Dom André de Witte, bom pastor e profeta no meio do povo camponês

Dom André de Witte, bom pastor e profeta no meio do povo camponês

Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10,11)

É com grande pesar que a Comissão Pastoral da Terra (CPT) comunica o falecimento de seu presidente, o bispo emérito da diocese de Ruy Barbosa, na Bahia, Dom André de Witte, ocorrido no dia ontem, dia 25 de abril de 2021, dia do bom pastor. Dom André de Witte, agora em vida plena, nasceu em 31 de dezembro de 1944 na Bélgica, 3º filho de um casal de agricultores familiares. Seguiu a vocação de ser Padre para a América Latina, atendendo ao convite do Papa na encíclica Fidei Donum.

Dom André de Witte chegou ao Brasil no dia 12 de fevereiro de 1976, para trabalhar na Diocese de Alagoinhas, BA. Em equipe com um colega missionário trabalhou na Paróquia de Inhambupe e na Pastoral Rural da Diocese. Recebeu ainda a missão de Vigário Episcopal do Zonal do Sertão, Diretor Espiritual dos seminaristas, Coordenador Diocesano da Pastoral e Vigário Geral. Nomeado pelo Papa João Paulo II 4º bispo da Diocese de Ruy Barbosa, BA, foi ordenado em Inhambupe no dia 28 de agosto de 1994 e começou a missão no dia 18 de setembro do mesmo ano. De 1995 a 2003 foi Presidente do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM). Foi Presidente do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), em Juazeiro, BA, e representou a Igreja Católica na Diretoria da Coordenadoria Ecumênica de Serviços (CESE).

Dom André de Witte foi eleito vice-presidente da CPT em sua XXVII Assembleia, realizada em março de 2015, e eleito presidente em abril de 2018, durante a XXX Assembleia Geral da Pastoral. No dia 15 de abril de 2020, o Papa Francisco atendeu o seu pedido de renúncia ao governo pastoral da diocese de Ruy Barbosa, BA, enviado por ter completado 75 anos. No mesmo ato, o Santo Padre nomeou como bispo titular da mesma diocese dom Estevam dos Santos Silva Filho, então bispo auxiliar na arquidiocese São Salvador, BA. Com a decisão do Papa, Dom André se tornou bispo emérito.

Dom André foi reeleito na XXXIII Assembleia Nacional da CPT, realizada entre 6 e 8 de abril de 2021, para a gestão da Diretoria Nacional da CPT, como presidente, para o próximo triênio: 2021 – 2024. O vice-presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT) é dom José Ionilton, bispo de Itacoatiara, AM.

Dom André, esteve sempre ligado ao trabalho com os camponeses e à defesa da terra, ele era formado em agronomia. Dom André sempre foi uma pessoa de extrema simplicidade, pobre entre os pobres, com grande disposição para escutar e acolher todo mundo, um pastor com cheiro de ovelha. Ele sempre teve atitude profética em defesa do povo diante das injustiças, um compromisso do qual nunca abriu mão.

Bolsonaro trata quem tem outra opinião como inimigo e idiota”, disse Dom André. Para ele, Bolsonaro age como “se pudesse mandar e desmandar em tudo.”

Reportagem do Jornal Brasil de Fato sobre denúncias de Dom André de Witte afirma que os graves problemas sociais e econômicos que assolam o país e seu povo não “estão entre as preocupações do presidente, que nestes quase cinco meses de governo demonstrou despreparo para a função”. Quem afirma é dom André de Witte. Para ele, Bolsonaro “vem agindo como se pudesse mandar e desmandar em tudo, considerando e tratando quem tem outra opinião como inimigo e idiota”.

Em entrevista à Marco Zero Conteúdo, em maio de 2019, dom André de Witte, presidente da CPT, fez duras críticas à Reforma da Previdência por entender que, se ela vier a ser aprovada “será um desastre para os trabalhadores”. E diante da chantagem que ela é necessária, “pergunto se não terá o mesmo sucesso da reforma trabalhista para o emprego?” Dom André define comportamento autoritário quando o presidente classifica os movimentos sociais como organizações terroristas e ainda manda que sejam tratados como tal.

Eis, abaixo, extrato da entrevista memorável.

Marco Zero Conteúdo: Que balanço senhor faz dos primeiros meses do governo do presidente Bolsonaro?

Dom André de Witte: Infelizmente não apareceram sinais, exemplos de alguma melhora para o Brasil e o povo brasileiro, nem para a situação social, econômica, o desemprego, a desigualdade, a violência, a fama do Brasil em âmbito mundial. E isto nem parece estar entre as primeiras preocupações do presidente, que manifesta um despreparo para a função, agindo como se pudesse mandar e desmandar em tudo, como se não tivesse Constituição, considerando e tratando quem tem outra opinião como inimigo e idiota. Como candidato não chegou a debater sobre um programa construtivo; nestes primeiros meses só aparecem sinais de vontade de desconstrução, de servir, em primeiro lugar, aos Estados Unidos e não ao Brasil. Juntamente com alguns ministros prejudica terrivelmente a imagem do Brasil a nível internacional.

Quais as consequências que a reforma da Previdência, se aprovada, terá na vida dos trabalhadores brasileiros e, principalmente, que efeito ela terá sobre a vida dos trabalhadores rurais?

Dom André de Witte: Em poucas palavras: esta reforma será um desastre para os trabalhadores. E diante da chantagem de que ela é necessária para “sair do fundo o poço”, pergunto se não terá o mesmo sucesso da reforma trabalhista para o emprego? Mas tem outros caminhos para discutir. Penso no artigo de Ivo Lesbaupin do ISER. Há quem afirme que a reforma da previdência vai beneficiar ainda mais os bancos ao mesmo tempo em que vai tirar dinheiro dos pobres. Essa também é a sua previsão? Por quê?

Realmente, concordo com esta opinião. O projeto de sociedade neoliberal ou ultraliberal tem esta opção capitalista. “Há cinco meses, só se fala em cortes. Não dos lucros dos banqueiros, que, este ano, “já tiveram lucros maiores que no ano passado, no mesmo período)”, como diz Ivo Lesbaupin, no artigo já citado.

O senhor acredita que o atual governo tem colocado em prática a promessa do então candidato Bolsonaro de que, se eleito, em seu governo os movimentos sociais, como MST, MTST e as centrais sindicais seriam tratados como “organizações terroristas”? Qual o ambiente entre as entidades dos trabalhadores do campo em relação a isso?

Dom André de Witte: Acho autoritário um presidente, por ele considerar estes movimentos organizações terroristas, mandar que sejam tratados como tal. Mas, num estado de Direito, quem define os critérios?

E como fica a discussão sobre uma possível ilegitimidade de propriedade e sua função social? E sobre uma reforma agrária para garantir o direto à propriedade para quem dela precisar para viver?

Dom André de Witte: A obsessão por armas e a liberação de sua posse e uso, juntamente com a ideia de impunidade, criam e fortalecem na sociedade um ambiente de violência que fará aumentar a apreensão entre os trabalhadores do campo. A própria Igreja Católica têm sido alvo permanente de críticas de Bolsonaro e seus ministros. O presidente chegou a afirmar que a “Igreja católica brasileira tem uma banda podre” referindo-se aos padres e bispos que atuam em defesa dos movimentos sociais. Vale lembrar ainda que o general Heleno Nunes determinou que os agentes da Abin monitorem bispos e padres brasileiros que participarão do Sínodo em outubro.

Por que o presidente teme tanto a ação da Igreja em favor dos excluídos?

Dom André de Witte: Jesus vem para salvar a todos, mas ele começa do lado dos pobres, dos pequenos. Está do lado dos pequenos. Se identifica com eles. Assim os discípulos de Jesus, como ele, devem lutar para que todos tenham vida. E isto é o contrário da sociedade onde o capital, o lucro, o enriquecimento às custas dos que são empobrecidos impera. O presidente considera inimigo quem não pensa como ele; parece continuar em campanha e não se colocar a serviço da sociedade inteira com toda a diversidade que ela tem.

Como o senhor vê a presença do ex-presidente da UDR, Luiz Nahan, como Secretário Especial para Assuntos Fundiários, portanto responsável pelas políticas de Reforma Agrária?

Dom André de Witte: É a raposa cuidando do galinheiro! Na sociedade tem diversidade de grupos e de interesses. O caminho da democracia exige respeito para o diferente, diálogo, equilíbrio, preocupação com o bem comum. Precisa pessoas “preparadas” para as respectivas funções, mas será que representantes do latifúndio e do agronegócio que têm interesses diferentes e até opostos dos sem-terra, das populações tradicionais, da agricultura familiar saberão cuidar (também) dos interesses dos pequenos?

Como o senhor avalia a suspensão das vistorias de imóveis rurais? Essa medida paralisou a reforma agrária já que sem vistorias não é possível desapropriar imóveis rurais e, em consequência, criar novos assentamentos?

Dom André de Witte: É exatamente um dos sinais que querem mesmo inviabilizar a Reforma Agrária; dificultar o acesso à terra para os pequenos, para os que lutam para a terra que precisam para trabalhar e viver, para a agricultura familiar. Mas todo o interesse do sistema está ao lado do latifúndio e do agronegócio. com todas as vantagens, incentivos e perdão de dívidas, que já receberam e continuam recebendo, ameaçando com a possibilidade de legalizar a invasão de territórios das populações tradicionais. É a redução do Bem Natural, que é a terra, destinado para todos, ao seu aspecto meramente econômico de recurso natural mercantilizado, a ser explorado e superexplorado, nas mãos dos donos do poder e do capital.

Agronegócio e reforma agrária são assuntos excludentes? Por quê?

Dom André de Witte: Negócios agropecuários podem ser executados por pequenos, médios e grandes produtores rurais. Com os grandes, no latifúndio, vamos encontrar mais as monoculturas, os transgênicos, os agrotóxicos, produção de commodities para exportar. Com os pequenos, a agroecologia, a agricultura orgânica, o objetivo de uma agricultura ambientalmente sustentável, produção de alimentos para o mercado interno. Pela terra disponível no Brasil não deveria faltar para nenhuma família que queira nela trabalhar, mas precisa – e falta – vontade política para reformar a situação agrária.

Na diocese de Alagoinhas, onde trabalhava como padre, o levantamento feito pela pastoral rural, há 40 anos, apresentava 21.000 propriedades rurais declarados no INCRA. 14.000 eram minifúndios (menos do módulo médio da região, que era 30 hectares). 600 proprietários tinham mais de 500 ha. Se 500 hectares fosse o teto máximo para um proprietário e só o excedente fosse desapropriado, daria para todos os minifúndios ter 30 há. Se fosse para dar 10 hectares a cada família, daria para criar mais outras 14.000 propriedades. Quem nesta região precisaria migrar por falta de terra? Então diziam: “Mas padre, uma lei assim nunca vai passar porque a maioria dos deputados tem milhares de hectares…!”

O astrólogo Olavo de Carvalho, guru do presidente, e que estaria orientando o presidente no seu desejo de destruir a rede pública de universidades por considerar que elas não servem para proporcionar conhecimento aos alunos, mas para formar gente com ideias comunistas. Olavo de Carvalho não seria uma espécie de Rasputin tupiniquim?

Dom André de Witte: No pouco que sei de um e de outro, sei que se autoproclamaram, santo um e filósofo outro; que os dois tiveram influência política, num czar e czarina um, e num presidente o outro. E que os dois foram taxados de loucos.

Em sua opinião, como será possível a CPT e os povos do atravessar os próximos três anos e meio que resta de mandato nesse contexto político? E como superar essa visão de mundo que hoje está no Poder?

Dom André de Witte: Os povos do campo, os povos originários, com sua história secular de opressão e resistência, com as raízes de sua fé e experiência, irão continuar a resistir e a nos dar o seu exemplo de como cuidar da Casa Comum e, com isto, nos fortalecendo. A nós, na CPT, nas pastorais do campo, nas pastorais sociais, nas comunidades eclesiais, é dado caminhar junto com estes povos e com os movimentos populares, somando forças, seguindo e testemunhando Jesus Cristo que veio para que todos tenham vida, que nos diz “o vosso coração não se perturbe”. Do Papa Francisco, recebemos não somente o respaldo da luta que assumimos, mas o incentivo das suas palavras e atitudes que nos impulsionam: a preocupação com a Casa Comum, a Ecologia integral, a Amazônia, uma economia diferente… Com fé estamos caminhando para o nosso V Congresso: “Romper as cercas do capital na terra e territórios ameaçados e tear as teias do bem viver na casa comum. ”

Em 2019, Campanha da Fraternidade foi “Fraternidade e Políticas Públicas” e o tema “serás libertado pelo direito e pela justiça”. A campanha teve algum resultado prático? Qual?

Dom André de Witte: Nesta altura só posso expressar a esperança que pelo Brasil afora o tema tenha inspirado as comunidades para análise da realidade que estão vivendo, as necessidades que estão sofrendo e como estão enfrentando ou pretendendo enfrentar. E que tenha crescida a coleta da solidariedade permitindo aos fundos diocesanos e ao fundo nacional realizar projetos significativos.

Dom André de Witte, PRESENTE sempre em nós na luta pelo reino do Deus da vida no nosso meio!

Obs.: Os vídeos nos links, abaixo, são amostra do ensinamento e postura de dom André de Witte.

  1. #1AnoMassacreColniza​ | Mensagem presidente da CPT

2 – DOM ANDRÉ WITTE – BISPO REFERENCIAL DA CPT – MENSAGEM PARA 41ª ROMARIA DA TERRA E DAS ÁGUAS

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