, de repente, faz emudecer, faz a pessoa ficar calada, cria nela um vazio e, assim, a dispõe para escutar. Esvazia a pessoa, para que Deus possa entrar e ocupar o espaço. Ou melhor, Deus entrando provoca o vazio e o silêncio. “Vacare Deo”, “esvaziar-se para Deus”, interpretavam os primeiros carmelitas.

Deus se fez presente na ausência! A luz apareceu na escuridão! A voz de calmaria suave era o silêncio de todas as vozes! Elias descobriu que ele estava errado. E descobrindo que estava errado, descobriu coisa certa! A “Brisa Leve” é a noite escura da experiência mística; é o sair de si para se encontrar. Derrubando tudo, ela abriu o espaço para uma nova experiência de Deus que, aos poucos, foi penetrando na vida de Elias e o levou a redescobrir sua missão na reconstrução da Aliança naquela mesma montanha, onde no Êxodo tinha sido concluída a primeira Aliança entre Deus e o povo.

Como Moisés Elias cobriu o rosto (1Rs 19,13). Sinal de que tinha experimentado a presença de Deus exatamente naquilo que parecia ser a sua ausência! A escuridão iluminou-se por dentro e a noite ficou mais claro que o dia (Sl 139,12). Silêncio sonoro, música calada, solidão povoada! Deus se fez presente para além de todas as representações e imagens! A nova experiência de Deus abre os olhos de Elias. Não é ele, Elias, que defende a Deus, mas é Deus que defende a Elias. Foi a sua libertação!

 

Elias indica o sucessor (1Rs 19,19-21)

Reencontrando-se com Deus, Elias encontrou-se consigo mesmo e com a sua missão. Imediatamente, ele parte para cumprir a ordem que Deus lhe tinha dado: ungir Eliseu como profeta em seu lugar (1Rs 19,16). Encontrando Eliseu, jogou o manto sobre ele e o chamou para segui-lo.

No Êxodo, Moisés carregava sozinho o peso da liderança. Deus o mandou escolher setenta outros que todos receberam um pouco do Espírito de Moisés (Num 11,16-17.25). No fim dos 40 anos, Moisés recebeu de Deus a ordem para indicar Josué como seu sucessor (Dt 31,3). Moisés chamou Josué e, na presença de todo o povo, indicou-o com o seu futuro sucessor (Dt 31,7-8).

 

CAPÍTULO 21:  A denúncia e a luta pela justiça

A injustiça do sistema (1Rs 21,1-16)

A longa descrição da atitude de Acab e Jezabel com relação a Nabot oferece um exemplo concreto de como a monarquia manipulava o poder em vista dos seus próprios interesses. Para roubar e matar Jezabel invocava o direito do rei, outrora já denunciado por Samuel (1Sm 8,11-18). Ela dizia ao marido Acab que parecia ignorar esse direito: “Quem é que é Rei neste país?” (1Rs 21,7). A arbitrariedade do poder absoluto manipula e corrompe a elite local para conseguir seus objetivos e a leva ao perjúrio e assassinato. Esta situação gritante de injustiça provoca a resposta de Deus que chama Elias para denunciar o Rei.

Antes do Êxodo, o povo sofria sob as decisões arbitrárias do faraó (Ex 1,10-14.16; 5,6-9). “Os filhos de Israel gemiam sob o peso da escravidão, e clamaram; e do fundo da escravidão, o seu clamor chegou até Deus” (Ex 2,23). Deus escutou o clamor do povo e desceu para libertá-lo (Ex 3,7-8). Deus chamou Moisés para responder ao clamor e libertar o povo (Ex 7,9-10).

Luta pela justiça pela identidade (1Rs 21,17-28)

Como Moisés diante do Faraó, Elias comparece diante de Acab no momento em que este ia tomar posse da propriedade que Jezabel tinha roubado de Nabot. Sem medo, ele enfrenta o Rei, denuncia a injustiça cometida e anuncia os males que vão cair sobre a família de Acab como castigo de Deus.

Na denúncia Elias se orienta pela Lei de Deus expressa nos dez mandamentos, revelados a Moisés no Monte Sinai: não roubar, não matar, não cometer falso testemunho, não desejar o bem do próximo. Este aspecto da denúncia é retomado na carta que o profeta Elias escreveu para o rei Jorão, rei de Judá (2Crôn 21,12-15).

 

CAPÍTULO 1:  O Homem de Deus e do Fogo

Derrota do opressor pela oração (2Rs 1,1-12)

Ocozias rei de Israel, filho de Acab, caiu da sacada do seu quarto e ficou gravemente ferido. Mandou um mensageiro consultar o ídolo Baal-Zebub de Acaron para ver se teria cura. O anjo de Javé mandou o profeta Elias para junto do mensageiro do rei para fazer a denúncia: “Por acaso não existe Deus em Israel para vocês estarem consultando Baal-Zebub, deus de Acaron?” Como reação, o rei mandou um oficial com cinquenta soldados para prender o profeta. Elias estava sentado no alto da Montanha. O oficial gritou: “Homem de Deus, o rei manda você descer!” Elias respondeu: “Se eu sou homem de Deus, que um raio caia e queime você e seus cinquenta soldados!” Foi o que aconteceu, e isto se deu por duas vezes.

No Êxodo, enquanto Moisés estava no alto da Montanha, em baixo na planície o povo se voltava para Baal como o Deus que o tirou do Egito e que o poderia salvá-lo (Ex 32,4). Em outra ocasião, Moisés, no alto da Montanha, pela oração, consegue a derrota dos inimigos do povo (Ex 17,8-16).

Defende a vida (2Rs 1,13-18)

O rei mandou um terceiro oficial com cinquenta soldados, mas este teve outra atitude: “Homem de Deus, que a minha vida e a vida destes cinquenta soldados, seus servos, tenha algum valor para você! Caiu um raio e queimou os dois oficiais, cada um com seus cinquenta homens. Mas agora que a minha vida tenha algum valor para você!” O anjo de Javé disse a Elias: “Desça com ele e não tenha medo!” Elias desceu, foi com o oficial até o rei e lhe transmitiu a palavra de Deus dizendo que ele não tinha cura e que haveria de morrer das feridas. Dito, feito!

Preserva a vida quem respeita sua vida e a vida dos outros. Perde a vida quem não respeita a vida dos outros e só segue as normas do sistema contrário aos interesses de Deus e do povo. Jesus o confirmará mais tarde (Mc 8,35).

 

CAPÍTULO 2:  Continuidade da missão

A última caminhada (2Rs 2,1-8)

Elias e Eliseu partem de Guigal para Betel, de Betel para Jericó, de Jericó para o Jordão. Enquanto caminham entram em contato com as comunidades de profetas de Betel e de Jericó. Todos estavam sabendo que havia chegado a hora de Elias ser arrebatado. Parecia um segredo público (2Rs 2,1.3.5). Elias quer ir sozinho e, por três vezes, insiste com Eliseu: “Fique aqui, porque Javé me mandou ir sozinho!” (2Rs 2,2.4.6). Mas Eliseu não o abandona e, por três vezes, repete: “Pela vida de Javé e pela vida de você não deixarei de acompanhá-lo!” (2Rs 2,2.4.6). Chegando à margem do Jordão, Elias tomou o manto, o enrolou, bateu nas águas que se dividiram em duas partes e os dois atravessaram o rio sem molhar os pés.

No êxodo, quando o povo chegou à margem do Mar Vermelho, Deus deu a ordem a Moisés: “Erga a vara, estenda a mão sobre o mar e divida-o pelo meio para que os filhos de Israel possam atravessá-la a pé enxuto” (Ex 14,16). Moisés obedeceu e tudo aconteceu conforme a palavra de Deus. Atravessaram o mar sem molhar os pés (Ex 14,21-22).

Eliseu se torna o sucessor (2Rs 2,9-15)

Depois da travessia do Jordão, Elias disse a Eliseu: “Peça o que quiser antes de eu ser arrebatado!” Eliseu pediu: “Deixe-me como herança uma dupla porção do seu espírito!” Naquele tempo, para dar continuidade à família, o filho mais velho recebia uma dupla porção da herança dos pais (Dt 21,17; 1Tim 5,17; Is 61,7). Eliseu é como o filho mais que vai dar continuidade à missão de Elias. De repente, enquanto os dois vão andando, Elias é arrebatado num carro de fogo e desaparece, Eliseu recolhe o manto que tinha caído da mão de Elias, vai até o rio Jordão, bate com o manto na água dizendo: “Onde está Javé, o Deus de Elias?” Imediatamente, as águas se separaram e Eliseu atravessando o rio entra para a Terra Prometida. Os discípulos, vendo o que aconteceu exclamam: “O Espírito de Elias repousa sobre Eliseu”. Assim, diante de todos, Eliseu é reconhecido e aceito como o sucessor de Elias.

No fim do Êxodo, ao chegar à margem do Jordão, Josué assume a liderança e conduz o povo. As águas se separam, o povo atravessa o rio a pé enxuto e, finalmente, entra na Terra Prometida (Jos 3,14-17).

Elias não foi encontrado (2Rs 16-18)

Um grupo de cinqüenta homens valentes se apresentou para procurar o corpo de Elias. Eliseu não queria dar licença, mas eles insistiram e, no fim, Eliseu permitiu. Eles foram, procuraram durante três dias, mas não encontraram nada.

No Êxodo, Moisés foi sepultado, mas o sepulcro dele não foi encontrado. “Ninguém sabe onde fica a sepultura de Moisés” (Deut 34,5-6).

As histórias do profeta Elias e a caminhada do Êxodo

Esta longa análise dos seis capítulos mostra como o tema do êxodo é lembrado e sutilmente evocado nas histórias de Elias. Nem sempre a evocação é explicita. Muita coisa é sugerida nas entrelinhas. Trata-se de evocações, não de argumentos. Elas supõem no leitor ou na leitora um conhecimento geral da história do Êxodo. Na análise que fizemos colocamos as duas histórias em paralelo, deixando ao leitor a tarefa de apreciar se a evocação do Êxodo tem ou não tem fundamento. No capítulo 19, porém, a situação do cativeiro e o passado do Êxodo estão tão misturados na releitura das histórias de Elias, que não dá para apresentá-los separadamente em paralelo. Para eles, o Êxodo não era um fato do passado, mas uma experiência que os envolvia no hoje deles. Eles procuravam viver em estado permanente de Êxodo. Ele volta às origens do povo em busca de Deus, refaz a história, cria um novo começo. Eis um resumo:

 

 

O Profeta Elias

1. Travessia

Atravessa o Jordão a pé enxuto(2R 2,8).

2. Deserto

Vai para o deserto de Karit e Horeb (1R 17,2;19,1-8).

3. Alimentado no deserto

É alimentado com água, carne e pão (1R 17,6; 19,5-8)

4. Longa caminhada

Alimentado pela comida de Deus, ele anda 40 dias e 40 noites pelo deserto (1R 18,8).

5. As doze tribos

Refaz o altar das doze tribos (1 R 18,30-31) e, no fim, restabelecerá as doze tribos (Ecli 48,10).

6. Partilha

Junto à viúva, ele insiste na partilha e, assim, criou abundância (1 R 17,10-16),

7. Encontro com Deus

Na Montanha de Deus, Horeb, ele encontra Deus (1R 19,8-13),

O Povo no deserto

1. Travessia

Atravessa o Mar a pé enxuto (Ex 14,16.22).

2. Deserto

Vai para o deserto do Sinai/Horeb.

3. Alimentado no deserto

É alimentado com carne, água e pão (Ex).

4. Longa caminhada

Alimentado pela comida de Deus, o povo caminha 40 anos pelo deserto.

5. As doze tribos

Saindo do Egito, as doze tribos se reorgan­izaram formaram o Povo de Deus (Núm 1-4)

6. Partilha

O maná partilhado criou abundância e garantiu a sobrevivência (Ex 16,1-23).

7. Encontro com Deus

No monte Sinai/Horeb, o povo encontra com Deus e

nasce como povo (Ex 19.1-9). .

Esta maneira de reler a história de Elias à luz do Êxodo para iluminar o presente angustiante do povo do cativeiro fazia com que os exilados se sentissem envolvidos pela mesma ação libertadora de Deus que, no passado, os tirou do Egito e os levou para a Terra Prometida. Na raiz desta releitura do passado existe a convicção da fé de que Deus não muda. O mesmo Deus Javé que, no passado, esteve com o povo no Êxodo, continua com ele no cativeiro da Babilônia. Assim fazia crescer neles a fé, a esperança e o compromisso com as cláusulas da Aliança.

O PONTO DE CHEGADA

CAMINHAR COM DEUS NO PROVISÓRIO, ATÉ O FIM

O ponto de chegada continua em aberto

O ponto de partida da caminhada era claro, tanto na época de Elias como na época do cativeiro. Era a situação de morte e de injustiça, de fome e de perseguição. Claro também era o chamado de Deus: “Vai! Saia desta situação!” Elias deve sair, entrar na oposição e realizar uma transformação dentro de si e dentro da convivência do povo. Claro também é o primeiro passo: esconder-se no Carit, provocar e praticar a partilha, defender a vida sobretudo dos pobres, da viúva e do filho da viúva.

O que não está claro neste novo Êxodo de Elias é o ponto de chegada. Pois, a história de Elias ainda não terminou. A última notícia é de que ele, como de costume (cf 1Rs 18,12), tinha sido arrebatado. Desapareceu (2Rs 2,11) e, por mais que os cinqüenta  homens o procurassem, nunca mais foi encontrado (2Rs 2,16-18). Para onde foi? Vai voltar? Para onde nos conduz o caminho de Elias?

As histórias de Elias não apresentam um projeto pronto a ser implantado, mas indicam um caminho a ser percorrido, na fé, na fidelidade e na criatividade. Caminho que vai aparecendo só aos poucos, na medida em que Elias se põe a caminhar! O ponto de chegada continua em aberto, não está predeterminado. Caminhando, Elias não vê tudo claro, não sabe tudo o que deve fazer, não tem visão total de todo o projeto de Deus. Ele só vê até à próxima curva. Muitas vezes, não sabe como, nem para onde andar. Só enxerga um passo na frente. O resto é neblina, deserto, noite. A palavra só se faz clara na medida em que ele tem a coragem de praticá-la. Elias é o homem do provisório. Eis alguns aspectos deste provisório que caracteriza o caminhar de Elias:

Viver no provisório, até o fim

1. O primeiro chamado de Deus o envia até Carit. Elias obedece e vai até Carit, mas sem saber que depois deve ir até Sarepta. Estando em Carit, sob a pressão da fome e da sede, a palavra se torna mais clara e ele vai até Sarepta (1Rs 17,1-10).

2. Estando em Sarepta, ele sabe convencer a viúva de que a partilha pode garantir a vida da família (1Rs 17,10-16), mas não sabe prever a doença e a morte do menino (1Rs 17,17). Quando se vê confrontado com a morte, ele descobre que, com a ajuda de Deus, pode fazer prevalecer a vida sobre a morte (1Rs 17,18-23).

3. Reunido no Monte Carmelo com todos os filhos de Israel, Elias interpela o povo a não seguir dois deuses ao mesmo tempo: Baal e Javé. Mas o povo não lhe dá resposta (1Rs 18,21). Parece negar-lhe o direito de fazer tal advertência. O silêncio do povo leva-o a fazer a nova proposta do desafio, que foi aceito pelo povo (1Rs 18,22-24).

4. Depois disso, ainda estando no Monte Carmelo, ele manda o empregado subir sete vezes (1 R 18,43). É só na sétima vez, quando aparece uma nuvenzinha no céu, que o profeta percebe o alcance do momento e começa a distribuir ordens (1Rs 18,44-46).

5. Elias vai para o deserto, desanimado. Come, dorme e quer morrer (1Rs 19,1-4). O anjo tem que acordá-lo duas vezes para ele perceber que Deus está querendo alimentá-lo para a caminhada (1Rs 19,5-7). Na força da comida ele anda quarenta dias e quarenta noites, mas sem saber a solução para o seu problema (1Rs 19,8).

6. Estando no monte Horeb, mesmo depois de perceber a Brisa Leve, Elias continua com o pensamento antigo, pois repete a mesma análise e a mesma queixa (1Rs 19,14), que ele tinha feita antes (1Rs 19,10). Em Elias, a mudança só se faz aos poucos, lentamente.

7. No fim, ele recebe uma tríplice missão: ungir Hazael, ungir Jeú, e ungir Eliseu (1Rs 19,15-16), mas ele mesmo só executa uma terça parte desta missão, a saber, ungir Eliseu (1Rs 19,19-21).

8. Elias está convencido de que deve ir só até Betel (2Rs 2,2). Mas estando em Betel, descobre que deve ir até Jericó (2Rs 2,4). E chegando em Jericó, descobre que deve ir até o Jordão (2Rs 2,6). E quando, finalmente, alcança o Jordão, ele deve ir mais longe (2Rs 2,7-8).

O importante em tudo isto é que o caminho só aparece caminhando nele. A luz se faz é na travessia! Elias é como Jesus que, a cada momento, faz aquilo que o Pai lhe mostra para fazer (cf João 5,30; 8,28). Na medida em que obedece e anda, ele vai descobrindo o que Deus pede. Descobre aos poucos sua própria missão, sua própria identidade. Sua fidelidade, às vezes cega e muda, vai gerando luz para perceber a Palavra que o chama.

NA VIDA DOS E DAS CARMELITAS

OLHANDO NO ESPELHO DAS HISTÓRIAS DE ELIAS

Toda esta longa tradição está na raiz da tradição Eliana da nossa Ordem e era o espelho onde os primeiros carmelitas encontravam o seu ideal de vida. Vamos tentar resumir esta tradição nos seguintes pontos.

1.  Elias, o homem do Caminho

2.  Elias, o homem da Palavra.

3.  Elias, o homem do deserto

4.  Elias, o homem fraco como nós

5.  Elias, o homem da experiência de Deus na Noite Escura

6.  Elias, o homem da oração

7.  Elias, o homem do fogo do Espírito

8.  Elias, o homem da luta e do conflito.

9. Elias, o homem da reconstrução da vida comunitária

1. Elias, o homem do Caminho

À primeira vista, a figura do profeta Elias tal como nos é apresentada pela Tradição Carmelitana, configurada no Liber Institutionis Primorum Monachorum, parece diferente do Elias da Bíblia. Na Bíblia ele aparece mais combativo. Na Tradição, mais meditativo. Mas é apenas aparência. Na realidade, a Tradição é como o filho daquela parábola de Jesus: mesmo dizendo não, ele foi obediente pois acabou fazendo a vontade do Pai (Mt 21,28-32). A Tradição Carmelitana a respeito de Elias realiza o objetivo expresso no texto bíblico.

Como vimos, o eixo central que marca e unifica as histórias do profeta Elias na Bíblia é a imagem do homem que caminha. Caminhada! Caminhar sempre! Este eixo central do caminho é retomado na Tradição Eliana da Ordem do Carmo. O Livro dos Primeiros Monges descreve o itinerário místico, realizado pelo profeta e apresenta a experiência de Elias como modelo do caminho que o carmelita deve percorrer para chegar à união com Deus. Desde que Elias se abriu à ação da Palavra de Deus, sua vida mudou por completo. Agora, é só movimento. Já não pode parar. Deve andar sempre. Sair de um lugar para outro…

para a torrente de Carit (1R 17,3),

para Sarepta na Sidônia (1R 17,9),

para encontrar o rei Acab no Carmelo (1R 18,1),

para ir na frente do rei até Yisrael (1R 18,46),

para o Monte Horeb (1R 19,8),

para continuar a missão e ungir Eliseu (1R 19,15-16),

para denunciar o rei na vinha de Nabot (1R 21,17-19),

para Betel (2R 2,2),

para Jericó (2R 2,4),

para o Jordão (2R 2,6).

para ser arrebatado (2R 2,11) …….

para voltar no fim dos tempos (Eclo 48,10)

 

Elias vive em estado permanente de êxodo, de saída para algo que fica para além dele! Um peregrinar constante em busca do que Deus quer dele, desde Carit até o arrebatamento ao céu (2Rs 2,11). Aliás, ele já era conhecido assim pelo povo, como alguém totalmente disponível para Deus que, a cada momento, podia ser levado pelo Espírito para realizar a obra de Deus (1 R 18,12; 2Rs 2,3.5.16). Ele já não se pertence. Pertence a Deus e ao Povo de Deus.

 

2. Elias, o homem da Palavra.

A viúva definiu Elias da seguinte maneira: “Agora sei que você é um Homem de Deus e que a Palavra de Deus habita em você!” (1Rs 17,17). O livro do Eclesiástico diz: “Então surgiu o profeta Elias como um fogo, e a sua palavra ardia como uma tocha!” (Eclo 48,1). De um lado, a Palavra chama Elias tanto nos momentos de clareza e de coragem, como nos de confusão e de desânimo. De outro lado, o próprio Elias se abre, para que a Palavra tome conta dele e o leve por caminhos dos quais ele mesmo nem sempre conhece o trajeto nem percebe o alcance.

Elias obedece à Palavra e, assim, revela Deus ao povo. Convoca o povo a ser fiel às exigências da aliança, expressas na Lei de Deus. Apesar das suas limitações, Elias obedecia como podia. Sua obediência fez com que ele fosse reconhecido como “Homem de Deus” (1R 17,24; 2 R 1,9). A palavra de Elias tornou-se Palavra de Deus para os outros que, por sua vez, obedeciam a Elias: a viúva de Sarepta (1R 17,15); Abdias, o chefe do palácio (1R 18,14-16), o próprio povo (1R 18,24.30). Sua palavra tinha a força para fazer descer o fogo do céu (2R 1,10.12; Eclo 48,3).

Esta atitude frente à Palavra de Deus é retomada na Regra do Carmo que insiste explicitamente por bem nove vezes na importância da leitura e meditação constante da Palavra de Deus:

1. Rc 7       Ouvir a Sagrada Escritura durante as refeições

2. Rc 10     Meditar dia e noite a Lei do Senhor

3. Rc 11     Rezar as horas canônicas (que são feitas de Salmos e leituras bíblicas)

4. Rc 14     Participar diariamente da Eucaristia (toda feita de textos bíblicos)

5. Rc 19     Ter pensamentos santos (que são fruto da Leitura do Livro Santo)

6. Rc 19     A Palavra, a espada do Espírito, deve habitar na boca e no coração

7. Rc 19     Agir sempre de acordo com a Palavra de Deus

8. Rc 20     Ler com freqüência as cartas de Paulo

9. Rc 22     Ter diante de si o exemplo de Jesus como aparece nos evangelhos

3. Elias, o homem do deserto

A experiência do deserto marcou a caminhada de Elias. Ele enfrentou os desertos de Carit (1Rs 17,5), de Beersheba (1Rs 19, 4), de Horeb (1Rs 19,8). Deserto, não só como lugar geográfico, mas também como experiência interior.

O deserto interior, sua crise, manifestou-se no fato de ele procurar a presença de Deus nos sinais tradicionais (terremoto, vento, fogo) e de descobrir que estes sinais já não revelavam mais nada a respeito de Deus. Eram lâmpadas que já não acendiam. Quem o procurasse por aí, já não o encontraria (1R 19,11-12).

No deserto Elias experimentou os seus próprios limites. Não chegou a perder a fé, mas já não sabia como usar a fé antiga para enfrentar a situação nova. Foi o momento de viver e sofrer a crise do próprio povo. Por isso mesmo, ao superar a sua crise pessoal e reencontrar a presença de Deus para si mesmo, ele estava redescobrindo o sentido de Deus para a vida do povo.

O deserto era também o lugar da origem do povo, da volta às fontes em época de crise, onde se recuperam a memória e a identidade; o lugar para onde o povo escapou para a liberdade, onde morreram os restos da ideologia do faraó, e onde o povo se reorganizou; o lugar da longa caminhada, quarenta anos, durante a qual morreu uma geração inteira; o lugar do murmúrio, da luta, da tentação e da queda; o lugar do namoro, do noivado, da experiência de Deus, da oração. O deserto fez Elias se reaproximar da origem do seu povo.

A experiência do deserto marcou para sempre a vida dos primeiros eremitas do Monte Carmelo. Saindo da Palestina, levaram consigo, dentro de si, o deserto do Carmelo. Vivendo na Europa, reencontraram o deserto, não na vida regular dos grandes mosteiros independentes e auto-suficientes, longe das cidades, mas sim na vida pobre das fraternidades Mendicantes nas periferias das cidades.

4. Elias, “homem fraco como nós”

A expressão é da carta de Tiago; “Elias era um homem fraco como nós” (Tg 5,17). De fato, os seis capítulos com as histórias de Elias não escondem os defeitos e as limitações de Elias. Ele teve momentos de medo e de fuga. Sentiu vontade de largar tudo e de morrer. Desanimado só queria comer, beber e dormir.

Chegando na montanha de Deus, o Horeb, Elias entrou na gruta e ouviu a pergunta: “Elias, que fazes aqui?” (1R 19,8) E ele respondeu, por duas vezes: “O zelo por Javé dos exércitos me consome, porque os israelitas abandonaram tua aliança, derrubaram teus altares, mataram teus profetas. Sobrei somente eu, e eles querem me matar também” (1Rs 19,10.14).

Existe uma contradição entre o discurso e a prática de Elias. Conforme o discurso ele é o único que sobrou; mas na prática havia sete mil que não tinham dobrado o joelho diante de Baal (1Rs 19,18). Conforme o discurso ele está cheio de zelo; mas a prática mostra um homem medroso que foge (1Rs 19,3). Conforme o discurso ele sabe analisar o fracasso da nação; mas na prática não sabe analisar o seu próprio fracasso. Elias não se dá conta de que a situação de derrota e de morte em que se encontra é o lugar onde Deus o atinge, pois não percebe a presença do anjo que o orienta. Ele só pensa em comer, beber e dormir (1Rs 19,6).

O olhar de Elias está perturbado por algum defeito que o impede de perceber a realidade tal como ela é. Ele não é capaz de avaliar a situação com objetividade. Ele se considera dono da luta contra Baal (e não é); acha que sem ele tudo estará perdido (e não estará); pensa que Deus sai perdendo caso ele, Elias, for derrotado (e Deus não sai perdendo). Qual o defeito nos olhos de Elias? Qual o defeito em nossos olhos hoje? A resposta está na história da Brisa Leve.

5. Elias, o homem da experiência de Deus na Noite Escura

Elias buscava a Deus, mas não tinha um critério certo de busca, pois Deus já não estava no vento, no terremoto e no raio (1Rs 19,11-12)! A motivação e a visão de Elias não coincidiam com a motivação e a visão do próprio Deus. Ele vai ter que sair desta situação de imperfeição. Vai ter que passar por uma purificação, pela Brisa Leve da Noite Escura. É esta caminhada que o Liber Institutionis procura descrever.

Como vimos, a “Brisa Leve” não deve ser entendida no sentido romântico de uma brisa suave no fim da tarde, mas sim no sentido de algo que, de repente, fez desintegrar tudo que Elias pensava e vivia até àquele momento. Ela indica o impacto de algum fato ou de uma experiência que o obrigou a uma mudança radical e o levou a uma visão totalmente nova e diferente de Deus e da vida. É como diz a poesia:

“Diante da vida do povo sofrido,

a gente não fala, só sabe calar.

Esquece as idéias do povo sabido,

e fica humilde, começa a pensar”.

Qual foi a “brisa leve” que provocou tudo isto na vida de Elias? O texto não o diz expressamente, mas sugere que foi a descoberta dolorosa de que Javé, o Deus de Israel, já não era como ele, Elias, o imaginava. Elias descobriu que, apesar de toda a sua fidelidade e luta pela causa de Javé, ele estava lutando por algo que já não era a causa de Javé! A imagem que ele tinha de Deus quebrou em mil pedaços. Deus é diferente! Aqui está o coração da mística do Carmelo.

6. Elias, o homem da oração

Tiago resume o testemunho de Elias da seguinte maneira: “Elias era um homem fraco como nós, sujeito aos mesmos sentimentos, e orou, com instância, para que não chovesse sobre a terra, e, por três anos e seis meses, não choveu. E orou, de novo, e o céu deu chuva, e a terra fez germinar seus frutos” (Tg 5,17-18). A tradição Carmelitana tem aqui um dos pontos fundamentais da imagem de Elias.

A imagem de Elias como homem de oração, sempre disponível para a ação do Espírito (1Rs 18,12), “cuja palavra ardia como uma tocha” (Eclo 48,1), revela a sua intimidade com Deus. Elias foi capaz de realizar tudo que realizou porque como “homem de Deus” (1Rs 17,24), estava ligado a Javé pela oração. A oração era o espaço que lhe dava condições de viver e experimentar o deserto, de descobrir a presença de Deus na brisa leve,  de defender a aliança e a vida do povo, de viver em conflito permanente sem desmoronar. A oração aparece em muitos momentos e lugares na vida de Elias:

1. “Vivo é o Senhor em cuja presença estou” (1Rs 17,1; 18,15).  É a consciência de estar consagrado ao serviço de Javé.

2. Elias reza e consegue de volta a vida do filho da viúva (1Rs 17,20).

3. Critica a reza dos profetas de Baal (1Rs 18,27), e reza, para que Deus se manifeste ao povo no Monte Horeb (1Rs 18,36-37). Sua experiência de Deus transborda numa ação corajosa contra a mentalidade idólatra da época.

4. Reza sete vezes e insiste. Ele se curva, coloca a cabeça entre os joelhos e manda o empregado subir a montanha, sete vezes, até aparecer a nuvenzinha que trouxe a chuva (1Rs 18,41-46).

5. Reza para que o fogo desça do céu contra os militares que querem prendê-lo (2Rs 1,10.12)

6. Reza queixando-se a Deus (1Rs 19,10.14) e pedindo a morte (1Rs 19,4).

7. Confronta-se com Deus na Brisa Leve (1Rs 19,12).

7. Elias, o homem do fogo do Espírito

O Eclesiástico introduz a figura de Elias com estas palavras: “Então o profeta Elias surgiu como um fogo, sua palavra queimava como uma tocha” (Ecli 48,1). Ele diz que Elias “por três vezes fez descer o fogo do céu” (Ecli 48,3). O fim da sua vida é descrito assim: “Foste arrebatado num turbilhão de fogo, num carro puxado por cavalos de fogo” (Ecli 48,9). O fogo é expressão da ação do Espírito (cf At 2,3-4). O arrebatamento no carro de fogo é realizado pelo Espírito de Javé (2R 2,16). Abdias diz a Elias: “O Espírito de Javé te transportará não sei para onde” (1R 18,12). Na opinião do povo, Elias podia ser arrebatado a cada momento pelo espírito de Deus (1Rs 18,12; 2Rs 2,3.5). Toda vez que a Palavra de Deus vinha até ele, o Espírito de Deus o mandava sair de um lugar para outro!

Elias passou a ser conhecido como o homem disponível para Deus que já não se pertencia. Deus podia dispor dele e arrebatá-lo como e quando quisesse (1Rs 18,12; 2Rs 2,3.5). O próprio Deus passou a ser conhecido como o “Deus de Elias”(2Rs 2,14).

Eliseu pediu a Elias: “Que me seja dada uma dupla porção do teu Espírito” (2Rs 2,9). O Espírito de Elias repousou sobre Eliseu, seu sucessor (2Rs 2,15). Os discípulos o reconheceram na hora em que Eliseu, usando a capa de Elias separou as águas do rio Jordão (2Rs 2,14). Elias, o homem do fogo e do Espírito! Como tal entrou na história, pois é assim que ele nos é apresentado no Apocalipse (Apoc 11,5-6.11-12).

A Regra do Carmo une Palavra e Espírito quando diz: “Que a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus, habite abundantemente na sua boca e nos seus coração, tudo que vocês tiverem de fazer, seja lá o que for, que seja feito na Palavra do Senhor” (Rc 19). Ela deseja para todos a “bênção do Espírito Santo” (Rc 1).

8. Elias, o homem da luta e do conflito.

No momento de aceitar a Palavra de Deus e de se abrir para ação do Espírito, Elias deixou o conflito entrar em sua vida. O conflito nasce de dupla fonte: da situação geral de infidelidade à Palavra de Deus e da vontade de Elias de ser fiel a esta Palavra que o chama a romper com a situação. São muitos e variados os conflitos que envolvem a vida de Elias. Eis alguns deles:

O conflito consigo mesmo e com as suas idéias sobre Deus, pois ele não encontra a presença de Deus no vento, no fogo e no terremoto (1Rs 19,11-12). O conflito com o próprio Deus, queixando-se com Ele de estar sozinho na luta, sem saber como continuar a caminhada (1Rs 19,4).

O conflito com as pessoas amigas que não entendem a sua atitude: com a viúva na hora de pedir que partilhe o pão com ele (1Rs 17,10-12); com Abdias, o empregado do rei, na hora de enviá-lo para junto do rei (1Rs 18,9-14); com Eliseu quando o mandou de volta e o proibiu de acompanhá-lo (2Rs 2,2.4.6).

O conflito com o povo desafiando-o a escolher entre Baal e Javé (1Rs 18,20-24). O conflito com o rei, anunciando a seca (1Rs 17,1); denunciando sua infidelidade (1Rs 18,17) e enfrentando-o pessoalmente no caso da vinha de Nabot (1Rs 21,17-19). O conflito com os 450 profetas de Baal, criticando sua maneira de rezar (1Rs 18,16-19) e desafiando-os para o julgamento (1Rs 18,25-29). O conflito com os militares que o desafiaram a descer da montanha para comparecer diante do rei (2Rs 1,9.11).

Elias vive em conflito, provoca o conflito e envolve outros no conflito. Todos estes conflitos são expressão e manifestação do grande conflito que está na raiz: caminhar do lugar onde está para o lugar onde Deus o quer.

A Regra do Carmo retoma este aspecto do conflito e da luta quando descreve a condição humana como tentação, perseguição e assalto e pede que nos preparemos para a luta revestindo a armadura de Deus: “Visto que a vida humana na terra é uma tentação, e todos os que querem viver fielmente em Cristo sofrem perseguição, e como o seu adversário, o diabo, rodeia por aí como um leão que ruge, espreitando a quem devorar, procurem, com toda a diligência, revestir-se da armadura de Deus, para que possam resistir às emboscadas do inimigo” (Rc 18).

9. Elias, o homem da reconstrução da vida em comunidade.

Elias reconstruiu o altar com doze pedras, gesto simbólico da reconstrução ou da reunião das doze tribos. A organização em tribos representava a nova maneira de conviver, fraterna e comunitária, diferente do jeito de viver no sistema do Faraó. E é aqui que se situa o centro da esperança do povo com relação ao retorno do Profeta Elias. Tanto o Antigo Testamento como o Novo Testamento, ambos eles esperam que Elias volte para “reconduzir o coração dos pais para os filhos e o coração dos filhos para os pais” (Ml 3,23-24; Eclo 48,10; Lc 1,17).

A preocupação com a reconstrução da Vida Comunitária é o outro lado do desejo de contemplar e revelar o rosto de Deus como Javé. O que caracteriza a experiência de Deus na história do povo hebreu é o que Jesus define da seguinte maneira: “Eu vim para que todos tenham vida, e vida em abundância” (Jô 10,10). A vida em plenitude que Deus comunica se expressa na vida comunitária. Deus se revela como o Deus de todos, como Pai. A expressão humana desta fé é a organização da vida em comunidade. Uma comunidade dividida é a negação desta fé. Ela esconde o rosto de Deus.

10. A nova experiência de Deus que se irradia a partir de Elias.

Elias experimentou a total gratuidade de Deus e da sua presença. Deus se fez presente na Brisa Leve não por mérito de Elias. Pelo contrário! Elias experimentou a presença libertadora e restauradora de Deus no momento exato em que experimentava o seu próprio nada e a sua falta absoluta de qualquer título de glória. Eles deixou Deus ser Deus!

Elias pensava ser ele o único a defender a aliança e a causa de Deus (1Rs 19,10). E experimentou que, apesar dos altares destruídos e apesar da aliança quebrada e dos profetas assassinados, a causa de Deus não estava perdida. Pelo contrário! Não é Elias quem defende a Deus, mas é Deus quem acolhe, sustenta e defende o pobre do Elias! É desta certeza de Deus que renasce em Elias a coragem. Ele reencontra o sentido da vida e da luta.

Elias experimentou que Deus é livre! Deus não obedeceu a Elias, pois Ele não se manifestou na tempestade, nem no raio nem no tremor da terra. Deus não se sente obrigado a obedecer aos critérios que a Tradição tinha estabelecido para o povo poder reconhecer e controlar a sua presença. Esta liberdade de Deus é a raiz da nossa liberdade e da nossa libertação. Deus não pode ser usado por ninguém, nem pelos profetas de Baal nem pelo profeta Elias. Deus é livre!

Esta nova experiência de Deus dá olhos novos, abre um novo horizonte e devolve a Elias a liberdade de ação, a vitória sobre o medo, a vontade de continuar a luta pela causa de Deus em defesa da vida do povo. Dá a ele a consciência clara de não ser o dono da luta nem o único a defender a causa de Deus.

Conclusão:

As várias dimensões da Tradição Eliana

1. Malaquias espera o Homem da Aliança (Ml 3,23-24):

2. Tiago resume-o como Homem da oração (Tg 5,17-18).

3. A tradição rabínica acentua o Homem do deserto

4. O Apocalipse focaliza o Homem do testemunho (Apoc 11,3.5.6)

5. Lucas espera o Homem da aliança que reorganiza o povo (Lc 1,17)

6. Sirach valoriza o Homem obediente à Palavra (Ecli 48,1-11)

7. A Tradição Carmelitana acentua o Homem do Caminho

Carit, primeiro passo de uma longa caminhada

O Eclesiástico valoriza em Elias o Homem obediente à Palavra (Eclo 48,1-11). Malaquias espera a volta dele como o Homem da Aliança (Ml 2,23-24). No evangelho ele aparece como o Homem reorganiza o povo (Lc 1,17). Na Transfiguração ele encarna a profecia. Para Paulo ele é o Homem que denuncia a infidelidade (Rom 11,2-4). Tiago resume a vida de Elias como Homem da Oração (Tg 5,17-18). No Apocalipse ele é o homem do testemunho até à morte (Ap 11,3.5.6). Na tradição rabínica ele é a imagem do homem do deserto. A devoção popular invoca Elias como o Santo dos impossíveis. A tradição carmelitana acentua nele o homem do Caminho. E a viúva fez o resumo mais bonito: “Agora sei que você é um Homem de Deus e que a palavra de Deus habita em você” (1Rs 17,24).


LADAINHA DE SANTO ELIAS, PROFETA E NOSSO PAI

Senhor, tende piedade de nós,

Jesus Cristo, tende piedade de nós,

Senhor, tende piedade de nós,

Deus Pai do céu, tende piedade de nós

Deus filho Redentor do mundo, tende piedade de nós

Deus Espírito Santo, tende piedade de nós

Santíssima Trindade que sois um só Deus, tende piedade de nós

 

Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós

Santa Maria, Mãe dos Carmelitas,

São José, patrono do Carmelo,

Santo Elias, profeta de Deus e nosso Pai,

 

Homem do silêncio e da oração

Homem do deserto,

Homem da brisa leve

Homem da Aliança

Homem que defende a vida

Homem do conflito

Homem do Espírito e do Fogo

Homem de Deus,

 

Que humilhaste os profetas de Baal,

Que abateste o orgulho do rei Acab,

Que vos compadeceste da viúva de Sarepta,

Que conduziste o povo na esperança da salvação,

Que obedeceste à Palavra e a revelaste ao povo

Que refizeste a história e criaste um novo começo,

Que fizeste o povo abandonar Baal e escolher a Javé,

Que caminhaste sempre na presença do Senhor,

Que atravessaste o Jordão e te escondeste no Carit, na Caridade,

Que não te deixaste abater pelo desânimo

Que caminhaste pelo deserto até a Montanha de Deus

Que chamaste Eliseu para ser o teu sucessor,

 

Profeta de fogo,

Mestre dos profetas,

Mestre da oração,

Servo do Deus vivo,

Guardião do povo de Israel

Pregador incansável da Palavra de Deus,

Martelo dos hereges e idólatras,

Abrasado o amor de Deus,

Honrado com a divina amizade,

Fortalecido com o pão do anjo,

Zeloso na defesa do culto do Deus único,

Defensor dos pobres e oprimidos,

Perseguido por causa da justiça,

Arauto da onipotência e da misericórdia divinas,

Realizador de milagres,

Multiplicador de alimentos,

Ressuscitador dos mortos,

Arrebatado ao céu em um carro de fogo,

Cantor incansável do Deus vivo,

Ministro da reconciliação dos pais com os filhos,

Testemunha da Transfiguração de Jesus,

Modelo da perfeição,

Pai dos eremitas,

Modelo dos monges,

Patriarca do Carmelo,

Inspirador da Ordem do Carmo

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senhor,

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos, Senhor,

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós,

Rogais por nós, Santo Pai Elias,

Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Oremos:

Deus eterno e todo-poderoso, que concedestes ao bem-aventurado Elias, vosso profeta e nosso pai, a graça de viver na vossa presença e de se inflamar de zelo pela vossa glória, fazei que, procurando sempre a vossa presença, nos tornemos testemunhas do vosso amor.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo, Amem.

Belo Horizonte, MG, Brasil, 07 de outubro de 2012, dia de eleições municipais no Brasil.

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