Comunidade Dandara em ritmo de mutirão

Comunidade Dandara em ritmo de mutirão

Maria do Rosário Carneiro[1] e Gilvander Moreira[2]

No dia 18 de dezembro de 2010, a comunidade Dandara[3], no Céu Azul, região da Nova Pampulha, em Belo Horizonte, MG, amanheceu organizada em mutirão. todo o dia, juntamente com apoiadores de diversas instituições e movimentos sociais populares, concomitantemente, aconteceram três mutirões: a) um para continuar a construção da Igreja Ecumênica de Dandara; b) Outro para visitar as centenas de famílias que já estão com quase todas as casas, em alvenaria, construídas ou em construção; c) um terceiro mutirão para montar um faixódromo, isto é, um grande painel com dezenas de faixas que chegaram como presente de Natal para a Comunidade, doadas por movimentos populares, igrejas, sindicatos e entidades da sociedade civil organizada que estão apoiando a luta do povo dandarense.

 Durante

Mesmo sob ameaça de despejo, Dandara segue firme lutando. Durante todo o dia foi bonito ver vários caminhões entrando na comunidade e deixando material de construção, caminhão de gás vendendo gás para o povo e todo o movimento normal da vida de uma comunidade organizada. Todos os movimentos e sinais apontam o território de Dandara como um território de paz. Muitas famílias, após trabalhar a semana toda, naquele sábado, estavam construindo suas casas. Por exemplo, Simone, um pedreiro e um servente, sob um sol escaldante, tentavam terminar uma casa bonita de alvenaria. Dizia: “Terminarei a casa essa semana. Será um alívio sair do barraco e da cruz do aluguel. Meus três filhos e eu teremos mais paz vivendo nessa casa construída com nosso suor e sangue. Tive que pegar dinheiro emprestado para construí-la, mas pagarei religiosamente o empréstimo, porque não terei mais que “queimar” dinheiro com o maldito aluguel. Meu ex-esposo esteve preso 18 dias, porque não está pagando a pensão dos filhos dele comigo. Mas, quando o vi sofrendo, retirei-o da prisão. Ele é alcoólatra.

A comunidade providenciou dez paus de eucalipto e arame. Às 16:00hs, estava pronto o 1º faixódromo de Dandara. Bonito de se ver! São dezenas de faixas enviadas por entidades que estão apoiando o povo dandarense. O povo, ao passar pelas faixas, pára e começa a ler. “Ficou lindo!” “Que beleza!” “Todas as faixas transmitem força, mas a mais bonita é a que diz “Negar a Dandara a cidadania é negar a cidadania.” Quem passa de automóvel também pára, lê e vai embora levando uma mensagem de que vale a pena lutar. “Só com luta se conquista direitos”, diz uma. Até a polícia, em várias viaturas, chegou, parou, leu, fez silêncio e continuou vistoriando Dandara como faz cotidianamente.

 Importa lembrar que uma senhora dandarense morreu após esperar o SAMU durante quase duas horas. Em audiência pública, uma diretora do SAMU alegou: “Não tinha como o SAMU ir a Dandara, pois não tem endereço.” Uma liderança de Dandara protestou: “Por que só o braço armado do Estado nos encontra desde o dia 9 de abril de 2009, apenas duas horas após ocuparmos esse latifúndio urbano: 360 mil metros quadrados, ou seja, 36 hectares (= 36 campos de futebol)? Por que o braço social e humanitário do Estado não nos encontra?

A COPASA[4], após muita insistência nossa, liberou apenas um hidrômetro que distribui água para toda a comunidade. A COPASA não tem nem o serviço de cobrar a água de família em família. “Fazemos isso por e para ela. E pagamos o total da conta. Água é um bem comum. Por que temos que ficar sem água várias horas por dia ainda?A CEMIG[5], que cobra a tarifa de energia mais cara do Brasil, a 5ª maior do mundo, não aceita ligar nem um padrão para nós”, reclama uma moradora. A CEMIG se esconde atrás de um TAC – Termo de Ajuste de Conduta – que já foi derrubado judicialmente, dizendo: “O Ministério Público só permite a CEMIG colocar energia em bairros já regularizados pela prefeitura.” Contudo, há ½ Km de Dandara um latifúndio urbano, onde só tem capim, já tem uma rede de postes e o capim sendo iluminado a noite inteira. Será mais um loteamento que gerará muito lucro para a indústria imobiliária.

Diz um dandarense indignado com a discriminação: “Sabemos que quem faz o maior gato de energia é a própria CEMIG, pois cobra a energia das famílias de 6 a 10 vezes mais cara do que cobra das empresas. Na prática, a CEMIG subsidia energia para as empresas à custa do povo pobre. Uma família humilde pagar 1/3 do salário mínimo de energia é um roubo.”

No mutirão para construção da Igreja Ecumênica de Dandara, sob a coordenação de Rogério e do pedreiro e também coordenador Sr. Orlando, dezenas de pessoas ajudavam: pedreiros, serventes, adolescentes e mulheres. Outros levaram um saco de cimento, algum material de construção, água, refrigerante. A Sra. Ângela e um grupo de mulheres fizeram um saboroso almoço, que foi serviço a todos lá pelas 15 horas. Uma apoiadora enviou duas sacolas de sandálias havaianas, que foram distribuídas com quem estava precisando.

No mutirão de visitas às famílias, quanta acolhida! Os apoiadores ficaram comovidos ao ver com os próprios olhos quanta luta, quanta necessidade e quanta teimosia. Ouviram uma frase que foi repetida por todas as pessoas visitadas: “Não aceitaremos o despejo. Daqui não sairemos. Se vier a tropa de choque, resistiremos!” Assim, dão vida à profecia bíblica que diz: “construirão casas e nelas habitarão!” (Isaías 65,21)

Dandara, Belo Horizonte, 22 dezembro de 2010

 

 

 

 

 

 



[1]  Advogada, integrante da Comissão Pastoral da Terra – CPT/MG – e da Rede Nacional dos Advogados Populares – RENAP -, da Rede de Solidariedade à Comunidade Dandara; e-mail: rosariofi2000@yahoo.com.br

[2] Frei e padre carmelita; mestre em Exegese Bíblica; professor de Teologia Bíblica do Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA -, em Belo Horizonte, MG; assessor da CPT, do CEBI, das CEBs e do SAB; e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.brwww.gilvander.org.br  – www.twitter.com/gilvanderluis – No facebook: gilvander.moreira

[3] Nome dado em homenagem à grande companheira de Zumbi dos Palmares, que lutou até à morte, mas não aceitou ser reescravizada.

[4] Companhia de água e saneamento de Minas Gerais S.A.

[5] Centrais Elétricas de Minas Gerais, que também é S.A.

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