PROFETA DANIEL: TODO IMPÉRIO CAI E HÁ LUZ NO MEIO DO TÚNEL (Dn 1-2) – Por Frei Gilvander

PROFETA DANIEL: TODO IMPÉRIO CAI E HÁ LUZ NO MEIO DO TÚNEL (Dn 1-2) – Por Frei Gilvander Moreira[1]

Profeta Daniel: Povos oprimidos derrugando impérios. Reprodução de Redes Virtuais

Continuando nossa reflexão sobre o Livro de Daniel, dedicado ao mês da Bíblia – Setembro – em 2026, nos dedicamos especificamente aos dois primeiros capítulos de Daniel (Dn 1 e 2), onde se narra o confronto entre uma pedrinha que se desprende de uma montanha, rola montanha abaixo e atinge o dedo mindinho de um dos pés de uma gigante estátua que parecia indestrutível, mas foi reduzida a pó. Trata-se de uma metáfora que mostra o Deus da vida, solidário e libertador, ao lado dos povos violentados resistindo diante de brutais projetos imperialistas de exploração.

A interpretação de Daniel desmistifica a aparente solidez do império. A estátua, embora imponente, tem pés frágeis – sinal de que o poder opressor não é invencível. A pedra pequena que destrói a estátua é uma metáfora da resistência dos pequenos que vence a arrogância do poder, assim como na narrativa sobre partilha de pães nos evangelhos nos mostra que a iniciativa de uma criança ao partilhar os cinco pequenos pães e os dois pequenos peixes que possuía interpelou a consciência da multidão, que resolveu partilhar o pouco que tinha e, assim, aconteceu o milagre da partilha/multiplicação dos pães, superando uma gigantesca injustiça que significava o povo estar passando fome. Foi tão eloquente este acontecimento que foi narrado seis vezes nos quatro evangelhos da Bíblia.[2]

O eixo da literatura apocalíptica de caráter histórico é o confronto Império-Povo, por isso a teologia apocalíptica é sempre teologia política. A literatura apocalíptica é também uma literatura de esperança, que alimenta a perseverança dos povos reunidos nas lutas justas e necessárias. Sempre se anuncia o juízo de Deus, que põe fim à situação de opressão e de exploração. O fim será a destruição da estátua gigante e a instauração do Reinado divino, a partir do aqui e do agora.

No capítulo 2 do Livro de Daniel, o reino de Deus, que é um reino de justiça, de paz e de solidariedade, é simbolizado por uma pedra que se desprende da montanha, sem a intervenção imediata da mão humana e destrói a estátua gigantesca que representa os impérios e que, depois de destruí-la, se transforma em uma grande montanha que encheu toda a terra (Dn 2,35). Eis um Projeto de esperança e utopia que aponta para um projeto de sociedade alternativa, baseada na justiça e na soberania de Deus.

A pedra que se desprende da montanha e destrói a estátua representa o povo dos mártires, as minorias abraâmicas, todos os que insistem em andar na contramão “atrapalhando o sábado”, conforme canta Chico Buarque, seguindo por outros caminhos. Enfim, nos lembra todas as conquistas libertárias já vivenciadas na história. É luz não apenas no fim do túnel, mas no meio do túnel.

A estátua de pés de barro é a imagem perfeita dos grandes projetos opressores de hoje. Eles se apresentam com a cabeça de ouro do marketing, com ritmo cada vez mais acelerado na produção, circulação e consumo e do “desenvolvimento” para uma minoria, à custa da exploração da maioria e da devastação dos bens da natureza; o peito de prata do capital financeiro internacional, as coxas de bronze do aparato estatal e militar que os sustenta e as pernas de ferro de uma exploração implacável dos bens naturais e do trabalho precarizado. No entanto, seus pés são de ferro e barro: alicerçados em injustiças, desigualdades, mentiras, destruição ambiental e na negação da dignidade humana e na trituração da natureza, que é sagrada e tem muitos direitos.

Os “novos colonialismos” – seja o extrativismo predatório, a financeirização da natureza, a invasão de territórios tradicionais por grandes empreendimentos ou a imposição cultural e econômica por meio da idolatria do mercado e endividamento dos povos – são impérios modernos com pés de ferro e barro. Eles são intrinsecamente divididos: prometem prosperidade para todos, mas geram exclusão; vendem a imagem de solidez, mas são frágeis, porque sua existência depende da submissão de muitos para o benefício de poucos. A crise climática nos deixando à beira de um brutal colapso climático, as pandemias de desigualdade, as revoltas populares e a resistência dos povos originários são as “pedrinhas” que, vindas da “montanha” da organização e da consciência coletiva dos movimentos populares, começam a golpear essa base frágil.

O capítulo 2 de Daniel termina com o rei Nabucodonosor prostrando-se diante do profeta apocalíptico e reconhecendo o Deus de Daniel. Tentou cooptá-lo, oferecendo-lhe o governo da Babilônia, mas Daniel recusou, indicando outros para os cargos. Assim, a profecia e a resistência seguiram seu curso.

Em contextos políticos onde os poderosos se julgam onipotentes é, tremendamente, revolucionário afirmar, como fez Daniel, que o único poder imbatível é o de Deus e que só Ele está no comando da história. Dessa forma, deslegitimamos os pretensos poderosos e apontamos para um poder que não é exercido por nenhum ser humano.

BH, 1º/09/26


[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI e Ocupações Urbanas; autor de livros e artigos. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       Canal no You Tube: https://www.youtube.com/@freigilvander      –    No Instagram: @gilvanderluismoreira – Facebook: Gilvander Moreira III – No https://www.tiktok.com/@frei.gilvander.moreira

[2] Cf. Mt 14,13-21; Mt 15, 32-39; Mc 6,30-44; Mc 8,1-10; Lc 9,10-17; Jo 6,1-15.

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