A defesa da Terra como dom de Deus e não mercadoria e a XXI Romaria das Águas e da Terra de Minas Gerais.

A defesa da Terra como dom de Deus e não mercadoria e a XXI Romaria das Águas e da Terra de Minas Gerais.

Padre Tonhão e Missionários na ponte velha do Rio São Francisco próximo à cidade de Lagoa da Prata, MG, durante Semana Missionária da XXI Romaria das Águas e da Terra de Minas Gerais. Foto: Edivaldo Ferreira.

A terra é como o seio de uma mulher que amamenta. Da mesma forma como uma criança retira tudo o que precisa para sobreviver do seio da mãe, a Terra sacia todas as necessidades de sobrevivência do ser humano. A Terra está intimamente ligada à nossa história pessoal. Quando perdemos a terra nossa história é comprometida. Em nossa região centro-oeste, Diocese de Luz, existem famílias que vivem encurraladas por grandes fazendas industriais mecanizadas, em agricultura do agronegócio e do hidronegócio.

Você sabia que a lógica do agronegócio muda completamente a ideia da Terra como Dom de Deus? Para o agronegócio a terra é mercadoria, pois a utiliza apenas para produzir acumulação de riqueza, e produzir o ano todo, como uma escrava. A terra não tem descanso!

Além de explorar a terra e torná-la mercadoria, o agronegócio faz com que as pessoas que nela trabalham também sejam escravas. Sim, digo e repito: escravas! Na lógica capitalista, o agronegócio não respeita o ser humano. Toda vez que a Terra é transformada em mercadoria, o ser humano também se transforma em mercadoria. Por isso “em 30 anos, de 1985 a 2015, foram assassinados na luta pela terra no Brasil 1356 pessoas, uma média de 43,2 por ano” (MOREIRA, 2017, p. 88, em Tese de doutorado na UFMG).

A Palavra de Deus a partir da realidade.

A questão da terra no Centro-oeste de Minas não é muito diferente da realidade de outras regiões de nosso país. Há cerca de 50 anos atrás a maioria da população vivia literalmente na zona rural, na condição de pequenos proprietários, meeiros ou agregados. Hoje em dia, a maioria da população vive nas cidades, mas, infelizmente, muitos se encontram desempregados, subempregados, sem renda suficiente para pagar o aluguel e a manutenção da casa (água, luz, gás e alimentação), sem falar das despesas com saúde e educação.

Este quadro se torna mais grave no território da Diocese de Luz que recebe muitas famílias de regiões ainda mais pobres, em busca de trabalho e de melhores condições de vida. Contudo, se no período das safras, especialmente da cana e do café, conseguem o emprego, no resto do ano, passam dificuldades para se manterem.

Neste contexto, em que muitas famílias vivem no mundo urbano em situação de exclusão, as pessoas se unem em busca de solução para seus problemas e nós como Igreja, discípulos e discípulas de Jesus, devemos nos solidarizar com sua luta pela vida.

Uma experiência concreta é a organização de trabalhadores e trabalhadoras sem terra que se uniram e conquistaram sua terra no Município de Bambuí, nos anos de 2004 e 2005, período em que a Diocese de Luz, por meio de suas obras sociais, bem como famílias religiosas de Bambuí se solidarizaram com aquela luta pela terra, até que o governo adquirisse a “fazenda velha” naquela localidade, oficializando o assentamento de cerca de 50 famílias.

É bonito ver a solidariedade entre os que lutam pela reforma agrária! Famílias assentadas na Fazenda Velha em Bambuí, tendo seu problema resolvido, não se acomodaram, mas continuam solidárias, apoiando outras famílias que estão na luta, hoje no acampamento Nova Esperança, no Alto da Serra, Município de Córrego Danta, onde cerca de 100 famílias lutam pela terra e pela vida.

A luta destas famílias pela terra não é fácil! O acampamento na “Fazenda Maranhão”, também no Alto da Serra, Município de Córrego Danta, onde, na Páscoa de 2017, encontravam-se cerca de 600 famílias, foi desfeito com a reintegração de posse determinada judicialmente. Contudo, não foi simplesmente desfeito. Com a participação de agentes da Cáritas mediando a relação das famílias acampadas com os agentes do Governo Estadual, o processo transcorreu de forma civilizada e as famílias puderam se organizar e ocupar outra área já em negociação para reforma agrária no Município de Tiros, onde a luta continua.

Percebe-se, pois, a importância da Mãe Terra e da Irmã Água para a vida das famílias. Por isso a luta pela terra, desde os tempos de Moisés, é sagrada. Dom de Deus, a terra não pode ser tratada como uma mercadoria, mas deve ser fonte de leite e mel para a vida de todos os seus filhos e filhas. Sejamos solidários com aqueles e aquelas que lutam!

Por isso, com mais de 50 missionárias e missionários da XXI Romaria das Águas e da Terra de Minas Gerais, gritamos “Das nascentes do Rio São Francisco às Terras da Justiça!” cuidando da mãe terra e da irmã água. Sejam todos/as bem-vindos/as à XXI Romaria das Águas e da Terra de Minas Gerais, na Diocese de Luz, na cidade de Lagoa da Prata, região centro-oeste de Minas, dia 16 de setembro agora (2018), das 8 às 14 horas, saindo da Igreja de São Francisco às 9 horas com a abertura oficial da Romaria. Faremos uma Caminhada Ecológica de compromisso da Igreja de São Francisco até à Praça dos Trabalhadores (Praça de Eventos) ao lado da Lagoa Praia da Cidade de Lagoa da Prata, onde daremos continuidade à Celebração da Missa sob a presidência do bispo Dom José Aristeu, com a presença de Dom Mauro Morelli, de padres, freis, irmãs e romeiras e romeiros da mãe terra e da irmã água. Sejam bem-vindas/os!

Pela Equipe de organização, frei Gilvander, da CPT.

XXI Romaria das Águas e da Terra de MG: frei Gilvander na Rádio Tropical FM, em Lagoa da Prata/MG, dia 12/9/2018.

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