O Neofascismo, fascismo social. Por Miguel Lanzellotti Baldez

O Neofascismo, fascismo social. Por Miguel Lanzellotti Baldez

Peço licença para voltar ao assunto em razão de outros fatos, alguns continuados no tempo, os demais novos, todos agudamente preocupantes como evidência do fascismo social de que nos adverte Boaventura de Sousa Santos (a gramática do tempo).

Como fatos recentes, a inversão conceitual dada pela televisão, a TV Globo com ênfase maior, à reação do povo venezuelano à morte do presidente Hugo Chaves e a pujança democrática de seu governo, uma democracia horizontal como a de Cuba. Disse-o muito bem o professor Gabriel Cohn em artigo publicado, no último número do Le Monde Diplomatique Brasil, a televisão “há muito deixou de ser meio no sentindo de veículo de mensagens para converter-se em meio no sentido de ambiente que fornece enquadramento para a vida das pessoas”. Enfim, todos, sendo pessoas de bem (para a TV corruptela de bens), devem-se confortar-se como ela, “espelho da sociedade”, propõe. À TV cabe bem o pressuposto de ovo da serpente (qualquer forma de ditadura). Ninguém se iluda com o discurso em torno da apuração dos crimes da ditadura militar, mero e desprezível disfarce.

Outro fato, este doméstico e institucional, foi a escolha do novo presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de deputados, cujo descompromisso com os valores humanos foi, por ele mesmo, além de assumido, enfaticamente alardeado.

Mais grave, porém, como evidência da nuvem fascista que pesa sobre nós, são as ameaças feitas, segundo nos alerta o companheiro Chico Bento, a Gilvander. Conheci Frei Gilvander numa ida a Belo Horizonte, ocasião em que, a seu convite e da professora Delze dos Santos Laureano, fui levado a Dandara, ocupação-comunidade nascida da vontade do povo e do entusiasmo e irrestrito apoio desse religioso que soube fazer da fé o instrumento de sua constante e inesgotável ação política. Dandara com todos os seus vértices democráticos, constitui, na realidade, além da importância cidadã daquela gente simples e talentosa, a alma viva de Gilvander.

Ao visitar Dandara, senti-me na plenitude da minha utopia, uma proposta de cidade do futuro realizada hoje por mulheres e homens pela consciência igualitária da comunidade, mas também trazendo, no fundo, a politizada cristandade de Gilvander. Um projeto socialista apoiado pelos companheiros do MST e das Brigadas Populares que desvendam em sua praxe o mistério histórico da religião, agora transformado na ética de uma nova vida e de um direito sem dogmas.

Gilvander e Dandara são a prova de que, se Marx tinha razão ao dizer que a “religião é o respiro da criatura oprimida”, essa afirmação não significa, dialeticamente, uma regra absoluta, pois a religião democratizada na ação política do Frei Gilvander e de outros companheiros da Igreja ungidos pelo Vaticano II e pela Teologia da Libertação, tem o poder de transformar o doloroso suspiro dito por Marx em resistência e nas lutas que a classe oprimida trama contra a opressão de que, no perder do tempo, são vítimas.

Cabe a nós democratas crescer em torno de Gilvander uma rede de apoio e proteção (artigos, atos, manifestações, embates) que lhe garanta o espaço de convívio ético e político de que todos necessitamos, os de Dandara e nós outros de algumas forma consagrados à luta pela cidadania e pelos princípios fundamentais do campo sem limites dos direitos humanos, positivados, ou não, na Constituição, esses dela excedentes, mas vivos e ardentes na ação política dos marginalizados e excluídos. A luta é de todos, companheiros, e Dandara e Frei Gilvander, repito, são a prova dos nossos compromissos com as liberdades deste oprimido povo brasileiro.

Rio de Janeiro, RJ, Brasil, março de 2013.

 

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