VEM AÍ O MÊS DA BÍBLIA, EM 2026, COM O LIVRO DE DANIEL – Por Frei Gilvander

VEM AÍ O MÊS DA BÍBLIA, EM 2026, COM O LIVRO DE DANIEL – Por Frei Gilvander Moreira[1]

Capa do livro sobre o Mês da Bíblia de 2026, de frei Carlos Mesters e Francisco Orofino, que pode ser adquirido no site www.cebi.org.br

Vem aí o mês da Bíblia: setembro. Por que e para quê? Primeiro, porque dia 30 de setembro é dia de Jerônimo (342-420), o grande estudioso da Bíblia nos manuscritos em hebraico e em grego e o tradutor da Bíblia para o latim, a Vulgata. Um dos pilares dos Padres da Igreja, Jerônimo colocou a Bíblia na linguagem do povo, o latim. Segundo, porque, com a Opção pelos Pobres e a Dei Verbum, um dos ótimos Documentos do Concílio Vaticano II (que aconteceu de 1962 a 1965), a leitura da Bíblia a partir dos pobres, de forma comunitária, militante, (macro)ecumênica, inter-religiosa e transformadora, foi incentivada e vem sendo feita há mais de sessenta anos. Inicialmente com Dia da Bíblia e sucessivamente, Tríduo Bíblico, Semana Bíblica e, assim, pouco a pouco, setembro se tornou o Mês da Bíblia. 

Em setembro de 2026, por escolha do Movimento Bíblico da Igreja Católica, o Livro de Daniel será o livro bíblico escolhido para estudo e reflexão no Mês da Bíblia, com o lema “Seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14). A proposta visa refletir sobre a fidelidade a Deus a nós, a esperança como filha das lutas coletivas pelo bem comum e a resistência espiritual, ética e profética em meio às dificuldades e instabilidades do mundo atual.

Escrevi um artigo de sete páginas a partir dos dois primeiros capítulos do Livro de Daniel, onde está a narrativa profético-apocalíptica por meio da imagem de uma pedrinha, que, ao rolar de uma montanha, faz desmoronar um gigante de pés de barro. Esta imagem eloquente sinaliza os Povos diante dos Brutais Projetos de Exploração (Dn 1-2). Partilho aqui a 1ª parte do nosso artigo.

Estamos em contexto de grandes impérios, tais como o Império do capital financeiro especulativo transnacional, o Império da tecnologia da (des)informação, o Império do Consumismo, o Império da superexploração dos bens naturais (Agronegócio exportador e mineradoras), os Impérios bélicos com bombas atômicas, capazes de destruir muitas vezes a humanidade, o Império de fake news (mentiras) na internet, os Impérios de igrejas-empresas que usam e abusam do nome de Deus e de versículos bíblicos para impor a ideologia do domínio, travestida de teologia da prosperidade, o império do capitalismo cada vez mais superexplorador, bárbaro e letal moedor de vidas.

Neste contexto de brutal desigualdade socioeconômica e com projetos políticos de extrema-direita rondando toda a humanidade, reabilitando o fascismo e o nazismo em novas roupagens, com colapso climático causado pela idolatria do mercado,  que devasta a natureza, sem piedade, impondo-nos eventos extremos cada vez mais frequentes e letais, reler a profecia apocalíptica do livro de Daniel pode nos oferecer inspirações para seguirmos resistindo às investidas dos impérios que, à primeira vista, são invencíveis, mas por serem recheados de contradições e mentiras, como todo império, nascem, crescem e se DESMORONAM, não por queda natural, mas pela luta coletiva dos povos injustiçados e também pelas contradições que vão se esgarçando. Para tanto, torna-se imprescindível a luta dos povos organizados, que irrompem como pedrinhas capazes de fazer desmoronar gigantes aparentemente indestrutíveis.

No Livro de Daniel narra de forma profético-apocalíptica sobre a resistência dos povos explorados diante da imposição de megaprojetos opressores. Na Bíblia, o livro de Daniel é um escrito apocalíptico, profecia continuada em outros moldes: simbólica e figurada. Quando o maior inimigo adquire escala internacional e, por isso, torna-se pouco visível e difícil de se decifrar, a profecia muda de tática e de estratégia: prioriza a linguagem simbólica, fica mais compreensiva para as comunidades perseguidas e difícil de ser decifrada pelos exploradores.

O livro de Daniel foi escrito, provavelmente, no século II antes da ERA COMUM (a.E.C.), época em que o rei Antíoco IV Epífanes impunha, à força, ao povo hebraico-semita a cultura grega. Não era apenas um povo, mas povos diferentes, que se irmanaram na luta pela superação da opressão e exploração. Para isso, era necessário suprimir a cultura popular, os valores e os costumes ancestrais. Daniel tem como objetivo cultivar a esperança em tempos de grandes projetos transnacionais e busca sustentar a resistência diante das investidas brutais dos opressores.

Os capítulos 1 a 6 do livro  de Daniel mostram como Daniel e seus companheiros Ananias, Misael e Azarias resistiram aos poderosos do império e, assim, foram salvos. Daniel carrega uma profunda convicção de fé: o único poder inquestionável e imbatível é o do Deus da vida; somente Ele governa a história. Todos os outros poderes, por maiores e aparentemente inquestionáveis que sejam, podem ser derrubados por aqueles que acreditam na força infinita do Deus da vida, que age nas “minorias abraâmicas”, nos servos sofredores da história, em nós e a partir de nós (Dn 2,31-47).

Manter a identidade camponesa e os valores originários do deserto, tal como “ser vegetariano e não comer carne”, alimentar-se da comida de verdade, a dos nossos avós e tataravós, é apontado como caminho para a libertação e salvação. A resistência inicia-se pela comida e se dá, preponderantemente, no terreno da cultura. Recusar a comida do império – “comer carne de porco” – e valorizar a “comida de verdade” – a dos nossos pais, avós, bisavós, nossos ancestrais – é um ato político revolucionário (Cf. Daniel 1).

À época da caminhada dos povos da Bíblia, pelo deserto, em busca da terra prometida, “que corria leite e mel” (Ex 33,3), por causa da escassez de alimentos e de água, várias regras sanitárias de higiene foram propostas ao povo peregrino de esperança, para preservar a saúde. Neste contexto, nasceu a lei da pureza e da impureza, inicialmente como medidas de higiene para garantir a saúde das pessoas, mas, com o passar do tempo, estas medidas de higiene acabaram recaindo no legalismo, com centenas de leis que discriminavam os pobres, os doentes, as pessoas com alguma deficiência, que passaram a ser consideradas impuras. Uma destas leis dizia que, de animais quadrúpedes, só se podia comer os que ruminassem. Por esta lei, podia-se comer carne de gado, mas de porco, não. Em tempos em que não existia geladeira, conservar a carne de porco era mais difícil e, mal conservada, poderia afetar, negativamente, a saúde das pessoas. Por isso, não se comia carne de porco. Entretanto, faz bem recordar que carne de porco era a carne favorita do império grego. Logo,  desestimular o povo a não comer carne suína era também um jeito de reservar mais carne de porco para a classe dominante.

Se formos atualizar estas medidas sanitárias que garantem a saúde das pessoas, atualmente, não se poderia ingerir  comida produzida com agrotóxicos, nem enlatados. Por outro lado, dever-se-ía comer alimentos produzidos no sistema da agricultura familiar agroecológica. Tomar todas as vacinas prescritas pela Organização Mundial da Saúde. Preservar o ambiente onde se vive. Estas são medidas que contribuem para a manutenção das condições objetivas para a vida humana, nos dias atuais.


[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI e Ocupações Urbanas; autor de livros e artigos. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       Canal no You Tube: https://www.youtube.com/@freigilvander      –    No Instagram: @gilvanderluismoreira – Facebook: Gilvander Moreira III – No https://www.tiktok.com/@frei.gilvander.moreira

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *